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28 abril 2008

FOME MUNDIAL

João César das Neves assina hoje no DN um artigo de opinião sobre a subida dos preços alimentares. Vale a pena ler. Aqui fica um pequeno extracto:
"Qual a origem deste surto altista? Uma causa imediata é a queda do dólar. Em euros, as subidas são bem menores (trigo 88%, arroz 55% e milho 19%) mas ainda significativas e no trigo mantêm-se as mais elevadas no registo. Por outro lado, descontada a inflação, os preços, mesmo em dólares, ainda estão bastante abaixo dos valores do início dos anos 80. As matérias-primas registaram uma tendência decrescente nas últimas décadas, agora invertida. O fantasma global ainda vem longe."

27 abril 2008

PREÇOS DOS ALIMENTOS

O PUBLICO tem hoje uma série de artigos muito interessantes sobre a subida dos preços alimentares a nível mundial. Já aqui falámos sobre o assunto, e dentro de uns dias irei escrever mais posts sobre as causas e consequências do aumento dos preços. Entretanto, aqui ficam uns gráficos do Banco Mundial:
No primeiro gráfico, vemos que os preços alimentares a nível mundial aumentaram 75 por cento desde o ano 2000. O problema deste índice é que os números estão em dólares americanos, e é sabido que dólar depreciou-se consideravelmente nos últimos anos.





Por outro lado, o preço do trigo (em dólares) nos mercados mundiais aumentou 200 por cento desde o ano 2000, subida que foi principalmente acentuada no último ano:

26 abril 2008

POBREZA MUNDIAL (4)

Se o mundo está cada vez mais desigual (devido ao crescimento económico) o que é que podemos fazer para diminuir a pobreza mundial?
Primeiro, os países subdesenvolvidos têm que melhorar os seus governos e respectivas políticas económicas. Uma das maiores lições dos últimos 200 anos é que é não há receitas mágicas para o desenvolvimento. De facto, é muito mais fácil destruir do que construir uma economia. Destruir é simples. Se um governo imprimir dinheiro desmesuradamente, deixar sobrevalorizar excessivamente a moeda nacional, criar défices excessivos, deixar crescer a dívida pública de forma desmedida, ou se fomentar a corrupção, então os incentivos dos agentes económicos serão distorcidos e o crescimento económico morrerá. Por outro lado, construir uma economia é muito mais difícil. Contudo, políticas macroeconómicas estáveis e responsáveis, conjuntamente com o estabelecimento de instituições que protejam os direitos de propriedade são importantes pré-condições para o desenvolvimento económico.
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Em segundo lugar, é crucial que depois de um período mais proteccionista, a estratégia de desenvolvimento privilegie o comércio com o exterior, como o exemplo das economias asiáticas bem demonstra. Finalmente, é imperioso que as economias subdesenvolvidas diminuam o grau de corrupção existente em muitos desses países. A corrupção é extremamente penalizadora para o desenvolvimento económico não só porque muitos importantes recursos são desviados para fins duvidosos, mas também porque os incentivos à produção são distorcidos. De facto, muitos países subdesenvolvidos nunca poderão aspirar a uma melhoria significativa das suas populações enquanto não diminuírem esse cancro das economias chamado corrupção.
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Porém, a eliminação da pobreza deverá ser alcançada não só com políticas internas, mas também através do auxílio dos países desenvolvidos e organizações internacionais. O que podemos então fazer para ajudar?
Primeiro, é preciso darmos conta que a ajuda externa deverá ser utilizada principalmente para emergências. Se os elementos fundamentais de uma economia não estiverem correctos, então não há ajuda externa que valha. Segundo, contrariamente a muitas correntes de opinião, reduzir o crescimento populacional não é suficiente para os países se desenvolverem. De facto, quase sempre é o crescimento económico que conduz a um decréscimo do crescimento populacional, e não ao contrário. Terceiro, o perdão da dívida externa dos países subdesenvolvidos não contribuirá para a eliminação da pobreza se esse perdão for utilizado para fins que não sejam o do desenvolvimento. Se a dívida externa for perdoada a um governo corrupto, quais são as garantias que temos que os pobres desse país irão beneficiar da nossa generosidade? Porque deverão os nossos contribuintes financiar governos corruptos? Deste modo, tanto a ajuda externa como o perdão de dívidas deverão ser somente atribuídos a governos que demonstrem que estão genuinamente interessados em eliminar a pobreza nos seus povos.
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Finalmente, os países desenvolvidos deveriam abrir mais os seus mercados aos países subdesenvolvidos. Atrás de uma retórica de protecção de “sectores sensíveis”, a UE, os EUA e Japão têm sistematicamente encerrado os seus mercados aos produtos mais exportados pelos países subdesenvolvidos. Ora, se quisermos realmente ajudar diminuir a pobreza a nível mundial, a abertura dos mercados tem que ser bidireccional e não ter apenas um sentido.
Em suma, a pobreza de mais de dois terços da humanidade é o problema mais premente que a economia mundial enfrenta actualmente. Existem muitos obstáculos ao desenvolvimento económico de muitas regiões, tais como guerras, o flagelo da SIDA, e corrupção endémica. Porém, a nível do desenvolvimento económico, o recente sucesso da China e da Índia dão-nos a esperança de que no futuro é mesmo possível termos um mundo melhor e eliminarmos a pobreza das nações.

