Pelo que parece, os gregos estão a limpar um túnel antigo que liga o parlamento helénico com o porto de Piraeus para que os parlamentares possam escapar da fúria popular caso se dê uma eventual invasão do parlamento esta quarta-feira, o dia em que o novo pacote de austeridade será discutido pela assembleia grega. Enfim... ao que chegámos...
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14 junho 2011
07 junho 2011
REESTRUTURAÇÃO SEGUNDO ROGOFF
Kenneth Rogoff, um dos mais respeitados economistas mundiais e autor de um dos melhores livros sobre crises financeiras ("This Time is Different", escrito em co-autoria com Carmen Reinhart), continua a defender que a crise da dívida soberana europeia só será resolvida com uma reestruturação da dívida de alguns países. Aqui está um excerto do seu artigo de opinião mais recente:
"Europe is in constitutional crisis. No one seems to have the power to
impose a sensible resolution of its peripheral countries’ debt crisis.
Instead of restructuring the manifestly unsustainable debt burdens of
Portugal, Ireland, and Greece (the PIGs), politicians and policymakers
are pushing for ever-larger bailout packages with ever-less realistic
austerity conditions. Unfortunately, they are not just “kicking the can
down the road,” but pushing a snowball down a mountain.
True, for the moment, the problem is still economically manageable.
Eurozone growth is respectable, and the PIGs account for only 6% of the
eurozone’s GDP. But by stubbornly arguing that that these countries are
facing a liquidity crisis, rather than a solvency problem, euro
officials are putting entire system at risk. Major eurozone economies
like Spain and Italy have huge debt problems of their own, especially
given anemic growth and a manifest lack of competitiveness. The last
thing they need is for people to be led to believe that an implicit
transfer union is already in place, and that reform and economic
restructuring can wait.
European Union officials argue that it would be catastrophic to
restructure any member’s debts proactively. It is certainly the case
that contagion will rage after any Greek restructuring. It will stop
spreading only when Germany constructs a firm and credible firewall,
presumably around Spanish and Italian central-government debt. This is
exactly the kind of hardheaded solution that one would see in a truly
integrated currency area."
O resto do artigo pode ser lido aqui,
03 junho 2011
A CRISE DA DÍVIDA
O SOL fez-me algumas perguntas sobre a crise da dívida soberana europeia e a sustentabildade da dívida portuguesa. Aqui estão as minhas respostas:
Onde errou ou está a errar a Europa na condução da crise da dívida?
O grande erro da Europa tem sido a incapacidade e a extrema relutância de decidir o que quer que seja sobre a crise da dívida soberana. Tem havido uma grande incerteza sobre o futuro, bem como sobre a resposta das autoridades europeias, que não conseguem chegar a um acordo sobre o que fazer. Pensou-se primeiro que o paliativo dos empréstimos financeiros (com condições muito exigentes) iria chegar, mas é cada vez mais visível que não. No fundo, tenta-se ganhar tempo e tenta-se adiar o mais possível aquilo que parece inevitável, que é a reestruturação da dívida de alguns países, nos quais se encontram certamente a Grécia e a Irlanda e, quiçá, Portugal. Porquê adiar? Porque assim os bancos alemães, franceses e de outros países, poderão atenuar a sua elevada exposição à dívida dos países periféricos, e porque existe a ideia que os países que entrem em incumprimento serão estigmatizados durante muitas décadas. Ora, isso não é necessariamente verdade, desde que as coisas sejam feitas de uma forma planeada e estruturada.
Portugal está em condições de conseguir pagar o seu empréstimo ou há um risco que dentro de meses, Portugal esteja a pedir uma reestruturação da dívida ou reforço da ajuda externa?
Portugal está em condições de conseguir pagar o seu empréstimo ou há um risco que dentro de meses, Portugal esteja a pedir uma reestruturação da dívida ou reforço da ajuda externa?
