29 fevereiro 2008

CUSTO DA GUERRA

Joseph Stiglitz estimou o custo da guerra do Iraque em 6 mil milhões de dólares. Ou seja, 3 vezes mas do que o total da ajuda externa mundial desde 1950.

O OLHAR


Uma peregrina iraquiana.

EXEMPLO A NÃO SEGUIR

Extracto de um artigo do PUBLICO de hoje, no qual são debatidos os erros de Portugal, segundo o FMI:
"Num artigo publicado esta semana no "The Baltic Times", e reproduzido no "website" do FMI, o principal representante deste organismo nos países Bálticos (Lituânia, Estónia e Letónia), alerta para o risco que estas economias podem correr se cometerem os mesmos erros de Portugal. O texto tem como título "Evitar a armadilha portuguesa" e alerta para o perigo de "aterragem brusca" que os países bálticos, actualmente com as taxas de crescimento económico mais elevadas da UE, atravessam. O exemplo dado é o "caso de Portugal", um país que "também experimentou uma rápida aceleração do processo de convergência económica depois da adesão à UE", mas que, a partir de 2001, entrou "num longo período de crescimento abaixo da média europeia e elevados défices externos que ainda hoje persistem". Os erros cometidos por Portugal são depois descritos pelo autor: "aumentos salariais elevados que, fomentados por expectativas irreais, superaram o crescimento da produtividade e colocaram em causa a competitividade do país". Por isso, a conclusão para a Letónia, Lituânia e Estónia é simples. Face ao exemplo português, o FMI aconselha os governos e população dos países bálticos a "baixar as suas expectativas, seja em relação ao crescimento dos rendimentos, seja nos grandes projectos de investimento público, seja na adopção muito rápida do euro".
De destacar a importância dada à (demasiado) rápida adesão ao euro e à política de betão dos grandes investimentos públicos.

20 ANOS DE TSF


A TSF faz hoje 20 anos. Parabéns TSF. A TSF foi e continua a ser um marco no panorama radiofónico nacional. Surgiu noutra era, noutros tempos, quando ainda não havia internet, CNN (na Europa), SIC Notícias, nem sequer televisões privadas em Portugal. Desde cedo, a TSF marcou a diferença, imprimindo um estilo próprio e inimitável. Do debate político à cobertura futebolística, a TSF foi, desde o início, diferente. Autêntica escola de jornalistas, é reconfortante saber que, passadas duas décadas, a TSF continua forte e única. Obrigado TSF por seres tu mesma.

28 fevereiro 2008

CUSTO DA GUERRA

Aqui estão os números mais actualizados de quanto os Estados Unidos estão a gastar nas guerras do Iraque e do Afeganistão.

Fonte: Center for Arms Control and Non-Proliferation e Congressional Research Service
PS. O bilião deve ler-se à inglesa, isto é, 1 bilião é igual a mil milhões.

DEIXAR DE FUMAR

O PUBLICO informa-nos hoje que "Acupunctura e hipnose não são eficazes para deixar de fumar". Pois não. Não me surpreende. Como ex-fumador (deixei de fumar há cerca de 11 anos), acho que existem três elementos essenciais para não mais voltar a fumar.
1. Força de vontade
2. Muita força de vontade
3. Ainda mais força de vontade
Cada minuto, cada hora, cada dia, é uma vitória, uma conquista para quem deixou de fumar.
Para além disso, quando se abandona o tabaco, existem três regras fundamentais para não mais voltar a fumar:
1. NÃO TOCAR EM CIGARROS
2. NÃO TOCAR EM CIGARROS
3. NÃO TOCAR EM CIGARROS
Se se deixar cair em tentação, pensando "é só um cigarro, não há-de fazer mal", pode ter a certeza que não tardará muito para voltar a comprar cigarros.

O BCE E A FED

Ben Bernanke afirmou ontem perante o Congresso americano que a prioridade da Fed continua a ser a recuperação económica. Isto apesar de existirem claros sinais (admitidos pelo próprio Bernanke) que a inflação começa a despontar com alguma força. Ou seja, por enquanto Bernanke está preocupado com a estagflação. No entanto, em ano de eleições, prefere somente actuar contra a estagnação do que garantir a estabilização dos preços. Deste modo, é natural que a Fed continue a baixar as taxas de juros, pelo menos por enquanto.
Compare-se esta decisão com a obstinação do Banco Central Europeu com a estabilidade dos preços. Como se justifica tal teimosia? Porque, como já aqui explicámos, o BCE tem como mandato somente a estabilidade dos preços. Ou seja, o BCE só está a cumprir para aquilo que foi criado. Mesmo que isso custe aos europeus parte dos seus mercados externos.

FEIRA DO LIVRO CANCELADA

A maior feira do livro da Ásia, a feira de Calcutá, foi cancelada porque supostamente a sua localização "sufocaria uma zona residencial e comercial extremamente congestionada". A Índia já não é o que era.

AJUDA AMERICANA

Pelo que parece, mais de 70 por cento da ajuda americana ao Paquistão foi mal gasta ou foi destinada a outros fins que não o combate ao terrorismo (uma casa para um general, umas estradas em Islamabad, etc). Que surpresa. Agora que Musharraf já não é tão popular na Administração Bush, chegou a hora de pedir (algumas) contas pelos 5.4 mil milhões de dólares (sim, $5.4 mil milhões) que os americanos enviaram para o Paquistão desde 2002.

SUPEREURO

O euro não pára de se valorizar (ou melhor, o dólar americano não pára de descer). O DN tem hoje um artigo que explica bastante bem o impacto que a valorização do euro está a ter. O artigo discute também a questão dos juros na Europa e nos Estados Unidos, que já foi aqui abordada.
Ainda assim é importante reiterar uma ideia. É óbvio que a valorização do euro não ajuda as exportações, um dos motores do crescimento económico nacional, pois torna-as mais caras (e, assim, menos competitivas ou atraentes). Mesmo assim, é preciso relembrar que mais de dois terços das nossas exportações vão para países europeus e mais de metade destinam-se à Eurolândia. Deste modo, a grande maioria das nossas exportações não é afectada pela subida do euro, pelo menos directamente. É claro que muitos dos nossos exportadores têm como principais clientes empresas fora da UE (como o caso da empresa de moldes do artigo do DN). São estes exportadores que sofrem com considerável valorização do euro nos últimos tempos, não os exportadores em geral.

27 fevereiro 2008

A NOVA ESTAGFLAÇÃO

Os economistas falam com cada maior frequência sobre a possibilidade das economias ocidentais mergulharem num novo episódio de estagflação. Aqui está um artigo que escrevi no Diário Económico sobre o assunto (com os dados actualizados):
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"Nos últimos tempos agravaram-se alguns dos sinais preocupantes nas principais economias do mundo. A subida dos preços petrolíferos para os níveis mais altos das últimas décadas, coadjuvada com a maior subida dos preços dos produtos alimentares dos últimos 30 anos, têm preocupado muitos economistas sobre o retorno da tão temida estagflação.
Nos anos 70, após três décadas de crescimento económico sem precendentes, a maioria das economias registou a coexistência de taxas de inflação altas com a estagnação da actividade económica, da qual resultaram elevadas taxas de desemprego. Esta situação foi despoletada pelos choques petrolíferos de 1973/74 e 1979/1980.
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Ora, a nível da política económica, a grande diferença entre a década de 70 e as décadas anteriores foi o factor surpresa. De facto, nem os agentes económicos, nem os bancos centrais estavam preparados para choques de oferta negativos. Desde a Segunda Guerra Mundial os governos e bancos centrais equiparam-se com uma série de mecanismos para lidar com aumentos ou diminuições da procura agregada, não tendo que se preocupar com o lado da oferta. Este era a receita essencial do keynesianismo. Segundo esta doutrina, em tempos de recessão, o governo deveria estimular a procura agregada para compensar deficiências na procura interna.
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A situação mudou radicalmente com os choques petrolíferos dos anos 70, dos quais resultaram uma série de choques de oferta negativos. Esses choques petrolíferos levaram a um aumento dos custos das empresas, que resultaram uma subida acentuada da taxa de inflação (devido à importância do petróleo na economia mundial). A subida dos custos das empresas levou a uma descida considerável dos lucros das empresas, da qual resultou um aumento dos despedimentos dos trabalhadores. Deste modo, as taxas de desemprego subiram um pouco por todo o mundo ao mesmo tempo que as taxas de inflação dispararam.
Existem bastantes paralelismos entre a situação actual e as crises petrolíferas dos anos 70. Por um lado, tais como nos anos 70, o preço do petróleo tem aumentado consideravelmente nos últimos tempos. Por outro lado, tais como na década de 70, os agentes económicos e as autoridades monetárias foram apanhados em grande parte distraídos, e por isso responderam inadequadamente aos novos desafios.
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Porém, uma grande diferença entre os anos 70 e a situação corrente é a experiência dos bancos centrais e dos governos. Se nos anos 70, os bancos centrais cometeram vários erros relativamente ao combate à inflação, actualmente os bancos centrais possuem bastante mais experiência e informação sobre a economia. Por isso mesmo, é provável que os bancos centrais actuem de uma forma muito mais resoluta e esclarecida do que o fizeram na década de 70.
Apesar disso, se a subida dos preços dos produtos petrolíferos se mantiver, podemos certamente esperar nos próximos tempos que as taxas de juro comecem a subir novamente. Esta subida dos juros irá penalizar principalmente o consumo e o investimento privado, bem como as famílias sobre-endividadas (que terão que pagar mais pelos seus empréstimos)... O que podemos estar certos é que os próximos meses serão fundamentais para o desempenho da economia mundial."