23 abril 2008

POBREZA MUNDIAL (3)

Como já aqui debatemos, um dos maiores desafios para a economia mundial relaciona-se com a extrema desigualdade de rendimentos existente. Esta desigualdade de rendimentos é um facto relativamente recente da História Universal, visto que há 200 anos atrás não havia uma grande diferença de rendimentos entre os países mais ricos e os mais pobres. Contudo, a força do crescimento económico sustentado ao longo dos últimos dois séculos, conjugada com o baixo crescimento dos países mais pobres, foi suficiente para criar um fosso nunca dantes visto.
Ora, quais são então os motivos para o subdesenvolvimento de grande parte do globo? Em primeiro lugar, a pobreza das nações é muitas vezes associada com a irresponsabilidade dos governos. Em muitas partes do mundo, sucessivos governos não só têm sistematicamente destruído o crescimento dos seus países, como também têm comprometido o desenvolvimento económico para as gerações futuras. Quais os sintomas de um mau governo? axas de inflação demasiado elevadas, distorções da taxa de câmbio, baixas taxas de literacia, parco investimento na educação, infra-estruturas sofríveis, e outros impedimentos dos mercados.

Segundo, a corrupção em muitas partes do mundo em desenvolvimento é um verdadeiro cancro que aniquila o desenvolvimento. A corrupção destrói os incentivos à produção, e quando é endémica, é difícil haver crescimento económico.
Terceiro, a falta de recursos poderá contribuir para a persistência da pobreza nalguns países subdesenvolvidos (como a Papua Nova Guiné). Mas, às vezes é a abundância de recursos que não ajuda. Em países como a Nigéria (que têm abundantes recursos petrolíferos), as rendas associadas a esses recursos são frequentemente utilizadas para fomentar a corrupção das elites em vez de melhorar os rendimentos dos mais pobres. Assim, a falta ou abundância de recursos não é provavelmente suficiente para explicar a pobreza das nações.
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Finalmente, um dos grandes problemas que os países em desenvolvimento enfrentam é a falta de instituições que não só salvaguardem os direitos de propriedade, mas também aumentem os incentivos à produção. Sem direitos de propriedade bem definidos não existem incentivos à produção, e o crescimento económico é comprometido.
Em suma, o subdesenvolvimento de largas partes do mundo deve-se a uma série de factores, alguns dos quais (como a colonização, etc) nem sequer foram aqui abordados. Alguns destes factores são internos, outros externos. Não existe uma só causa comum. É exactamente por estes factores serem tão complexos que é tão difícil para os países subdsenvolvidos sairem das suas armadilhas da pobreza. E é por isso que cada país que o faz deve ser enaltecido e admirado por ter engendrado tamanho milagre. O milagre do desenvolvimento.