Portugal só conseguirá pagar o seu empréstimo se: 1) a economia nacional começar a crescer a taxas superiores a 3% nos próximos anos, 2) os governos alcançarem excedentes orçamentais primários, e 3) se houver uma reestruturação da dívida pública interna (ou seja, se houver uma renegociação das parcerias PPPs). Se estas condições não forem obtidas, temo que, infelizmente, uma reestruturação da dívida portuguesa se torna inevitável. No mínimo, é muito provável que tenha de ser feito um reescalonamento dos prazos da nossa dívida pública.
O DESASTRE EUROPEU
A Europa continua a dar passos largos em direcção ao abismo. Em vez de ter uma estratégia concertada e coerente, a Europa prefere insistir em apresentar-se dividida. Agora sabe-se que existe uma grande discordância entre o Banco Central Europeu e alguns estados membros sobre a questão grega e a eventual reestruturação da dívida de alguns países. Mais concretamente, o BCE está terminantemente contra qualquer tipo de reestruturação ou de reescalonamento da dívida grega, preferindo insistir no reforço dos mecanismos actuais.
Infelizmente, é muito difícil antever o sucesso de mais um pacote de ajuda à Grécia. Pessoalmente, penso que será um esforço em vão e não vai dar resultado. A verdade é que a dívida grega é insustentável e não são pacotes de ajuda externa que vão alterar esta situação.
Um disparate ainda maior seria a constituição de um Ministério das Finanças europeu, que teria poder de veto nas decisões orçamentais dos estados membros. É mais uma vez o mito de que uma Europa federada seria a solução para todos os problemas, inclusivamente a crise da dívida. Não é. E impor soluções federalistas e acabar com a soberania económica dos países em dificuldades seria meio caminho andado para o fim do euro e, quiçá, mesmo da União Europeia, pelo menos como a conhecemos.
31 maio 2011
A ALEMANHA RECONSIDERA?
Pelo que parece, a Alemanha está disposta em reconsiderar a sua anterior oposição a um segundo pacote de ajuda à Grécia. Como os bancos alemães não vêem com muitos bons olhos uma eventual reestruturação da dívida grega, o governo de Berlim parece ter capitulado na sua intransigência contra um novo pacote de ajuda. Nos próximos dias veremos onde é que tudo isto irá dar.
11 maio 2011
VIAGEM EUROPEIA AO INCUMPRIMENTO
Martin Wolf assina no Financial Times um artigo sobre a história da "viagem europeia ao incumprimento" das dívidas dos países europeus em dificuldades. Vale a pena ler.
06 maio 2011
PONZI SCHEME
Um interessante artigo no Financial Times que avisa que a Europa está a promover o crescimento de dívidas eventualmente insustentáveis com os planos de resgate e de assistência aos países periféricos, entre os quais nós estamos incluídos. Aqui está um excerto:
"Yet the mode adopted to resolve the debt problems of countries in peripheral Europe is, apparently, to increase their level of debt. A case in point is the €78bn ($116bn) loan to Portugal. It is equivalent to more than 47 per cent of its gross domestic product in 2010, possibly increasing Portugal’s public debt to about 120 per cent of GDP.
It could be claimed that this mechanism is helping the countries involved since the official loans, although onerous, carry better conditions than the ones that need to be serviced. But the countries’ debts will increase (as a percentage of GDP the debts of Greece, Ireland, Portugal and Spain are expected to be higher by the end of 2012 than at the start of the crisis). The share of debt owed to the official sector will also increase (in addition to the bond purchases by the European Central Bank, which reportedly owns 17 per cent of these countries’ bonds with
a much higher percentage held as collateral).
a much higher percentage held as collateral).
...
Is this ongoing piling of debt an indication of imminent defaults? Probably, but not necessarily. An immediate default could result in major market commotion, given the high exposure of European banks to peripheral debt. Therefore, European governments are finding it more convenient to postpone the day of reckoning and continue throwing money into the peripheral countries, rather than face domestic financial disruption. Consequently, as long as European and international money (through the International Monetary Fund’s generous financing) is available, the game could go on.
It is based on the fiction that this is just a temporary liquidity problem and that the official financing helps the countries involved to make the reforms that will allow them to return to the voluntary market in normal conditions."