VALE A PENA OUVIR

Do mais relaxante, do mais bonito que conheço. Vale mesmo a pena ouvir o violoncelo de Yo Yo Ma.

CUSTO DE VIDA

Os preços dos alimentos têm subido de forma dramática nos últimos meses um pouco por todo o mundo. Na França, entre o fim de Novembro de 2007 e o início de Janeiro de 2008, o preço do esparguete cresceu entre 31 e 45 por cento, o preço dos iogurtes subiu entre 17 a 40 por cento, and preço do fiambre cresceu entre 10 a 44 por cento (New York Times).
Foto: Eric Gaillard/Reuters

ECONOMIA VERDE _ COMENTÁRIO DOS LEITORES (10)

Martim Ayres, estudante de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem o seguinte comentário e pergunta:
"Foi me oferecido o livro "Os mitos da economia portuguesa" e gostei imenso. Os meus conhecimentos de economia são muito poucos e resumem-se ao que aprendi dentro da história e geografia e das ciências sociais e humanas. Sempre gostei de Economia, mas a minha escola secundária não a ofereceu como opção dentro da área de ciências sociais e humanas, embora a tivesse para os alunos de economia. Espero que perdoe qualquer incoerência no meu discurso. Dentro do que eu consegui entender de economia sempre gostei do conceito do estado providência. Fazia-me sentido uma economia virada para o poder de compra e o consumo. Com este livro entendo que o estado providência provoca um crescimento económico sustentado num modo de vida e não na competitividade, qualidade e inovação dos actores dessa economia.
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No entanto restaram-me algumas dúvidas. Entendo que as economias ocidentais estão totalmente baseadas no consumo de petróleo. Deve se a três planos, o da produção de energia eléctrica, o dos combustíveis para transporte e o plano da matéria prima plástica. Estes três planos sustentam a economia e é nos impossível de pensar uma economia sem a interligação entre os três. Sei que o abrandamento das economias europeias está ligado e este facto, cada vez que o preço do petróleo aumenta, estes três planos tornam-se mais dispendiosos, e a economia menos competitiva. A pergunta que faço é se será um hipotético plano de reforma total da economia, focado na substituição da produção de energia em derivados de petróleo, na substituição dos combustíveis fosseis para os transportes e na substituição do plástico como matéria prima (ou uma lei que o obrigasse a ser totalmente reciclado); ao diminuir o peso do consumo do petróleo (e logo o preço também), e ao mesmo tempo ajudando definitivamente para a redução de emissões (um plano dois em um!) não seria potencializador das economias ocidentais? Ou seja, até que ponto é que uma economia "verde", não seria mais competitiva? E em relação aos países de 3º mundo e em desenvolvimento, os novos "grandes consumidores de petróleo" com quem nos competimos agora, essa economia verde não seria uma mais valia para nós (ou a sua ausência um "handicap")? E uma essa hipotética diferenciação entre o ocidente "verde" e o resto do mundo seria positiva? Seria uma economia "verde" capaz de manter o modelo social europeu e o estado providência? É uma economia "verde" o "pesadelo" do neoliberalismo?"
Caro Martim,
Obrigado pelas suas palavras e pela sua mensagem. Será de facto a economia antagonista da economia de mercado? Será uma "economia verde" incompatível com o modelo social europeu? A resposta a estas duas perguntas é, cada vez mais, negativa. Há algumas décadas era, sem dúvida, verdade que a Economia era vista como inimiga da preservação do ambiente. Em certo sentido, isso ainda é verdade, principalmente nos países em desenvolvimento, onde as estratégias de industrialização são frequentemente penalizadoras do ambiente. Só para dar um exemplo e se estiver interessado, o New York Times tem uma série de artigos sobre o incrível crescimento da economia chinesa e as repercussões que este crescimento desenfreado tem tido sobre o meio ambiente na China (a série chama-se "Choking on growth").
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Dito isto, é cada vez mais claro que um número crescente de economistas e de empresas vêem o ambiente (a sua "economia verde") como um mercado como um potencial tremendo. Há cada vez mais empresas a investir em carros híbridos. Há cada vez mais companhias a investir em energias alternativas. Há cada vez mais empresas a fazer o marketing dos produtos "verdes". Mesmo na América do Norte (o supra-sumo das sociedades consumistas), ser-se verde é cada vez mais "cool". Ou seja, mais que um desafio, a apetência dos consumidores por produtos menos nefastos ao ambiente tem levado à introdução de novos produtos e novas tecnologias mais "verdes".
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O mesmo se passa com a procura de novas fontes de energia e com tecnologias menos nocivas e mais eficientes energeticamente. O que falta saber é se esta alteração dos hábitos de consumo e de investimento terá um impacto real sobre a sustentatibidade do meio ambiente. Em relação às alterações climáticas, a resposta é provavelmente negativa. É por isso que ainda existe espaço para o Estado intervir, quer a nível legislativo, quer a nível da introdução de incentivos que facilitem a transição para uma economia mais "verde". E é por isso que ainda existe espaço para o debate (que será aqui continuado em posts futuros).

EXPERIENCE DOES NOT BEAT EXCITEMENT

A sempre excelente Maureen Dowd escreveu mais uma pérola no NYT sobre a campanha americana. Entre outras coisas, Dowd afirma: "Experience does not beat excitement, though, or Nixon would have been president the first time around, Poppy Bush would have had a second term and President Gore would have stopped the earth from melting by now."

26 fevereiro 2008

O CONHECIMENTOS DOS ALUNOS

O Rolando Almeida assina um interessantíssimo texto de opinião no De Rerum Natura sobre a falta de aptidão e de preparação dos nossos alunos em relação à ciência. Concordo inteiramente o que o Rolando diz, que é certamente extensível ao ensino superior.
Mesmo assim, é importante desmitificar a noção que este é um fenómeno português, que só os nossos alunos é que estão mal preparados para as questões científicas. Eu já leccionei milhares de alunos(as) tanto na Inglaterra como no Canadá e quase sempre fiquei estupefacto com a ignorância dos(as) alunos(as) sobre as questões científicas. Para os(as) testar, eu pergunto sempre uma coisa que devia ser da mais básica instrução de um(a) aluno(a): há quantos anos são
os humanos uma espécie distinta dos outros primatas?
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Nunca canso de me surpreender com as respostas. Invariavelmente, alguns alunos respondem com os bíblicos 6 mil anos, que não chegam sequer para cobrir o tempo em que os nossos antepassados começaram a cultivar os campos da Mesopotâmia. Outros(as) alunos(as) dizem 50 mil, outros 100 mil anos. Alguns arriscam 500 mil anos, mas é raro, raríssimo mesmo, ter alunos(as) que respondam 6 milhões ou 7 milhões de anos.
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Repito: Não estou a falar de Portugal, mas do Canadá e da Inglaterra. Os meus alunos(as) são predominantemente de Economia, mas tenho muitos(as) de Gestão, de Ciência Política, de Comunicação Social, de Estudos Internacionais, Sociologia, Antropologia, etc, etc. Ou seja, o fenómeno de alunos(as) mal preparados a nível científico não é um exclusivo nacional. É uma das infelizes tendências que têm surgido no mundo ocidental nas últimas décadas. E é algo que deve ser mudado o mais urgentemente possível.

RELIGIÃO NA AMÉRICA

Uma sondagem de quase 36 mil americanos(as) concluiu que os católicos têm sido o grupo de crentes que mais tem decrescido em importância relativa. O grupo que mais tem crescido nos últimos 30 anos? As pessoas sem afiliação religiosa. Isto é, os ateus e os agnósticos. Mesmo a América, habitualmente tão religiosa, não está imune a uma das grandes tendências sociais do mundo ocidental das últimas décadas.

LIDERANÇA BICÉFALA


Luís Filipe Menezes e Pedro Santana Lopes disputam o equilíbrio de forças da liderança bicéfala do principal partido da oposição.
PS. Tradução inglesa: A boy walks on a tightrope. Foto de Rajesh Kumar Singh/AP

ECONOMIA AFRICANA _ COMENTÁRIO DOS LEITORES (9)

O Antonio tem o seguinte comentário sobre a ajuda externa a África:
"A miséria do Terceiro Mundo assegura de algum modo o nosso bem-estar. Bem-estar esse que parece já ameaçado pelo crescimento de outras economias que parecem querer sair da miséria como a chinesa, fazendo com que a estabilidade do emrpego na Europa desaparecesse e que a crise social estivesse na ordem do dia.China essa que nos vai roubar África, a América do Sul e o Sudoeste Asiatico porque os seus produtos, embora de menor qualidade, são vendidos a preços muito mais acessiveis em mercados pobres que dificilmente poderão aceder aos produtos ocidentais. Enfim, se queriamos globalização, aqui a temos com uma enorme complexidade de questões que nos pareceriam há uns anos ficção cientifica mas que vão mudar o mundo."
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Sem dúvida, António. Com efeito, vários economistas têm chamado a atenção para o facto de que a África não está a entrar nos mercados internacionais nas mesmas condições encontradas pelos países do chamado milagre asiático nos anos 70 e 80. Quando, por exemplo, a Coreia do Sul, Taiwan ou Singapura se industrializaram não tinham que se preocupar nem com a China nem com a Índia, pois as exportações destes países estavam praticamente ausentes dos mercados internacionais. O mesmo não se passa hoje, o que origina toda uma série de dificuldades para os países que se querem modernizar utilizando uma estratégia exportadora.
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É por isso mesmo que alguns economistas muito influentes, como Paul Collier, argumentam que devíamos abrir os nossos mercados às exportações africanas em detrimento dos produtos chineses e indianos.Pessoalmente não concordo com esta solução, mas dá, sem dúvida, que pensar.

