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11 outubro 2010

O (QUASE) COLAPSO DO EURO

O Financial Times relata hoje a história do quase-colapso do euro na Primavera de 2010. Vale a pena recordar quão perto estivemos do abismo financeiro na Europa.

06 outubro 2010

OS FILHOS QUE PAGUEM A CRISE

"No período conturbado que se seguiu ao 25 de Abril de 1974 houve uma frase que se tornou emblemática. A frase era “os ricos que paguem a crise”, e significava que os mais abastados deveriam pagar a factura dos excessos do período (como se as nacionalizações e aumentos salariais de 30% não bastassem).
Actualmente, enfrentamos uma nova crise que tem contornos internacionais (e, assim, fora do nosso controlo), mas também nacionais (que não conseguimos controlar há uma década). E como nova crise que é, surgiu um novo lema. O lema actual é “os filhos que paguem a crise”, um lema que nunca é proferido, mas que está sempre latente na estratégia de combate à recessão.
Como é que os nossos filhos irão pagar a nossa crise? Através do crescente e preocupante endividamento que estamos a acumular todos os anos. Como é óbvio, a estratégia de “pedir” aos nossos filhos para pagarem a crise não se restringe a Portugal, pois a maioria dos países ocidentais também se endividou nos últimos anos.
No entanto, e como a crise nacional já se arrasta há uma década, nós temos sido verdadeiros recordistas do endividamento. Actualmente, estamos em todos os tops 20 do endividamento mundial. E quem pagará as nossas dívidas? Os governos futuros e os nossos filhos, como é óbvio. Com pais assim, como é que nos podemos admirar se, um dia, os nossos filhos se virarem para nós e nos acusarem de lhes termos arruinado a vida? Como é que nos poderemos surpreender se os nossos filhos se recusarem a pagar as nossas reformas, o nosso sistema de saúde, ou o nosso Estado Social?"

PS. Este é mais um dos meus artigos sobre a crise que foi publicado na minha colaboração regular com o Notícias Magazine

18 julho 2010

PORTUGAL NÃO É A GRÉCIA


Há umas semanas atrás, comecei a colaborar com o Notícias Magazine numa coluna onde escrevo sobre macroeconomia de uma forma descontraída. Às vezes escrevo para a revista ensaios mais longos. Este é um deles. Uma comparação entre Portugal e a Grécia.
"Nos últimos tempos, temos ouvido frequentemente que Portugal não é a Grécia. Porém, quantas vezes nos questionámos: o que é que significa «não ser a Grécia»? Afinal, se a crise nacional já dura há quase uma década, se o desemprego atinge níveis históricos e a emigração se aproxima perigosamente dos níveis das décadas de 60 e 70, será que não estaremos tão mal, ou quiçá até pior, do que a Grécia?
Comparemos então alguns indicadores, para podermos perceber a verdadeira situação dos dois países.

Melhor do que a Grécia
Se olharmos somente para as finanças públicas, há poucas dúvidas que Portugal está melhor do que a Grécia. Assim, enquanto a Grécia registou défices orçamentais a rondar os 8% do PIB em 2008 e os 14% em 2009, os nossos défices foram substancialmente mais baixos, tendo sido 2,8% do PIB em 2008 e 9,4% em 2009. Elevados, é certo, mas bem menores do que os défices helénicos.


Défice orçamental (% do PIB)
 
O mesmo se passa com a dívida pública. Este ano espera-se que a Grécia tenha uma dívida pública acima dos 120% do PIB, enquanto Portugal terá “somente” uma dívida pública à volta dos 85% do PIB nacional. Mais uma vez, demasiado elevada, é certo, mas menor do que a grega.


Dívida Pública (%do PIB)


Os gregos sofrem ainda de um grave problema de credibilidade. Na última década, os governos gregos manipularam sistematicamente as finanças do Estado para poderem entrar no euro e para evitarem as restrições do Pacto de Estabilidade, tendo também mentido descaradamente anos a fio sobre o real estado das contas públicas.
O défice de credibilidade das nossas contas públicas é considerável, mas não é tão grave como o grego. Nós também manipulámos as nossas contas públicas, inventámos receitas extraordinárias, e adiámos o pagamento de elevadas despesas públicas para o futuro quando construímos auto-estradas e hospitais através das chamadas parcerias público-privadas (que começam a ser pagas principalmente a partir de 2013). No entanto, a manipulação e maquilhagem das nossas contas públicas foi um pouco menos grave do que a grega.
Para além do mais, Portugal também efectuou importantes reformas na Segurança Social, que nos permitem ter maior sustentabilidade nas contas públicas, enquanto a Grécia tem evitado implementar estas reformas por receio da pressão da opinião pública e dos sindicatos.
Há, no entanto, toda uma série de indicadores em que nós estamos, infelizmente, piores do que a Grécia. São estes indicadores que nos tornam vulneráveis aos olhos dos mercados financeiros.