22 abril 2011
20 abril 2011
REESTRUTURAÇÃO OU NÃO, EIS A QUESTÃO (12)
A Economist também acha que a Grécia, a Irlanda e Portugal não escaparão a uma reestruturação das suas dívidas.
19 abril 2011
O IMPACTO DA REESTRUTURAÇÃO GREGA
Continua a abrir-se a porta para uma reestruturação da dívida grega. Agora foi um ministro grego que, sob condição de anonimato, admitiu a inevitabilidade dessa mesma reestruturação. Não é de espantar. Já há bastante tempo se percebeu que esse cenário é realmente inevitável. Basta comparar a dívida pública grega com a dívida de outros países que foram forçados a reestruturar as suas dívidas e/ou entraram em insolvência para chegar à conclusão de que não há grande alternativa.
E se a Europa continua (oficialmente) a negar essa possibilidade não é só por uma questão de orgulho, mas também porque os líderes europeus (e os bancos) preferiam que essa reestruturação acontecesse só partir de 2013, depois do início do Mecanismo de Estabilização Europeu, onde já se prevêem reestruturações das dívidas. Só que, neste caso, não é linear que o que é melhor para a Europa (isto é, os bancos do centro da Europa), é realmente preferível para os países altamente endividados, como a Grécia (e Portugal e a Irlanda). É que a haver uma reestruturação, seria bom se esta acontecesse o mais cedo possível.
É certo que é sempre melhor evitar uma reestruturação da dívida, principalmente devido às eventuais repercussões em relação ao financiamento dos países que são obrigados a fazê-la. No entanto, se o endividamento chegar a um ponto tal que se torna verdadeiramente insustentável, é melhor efectuar a reestruturação da dívida o quanto antes, até porque os custos dos "default" são mais de curto e médio prazo do que de horizontes temporais muito longos. Por outro lado, protelar aquilo que é inevitável só agrava a situação económica e social dos países altamente endividados.
É igualmente importante desdramatizar a possibilidade de se fazerem reestruturações das dívidas na Europa. É uma situação desagradável? Sem dúvida. Seria melhor que não tivesse acontecido? Claro que sim. No entanto, já que o endividamento aconteceu e se tornou explosivo, é preciso perceber que uma reestruturação da dívida não é o fim do mundo. Dezenas e dezenas de países já o fizeram desde o final da Segunda Guerra Mundial, e vários países europeus também já o fizeram, inclusivamente num passado relativamente recente (no século 19 e na primeira metade do século 20). É também importante perceber que os custos de uma reestruturação são substanciais, mas não irão condenar os países que façam a uma situação semelhante ao que nos aconteceu após 1892, quando declarámos bancarrota. Nessa altura, ficámos décadas fora dos mercados financeiros porque os nossos governantes lidaram muito mal com o processo de insolvência do país e não souberam negociar devidamente com os nossos credores. Não é crível que esta situação se repita no presente.
E quanto a nós? Será que uma eventual reestruturação da dívida grega nos vai impactar? Obviamente que sim. A nós e à Irlanda. No entanto, e como já aqui defendi e vários outros economistas já chamaram à atenção, se tal acontecer, seria bom que Portugal, a Irlanda e a Grécia pensassem em encetar uma estratégia concertada de negociação com os nossos credores para que entrassem nessas negociações numa posição mais forte. Vale a pena lembrar que esta não seria a primeira vez que o nosso país teria de reestruturar as suas dívidas. Bem pelo contrário. É verdade que Portugal já não entra em incumprimento (default) desde 1892, mas só no século 19 tivemos 6 situações (em 1828, em 1837, em 1841, em 1845, em 1852 e em 1892) em que nos vimos forçados a reestruturar as nossas dívidas. Foram períodos extremamente conturbados, até porque os governos de então fizeram uma série de erros graves na condução da política económica, mas sobrevivemos. Se nos acontecer o mesmo e se as coisas forem bem feitas e bem planeadas, uma reestruturação da dívida poderá ser o primeiro passo (ou o segundo, agora que o resgate foi activado) para conseguirmos mudar a trajectória insustentável dos últimos anos. Um primeiro passo que terá de incluir uma nova política de finanças públicas, uma economia muito menos endividada, e uma economia mais dinâmica e produtiva. Um primeiro passo que nos conduza uma trajectória mais responsável, mais sustentada e mais sustentável. O mais importante é que saibamos aprender as lições do presente para que, no futuro, não tenhamos de cair na mesma lamentável situação.