A POBREZA NACIONAL(2)

José Manuel Fernandes assina hoje um interessante editorial sobre os dados relativos à pobreza em Portugal, do qual se salienta o seguinte: "Estudos realizados um pouco por todo o mundo indicam que existem duas formas de diminuir o risco de as crianças ficarem presas ao universo de pobreza em que nasceram. Uma trata de apoiar as suas famílias monetariamente, procurando ajudá-las a alcançar níveis de rendimento aceitáveis [como o Rendimento Mínimo]. A outra olha para aquilo que faz com que a pobreza se torne numa espécie de ratoeira de onde é muito difícil sair, tratando de eliminar essas barreiras...
O princípio mais importante desse tipo de políticas sociais [alternativas ao Rendimento Mínimo] é que elas transferem para os cidadãos a responsabilidade por melhorarem as suas condições de vida, não se limitam a mitigar a pobreza existente. São políticas que se preocupam mais com a criação de oportunidades do que com uma "igualdade" de rendimentos, ou de prestações sociais. Ora é isto que faz toda a diferença." Nem mais.

25 fevereiro 2008

POBREZA NACIONAL

O PUBLICO e o DN destacam nas suas edições de hoje as crianças em risco de pobreza em Portugal. Na União Europeia (a 25, isto é, sem a Roménia e a Bulgária), pior que nós só a Polónia. O relatório e os dois jornais realçam o crescente desemprego e o baixo nível de escolaridade como as principais justificações para o nosso fraco desempenho a nível da erradicação da pobreza.
O PUBLICO diz-nos: "68 por cento das crianças portuguesas vivem com pais com o ensino secundário incompleto. quanto menor a escolaridade dos pais, maior o risco de pobreza das crianças. É, talvez, um dos dados mais chocantes presentes no relatório europeu: em Portugal, 68 por cento (contra 16 de média eu-ropeia) das crianças vivem com pais que não concluíram os estudos secundários. Oitenta e oito por cento das crianças portuguesas em risco de pobreza vivem em agregados com estas baixas qualificações. É o patamar mais elevado de desqualificação na UE"
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O DN afirma: "A percentagem de jovens até os 24 anos com baixa educação secundária era de 39% em 2006 (ano lectivo de 2004-2005), a segunda pior de toda a União Europeia, a seguir a Malta. A taxa de abandono escolar baixou entretanto para valores da ordem dos 35%, mas, ainda assim, Portugal continua, neste campo, na cauda da União Europeia."
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Estes são, sem dúvida, indicadores que nos envergonham e que demonstram o muito que há ainda por fazer, o muito que há para progredir. O pior de tudo é que existem camadas da nossa população numa armadilha de pobreza de difícil resolução, tanto no interior do país, como nalgumas zonas urbanas. O nosso desempenho educativo ainda é extremamente sofrível (mesmo em relação às camadas mais jovens), e o abandono escolar ainda é demasiado elevado. Estes dois factores perpetuam o ciclo de pobreza entre as diversas gerações.
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Urge, obviamente, acabar com este tipo de situações. Como? É patente que os grandes programas de diminuição da pobreza, são sexys, bonitos, e dão uns bonitos títulos de jornal. Até podem ajudar a ganhar eleições. Mas, não bastam. Mais do que grandes projectos de combate à pobreza e exclusão social, com rendimentos garantidos e com grandes ideais sem grande relevância prática, precisamos de introduzir um conjunto de medidas que penalizem ainda mais o abandono escolar e que forneçam os incentivos necessários para que a pobreza e a falta de qualificações não se perpetuem geração atrás de geração atrás de geração.

TUDO EM FAMÍLIA

Como esperado, Raúl Castro foi eleito sucessor do seu irmão, Fidel, por total unanimidade. Que bonito é o comunismo. Apesar de muitos não esperarem grandes diferenças com o regime de Fidel, a verdade é que, provavelmente, as reformas acontecerão. Alías, a maior abertura do regime cubano nos últimos anos foi exactamente impulsionada por alguns ramos do exército cubano sob a alçada de Raúl Castro. Nos últimos 18 meses, após Fidel ter ficado incapacitado por motivos de saúde, Raúl tem promovido centenas de reuniões e debates sobre o curso a tomar pelo regime cubano. É possível que as reformas sejam tímidas enquanto Fidel permanecer vivo (até Fidel não se juntar a Karl Marx, como afirmou ironicamente John McCain), mas é possível que Raúl ainda nos venha a surpreender pela positiva. Será Raúl Castro o Deng Xiao Ping de Cuba? Esperemos que sim.

NOVA GUERRA?

No Médio Oriente há rumores de uma nova guerra entre Israel e o Hezbolah. Era mais ou menos inevitável após o impasse da guerra de 2006, em que Israel saiu enfraquecido e o Hezbolah proclamou-se vitorioso. O recente assassinato de Imad Mughniyah, um dos líderes do movimento libanês, só parece estar a apressar a "inevitabilidade" desta segunda guerra. O que podemos estar certo é que não haverá nenhum vencedor desta guerra a nível económico, mesmo que os hajam no campo de batalha. A recuperação económica do Líbano dos últimos anos irá por água abaixo e a economia israelita irá ficar mais debilitada pelo esforço de guerra.

A AVÓ DE OBAMA (2)

Nicholas Kristof, o famoso jornalista do New York Times, foi ao Quénia para conhecer as raízes de Barack Obama. Tencionava visitar e entrevistar a avó de Obama, mas não teve sorte (ou melhor, não conseguiu, porque recusou-se a pagar pela entrevista, assim como queriam alguns familiares da senhora. Mesmo assim, Kristof escreveu um artigo que vale a pena ler. Também vale a pena ver o video da peça. Aqui está um cheirinho:
"Frankly, I worry that enemies of Senator Obama will seize upon details like his grandfather’s Islamic faith or his father’s polygamy to portray him as an alien or a threat to American values. But snobbishness and paranoia ill-become a nation of immigrants, where one of our truest values is to judge people by their own merits, not their pedigrees. If we call ourselves a land of opportunity, then Mr. Obama’s heritage doesn’t threaten American values but showcases them. The stepgrandson of an illiterate, barefoot woman in this village of mud huts in Africa may be the next president of the United States. Such mobility — powered by education, immigration and hard work — is cause not for disparagement but for celebration." Sem dúvida nenhuma.

24 fevereiro 2008

DESEMPREGADOS COM CURSO

Esta é a lista das cursos com o maior número de diplomados inscritos no centro de emprego. Mais do que os números absolutos, interessa analisar os números relativos, isto é, que percentagem de licenciados de uma instituição estão desempregados. Mesmo assim, de certeza que estes são números que ainda irão dar muito que falar. E ainda bem.

ABRANDAMENTO


Depois do bom desempenho nos últimos meses de 2007, a economia portuguesa dá sinais de algum abrandamento. O principal culpado é o consumo privado. A taxa de crescimento das exportações também tem decrescido, devido à desaceleração da economia mundial.

IRA DIVINA


Um raio atinge o Corcovado.

23 fevereiro 2008

FIRST NATIONS


Fotografias do século 19

O MELHOR BOOKER

O Booker Prize, o mais prestigiado galardão literário do Reino Unido (que engloba os escritores de língua inglesa, excepto os Estados Unidos) vai agora eleger o melhor Booker dos últimos 40 anos. Quando se comemoraram os 25 anos do Booker, o fantático "Os Filhos da Meia-Noite" de Salman Rushdie foi eleito o Booker dos Bookers. Veremos se o livro de Rushdie será novamente o escolhido para este Booker dos Bookers dos Bookers.

CURSOS DESEMPREGADOS

O DN revela hoje algumas das licenciaturas com maior percentagem de diplomados inscritos nos centros de emprego. O topo da lista é encabeçado pelo curso de Enfermagem do Instituto Superior de Saúde do Alto Ave. No entanto, a lista inclui também as licenciaturas de Filosofia e Sociologia da Universidade de Coimbra. Quem disse que Coimbra tem mais encanto na hora da despedida?

CANCION PARA OBAMA

Uma nova canção para Obama. Desta vez em espanhol. Vale mesmo a pena ver

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22 fevereiro 2008

DESIGUALDADES

O DN tem um artigo muito interessante sobre as desigualdades sociais. Segundo os últimos dados disponíveis, "Portugal era em 2006 o segundo país dos 27 que hoje fazem parte da União Europeia com maior nível de desigualdade na distribuição do rendimento. Segundo os dados do Eurostat, o nosso país era apenas ultrapassado pela Letónia." Porque é que Portugal é tão desigual? Porque os nossos patrões são mais exploradores do que os seus congéneres europeus? Porque ainda existem alguns resquícios da economia salazarista? Porque será?
Não, não é a exploração. Que eu saiba, não há nenhum estudo que indique que os portugueses exploram mais os seus trabalhadores do que os outros países europeus. Não. A resposta a estas perguntas prende-se com uma coisa muito simples: a educação. Ou seja, a nossa falta e educação.
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Nos últimos anos, houve um aumento do prémio das qualificações (skill premium) um pouco por todo o mundo. Ou seja, os trabalhadores mais qualificados têm visto as suas remunerações aumentar, enquanto que os salários dos trabalhadores pouco qualificados têm estagnado. Deste modo, a desigualdade entre os dois grupos tem vindo a aumentar.
Em Portugal, este fenómeno é ainda mais dramático, pois os nossos indicadores educativos são muitíssimo inferiores a todos os restantes países da UE. Conclusão: o prémio da qualificações é maior em Portugal do que noutros países e, assim, a diferença entre os salários dos trabalhadores qualificados e não qualificados é mais elevada. Corolário: as desigualdades de rendimento são maiores em maiores em Portugal do que noutros países europeus. Não porque somos mais explorados. Mas sim porque os nossos indicadores educativos são demasiado assimétricos.