Pior do que a Grécia
Portugal está pior do que a Grécia em dois aspectos. Em primeiro lugar, a última década foi muito pior para a economia nacional do que para a economia grega. A nossa economia está praticamente estagnada há cerca de uma década, enquanto a economia grega cresceu a taxas apreciáveis até 2008.
Em segundo lugar, Portugal tem uma dívida externa muitíssimo mais elevada do que a Grécia. A dívida externa diz-nos quanto é que o país (isto é, as famílias, as empresas e o Estado) deve ao exterior, e neste campo estamos bastante pior do que os gregos. Como podemos ver no próximo gráfico, a nossa dívida externa bruta (i.e. total) já ultrapassa os 220% do PIB, enquanto que a grega é “somente” de 167% do PIB.
Dívida externa em % do PIB

É exactamente por causa da falta da estagnação económica e do nosso elevadíssimo endividamento externo que os mercados nos têm visto com tanta desconfiança.

Moral da história
Estamos ou não estamos melhores do que a Grécia? Depende para onde olharmos. Se atentarmos somente para as contas públicas, estamos definitivamente melhor, apesar de, infelizmente, não termos grandes motivos para nos regozijarmos. Por outro lado, se olharmos para o endividamento externo e para o crescimento da economia, então estamos claramente pior do que os gregos.
O que é que isto quer dizer? Estamos condenados a ficar “gregos” como a Grécia? Estaremos tão perto da bancarrota como os gregos já estiveram? A resposta correcta a estas questões é: não, pelo menos, não necessariamente. Contudo, se quisermos evitar um colapso de dimensões helénicas só temos um caminho a seguir: efectuar toda uma série de reformas (no Estado, na Justiça e no mercado laboral) que poderão tornar a economia nacional mais dinâmica, e as nossas exportações mais competitivas nos mercados internacionais. Resta saber se haverá coragem política para o fazer.


15 junho 2010

1,000,000,000,000 DE DÍVIDAS

Há muitas razões para que, apesar de tudo, a Alemanha e a França não deixem cair os países europeus em mais dificuldades. Uma das principais está aqui: 1,000,000,000,000 de dólares que os bancos franceses e alemães têm em activos das dívidas de países como a Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. Por isso, se uns cairem, os outros também não ficam incólumes. Se isto não é integração europeia, eu sinceramente não sei o que é.

25 maio 2010

CRISE RENOVADORA

A crise que vivemos é muito mais do que uma mera consequência da crise financeira internacional de 2008 e da crise da dívida soberana de 2010. A crise nacional é, acima de tudo, uma crise interna que se vem arrastando há quase 10 anos, e que se agravou consideravelmente nos últimos dois anos por influência destas crises internacionais. Porém, a convulsão das últimas semanas veio somente confirmar que o caminho que temos vindo a trilhar não é, de forma alguma, sustentável.
É igualmente patente que as últimas semanas foram a machadada final neste governo. O governo está completamente desacreditado, infinitamente descredibilizado e irremediavelmente desorientado. Não tem salvação possível. O governo só não cai porque seria irresponsável fazê-lo nesta altura em que os mercados financeiros ainda não estão serenados, e porque temos eleições presidenciais para o ano. Se não, o mais certo é que já estivéssemos a caminho de novas eleições ou já teríamos um governo de iniciativa presidencial. Mesmo assim, este é claramente o momento de começar a pensar e a preparar o futuro, e de debater os alicerces fundadores de uma nova política económica, que nos resgate do irrealismo e das irresponsabilidades dos últimos anos. 
_
A crise chegou a tais proporções que um próximo governo irá simultaneamente ter mais dificuldades em governar, mas mais facilidades em reformar. Será mais difícil governar porque terão que ser tomadas medidas corajosas que irão causar alguma contestação social e sindical, e porque as medidas de austeridade terão que continuar por algum tempo. Porém, o próximo governo terá igualmente condições quase únicas para poder efectuar reformas estruturais, principalmente ao nível do aparelho do Estado. E é esta a grande oportunidade da Grande Crise portuguesa. Esta poderá ser, de facto, uma autêntica crise renovadora, pois a gravidade da mesma oferece-nos uma oportunidade ímpar para efectuar uma reforma profunda e duradoura do nosso Estado. Uma reforma que poderá marcar as próximas gerações. É assim chegada a hora de inverter o excessivo despesismo do Estado, que debilita a nossa economia e fragiliza o sector privado. É chegada a hora de acabar com o crescimento desmesurado de um Estado cada vez mais desproporcionado à dimensão da economia nacional e financiado por um apetite fiscal excessivamente voraz. E é chegada a hora de acabar com o chocante clientelismo e inaceitável favoritismo do Estado.
Contrariamente ao que às vezes se pensa, Portugal não tem necessariamente que declinar. Portugal tem que se reformar. Para que tal aconteça, é preciso uma visão estratégica e vontade política. Para bem de todos, esperemos que o próximo governo esteja à altura deste desafio e de aproveitar esta crise para renovar Portugal.