20 abril 2008

VENTOS DE MUDANÇA


Na última década, um dos países do mundo que tem registado das mais altas taxas de crescimento económico no mundo é o Vietname. Tal como Moçambique, este país asiático ultrapassou enormes barreiras e desafios para finalmente alcançar o milagre do desenvolvimento. O Vietname nunca mais será o mesmo. Esta semana os vietnamitas lançam o seu primeiro satélite para o espaço.

18 abril 2008

A NOVA PESTE NEGRA

Em meados do século 15, a peste bubónica ou Peste Negra dizimou grande parte da população europeia. A situação foi tão grave, que em certos países a população diminuiu em cerca de 25 a 30 por cento, o que contribuiu para o fim do sistema feudal. Salvaguardando os devidos contextos históricos, existem alguns paralelos interessantes entre a peste bubónica e a maior epidemia da nossa História recente, o HIV/SIDA. Para muitos países subdesenvolvidos, com o maior desafio ao seu desenvolvimento económico e à saúde pública é mesmo o vírus HIV/SIDA.
Os números do flagelo da SIDA são absolutamente aterradores, principalmente na Africa Subsaariana. Segundo dados do Banco Mundial, até ao ano 2001, mais de 15 milhões de pessoas tinham morrido devido ao vírus da SIDA. Em 2003, existiam cerca de 40 milhões de adultos portadores do vírus HIV/SIDA, 30% dos quais tinham entre os 10 e 24 anos. Dois terços dos portadores do vírus encontram-se na África Subsaariana, onde se registam mais de 83% das mortes relacionadas com o vírus da SIDA. Países como a Africa do Sul, a Namíbia, o Quénia, Moçambique, a Tanzânia, a Zâmbia e o Zimbabué têm entre 10 e 26 por cento das suas populações entre os 15 e os 49 anos infectadas.
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Esta epidemia de proporções históricas representa o mais sério obstáculo ao desenvolvimento económico de toda a região Subsaariana. Por exemplo, nos últimos 35 anos o Botswana tornou-se num modelo de sucesso sem paralelo em Africa. Desde a sua independência, o Botswana passou de um dos países mais pobres do mundo na década de 60 para um pais de rendimento médio, com um PIB per capita de $7,800 em 2003. Contudo, o Botswana é actualmente um dos países mais afectados pelo vírus HIV/SIDA, com cerca de 40% da sua população infectada. No Botswana, o vírus da SIDA tem assim o potencial de eliminar grande parte dos ganhos resultantes do milagre económico das últimas décadas. O mesmo se passa em muitos outros países.
O vírus da SIDA tem também reduzido dramaticamente a esperança de vida das populações mais afectadas, a mortalidade infantil tem aumentado desproporcionalmente e um número sem precedentes de órfãos tem surgido devido a esta epidemia. Estima-se que somente em Africa existam mais de 10 milhões de órfãos resultantes do vírus da SIDA. Uma tragédia de proporções dantescas.

16 abril 2008

NOVAMENTE A POBREZA MUNDIAL

A propósito deste post do Pedro Lains e este do Manuel Fonseca, vale a pela relembrar que a pobreza mundial tem decrescido um pouco por todo o mundo, tanto a nível relativo quer absoluto (alguns números já foram apresentados aqui). A razão? Na última década, os países subdsenvolvidos registaram as mais altas taxas de crescimento económico desde sempre. Países anteriormente alegadamente condenados ao fracasso e à miséria têm conseguido emerger das cinzas da pobreza e, aos poucos e poucos, têm alcançado verdadeiros milagres económicos. Estes factos não são de conhecimento geral, porque os media quase sempre preferem enfatizar as desgraças em vez dos sucessos. Mas há sucessos e muitos. Dito isto, uma grande camada da população mundial (o "Bottom Billion" do Paul Collier) permanece desesperadamente pobre. Mesmo assim, nunca houve tanta esperança, nunca houve tanto desenvolvimento como agora. Esperemos que a subida dos preços dos produtos alimentares e/do petróleo não façam descarrilar esta autêntica locomotiva do desenvolvimento.