CABELOS EM PÉ


Atiradas aos lobos? A fugir de alguém? A saltar de um prédio?

MAL EDUCADOS

Luís Campos e Cunha assina um interessante artigo de opinião, em que debate a ineficiência do nosso sistema educativo. Aqui está um extracto:
"Se, em termos internacionais, há abundantes recursos financeiros para a educação (despesa em percentagem do PIB) e se há muitos professores (poucos alunos por professor, salas de aula pequenas), por que razão há tão maus resultados? Não é preciso ser um licenciado em "ciências da educação" (que não sou), nem estar ligado ao ensino (que estou), nem ser pai (que também sou) para concluir que há uma enorme ineficiência. As escolas, os professores e o sistema de ensino só podem ser pessimamente geridos! Para melhorar a situação das escolas há certamente muito a fazer, começando no ministério e acabando em cada um dos estabelecimentos de ensino. No entanto, para além de outras, há três medidas necessárias: boa avaliação dos alunos; correcta avaliação dos professores; e gestão aberta das escolas."

OS NÚMEROS DO DESEMPREGO

Depois , o DN tem hoje um excelente artigo sobre os números do desemprego, onde se explicam as diversas categorias de desempregados.
"O desemprego real em Portugal afectou 590 mil portugueses no ano passado, mais 141, 4 mil desempregados do que os oficialmente admitidos, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Ou seja, a taxa de desemprego, contabilizando o subemprego e os inactivos disponíveis para trabalhar, atingiu, em média anual, os 10,5% da população activa em 2007, contra os 10, 3% um ano antes." (Rudolfo Rebêlo e Paulo Spanger). Para ver mais clicar aqui.

MAIS UM DEBATE

Depois das acusações de plágio que a campanha lançou sobre Obama, chegou a vez de Hillary Clinton cair na mesma armadilha. Não é que no final do debate Hillary utilizou praticamente as mesmas palavras que Edwards já tinha utilizado? Todos os analistas admiraram as palavras de Clinton... até descobrirem a fonte... Vale a pena ver

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21 fevereiro 2008

A RELEVÂNCIA DA ECONOMIA

O New York Times tem um artigo interessante sobre a relevância da ciência económica. Devido à matematização desenfreada da Economia nas últimas décadas, os economistas alienaram-se a si próprios. Assim, durante demasiado tempo, a Economia foi vista com suspeição tanto por outros cientistas sociais como pelo público em geral. Nos últimos dez anos as coisas têm mudado, não só porque os economistas têm feito um esforço para explicar os seus achados num linguagem mais acessível (em livros como Freakonomics, entre outros), mas também porque têm levado a cabo investigações em novas áreas que prometem ter um impacto real na vida de muitos milhões de pessoas.
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É o caso da luta contra a pobreza extrema e a busca de políticas mais eficazes a nível da ajuda externa. Durante décadas, demos dinheiro aos países subdesenvolvidos sem questionar quer a sua relevância quer o seu impacto. Não interessava se o dinheiro ia para governos corruptos ou se a ajuda externa tinha uma influência negativa na taxa de câmbio. Obviamente, esta política não resultou e muitos questionaram (e descreditaram) a relevância da ajuda externa.
Como este artigo do NYT refere, nos últimos tempos, a investigação económica tem feito grandes progressos a nível da teoria do desenvolvimento económico e existem agora novas perspectivas sobre como melhorar as condições de vida de centenas de milhões de pessoas em situação de pobreza extrema. Quem disse que os(as) economistas não têm coração?

AS VERDADEIRAS CAUSAS DOS TERRAMOTOS


Ora aí está uma correlação fantástica! Um deputado israelita do bloco ultra-ortodoxo Shas afirmou que os recentes terramotos sentidos no país se devem atribuir à tolerância do parlamento com os homossexuais... De acordo com este senhor tão iluminado pela estatística e bafejado pela ciência, os tremores de terra que abalaram Israel recentemente foram causados pelos legisladores que legitimaram a sodomia. Os terramotos seriam assim um castigo divino por os israelitas se portarem mal. Pois claro. Alías a teoria nem é assim tão recente. Em 1755, não faltaram os que acusaram os pecados dos lisboetas para a ira divina que se abateu sobre eles (como o famoso Malagrida). Mais recentemente, houve muitos que atribuiram o tsunami que varreu a Asia ao mesmo factor. E certamente não faltarão aqueles(as) que nos tentarão convencer que os terramotos são causados por extra-terrestres para testar a nossa resistência.

PRÉMIO LEYA

O regulamento do maior prémio literário nacional, o Prémio LEYA, já está disponível aqui. O prémio tem um valor pecuniário de 100 mil euros e será atribuído na próxima Feira de Frankfurt em Outubro de 2008. Quem estiver interessado, deverá submeter uma obra com uma dimensão mínima de 200 páginas até ao dia 15 de Junho de 2008. Será interessante ver quem serão os dez finalistas deste prémio que promete.

CHEIAS EM MOÇAMBIQUE

A OIKOS tem hoje um anúncio no PUBLICO solicitando contribuições para ajudar as vítimas das cheias de Moçambique.

A CUBA DE FIDEL

Foto: Sven Creutzmann/Mambo photo/Getty Images

NOTA DE DEZ MILHÕES


O governo do Zimbabwe emitiu recentemente uma nova nota. A notícia não seria notícia se a nota em questão não tivesse o extraordinário valor nominal de 10 milhões de dólares do Zimbabwe. Sim, leu bem, dez milhões. E o que é que se compra com 10 milhões de dólares do Zimbabwe (Z dólares)? Nem sequer um hamburguer, que custa a módica soma de 15 milhões de Z dólares. Mas há outra curiosidade. Se reparar bem na imagem, verá que o Zimbabwe introduziu a particularidade da emissão de notas que se extinguem passado algum tempo. Na nota em questão, se o orgulhoso portador da nota dos 10 milhões quiser usufruir do seu pequeníssimo poder de compra terá que o fazer até 30 de Junho. Depois dessa data, a nota não vale nada. Pode deitá-la fora. Pode queimá-la. Pode até utilizá-la como papel de parede. Para comprar coisas é que não.
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E porque é que as notas têm um valor nominal tão elevado no Zimbabwe? Por causa da subida desmesurada dos preços, por causa da inflação, que já atingiu os 100,000% ao ano (cem mil por cento). É quase inamiginável, mas nem sequer é um recorde, o qual pertence à Hungria (em 1956) e à Alemanha (em 1923), que tiveram inflações na ordem dos triliões por cento ao ano. Sim, triliões.
Como o Mitos refere, é bem mais fácil destruir uma economia do que construi-la. E com um ditador como Mugabe é meio caminho andado para atingir o primeiro objectivo.

20 fevereiro 2008

VOTAR NO PAQUISTÃO

EPIDURAL EM LEIRIA

O PUBLICO de hoje informa-nos que "Leiria só usa epidural de vez em quando". Pelo que parece o epidural só está a ser utilizado em casos excepcionais. Tudo porque faltam anestesistas, informa-nos o hospital. Hmmm... O que eu gostaria de saber é o que fariam os(as) administradores do hospital se as filhas deles(as) precisassem de epidural. Seria este um dos tais casos excepcionais?

VANCOUVER COM SOL


Um cheirinho de Vancouver... com sol...
Foto de Lara Nettelfield

OBAMA INEVITÁVEL?


Obama ganhou mais uma vez de forma decisiva. Desta vez foi em Wisconsin e no Havai. E já lá vão dez vitórias seguidas. Obama é cada vez o "front-runner" dos Democratas. Hillary Clinton tem tentado alterar este estado de coisas com uma campanha muito negativa, mas, até agora, sem resultados palpáveis. Muito pelo contrário. Hillary seria sem dúvida uma óptima candidata para os Democratas, mas Obama tem-se revelado ainda melhor. Obama ganha mais e mais confiança a cada dia que passa. O seu discurso de vitória foi simplesmente notável. Ouvir Obama é sempre admirável (acredite, é verdade). E o que é incrível é que muitos Republicanos e conservadores pensam o mesmo. Tanto na CNN, como na MSNBC, e até na FOX News, os conservadores não deixam de elogiar e admirar Obama. E só isso é, por si só, admirável. Seguem-se Ohio, Texas e Rhode Island. Clinton tem que ganhar de forma decisiva para poder continuar a ter aspirações à nomeação Democrata. Tudo poderá ficar decidido a 4 de Março.