20 maio 2010

DÉFICE ZERO ATÉ 2016

Uma das propostas do novo livro que estou a escrever é que um próximo governo devia fazer os possíveis para alcançar o equilíbrio orçamental o mais brevemente possível, um feito inédito no período democrático. A ideia era credibilizar a descredibilizada política económica e dar um sinal aos mercados que um próximo governo irá comportar-se de forma diametralmente oposta ao que se tem passado nos últimos anos. Como há um objectivo consensual de reduzir o défice orçamental para baixo de 3% do PIB até 2013, não é de todo despropositado ir um pouco mais longe e tentar alcançar o défice zero até 2016. É isso que defendo neste artigo no Jornal de Negócios. Para uma opinião diferente da minha, clique aqui.

14 maio 2010

IRRESPONSABILIDADES

Ontem provou-se que as irresponsabilidades do nosso passado recente se pagam muito, mas mesmo muito caro. E, claro, quem paga sempre a factura das irresponsabilidades dos nossos governantes são sempre os mesmos: os contribuintes e as gerações futuras. Quando é que Portugal irá mudar?

04 maio 2010

TRÊS CRISES

Um dos temas do meu novo livro (que estou actualmente a escrever) relaciona-se com as três grandes crises económicas que Portugal enfrenta actualmente (a crise das finanças públicas, a crise do endividamento e a crise da competitividade). Irei falar sobre estes temas nas próximas semanas enquanto escrevo o livro. Entretanto, fica aqui um pequeno depoimento que dei para o Expresso/Revista Exame, onde falo sobre o assunto:

03 maio 2010

RATING E GOVERNO

O Diário Económico fez-me umas perguntas sobre o corte do rating da dívida e sobre a minha avaliação em relação ao comportamento do governo. Aqui estão as minhas respostas: 
DE_ Com interpreta os recentes cortes do rating da dívida da S&P e de outras agências de rating a Portugal, Grécia e Espanha? Parecem-lhe exagerados?
Sim, parecem-me um pouco exagerados. Principalmente, o corte do rating da dívida portuguesa por parte da S&P pareceu-me demasiado drástico. Porém, temos que perceber por que é que estas agências o fizeram. Tal aconteceu porque as últimas previsões (do FMI) sobre o crescimento económico nacional se revelaram ainda piores do que o esperado. Ora, num cenário de prolongada estagnação económica e na ausência de cortes significativos na despesa pública estrutural, os mercados e as agências de rating consideraram que aumentou o risco de Portugal não cumprir as suas obrigações financeiras. Assim, parte do recente comportamento das agências de rating não é totalmente injustificado.