09 abril 2008

PREÇOS ALIMENTARES

Mais um aviso da ONU sobre o impacto da subida dos preços alimentares nos países subdsenvolvidos. O ONU prevê um aumento do número de protestos e de conflitos nos países mais vulneráveis e instáveis. Ou seja, segundo a ONU, a própria segurança mundial está em jogo devido à subida dos preços alimentares. Um pouco dramático demais, mas aqui fica o aviso.

08 abril 2008

AS VACAS E OS POBRES

FACTO:
Sabia que as vacas na União Europeia ganham mais do que a grande maioria das pessoas do mundo? Cada vaca europeia recebe mais de 2 dólares por dia em subsídios, enquanto dois terços das pessoas do mundo vivem com menos de 2 dólares por dia.

07 abril 2008

COMO SALVAR O MUNDO

A Madre Teresa do Desenvolvimento Económico, o famoso e controverso Jeffrey Sachs, tem um novo livro ("Common Wealth: Economics for a Crowded Planet") e mais algumas receitas mágicas de como salvar o mundo e de como resgatar os países subdesenvolvidos da pobreza extrema. Ainda não li o livro, mas parece-me mais do mesmo do que Sachs defendeu no "Fim da Pobreza" (já publicado em Portugal). Isto é, mais ajuda externa, mais perdão das dívidas externas, mais ajuda dos países ocidentais. Ou seja, nada de novo. A propósito do seu novo livro, o Guardian entrevista Sachs aqui.

28 março 2008

PAREM COM A AJUDA EXTERNA!

Um economista queniano faz um apelo aos países desenvolvidos: por favor parém com a ajuda externa dos últimos 40 anos. De acordo com James Shikwati, se o Ocidente quiser mesmo ajudar os países sudesenvolvidos, a melhor forma de o fazer é investir mais. Segundo ele, a ajuda externa é contraproducente e não chega às populações que dela de necessitam (mas sim a diversos organismos governamentais), mas sim às burocracias governamentais. Nada disto é completamente novo, mas vale a pena reiterar.

18 março 2008

POBREZA MUNDIAL

Níveis de Pobreza da População (em percentagem)
Dados do Banco Mundial


Contrariamente aos que pensam que tudo vai mal, aos que julgam que a globalização é um papão destinado a explorar os mais fracos, aos que estão certos que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, existem cada vez mais indícios que algo de novo se passa na economia mundial. Não, não é a tão temida "maior crise desde a segunda guerra mundial". Não, não é a internet que dá azo a uma nova economia. Nem sequer é a estagflação que poderá estar a ser ressuscitada pela subida dos preços do petróleo e dos produtos alimentares. Não, não é nada disso.

O facto mais significativo da economia mundial nos últimos 5 anos é que todas as regiões do globo têm registado taxas de crescimento económico significativas e que, por isso, a pobreza tem decrescido a olhos vistos. Mesmo na África Sub-sahariana. Mesmo na América Latina.
Quem disse que o crescimento económico era um privilégio dos países ricos?

08 março 2008

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES

Hoje é o Dia Internacional das Mulheres. Entre nós, (quase) não é preciso de um dia para nos lembrar da importância das mulheres. Mas o mesmo não se passa em tantos e tantos países. A nível económico existe cada vez mais a percepção que as mulheres são fundamentais para o desenvolvimento económico. A literacia das mulheres é simplesmente o factor mais importante para a diminuição da mortalidade infantil e para o controlo da fertilidade. A educação das mulheres é uma das mais importantes via rápidas para o desenvolvimento económico.