19 fevereiro 2008

FIDEL

Fidel Castro anunciou hoje que se demitia da presidência cubana. O dinossauro finalmente sai de cena.
Fidel ganhou. Sai da presidência quando quer e pelos seus próprios meios. Nem os americanos, tão poderosos, nem o embargo, tão inútil como fútil, conseguiram fazer Fidel cair. Fidel sai porque quer, não porque foi obrigado a fazê-lo. O muro de Berlim caiu, mas Fidel não ruiu. A União Soviética desintegrou-se, mas Fidel manteve-se firme. A Europa de Leste virou-se a Ocidente, Cuba permaneceu na neblina das utopias. No final, a única coisa que o derrotou foram as coisas que nos derrotam sempre: a doença e a velhice. Nem um ditador que remonta ao tempo dos dinossauros, nem um revolucionário lendário, conseguiu escapar a esse destino.
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Fidel ganhou. Quem perdeu foram os cubanos. Apesar de Gabriel Garcia Marquez ser um confesso admirador de Fidel, o seu (melhor?) livro "O Outono do Patriarca" poderia ter Fidel como ditador. O ditador que envelheceu e envelheceu um país. Um ditador que agoniou e agoniou um país. Um ditador que congelou e que congelou um país. Um ditador. Um ditador.
O seu legado é um misto de bom e de mau. Mais de mau do que de bom, é certo, mas há coisas boas. O elevado nível de educação dos cubanos. O sistema de saúde. O orgulho nacional. E se a nível social o que ficará será a repressão e a ditadura, a nível económico as maiores heranças de Fidel serão a estagnação e o marasmo. Ainda assim, a longo prazo, a recuperação económica de Cuba será mais fácil devido ao elevado nível educativo.
Agora é só esperar que o homem morra. Para então finalmente Cuba poder voltar à sociedade das nações. Para então Cuba poder regressar ao mundo.

CARDOSO PIRES (2)

Sai amanhã para as livrarias o tão esperado inédito de Cardoso Pires. Esta é uma das ocasiões que tenho imensa pena não estar em Portugal. Seria óptimo poder ver novamente um livro novo de Cardoso Pires nas estantes de uma livraria. Desfolhá-lo. Saboreá-lo. Lê-lo. Com um entusiasmo desmedido. Com sofreguidão.
Sempre pensei que Cardoso Pires merecia o Nobel, nem que fosse para ter um maior reconhecimento internacional. Cardoso Pires era grande demais para o nosso país tão pequeno. A morte roubou-lhe esta possibilidade e roubou-nos livros que não foram escritos. Palavras que não foram ditas. É também por isso que este livro da nova editora Nelson de Matos é um acontecimento. Um marco. Um dos momentos altos do ano literário. Nem que não seja para fazer lembrar os tempos em que a edição de uma nova obra de Cardoso Pires era sempre, sempre, muito especial.

AS INVERDADES DOS NÚMEROS

O DN anuncia hoje com destaque: "Desemprego cai 12,4% com professores à frente". O mesmo jornal revela que: "O número de inscritos nos centros de emprego caiu 12,4% em Janeiro, face ao mesmo mês do ano passado, o que representa menos 57 mil desempregados, para um total de 399,6 mil." e que "Relativamente às ofertas de trabalho recebidas pelos centros do IEFP, o mês de Janeiro totalizou 10655, um valor que traduz um aumento de 8,8% face a Janeiro de 2007".
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Ora aí está um óptimo exemplo de como não fazer jornalismo económico. A notícia não está bem redigida, pois faz crer aos leitores que o desemprego decresceu mais de 12 por cento. Isso não é verdade. Pelo menos não necessariamente. O que os jornalistas deviam dizer era que o número de inscritos nos centros de emprego desceu 12 por cento, não que o desemprego decresceu esse valor.
Qual é a diferença? Muito simples: só contam para os números do desemprego os(as) desempregados(as) que estão activamente à procura de emprego. Quem não estiver registado e não andar à procura de trabalho simplesmente não conta para as contas do desemprego. Ou seja, a descida dos números não revela nem os desempregados desencorajados nem sequer as pessoas que optaram por emigrar.
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Aliás, a própria notícia contradiz-se ao revelar que somente se criaram 10,600 mil novos empregos. E assim vale a pena perguntar: o que é que se passou com os outros 47 mil?
Assim, o que os jornalistas queriam dizer (mas não disseram) era que os números das pessoas inscritas nos centros de emprego baixaram. Ponto final. Em seguida, o que deviam informar era qual a percentagem da descida que corresponde tanto aos desempregados desencorajados e a percentagem de novos empregos. O que a notícia nunca devia afirmar era que o desemprego baixou 12.4 por cento. Até podia ser verdade, mas não é.

MENOS SANTOS

Depois do Papa anterior ter batido todos os recordes na criação de novos santos, surgem agora notícias que a a igreja católica se prepara para diminuir o processo de canonização. Quem o diz é a BBC, citando o cardeal português José Saraiva Martins, que defende um maior rigor no processo de verificação das alegadas santidades. Em termos económicos, isto significa que não só que a taxa de crescimento de santos vai diminuir, mas também que o "preço" de se ser santo vai aumentar. Veremos se a procura de santos diminui...

A DROGA DO CONFLITO

Uma das fotos de Severino Silva publicadas no Guardian online sobre o violento conflito nas favelas do Rio. Vale a pena ver.

18 fevereiro 2008

BUSH EM ÁFRICA

George Bush está em África, com o intuito de cimentar as relações entre os Estados Unidos e o continente africano. Na agenda do presidente americano realça-se principalmente uma idea: ajuda, muita ajuda. Muitas promessas de muitas centenas de milhões de dólares. Para quê? Para auxiliar o desenvolvimento dos países africanos? Não, pelo menos não directamente. Bush pretende essencialmente reforçar a ajuda americana na luta contra o flagelo do HIV/Sida, que já matou muitos milhões de africanos(as). Milhões para o reforço das campanhas de abstinência sexual que não têm dado qualquer resultado. Milhões para o combate e profilaxia desta doença. Pelo que parece, a luta contra a malária também está na agenda. E ainda bem, porque esta doença (tal como a disinteria e a tuberculose mata mais do que a própria Sida).
No entanto, há um ponto que não está na agenda, um ponto que poderia fazer bem mais do que as largas centenas de milhões de dólares de ajuda externa que chegam a África todos os anos. Mais do que a ajuda externa (que é importante, é certo), mais do que a nossa compaixão, os africanos necessitavam que os ocidentais (os americanos, europeus e japoneses) abrissem os seus mercados aos seus produtos. Mais do que a nossa ajuda, os africanos beneficiariam muito mais se deixássemos de ser hipócritas ao prescrever o comércio livre para os outros, enquanto continuamos a proteger os nossos mercados agrícolas e dos produtos têxteis. Mais do que ajuda externa, os africanos precisavam que abrissemos as portas dos nossos mercados às suas exportações. E era principalmente isso que Bush e a União Europeia deviam ir a África discutir. A África não precisa da nossa compaixão, precisa dos nossos mercados.

SEGUNDA EDIÇÃO DO MITOS

Capa e parte da badana da segunda edição do Mitos, que está finalmente nas bancas.

RADIOHEAD

Para quem gosta dos Radiohead, vale a pena ouvir a entrevista de Thom Yorke no All Things Considered da NPR. Entre outras coisas, o vocalista fala sobre o último album da banda, bem como alguns dos grupos que Yorke admira, tais como os alemães, o rapper Madvillain, e o duo techno Autechre. Vale a pena ouvir.

PLANETAS

Um novo estudo argumenta que existem muitos mais planetas semelhantes à Terra na Via Láctea do que se pensava anteriormente. Os dados ainda são provisórios, mas são prometedores. Mesmo assim, e mesmo que se encontrem mais planetas parecidos com o nosso (e até mesmo que haja lá vida uni ou multicelular), é provável que a inteligência não abunde por esses lados... Pelo menos, e por mais que as visões de alegados OVNIS se multipliquem todos os anos, não temos nenhuma prova concreta que existem outras civilizações vizinhas. Pelo menos até ver.

17 fevereiro 2008

REGIONALIZAÇÃO

O Movimento Cívico "Regiões Sim" vai tentar recolher 100 mil assinaturas para exigir a realização de um referendo sobre a regionalização em 2009. Se não resultar dessa vez, certamente que em 2014 ou em 2017 outros movimentos cívicos se seguirão, até que consigam vencer o referendo. Segundo o PUBLICO, "O teor da petição a enviar à Assembleia da República destaca como factores justificativos da regionalização a enorme assimetria territorial que existe no nosso país, onde 60 por cento da população, 75 por cento do poder de compra e 60 por cento da riqueza nacional estão concentrados em apenas 22 municípios."
Muito bem. Mesmo assim, vale a pena perguntar: será que não é assim noutros países? Quantos municípios em Espanha possuem 60 por cento da população e 60 por cento da riqueza nacional? E na Itália? E na Polónia? E na Inglaterra, porque será que Londres tem 303 por cento do rendimento médio europeu, enquanto outras regiões britânicas têm rendimentos per capita que rondam os 80 por cento da média europeia?

A RAÇA E AS ELEIÇÕES

Frank Rich tem hoje um interessantíssimo artigo de opinião no New York Times sobre a raça, a América e as eleições de 2008. Vale a pena ler.