15 abril 2011
INVISTAM NOS NOSSOS BANCOS
Ainda há uns meses vimos os membros do governo português em sucessivos périplos pelo mundo fora à procura de compradores da nossa dívida pública, numa tentativa quase desesperada para evitar o que veio a revelar-se inevitável. Agora a história repete-se para a Espanha, embora existam algumas pequenas diferenças. Assolada por uma crise bancária cujas dimensões ainda não são totalmente conhecidas, e sabendo que o seu país poderá ser a próxima peça do dominó da dívida soberana europeia a cair, as autoridades espanholas têm tentado convencer o Qatar, Singapura, e a China para investirem nos bancos regionais espanhóis. O entusiasmo da iniciativa do governo Zapatero foi tal que o governo espanhol anunciou um avultado investimento da China nos bancos espanhóis na ordem dos 9 mil milhões de euros. O problema é que, para grande constrangimento do governo de Espanha, esse investimento nunca se materializou. De tal modo que as próprias autoridades chinesas já vieram a público negar esse mesmo investimento. Perante o natural embaraço, a Espanha já anunciou que, afinal, tudo se deveu a um "erro de comunicação". Enfim, assim vai a nossa Europa a caminhar de vento em popa.
12 abril 2011
COM AMIGOS COMO ESTES, QUEM PRECISA DO FMI?
Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI, já veio a público defender que os juros do resgate português deviam ser mais baixos dos que foram oferecidos à Irlanda. Blanchard também defendeu que o prazo de financiamento concedido para o pagamento da dívida associada ao plano de resgate devia ser suficientemente alargado para que o longo ajustamento da economia portuguesa possa ser feito sem demasiadas convulsões sociais e económicas. Por outras palavras, e por incrível que isso possa parecer a muita gente, o FMI está a tentar defender-nos das condições draconianas que foram aplicadas à Grécia e à Irlanda e que, mais cedo ou mais tarde, decerto conduzirão estes países ao incumprimento. Ou seja, a história repete-se. Vale a pena lembrar que nos resgates gregos e irlandeses (principalmente o grego), o FMI teve uma posição semelhante. Quem foi contra a concessão de taxas de juros mais vantajosas e de prazos mais alargados foram os outros países europeus (por causa do chamado "moral hazard", ou seja, a ideia de que os países endividados não podem ser recompensados, sob pena de que, no futuro, outros países poderão ser tentados a seguir as mesmas políticas irresponsáveis, pois sabem que, no final, irão ser resgatados com condições muito favoráveis). E é muito provável que os nossos parceiros europeus tentem aplicar os mesmos princípios no resgate português. É a solidariedade europeia no seu melhor. Ajudam-se os bancos alemães e franceses (e espanhóis, no nosso caso) a evitarem as consequências mais danosas de uma excessiva exposição aos activos tóxicos das dívidas públicas dos países da periferia europeia, enquanto as populações destes países europeus têm de suportar o custo total da desmesurada expansão do crédito que caracterizou a última década. Com amigos assim, quem precisa de diabolizar o FMI?
Este é exactamente um dos temas de hoje do Wall Street Journal, que em mais um artigo arrasador para o nosso país (um país de trabalhadores "under-educated" e "under-trained") nos "aconselha" virar as costas à solidariedade europeia, reestruturar as nossas dívidas e sair do euro. Embora concorde com muito do que é dito no artigo, penso que, nesta altura, uma saída do euro poderia ser verdadeiramente catastrófica. No meu novo livro explico porquê.
Entretanto, aqui fica um excerto do artigo do WSJ.