POBREZA MUNDIAL (2) _ PERGUNTAS DOS LEITORES

A Gi pergunta: "Segundo uma teoria que ouvi recentemente, é natural que países como a Índia ou a China, ou os países do leste europeu, cresçam mais depressa do que os países desenvolvidos porque têm mais que crescer.Ou seja, a Europa e a América do Norte já atingiram níveis de desenvolvimento tais que os incrementos são relativamente pequenos, enquanto a Índia, etc, ainda têm muito que progredir, e qualquer progresso tem maior impacto.Não sei se me consegui explicar (probably as clear as mud). À primeira vista, faz sentido, mas parece contradizer o facto de os países mais prósperos terem crescido mais depressa até aqui.Quanto aos realmente atrasados (Chade, Moçambique, Timor) parecem nem saber como começar...O que lhe parece, Álvaro?"
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A teoria está perfeitamente correcta e está na mesma linha do que as principais teorias de crescimento económico. Esta é a chamada (e famosa) convergência real. Os países ricos têm uma grande abundância de recursos (e de capital, tais como fábricas, edifícios, etc) enquanto os mais pobres têm uma grande escassez. Deste modo, acrescentar uma unidade adicional de capital num país avançado tem um retorno mais pequeno do que num país pobre. Isto é, construir uma fábrica nos Estados Unidos não irá acrescentar muito ao produto nacional americano, enquanto uma nova fábrica no Chade tem um grande impacto.
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Isto nem sempre se verifica (isto é, a maior parte dos países pobres continua a crescer a taxas mais baixas do que os países ricos), mas é esta lógica que explica (parcialmente) porque é que países como Singapura, a Coreia o Botswana e até Portugal cresceram e crescem a taxas mais elevadas do que as economias mais avançadas.
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E já agora, é verdade que a maioria dos países pobres "não sabe" (ou "não pode") onde começar, mas esse não é o caso de Moçambique, que é um autêntico milagre económico ou em vias de se tornar. (Dentro de uns dias escreverei um post sobre este tema.)

07 março 2008

POBREZA MUNDIAL


Os países desenvolvidos produzem cerca de 77 por cento da produção total mundial, apesar de possuírem menos de 15 por centro da população mundial. O rendimento médio de um americano é de cerca de $30,000, enquanto o rendimento médio no Chade, na Serra Leoa, ou na Etiópia não ultrapassa os $400. Cerca de dois terços dos habitantes do mundo não têm mais do que $2 por dia para se sustentarem, e mais de metade destes habitantes possuem menos de $1 por dia.
Existem actualmente cerca de 30 milhões de pessoas em risco de morrer à fome um pouco por todo o mundo subdesenvolvido. Os países mais pobres têm taxas de mortalidade infantil que chegam a atingir 200 por mil nados vivos. Mais de 500 mil mulheres africanas morreram na última década devido a complicações durante o parto. A grande maioria destas mortes é devida a falta de recursos elementares, tais como a falta de oxigénio ou a falta de pessoal especializado.
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Como explicar esta desigualdade de rendimentos a nível mundial?
A grande causa das desigualdades extremas de rendimento é o crescimento económico. Há cerca de 200 anos atrás, os países mais ricos tinham um rendimento per capita apenas do dobro dos mais pobres. Desde então, os países desenvolvidos atingiram taxas de crescimento económico per capita acima dos 2 por cento ao ano, enquanto muitos dos actuais países subdesenvolvidos registaram taxas de crescimento abaixo de 1 por cento. A força do crescimento económico composto durante tantas décadas significa que essas diferenças entre as taxas de crescimento foram suficientes para criar um fosso significativo entre os países mais ricos e os mais pobres. Actualmente, os países mais ricos têm um rendimento cerca de 45 vezes maior do que os países mais pobres.
Como os países desenvolvidos registaram taxas de crescimento positivas durante cerca de dois séculos, a desigualdade económica mundial irá persistir durante várias décadas. Se não vejamos. Mesmo se crescesse a 7 por cento ao ano, para que um país como a Índia atingisse os actuais níveis de rendimento per capita dos Estados Unidos seriam precisos cerca de 40 anos (!). Se a Índia crescer a cerca de 3 por cento ao ano, então seriam precisos cerca de 90 anos para um indiano médio desfrutar do rendimento médio americano actual. Para países como o Chade, Angola, Moçambique, entre muitos, muitos, outros, o processo de convergência económico levará muito mais tempo.
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Moral da história: quer gostemos quer não, as desigualdades de rendimentos a nível mundial estão aí para ficar por muito, muito tempo. Nenhuma política de redistribuição poderá resolver efectivamente este problema. Qual é a solução? Só há uma forma de atenuar as desigualdades de rendimentos: os países mais pobres têm que crescer mais rapidamente do que os mais ricos. Este é o desafio económico mais premente e mais importante da economia mundial para as próximas décadas.