DE_ Como podem as autoridades estancar o mais depressa possível a subida das yields das obrigações soberanas e trazer, novamente, a normalidade aos mercados?
Duas coisas: primeiro, a Europa tem que decidir, de uma vez por todas, o que quer fazer, se ajudar a Grécia de uma forma peremptória ou deixá-la ir à falência (e, quiçá mesmo, sair do euro). Andar neste vai-não-vai é que não nos leva a lado nenhum e só reforça a crença dos mercados de que os europeus não sabem o que querem.
Em segundo lugar, as autoridades portuguesas têm de actuar decisivamente, apresentando um plano mais rigoroso e mais credível de combate aos desequilíbrios orçamentais. Não basta protestar em vão contra os mercados. O que interessa é mostrar-lhes que estão enganados. Como? Cancelando as grandes obras públicas e cortando na despesa pública.

DE_ Qual a avaliação que faz à forma como o governo está a lidar com a situação?
O governo é, sem dúvida nenhuma, largamente responsável pela situação actual. A prestação do governo já deixava muito a desejar pela aposta desenfreada em grandes obras públicas de utilidade muito duvidosa com recurso às parcerias público privadas (que só serão pagas a partir de 2013), e pela sistemática desorçamentação de despesas. Porém, nos últimos meses, o desnorte do governo acentuou-se, penalizando seriamente a credibilidade de Portugal.
Primeiro, por motivos eleitorais, o governo andou a fazer passar a ideia de que o défice orçamental seria muitíssimo mais pequeno do que realmente era. Em seguida, o governo fez tudo para adiar o anúncio do défice o mais possível e, quando o fez, foi por demais evidente que o plano de ataque ao défice e à dívida pública era muito insuficiente. Finalmente, o governo andou semanas sem actuar, tentando fingir que a crise da dívida soberana não tinha nada a ver connosco. Um erro crasso, como é evidente.
Em suma, a actuação do governo tem sido um verdadeiro desastre, um desastre que ainda iremos pagar muito caro.
 

30 abril 2010

A GRANDE SUSPENSÃO

Se não fosse tão triste, tão patético, e não fosse tão sintomático do momento que vivemos, este episódio até poderia ser divertido. Afinal, não é todos os dias que um ministro das Finanças dá a entender ao meio do dia que irá haver uma suspensão das grandes obras públicas, para logo mais tarde ser desautorizado por outro ministro. Com um governo assim, que melhores amigos poderiam ter os especuladores?

28 abril 2010

O DESNORTE

O desnorte do Ministro das Finanças continua e já foi inclusivamente notado pelos media internacionais, que já começam a ridicularizar Teixeira dos Santos...

22 abril 2010

RESGATAR PORTUGAL

Como resgatar Portugal da fúria dos mercados financeiros é o tema deste meu post no Portuguese Economy.

09 abril 2010

EVITAR A GRANDE DEPRESSÃO

Ben Bernanke defende que a acção pronta e concertada por parte das autoridades económicas e monetárias mundiais evitou que a economia internacional caísse numa nova Grande Depressão. Ou seja, apesar de a recessão ter sido bastante severa, se não fosse a intervenção das autoridades económicas dos diversos países, as coisas teriam sido bem piores. Para quem ainda tem dúvidas, vale a pena recordar este artigo, onde se comparam a Grande Depressão dos anos 1930 com a Grande Recessão actual.

26 março 2010

O RATING DOS OUTROS


Como em tudo na vida, vale a pena pôr em perspectiva os acontecimentos dos últimos dias. Como podemos ver no gráfico acima (retirado do New York Times), o aumento da dívida pública portuguesa não é caso único. Se atentarmos para o que tem acontecido desde 2008 nos EUA, na França, no Reino Unido e na própria Alemanha, veremos que a crise financeira internacional teve um impacto muito significativo na dívida pública dos diversos países. Portugal não foi excepção. Aliás, a descida de rating de Portugal também não foi excepção no mundo ou, pelo menos, não o será dentro em breve, pois fala-se que muitos países endividados poderão sofrer o mesmo destino. Entre estes contam-se os Estados Unidos. Nos últimos dias, a Moody's (outra agência de rating) avisou que o rating dos EUA poderia dentro em breve baixar de um perfeito AAA. O mesmo deverá acontecer ao Reino Unido, a braços com um rápido crescimento da dívida pública. Por isso, não são só a Grécia e Portugal que estão a sofrer com estes problemas. É claro que, mesmo assim, e apesar de haver uma tendência generalizada para o aumento da dívida pública, o que interessa mesmo para a sustentabilidade dessa mesma dívida são o crescimento económico (e a inerente capacidade de gerar receitas) e o plano de ataque ao endividamente crescente. 
E é aqui que estamos a sofrer as consequências da falta de credibilidade: os mercados e as agências de rating acreditam que o nosso crescimento económico vai continuar anémico (isto é, medíocre) e acham que o plano de combate à dívida é insuficiente, pois o corte nas despesas públicas estruturais é demasiado tímido e insuficiente. E enquanto não resolvermos estes problemas (isto é, enquanto não começarmos a crescer mais e/ou cortarmos significativamente na despesa do Estado), a nossa credibilidade junto dos mercados e das agências de rating continuará pelas ruas da amargura.