"Portugal's friends will help it to get by by insisting on what European finance ministers call an "ambitious fiscal adjustment." Translated from bureaucratese, that means what Finnish Finance Minister Jyrki Katainen calls an austerity program "stricter, harder and more comprehensive than the one the Portuguese parliament voted against." Strike two: Eurocracy trumps democracy.
In short, more debt, higher interest rates, and tighter fiscal policy—a combination not likely to produce a rapid economic recovery. But that is not the goal of the bailout exercise. Its first aim is to protect banks in Germany that hold €46.5 billion of Portuguese government bonds and €90 billion of IOUs from the banking sectors of Portugal, Ireland and Greece. A Portuguese default, setting in train similar restructurings in Greece and Ireland, would bring down undercapitalized banks: most notably those in Germany that are already considering opting out of the new stress tests lest they get a poor grade. Which explains German Chancellor Angela Merkel's willingness to shore up the stricken countries. Otherwise, she would have to pull the rug back and reveal the dirt underneath: the questionable balance sheets of her nation's banks. Strike three: voters to bear pain to shield rich bankers and investors from losses."
11 abril 2011
A ARMADILHA DA DÍVIDA
Um artigo do New York Times analisa a questão da dívida soberana europeia e dá grande destaque ao caso português. O artigo realça ainda não só o falhanço da Europa em lidar com o assunto, mas também salienta o perigo de impor uma política de austeridade permanente aos países endividados. Por que é que tal acontece? Porque a Europa está fazer o que pode para evitar (por enquanto) uma reestruturação da dívida dos países endividados, visto que essa reestruturação poderia dar azo a crises bancárias nos países credores. Por outras palavras, a reestruturação das dívidas de países como a Grécia, a Irlanda e Portugal, originaria graves problemas aos bancos dos países credores (alemães, franceses, etc.), o que, num cenário extrema, faria com que os governos (e os contribuintes) desses países fossem forçados a resgatá-los. E é isso que os países do centro da Europa têm tentado evitar a todo o custo.
Por outras palavras, a estratégia da Europa em toda a crise da dívida soberana tem sido extremamente assimétrica: culpabilizam-se e punem-se os países que se "portaram mal" ou que tiveram governos irresponsáveis (como é o nosso caso e o caso da Grécia), bem como os países que sofreram crises bancárias terríveis devido ao rebentar de bolhas imobiliárias, mas nada se faz para responsabilizar os bancos que andaram a promover o crédito fácil e que não verificaram adequadamente se todo esse endividamento era sustentável.
E se faz todo o sentido que os países que se portaram mal tenham agora de sofrer as consequências das políticas erradas que foram seguidas nos últimos anos, não seria igualmente de bom senso fazer com que os bancos dos países do centro da Europa (que contribuiram para a desmesurada expansão de crédito) também partilhassem os custos do ajustamento que é necessário fazer? Por que é que só há austeridade para os países endividados, mas nenhuns ou poucos custos para os bancos que fomentaram esse mesmo endividamento excessivo?
Neste sentido, seria bom que os negociadores do resgate português tivessem esses factos em linha de conta quando, nos próximos dias, discutirem com o FMI e com os representantes europeus as medidas de austeridade a impor ao nosso país. Portugal não pode e não deve aceitar condições demasiado desastrosas, e que poderão ter consequências excessivamente nefastas para o presente e para as gerações futuras. É verdade que vamos para estas negociações numa posição muito vulnerável. No entanto, isso não quer dizer que não tenhamos importantes trunfos que poderão ser usados para que consigamos obter condições menos desfavoráveis. Esperemos bem que saibamos utilizar esses mesmo trunfos de forma adequada e proporcionada.
Já agora, para quem estiver interessado(a), aqui está um excerto do artigo do NYT mencionado acima:
"So far the markets have taken Europe’s third successive sovereign financial crisis in stride. But many economists are a good deal more alarmed, most notably because the bailout formula European leaders keep applying to their most indebted member nations shows no signs of working.