25 fevereiro 2008

POBREZA NACIONAL

O PUBLICO e o DN destacam nas suas edições de hoje as crianças em risco de pobreza em Portugal. Na União Europeia (a 25, isto é, sem a Roménia e a Bulgária), pior que nós só a Polónia. O relatório e os dois jornais realçam o crescente desemprego e o baixo nível de escolaridade como as principais justificações para o nosso fraco desempenho a nível da erradicação da pobreza.
O PUBLICO diz-nos: "68 por cento das crianças portuguesas vivem com pais com o ensino secundário incompleto. quanto menor a escolaridade dos pais, maior o risco de pobreza das crianças. É, talvez, um dos dados mais chocantes presentes no relatório europeu: em Portugal, 68 por cento (contra 16 de média eu-ropeia) das crianças vivem com pais que não concluíram os estudos secundários. Oitenta e oito por cento das crianças portuguesas em risco de pobreza vivem em agregados com estas baixas qualificações. É o patamar mais elevado de desqualificação na UE"
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O DN afirma: "A percentagem de jovens até os 24 anos com baixa educação secundária era de 39% em 2006 (ano lectivo de 2004-2005), a segunda pior de toda a União Europeia, a seguir a Malta. A taxa de abandono escolar baixou entretanto para valores da ordem dos 35%, mas, ainda assim, Portugal continua, neste campo, na cauda da União Europeia."
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Estes são, sem dúvida, indicadores que nos envergonham e que demonstram o muito que há ainda por fazer, o muito que há para progredir. O pior de tudo é que existem camadas da nossa população numa armadilha de pobreza de difícil resolução, tanto no interior do país, como nalgumas zonas urbanas. O nosso desempenho educativo ainda é extremamente sofrível (mesmo em relação às camadas mais jovens), e o abandono escolar ainda é demasiado elevado. Estes dois factores perpetuam o ciclo de pobreza entre as diversas gerações.
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Urge, obviamente, acabar com este tipo de situações. Como? É patente que os grandes programas de diminuição da pobreza, são sexys, bonitos, e dão uns bonitos títulos de jornal. Até podem ajudar a ganhar eleições. Mas, não bastam. Mais do que grandes projectos de combate à pobreza e exclusão social, com rendimentos garantidos e com grandes ideais sem grande relevância prática, precisamos de introduzir um conjunto de medidas que penalizem ainda mais o abandono escolar e que forneçam os incentivos necessários para que a pobreza e a falta de qualificações não se perpetuem geração atrás de geração atrás de geração.

21 fevereiro 2008

A RELEVÂNCIA DA ECONOMIA

O New York Times tem um artigo interessante sobre a relevância da ciência económica. Devido à matematização desenfreada da Economia nas últimas décadas, os economistas alienaram-se a si próprios. Assim, durante demasiado tempo, a Economia foi vista com suspeição tanto por outros cientistas sociais como pelo público em geral. Nos últimos dez anos as coisas têm mudado, não só porque os economistas têm feito um esforço para explicar os seus achados num linguagem mais acessível (em livros como Freakonomics, entre outros), mas também porque têm levado a cabo investigações em novas áreas que prometem ter um impacto real na vida de muitos milhões de pessoas.
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É o caso da luta contra a pobreza extrema e a busca de políticas mais eficazes a nível da ajuda externa. Durante décadas, demos dinheiro aos países subdesenvolvidos sem questionar quer a sua relevância quer o seu impacto. Não interessava se o dinheiro ia para governos corruptos ou se a ajuda externa tinha uma influência negativa na taxa de câmbio. Obviamente, esta política não resultou e muitos questionaram (e descreditaram) a relevância da ajuda externa.
Como este artigo do NYT refere, nos últimos tempos, a investigação económica tem feito grandes progressos a nível da teoria do desenvolvimento económico e existem agora novas perspectivas sobre como melhorar as condições de vida de centenas de milhões de pessoas em situação de pobreza extrema. Quem disse que os(as) economistas não têm coração?