19 março 2010

OS ALEMÃES VÃO À LUTA

Como era esperado, os alemães vão à luta. Depois de, nos últimos dias, vários analistas terem pedido aos alemães para subirem os seus salários para reduzirem a sua competitividade (pois os salários subiriam em relação aos outros países europeus), chega agora a altura de os alemães recusarem esta possibilidade. A ideia é simples: por que é que haveriam de ser os alemães a pagar pelos erros e as irresponsabilidades cometidas pelos outros? Por que é que os alemães haveriam de afectar a competitividade da economia voluntariamente, se quem aumentou os custos laborais acima do que devia foram os outros (isto é, nós, os gregos, os espanhóis, etc)?
E agora pergunto: não terão os alemães razão nesta área? Por que razão haveriam eles(as) de se auto-mutilarem se eles(as) se comportaram de uma forma (quase) exemplar desde o início do euro?
Obviamente, os alemães têm razão. Não faz sentido fazê-lo. Só há um senão. É que, numa altura de crise, o bem-comum da União deveria sobrepôr-se aos interesses individuais e nacionais. Pelo menos seria assim numa união monetária "normal" (como nos Estados Unidos ou no Canadá). Porém, a união monetária europeia é tudo menos normal, pois não há união política. Numa união monetária normal, os ajustamentos seriam feitos não através de um aumento voluntário de salários nas regiões menos afectadas pela crise (como os alemães recusam), mas sim através da transferência de fundos das regiões mais ricas para as mais pobres e, claro, através da emigração. Como a UE não prevê essa solidariedade fiscal de transferências de fundos, resta-nos ajustar a economia com mais desemprego, mais desinflação e mais... emigração. E, claro, procurar outras soluções milagrosas e bem menos penosas, que ainda ninguém descobriu. (E quem sabe se não é o TGV????).

18 março 2010

A CULPA É DA ALEMANHA

Mais um artigo interessantíssimo de Martin Wolf, que acusa a Alemanha e a China de tentarem impôr uma estratégia deflacionária aos restantes países do mundo, e, por consequência, aos seus maiores parceiros económicos. A ideia é simples. A China e a Alemanha têm excedentes comerciais fabulosos, mas, em vez de tentarem financiar os seus (países) clientes numa altura recessiva, estão a insistir dogmaticamente em soluções  que somente vão agravar o mal-estar de todos. A China insiste em desvalorizar a moeda, prejudicando a recuperação das exportações dos seus principais clientes (e concorrentes), como os Estados Unidos. Por seu turno, a Alemanha continua a tentar impôr uma disciplina orçamental férrea a alguns dos seus maiores parceiros económicos (e compradores de bens alemães). Ou seja, a Alemanha quer exportar deflação para países que são seus clientes. Como as medidas de austeridade levarão necessariamente à descida da procura agregada, (isto é, o consumo e o investimento baixarão) a exportação da deflação por parte da Alemanha irá necessariamente levar a uma redução da procura dos próprios bens alemães. Uma estratégia suicida, portanto. Um estratégia de tal modo suicida por parte de duas importantes economias mundiais que, de acordo com Wolf, poderá conduzir ao fim da globalização actual.
Vale também a pena citar esta frase em relação à Alemanha: 
"Germany is in a supposedly irrevocable currency union with some of its principal customers. It now wants them to deflate their way to prosperity in a world of chronically weak aggregate demand."

20 janeiro 2010

A TRAGÉDIA GREGA

Um excelente artigo de Martin Wolf sobre a "tragédia grega", que vale a pena ler, principalmente por causa das consequências que uma falência da Grécia ou, heresia das heresias, um abandono do euro nos poderia provocar.