16 fevereiro 2008

LITERATURA NACIONAL NO ESTRANGEIRO (2)


O Expresso de hoje tem um artigo muito intessante sobre José Luís Peixoto, uma das vozes mais originais da literatura portuguesa contemporânea. A internacionalização da escrita de Peixoto continua a bom ritmo, assim como demonstra esta crítica do jornal The Independent, que termina assim:
"Voices are echoed in other voices, and the dialogue pulses along within it all, undifferentiated. The storytelling role passes between an external narrator and first-person characters and back again; the narrator's own wise words are picked up later and repeated by the characters, as though these portentous lines, these profound thoughts, are out there, abstracted from their lives, just humming in the air, like great discovered truths...
That even these weighty lines are moving and thought-provoking, rather than (as well might have been) tiresomely over-zealous or pretentious, is further testament to the author's considerable skills."

LITERATURA NACIONAL NO ESTRANGEIRO

O Guardian de hoje tem uma crítica muito favorável ao "Intermitências da Morte" de José Saramago. Segundo o crítico deste jornal britânico: "In the craft of the sentence, José Saramago is one of the great originals. His prose is a voice that envelops all voices: it is like the universe's immanent murmur...
No one writes quite like Saramago, so solicitous and yet so magnificently free. He works as though cradling a thing of magic. " Pode ler mais aqui.

A FACE BOA DO QUÉNIA


Flores do Quénia preparadas para serem exportadas.

15 fevereiro 2008

150 MIL NOVOS EMPREGOS

Animado com os indicadores positivos do último trimestre de 2007, o primeiro-ministro reiterou o objectivo de criar 150 mil novos postos de trabalho até às próximas eleições. De acordo com José Sócrates "Desde que iniciámos funções, a economia gerou 94 mil postos de trabalho. Não vejo nenhuma razão para que no próximo ano e meio não consigamos ter mais emprego e conseguirmos atingir o nosso objectivo [de criar 150 mil novos postos de trabalho]".
Estas afirmações não têm sentido nenhum. São pura demagogia política. Primeiro, porque quem cria empregos é a economia e não o governo. De uma forma geral, o Estado não cria a maior parte dos empregos da economia. E quando o faz, é mau sinal. Aliás, um dos problemas do défice orçamental surgiu exactamente quando o Estado criou demasiados postos de trabalho na Função Pública no final dos anos 90.
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Segundo, porque todos os anos, a economia cria e destrói empregos. Mais do que o número de postos de trabalho criados, o que interessa é a criação líquida de emprego, isto é, quantos empregos são criados acima dos postos de trabalho destruídos. Ora, até o primeiro-minstro admite que a taxa de desemprego aumentou nos últimos anos. O que isto quer dizer é que tem havido um decréscimo líquido de emprego, não a criação (líquida) de milhares de postos de trabalho.
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O que o primeiro-ministro tem razão, e o que é encorajador, é que no último trimestre de 2007, a taxa de desemprego (homóloga) decresceu e bastante signficativamente. Porquê? Porque nesse trimestre a economia cresceu a uma taxa muito saudável de 0.7 por cento, o que, a manter-se, nos dá taxas anuais acima dos 2 por cento, o patamar a partir do qual há criação líquida de emprego. E esta é que é a verdade. Sem demagogias políticas.

CARRO AQUÁTICO

O sQuba, um carro aquático, que será apresentado em Março em Genebra.

PIB EM 2007

O DN tem hoje um artigo sobre o PIB em 2007 que vale a pena ler.
Já agora, O Duende Assassino informa: "o INE prevê uma subida do Investimento a nível nacional para mais de 14 p.p., o maior aumento dos últimos 10 anos, que compara com os 3.1 por cento do período homólogo..." in Público. Será verdade?"
Caro Duende, Seria óptimo se tal acontecesse. Esperemos que sim, pois certamente que o crescimento da economia iria acelerar. Vai obviamente depender quer da nossa capacidade de atracção do investimento estrangeito, quer da confiança dos agentes económicos e, em particular, dos investidores.

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES (4)

De uma forma geral, concordo quase plenamente com os comentários dos leitores sobre as avaliações dos professores. Primeiro, para mim é óbvio que os alunos têm que ter um papel preponderante em toda e qualquer avaliação dos professores. Tal como o leitor, sempre fui avaliado pelos alunos onde ensinei e sempre beneficiei da justeza das suas observações. É claro que nem todos os alunos são justos ou parciais nas suas avaliações. No entanto, em média, os alunos conseguem diferenciar entre boas e más aulas e bons e maus professores. Por isso, como parte interessada que são, é fundamental dar voz aos alunos na avaliação dos professores.
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Dito isto, concordo também com o Rolando Almeida que os exames nacionais são fundamentais para avaliarmos quer os alunos quer os próprios professores. Tal medida parece-me acertada e óbvia. Igualmente, é preciso também ter em linha de conta que, para além do mérito do ensino, as avaliações dos professores são muitas vezes função das próprias cadeiras ou disciplinas que se ensinam. Pessoalmente, não me é indiferente dar uma cadeira de Desenvolvimento Económico (que adoro) ou de Microeconomia (que não é das minhas favoritas). E quase sempre as notas dos meus alunos reflectem isso mesmo, as minhas próprias preferências.
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Por outro lado, como referi no meu post e como defendem esses leitores, a proposta de avaliar os professores com base nas notas dos alunos é uma perverção completa dos incentivos dos professores. Basear parte das avaliações dos professores nos resultados dos seus alunos nos exames nacionais é uma coisa, utilizar as notas dos alunos é outra completamente diferente. Se for assim, que incentivo tem um(a) professor(a) para dar uma má nota? Nenhum ou praticamente nenhum. E quem sofre com isso são os alunos e a qualidade da nossa educação.

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES (3) _ COMENTÁRIOS DOS LEITORES

O Rolando Almeida, filósofo e professor no ensino secundário, tem a seguinte opinião sobre as avaliações:
"Aproveito para deixar uma dica: o mesmo Ministério que pretende avaliar os professores, é também aquele que promove um sistema de ensino com o minímo de exames para os alunos. Ora, o exame nacional para os alunos é simultaneamente um dos melhores instrumentos para avaliar simultaneamente o aluno e o trabalho do professor e de uma forma muito simples: vamos supor que eu tenho 4 turmas que vão a exame final. Se nas 4 turmas tiver um desnivelamento de notas de frequencia e de exmame numa percentagem considerável, há ou não matéria para inquirir o professor sobre o que se passou com o seu trabalho?? O sistema de avaliação proposto pelo Ministério é um poço sem fundo. Não existe nele qualquer factor motivador para a profissão e , mais grave que tudo, é um sistema que desconsidera de forma escandalosa a qualidade do ensino. Porque não propôs o Ministério um sistema de avaliação a ser implementado gradualmente? É que como o pretende fazer só é de esperar um resultado possível: fugas permanentes à lei e trabalho em cima do joelho. De sistema de avaliação de professores, o novo ECD só tem mesmo o nome. Está muito na moda em falar de sistemas de avaliação até para as formigas, mas estou muito céptico da justiça da maior parte dos sistemas de avaliação implementados pelas empresas. E existe ainda um aspecto muito subtil neste ECD imposto pelo Ministério - é que ele pretende, mesmo que falsamente - colmatar as falhas de formação do sistema de ensino superior português, mas não premiando os bons, apenas considerando os mediocres."

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES (2) _ COMENTÁRIO DOS LEITORES

Um leitor anónimo deixou os seguintes comentários pertinentes sobre a avaliação dos professores:
"Relativamente à avaliação dos professores, todo o processo é um perfeito disparate, tanto o seu conteúdo como a forma desordenada e atabalhoada e apressada como está a ser implementado.Em primeiro lugar, sou a favor da avaliação dos professores, mas desde que seja feita de uma forma simples, objectiva e justa. Por isso estar-se a avaliar os professores em função de 2 ou 3 aulas assistidas, das notas dos alunos em todas as disciplinas, do abandono escolar e de uma pilha de impressos que se preenchem, é estar a criar um sistema burocrático, injusto e que não produz quaisquer resultados práticos...
Outro dos parâmetros de avaliação, é feita pelo coordenador do grupo disciplinar, que assiste a 2 ou 3 aulas ao longo do ano. É claro que nessas aulas dificilmente um professor terá má nota, pois irá dar a aula da melhor forma, não atenderá o telemóvel na aula, não deixará os alunos fazerem o que querem, etc. Para além disso, como a avaliação será em princípio da responsabilidade do Coordenador de Departamento, este pode não ser do mesmo grupo disciplinar do professor avaliado, o que dificultará a vida ao avaliador, pois não estará identificado com a área disciplinar do avaliado. Este tipo de avaliação não vai premiar os bons professores, os professores cumpridores, mas antes permitir que os maus professores, aqueles que chegam atrasados, aqueles que pouco ou nada ensinam, aqueles com os quais os alunos não aprendem nada, tenham boas classificações e possam eventualmente progredir na carreira. Para além disso, estar a limitar-se a progressão na carreira de docentes, mesmo que estes tenham a classificação de "Excelente", por causa do número limitado de vagas ...
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Um processo de avaliação justo, correcto e com resultados práticos seria, quanto a mim, dividido em 4 parâmetros essenciais:As aulas seriam avaliadas no final de cada período pelos .... alunos, sim os alunos pois eles são os "clientes" e só eles sabem o que se passa dentro da sala de aula... Desde o meu 1º ano como professor, sempre solicitei no final do ano que os meus alunos me avaliassem e os resultados obtidos têm-me permitido melhorar em muitos aspectos; O Coordenador de Grupo seria responsável por avaliar as planificações e o seu cumprimento, a realização de articulações e verificar a forma como é feita a avaliação dos alunos; Ao Conselho Executivo caberia a função de avaliar os docentes quanto à sua assiduidade e pontualidade e na realização de actividades nos tempos não lectivos, pois é justo que aqueles que trabalham na biblioteca, gerem os clubes, desenvolvem sites e aplicações, tenham o seu trabalho reconhecido e valorizado (o que o sistema de avaliação agora introduzido não prevê); O Coordenador de Directores de Turma teria de avaliar os DT quanto ao cumprimento das tarefas propostas, nomeadamente o registo regular de faltas, a elaboração e actualização do Projecto Curricular de Turma, entre outros. Neste particular, poderia eventualmente considerar-se a opinião dos Encarregados de Educação sobre o modo de actuação do Director de Turma, embora esta fosse discutível. Para além disso, as acções de formação teriam também um peso na avaliação. Após a implementação deste sistema de avaliação e se fosse permitida a progressão de todos os docentes que obtivessem boas classificações, a qualidade do ensino iria melhorar concerteza." (o post completo encontra-se aqui)

CRISE NA IMPRENSA

A crise da imprensa mundial chegou ao melhor e mais prestigiado jornal americano. O New York Times vai dispensar o serviço de 100 jornalistas.