Greece, Ireland and now almost certainly Portugal have access to hundreds of billions of dollars in emergency European aid to help them avoid defaulting on their debt. But the aid is really just more loans, and the interest rates the countries are paying, if a little lower than what the private market would charge, are still crushingly high. Their pile of debt gets bigger with every passing day.
Moreover, the price of these loans has been a commitment to slash government spending far more drastically than domestic leaders would have the desire or the political power to accomplish on their own. And for countries that depend a good deal on government spending to generate growth, rapid decreases in spending have meant sustained economic stagnation or outright recession, making every dollar of debt that much harder to pay back.
Economists call this “the debt trap.” Escape from the trap generally requires devaluation of the currency, which cannot happen among countries that use the euro as their common currency, or strong economic growth, which none of the three have, or some kind of bankruptcy process, which all three forswear. Add to that the likelihood that all three countries will continue to have unstable governments until they figure a way out, and Europe’s financial crisis has no end in sight...
The crisis in Portugal also raises new questions about whether the European Union will come to grips with the other side of its crisis: the banks. Banks in well-off countries like Germany, France and the Netherlands, as well as Britain, hold a lot of Greek, Portuguese and Irish debt. And if these countries cannot pay their debts, they would have to reschedule them, reduce them or default, causing a major banking crisis in the rest of Europe. That reckoning would require governments to ask their taxpayers to recapitalize the banks, which is exactly what political leaders are afraid to do."
08 abril 2011
DÍVIDAS INSUSTENTÁVEIS
Mais uma voz a clamar que as dívidas da Grécia, da Irlanda e de Portugal são insustentáveis. Desta vez foi o Financial Times, que afirma:
"Eurozone policymakers should ask themselves: can Greece, Ireland and Portugal do everything expected of them and pay back every cent of their borrowings on schedule? Recession, onerous interest payment schedules, and severe fiscal adjustment measures can quickly make debt levels unsustainable. Greece, Ireland and Portugal are approaching that position. Portugal already has public debt of 92 per cent of gross domestic product. The bail-out is likely to be equivalent to 50 per cent of GDP."
Não é assim de estranhar que os mercados considerem que a probabilidade de Portugal entrar em incumprimento e/ou de ter de reestruturar as suas dívidas nos próximos 5 anos é já de 40%. Uma probabilidade que, diga-se, já é mais elevada do que a da própria Irlanda, assim como podemos observar no gráfico abaixo retirado do FT:
06 abril 2011
NEGOCIAÇÃO DO RESGATE
Tudo indica que as negociações "oficiais" do resgate português já se iniciaram. Tanto os jornais portugueses como os internacionais afirmam que a posição dos bancos foi preponderante para esta decisão.
29 março 2011
LIÇÕES IRLANDESAS PARA PORTUGAL
O Wall Street Journal analisa alguma das lições do resgate à Irlanda que nos poderão vir a ser úteis dentro em breve, quando uma eventual ajuda external for activada. Aqui está um excerto do artigo do WSJ, que pode ser lido aqui:
"The problems facing Portugal seem less complex, if no less serious. Its banks may be in difficulty, but not to anything like the same extent as Ireland's, and voters appear less convinced that the problems that do exist can be laid at the feet of the outgoing government.
But Portuguese voters should be given the chance to look back over the sequence of events that has led to their nation's parlous financial position, decide on its root causes, and who they want to fix them. Only then can an agreement be reached with the EU and IMF on the terms of the likely bailout.
Of course, they don't have a limitless amount of time in which to do that. The money is running out, and if Portugal can't elect a new government quickly enough to negotiate a deal before the June repayments, it's going to have to borrow in the bond markets, whatever the price. To keep a lid on the cost of doing democracy properly, the Portuguese are going to need help. And the only European institution that can supply that right now is the European Central Bank."
28 março 2011
NOVOS BURACOS
Pelo que parece, e de acordo com o Guardian, os bancos irlandeses irão revelar mais um buraco de 25 mil milhões de euros quando os testes de stress forem publicados. Por sua vez, as cajas espanholas precisam de angariar cerca de 15 mil milhões de euros. E Portugal está cada vez mais sob pressão para "aceitar" ajuda externa.