21 setembro 2009

OS OUTROS

Uma das consequências mais graves da actual crise internacional tem sido o aparecimento de défices orçamentais gigantescos, que ameaçam fazer "explodir" as dívidas públicas nacionais. Por enquanto, quase todos concordam que a prioridade tem que ser o combate à crise. O défice é um problema cuja resolução terá que esperar. Faz todo o sentido, principalmente devido ao acentuado crescimento do desemprego. Contudo, fora de Portugal, já muitos começam a debater o que fazer para fazer travar o descontrolo das contas públicas.
Em Espanha, o primeiro-ministro propõe um aumento de impostos na ordem dos 1,5% do PIB para fazer face ao crescimento do défice orçamental. Em Inglaterra, todos (repito, todos) os principais partidos políticos debatem que despesas é que se irão cortar para lutar contra o défice orçamental. E em Portugal? Será que nos preocupamos com isso? Claro que não. Para quê? Afinal o défice do subsector Estado só subiu 154% nos 8 primeiros meses do ano.
Mas não faz mal. O dinheiro há-de dar para tudo. Para TGVs, para auto-estradas, para novos aeroportos, para ajudas às PMEs, para aumentar os salários acima da inflação, para Planos Tecnológicos, para para para...
É que, como sabemos, as regras que se aplicam aos outros não se aplicam a nós. E, se é assim, para quê nos preocuparmos?

14 julho 2009

OS PARTIDOS E A CRISE

Estamos a dois meses e meio das eleições e, sinceramente, ainda não vi uma discussão (ou um plano sequer) dos principais partidos portugueses sobre as medidas que precisamos de tomar para combater a crise estrutural que a economia portuguesa vem vivendo na última década. Suspender as grandes obras públicas certamente não chega e continuá-las ainda menos. Se se fala em apoiar as PMEs, como é que tal vai ser feito e com que impacto nas contas públicas? Como é que os partidos tencionam ajudar a economia a fazer a transição de um modelo baseado em salários baixos e baixa produtividade para outro com maior produtividade? Que sectores vamos privilegiar? Como vamos fazê-lo? Como vamos aumentar os apoios às exportações? Como é que vamos estimular uma maior diversificação dos destinos das exportações? Haverá lugar para cortes de impostos? Se sim, quais e como? Como é que o combate ao desemprego vai ser feito? Através do investimento público ou de um maior estímulo à criação de empresas?
Estas são algumas das questões (entre outras) que eu gostaria de ver respondidas pelos partidos políticos. Infelizmente, até agora, sabemos pouco ou nada sobre o que é que os partidos pensam sobre estes assuntos. Esperemos que a situação mude até às eleições.

13 maio 2009

GRANDE DEPRESSÃO OU GRANDE RECESSÃO?

Gráfico 1 _ PIB mundial na década de 1930 e actualmente
Dois ilustres historiadores económicos, Barry Eichengreen e Kevin O'Rourke, compararam o que aconteceu à economia mundial durante a Grande Depressão e durante os primeiros meses da recessão actual. Os investigadores chegaram à conclusão que a descida do PIB mundial desde Abril de 2008 tem sido tão acentuada como durante a Grande Depressão (ver gráfico acima). Pior, na crise actual os mercados financeiros mundial e o comércio internacional já desceram ainda mais do que na década de 1930. Quer isto dizer que estamos mesmo numa nova Grande Depressão? À primeira vista, parece que sim. No entanto, como já aqui falámos e como estes investigadores demonstram aqui, a grande diferença entre a Grande Depressão e a crise actual tem ocorrido ao nível da resposta da política económica. Esssencialmente, desde Abril de 2008, as taxas de juros já desceram muito mais depressa do que durante a Grande Depressão, oferta monetária tem aumentado muito mais depressa do que então (gráfico abaixo) e os governos têm aumentado os défices orçamentais a um ritmo muito superior. Por outras palavras, tanto a política monetária como a política fiscal têm sido muito mais agressivas (e expansivas) actualmente do que na Grande Depressão. Isto é, os governos e os bancos centrais aprenderam as lições do período da Grande Depressão e têm actuado mais rapidamente. Resta saber se vai resultar. É verdade que já há indícios que algumas economias na OCDE têm dados sinais que poderão estar a começar a recuperar, mas ainda é cedo para termos certezas.

Gráfico 2 _ Oferta monetária mundial na década de 1930 e actualmente
PS. Gráficos retirados daqui