18 janeiro 2008

LIVROS A TRADUZIR

A secção de Economia do PUBLICO de hoje propõe 9 livros de Economia e Gestão que deviam ser traduzidos para português. Vale a pena ler. As minhas sugestões foram "The White Man's Burden" (já debatido aqui) de William Easterly, e "The Bottom Billion" de Paul Collier. Aqui está a minha breve recensão sobre o livro de Collier (na foto):
Um dos livros mais influentes em 2007 foi The Bottom Billion de Paul Collier. De acordo com Collier, a grande maioria dos países do mundo é desenvolvido ou está em vias de o ser. A grande excepção acontece nalguns países (quase todos em África) onde vivem cerca de mil milhões de pessoas (que Collier apelida de “Bottom Billion”). Nestes países o nível de miséria é tal que não existe grande esperança que sejam capazes de escapar às suas armadilhas de pobreza. Estes países estão prisioneiros na pobreza extrema devido a quatro tipos de armadilhas: conflito endémicos, a maldição dos recursos naturais, não ter acesso ao mar e ter maus vizinhos, e/ou maus governos. Este é um livro provocador que preconiza como solução para o problema um misto de ajuda externa (à la Jeffrey Sachs) e melhoria da governabilidade e das políticas económicas (como defendido por Easterly).

12 janeiro 2008

O MILAGRE DA ÁFRICA SUBSAARIANA

Sim, leu bem. Milagre. Se as previsões do Banco Mundial para 2008 se concretizarem, a África Subsaariana irá crescer em média 6.4 por cento. Seis vírgula quatro por cento! Mantém-se o bom desempenho dos últimos anos. Quem disse que de África só vinham más notícias?

06 janeiro 2008

PORQUE É QUE O QUÉNIA É IMPORTANTE


Nos últimos anos, vários economistas e politólogos têm investigado os efeitos da fragmentação étnica sobre a democracias e o crescimento económico. Vários estudos demonstram que países com uma maior fragmentação étnica tendem, em média, a ter mais conflitos, menos democracia e mais fraco desempenho económico. Qual é a região do mundo com maior diversidade étnica? África. Com efeito, a fragmentação étnica é muitíssimo maior em África do que em qualquer outra região do globo, com a excepção da Papua Nova Guiné (que não é propriamente conhecida por ser uma região muito desenvolvida).
Ora, os (potenciais e reais) conflitos relacionados com a fragmentação étnica africana foram agravados pelos colonos europeus quando, no século 19, dividiram África em países com fronteiras perfeitamente arbitrárias, sem tomar em linha de conta as divisões étnicas existentes.
Vários trabalhos têm mostrado (ou sugerido) que grande parte da tragédia económica (e militar) africana é resultante deste factor. O Quénia é um caso extremo das divisões étnicas. Existem cerca de 40 etnias diferentes nesse país, das quais as mais populosas são os Kikuyu (22% da população total), os Luhya (14%), os Luo (13%), os Kalenjin (12%), os Kamba (11%), os Kisii (6%), os Meru (6%), e outros (15%). Os dominantes Kikuyu estão concentrados na região Nairobi.
A grande diversidade étnica no Quénia e as desigualdades económicas e sociais existentes têm sido factores de conflito, e a economia tem sofrido o preço. Ainda assim, os últimos anos têm sido de algum progresso, aliás como tem sucedido um pouco por toda a África subsaariana (Moçambique e Angola incluídos). É por isso (para além da questão humanitária) que é tão importante fazer tudo para que o conflito não descambe numa guerra civil ou pior. É por isso que é tão crucial que a comunidade internacional se empenhe verdadeiramente para ajudar o Quénia a sair da crise. É por isso que é tão fundamental que o Quénia não caia, como é costume, no nosso esquecimento.