GENOGRAPHIC PROJECT


Uma excelente sugestão de Alfred the Pug neste comentário. Com efeito, o documentário é óptimo, o livro interessantíssimo e o projecto muito inovador. Vale mesmo a pena dar um pulinho até ao Genographic Project, onde o nosso material genético é utilizado para analisar as grandes migrações da nossa história. Simplesmente fascinante.

14 fevereiro 2008

DOIS POR CENTO

Soubemos hoje que o PIB cresceu quase 2 por cento em 2007. Não é muito, mas é bem melhor do que tem sido desde 2001. Ainda é pouco, mas é uma melhoria, um sinal que a retoma pode finalmente estar a caminho. O que interessa é que parece que a economia está a começar a acelerar. Esperemos que assim continue. Esta é uma boa notícia independentemente das nossas preferências políticas e, por isso, devemos todos congratular-nos. Desvalorizar por desvalorizar este desempenho da economia não faz sentido. Dois por cento não parece muito, mas é, principalmente no contexto da pseudo-crise dos últimos anos. É a partir dos 2 por cento que a criação líquida de emprego começa (isto é, é a partir dos 2 por cento de crescimento do PIB que a economia cria mais empregos do que destrói). É também com taxas deste género que a confiança dos agentes económicos pode melhorar decisiva e significativamente.
Mesmo assim, é importante deixar um pequeno aviso. As exportações têm sido a base de sustentação do crescimento da economia. Seria óptimo que assim continuassem com esta vitalidade. No entanto, a desaceleração da economia mundial poderá ter um impacto significativo na evolução das exportações nacionais. É assim chegada a hora de procurar alternativas. É chegada a hora de dar a vez ao investimento, que tem que novamente ser uma das fontes de dinamismo da economia nacional. Nos últimos anos, o investimento tem decrescido quase todos os anos ou tem crescido a taxas insignificantes. Chegou a altura de alterarmos este mau desempenho. Ora, se não serve para mais nada, 2 por cento de crescimento económico pode ser uma importante barreira psicológica para inverter as expectativas dos agentes económicos. Dois por cento pode ser a injecção de confiança que precisávamos para voltar o optimismo. Dois por cento ao ano pode ser o sinal que os investidores precisavam para voltar a investir significantemente na nossa economia. Esperemos que sim. E esperemos que dentro de uns anos olhemos para trás e possamos ver 2007 como o ponto de inflexão da economia nacional. O momento quando a economia nacional finalmente saiu da estagnação. A altura em que nos deixámos de obcecar com o défice orçamental e nos começámos a preocupar com as coisas que realmente interessam para o crescimento sustentado da economia.

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES

Ontem no Parlamento debateu-se a avaliação dos professores. O primeiro-ministro afirmou: "Não passarei por este exercício governamental sem instituir um sistema de avaliação de professores". Esperemos que sim. No entanto, se vamos mesmo introduzir tal avaliação dos professores, temos que tomar em linha de conta os incentivos necessários. Se, de facto, a avaliação dos professores incluir o número de reporvações, não tenhamos a mínima dúvida que tal medida é um perfeito disparate. Um(a) bom(boa) professor(a) não é medido pelo número de chumbos. Se assim for, é muito fácil. Se quiser ter melhores avaliações, é só diminuir o número de alunos chumbados. Ora, tal lógica distorce todos os incentivos à qualidade educativa. Avaliação, sim senhor, mas não assim.
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Dito isto, vale a pena reterar que a avaliação dos professores é uma boa ideia. Principalmente por parte dos alunos, que deviam ter uma maior voz no processo. São os alunos os principais beneficiados e prejudicados pela má qualidade educativa. São assim os principais interessados no assunto. Aumentar a participação dos alunos no processo de avaliação dos professores faz todo o sentido, tanto a nível do ensino universitário, como do ensino secundário.

MEZZOGIORNO OUTRA VEZ

Vários leitores comentaram o post sobre o Mezzogiorno.
A Gi questiona: "E se separássemos o Porto/Minho do restante Norte, este ainda estaria mais estagnado, não é? Seria mesmo uma vergonha. E veríamos a realidade da área do Porto. Porque é que a estatística não os separa?"
A divisão das regiões (as chamadas NUTS) foi feita há duas décadas, quando entrámos para a então CEE e adoptámos os critérios contabilísticos europeus. Porque Portugal é pequeno, achou-se conveniente dividir o país entre o Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, mais os Açores e a Madeira. Também concordo que teria feito mais sentido separar o Porto do Norte interior (apesar que, feito isso, poderia haver também a tentação de separar o Centro interior e o litoral, etc). Com efeito, não ficaria muito surpreendido se isso acontecesse dentro de uns anos. Alías, já o fizemos. Há uns anos atrás a região lisboeta incluía Lisboa e Vale do Tejo, mas agora não. Porquê? Porque Lisboa tem níveis de vida superiores ao Vale do Tejo e acima, inclusivamente da média europeia. Para não se perderem os subsídios europeus para esta região (os fundos só são atribuídos a regiões com rendimentos por habitante com menos de 75 por cento da média europeia), mudou-se a divisão regional (com permissão e aprovação da própria UE!) e retirou-se o Vale do Tejo da Região Lisboa. Porque não fazer o mesmo com a região nortenha? Penso até que esse artifício contabilístico fazia mais sentido do que retirar umas pequenas áreas da zona lisboeta.
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Um outro leitor diz: "Fico feliz pelo Alentejo não ser a região mais pobre do país como frequentemente é proferido na comunicação social"
Pois não é. E nem é sequer a região menos produtiva do país, contrariamente ao que nos fazem crer as anedotas. O "Mitos" fornece mais dados sobre o assunto.
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O JAM afirma "não vejo motivos para satisfação (naquele quadro do PIB por habitante em % por habitante da UE a 27) sobre a tendência portuguesa desde 2000 até 2005. Parece-me que, em termos gráficos, a tendência é descendente. Penso até que a aparente convergência a 27 (que inclui já o alargamento a leste) não deveria ser tida como uma convergência real por excesso mas sim aparente por defeito"
Tem toda a razão. Entre 2000 e 2004, Portugal divergiu em relação à média europeia. A pequena (pequeníssima, mesmo) convergência que se registou foi somente entre 2004 e 2005. Porque é que a salientei? Porque poderá (esperemos) uma inversão de tendência. Veremos se se mantém. Em relação aos alargamentos, todos estes números incluem 0s 27, antes e depois do alargamento. O Eurostat (o organismo estatístico da UE) tem estatísticas harmonizadas. Quando estes números são apresentados já incluem os países do(s) alargamento(s), antes e depois deles se concretizarem.

INCOMPATIBILIDADES

Já que hoje falamos de amor, vale a pena ler esta história do New York Times sobre um dos dilemas dos tempos modernos. Quando o amor acontece entre vegetarianos e "comedores de carne"...

PATRONO DOS NAMORADOS

Hoje é dia dos Namorados. Cada vez mais celebrado entre nós, o dia de São Valentim é um enorme negócio em vários países, com destaque para os diversos países anglo-saxónicos. Mais de mil milhões de cartões de Valentine's são comprados e enviados, e as vendas de chocolates são aos milhões. Os restaurantes têm menus especiais e as lojas têm várias promoções especiais dedicadas ao dia. A prática é tão difundida que até as crianças participam nas festividades desde tenra idade. Mesmo nos infantários. Preparam-se cartões de Valentine para todas as crianças das creches. (Só para os meus filhos, que têm 3 e 5 anos de idade, foram mais de 40.)
Tudo começou alegadamente com um padre chamado Valentino. A história dele e desta tradição pode ser lida aqui. Para além dos cartões, dos chocolates, e das prendas, aproveito a ocasião para desejar um óptimo dia a todos(as). E já agora, não esqueçam os(as) vossos(as) "namorados(as)"!

13 fevereiro 2008

MEZZOGIORNO REVISITADO

O PUBLICO actualiza hoje os dados das assimetrias regionais portuguesas. De acordo com os últimos dados disponíveis da União Europeia (referentes a 2005), a economia portuguesa finalmente convergiu (pouco, é certo, mas convergiu) com a média da União Europeia. Mais interessante que uma comparação com os outros (por muito interessante que esta análise seja), vale a pena verificar o que se passa a nível regional em Portugal. Primeiro, o Norte e o Centro continuam a marcar passo. O Norte é já a região mais pobre do país. Claro que existem dois Nortes, o Porto/Minho e o resto, mas, mesmo assim, é significativo que a região nortenha continue estagnada.
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Em segundo lugar, a Madeira foi a única região do país que brilhou economicamente. Podemos achar isto ou aquilo de João Jardim. Podemos argumentar que não existe uma democracia real na Madeira. E podemos até não gostar do estilo mais popularucho do líder madeirense. No entanto, a verdade é que se Portugal tivesse progredido ao ritmo da Madeira na última década, não só não teria havido uma crise (assinalável), como também o nosso PIB per capita estaria muito perto da média europeia. Por isso, antes de criticarmos, vale a pena percebermos o que é que os madeirenses têm feito para conseguir progredir tanto nos últimos anos. Contrariamente à ideia (preconceito?) que vigora entre nós, o progresso da Madeira não é devido à nossa generosidade, não é por causa dos nossos subsídios. É muito mais que isso.
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Em terceiro lugar, é assinalável que a região de Lisboa continua a regredir em termos de níveis de vida. Com efeito, devido ao peso que a região tem na nossa economia, não é exagero dizer-se que a crise lisboeta (económica, não política) é um dos principais factores para a falta de convergência real da economia nacional em relação à economia europeia.
E quem é o culpado pelo declínio relativo da região lisboeta e da região nortenha? A incompetência governamental? O engordamento do Estado? A burocracia da Função Pública? Claro que esses factores não ajudam. E é por isso que reformar o Estado e diminuir a burocracia é tão fundamental. No entanto, o Estado não explica tudo. A nossa crise é mais do que isso. E as crises (da economia real) nas regiões lisboetas e nortenhas são tão ou mais importantes, tão ou mais culpadas, do que o nosso Estado balofo e burocrático.

O COMBOIO OBAMA

Mais um dia, mais três vitórias para Obama e para McCain. O último é cada vez mais o candidato dos Republicanos. Huckabee bem tenta, mas McCain continua com uma vantagem demasiado confortável para temer qualquer reviravolta de última hora.
No campo Democrata as coisas também começam a ficar mais definidas. Obama já tem mais delegados do que Clinton e o tão crucial "momentum" está definitivamente do seu lado.
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De facto, Obama ganhou e ganhou em grande. Big. Really Big. Na Virgínia teve mais votos do que a soma de todos os candidatos Republicanos. Ganhou em todos os grupos etários, empatou nos eleitores brancos e ganhou em todos os restantes grupos. Em Washington DC, venceu com 75% (!) dos votos dos Democratas e mesmo em Maryland teve 60% dos votos Democratas. Depois das vitórias no Maine, Nebraska, nas Ilhas Virgens e no estado de Washington, o comboio Obama parece cada vez mais imparável. Pode ainda não ser um TGV (e ainda bem, digo eu), mas o comboio Obama ganha cada vez mais velocidade. Se ganhar em Wisconsin e no Hawaii na próxima semana, será certamente o favorito para ganhar no Texas e em Ohio a 4 de Março.
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Hillary Clinton bem tenta desvalorizar as vitórias de Obama. A última justificação da campanha de Clinton passou por argumentar que Obama só está a ganhar em estados pequenos e que a senadora de Nova Iorque vai-se concentrar no Texas e em Ohio. Parece-me estranha esta opção. Afinal, será que Hillary não aprendeu nada com o tremendo falhanço da campanha de Giuliani? (Giuliani que se concentrou somente na Florida e ignorou os estados mais pequenos, perdendo irremediavelmente a atenção dos media e dos eleitores do resto do país). Com efeito, esta parece-me uma estratégia condenada ao fracasso. Alías, já se nota. Depois da directora da campanha, chegou a vez da sub-directora se demitir.
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E se olharmos para trás, quando se fizer a história desta campanha, daremos conta que o comboio Obama começou a ganhar velocidade após um erro estratégico dos Clinton. Quando Hillary parecia imbatível, eis que Bill surge no terreno a tentar denegrir Obama, acusando-o de ser um candidato afro-americano para os afro-americanos. A compará-lo (a reduzi-lo) com Jessie Jackson. Um disparate. E um erro. Um erro que poderá e deverá sair demasiado caro. Claro que nada disto retira mérito a Obama. Obama é diferente. Obama transcende raças e culturas. Obama é o candidato mais carismático pelo menos desde os tempos de Reagan. E isso diz muito deste afro-americano, filho de um emigrante queniano.
Depois do desastre que foi a presidência Bush, Obama poderá ser o paliativo necessário para a América curar as suas feridas, internas e externas. Esperemos que sim. Logo veremos.

A DESCULPA

A Austrália pede desculpa aos seus Aborigines.

O EURO E A COMPETITIVIDADE _ PERGUNTAS DOS LEITORES (5)

O António levanta novamente questões muito interessantes neste post. Irei responder à questão das reformas dentro em breve (o mesmo se passa com a pergunta sobre os impostos). Entretanto, o António pergunta:
"Gostava que você comentasse esta cegueira do BCE que parece achar que a economia europeia respira saúde e que está imune à recessão vinda dos USA. Não era sequer preciso a recessão americana para nos preocupar. Basta o elevado valor do Euro para permitir antever a curto prazo enormes dificuldades à economia europeia por perca de competitividade. Será que pode haver tanta miopia? Não se esqueça. Eu, pobre António declaro que vamos levar com uma valentíssima crise. Pode vir ao retardador. Mais vai ser do tipo pegajoso. Tipo alcatrão."
Como expliquei em parte neste post, o problema da inacção do BCE (Banco Central Europeu) resulta em parte do seu próprio mandato. Segundo os seus estatutos, o BCE tem só uma obrigação: a estabilidade dos preços. Nada mais. Contrariamente, a Fed tem dois mandatos, a estabilidade dos preços e obom funcionamento da economia. Quando existe uma crise na economia americana, a Fed pode e deve intervir. Quando existe uma crise na Eurolândia, o BCE não tem obrigação de o fazer. Principalmente quando a inflação não está completamente sob controlo, como acontece actualmente.
Ora, ao manter as taxas de juro inalteradas, o BCE claramente sabe perfeitamente que o euro vai-se valorizar ainda mais contra o dólar, afectando a competitividade das nossas empresas exportadoras (pois as exportações ficam mais caras). Porque é que o BCE não se interessa? Porque um euro forte significa importações menos caras, e assim as economias europeias importam o petróleo mais barato. Como o preço ouro negro tem estado muito elevado e como os preços dos produtos petrolíferos têm um grande impacto sobre a inflação de qualquer economia, um euro mais caro implica petróleo não tão caro e... menores pressões inflacionistas. E é só isso que o BCE se preocupa. Para bem e para mal.

12 fevereiro 2008

GORILAS MORTOS

Uma das fotografias vencedoras do World Press Photo Award 2008.

SUB-PRIME

Mais indícios que a crise do sub-prime se está a alastrar para outros sectores.

CORRECÇÃO DE EXAMES

A propósito do cartoon dos exames, um(a) leitor(a) disse "bem...neste caso...Espero que os meus exames sejam todos corrigidos na 1ª Hora!". A verdade é que... depende. Depende de quem corrige. Depende do estado de espírito de quem corrige (que varia ao longo da correcção). Depende dos exames já corrigidos. Uma coisa é certa: não conheço ninguém que goste de corrigir exames. Não por ser difícil. Mas por ser simplesmente aborrecido. Extremamente aborrecido. Uma seca. Principalmente com turmas grandes, em que se lê a mesma coisa uma e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra vez. (Só de pensar nisso dá arrepios...)
Pessoalmente, eu adoro ensinar (principalmente cadeiras sobre macroeconomia, e crescimento e desenvolvimento económico). E adoro fazer investigação. Corrigir exames é que não. Corrigir exames é sem dúvida a tarefa mais ingrata, mais aborrecida. Faz-se, mas sem prazer. Nenhum. E quem disser o contrário, quem afirmar que gosta de corrigir exames, provavelmente não está a ser completamente honesto(a).
Não quer isto dizer que a correcção de exames seja necessariamente mal feita ou seja feita de maneira incompetente. Mesmo que não se goste, mesmo que seja um sacrifício, corrigir exames faz parte da profissão. E tanto nos países onde leccionei, reparei que existe quase sempre uma grande correlação entre as notas que os(as) alunos(as) obtêm nas diversas cadeiras. Quer isto dizer que se um(a) aluno(a) é bom(boa) é porque o é e não porque esta ou aquela pessoa corrige bem ou mal os exames da sua cadeira. Claro que há excepções, mas esta é a regra.
Além do mais, apesar de não gostar de os corrigir, sou um grande adepto de exames. Se eu disser a um(a) aluno(a) que basta escrever um artigo para fazer uma cadeira, tenho a certeza que se irão concentrar em dois ou três temas das aulas e esquecer os outros. Ao fazerem exames, todos(as) são obrigados(as) a estudar toda a matéria, a tentar perceber o que está em causa. Por isso, em quase todas as cadeiras que lecciono, existem uma ou duas frequências e um exame final (com toda a matéria) e, muitas vezes, mais um ou dois trabalhos escritos. Com mais exames e trabalhos os(as) alunos(as) têm várias possibilidades de demonstrar o seu valor, aumentando a possibilidade da nota final ser um reflexo fiel do seu desempenho real.