26 março 2011
O semanário Sol pediu-me para fazer uma antevisão da cimeira europeia e fez-me algumas perguntas sobre o nosso nível de endividamento. Aqui estão as minhas respostas:
SOL_ O que seria o cenário de uma vitória e uma derrota para Portugal nos resultados da Cimeira desta semana, em Bruxelas?
Sinceramente, neste momento e face ao cenário de descalabro orçamental e de total perda de credibilidade política, julgo que não há grandes possibilidades de termos uma “vitória” na cimeira europeia. Sabendo que vamos de ter de recorrer a mais ajuda externa (é preciso não esquecer que já estamos a ser ajudados pelo BCE desde o início de 2010), penso que o mais importante é que as condições que vamos tentar negociar não sejam demasiado gravosas para o nosso país.
Sinceramente, neste momento e face ao cenário de descalabro orçamental e de total perda de credibilidade política, julgo que não há grandes possibilidades de termos uma “vitória” na cimeira europeia. Sabendo que vamos de ter de recorrer a mais ajuda externa (é preciso não esquecer que já estamos a ser ajudados pelo BCE desde o início de 2010), penso que o mais importante é que as condições que vamos tentar negociar não sejam demasiado gravosas para o nosso país.
SOL_ Concorda que tem existido um excessivo foco na liquidez durante os últimos meses em detrimento de outros temas como as reformas estruturais? A preocupação com a grave crise de liquidez que estamos a viver há mais de um ano é muito natural. Se não fosse o BCE, já há muito que estaríamos a viver uma crise de liquidez ainda mais profunda, que teria implicações económicas muitíssimo dramáticas. Por isso, é normal que a ênfase tenha sido dada à falta de liquidez, que está a asfixiar a economia e as empresas nacionais. Dito isto, é igualmente importante perceber que este governo já anda a fingir implementar reformas estruturais há muito tempo. É óbvio que o país precisa de muitas reformas estruturais. Porém, este governo tem-se mostrado completamente incapaz de o fazer. É por isso que o foco não tem sido dado a esta área.
SOL_ Os mercados não acreditam em medidas de longo prazo dado o historial de incumprimento do país? Nós não temos um historial de incumprimento desde o século 19. Já tivemos crises financeiras, mas não tivemos situações de incumprimento desde 1892. Os mercados não acreditam em nós, porque este governo tem-se mostrado totalmente incapaz para fazer face às nossas dívidas e ao descontrolo orçamental. Ou seja, os mercados não acreditam em nós porque este governo não tem o mínimo de credibilidade.
SOL_ Na eventualidade de uma ajuda externa, será muito provável a introdução de novas medidas de austeridade? Que novas medidas prevê? As medidas de austeridade não acontecem por causa de uma eventual ajuda externa, mas sim devido ao descontrolo orçamental deste governo. Penso que teremos que implementar mais medidas. No entanto, não é possível pedir muitos mais sacrifícios aos portugueses. Os cortes e os ajustamentos têm de ser feitos ao nível do Estado, e não sistematicamente contra os contribuintes, contra as empresas e, agora, contra os pensionistas. Infelizmente, até agora o só se têm pedido sacrifícios aos portugueses, mas nada tem sido feito para cortar no peso do Estado. Penso que é aí que as novas medidas terão de ser pensadas e aplicadas. SOL_ O risco de bancarrota de Portugal é um cenário possível? Sim, o risco de incumprimento é um cenário muito possível e, quiçá, até provável. Porquê? Porque o nosso nível de endividamento é extremamente elevado, principalmente se tomarmos em linha de conta (como devíamos) as dívidas das empresas públicas (que são já mais elevadas do que 25% do PIB) e a dívida pública futura ainda não contabilizada, como é o caso das parcerias públicas-privadas (PPPs). Só nas PPPs teremos encargos futuros de mais de 48 mil milhões de euros nas próximas décadas. No meu próximo livro mostro claramente que todo este endividamento é demasiado alto e é, provavelmente, insustentável.
24 março 2011
Um bom artigo da Economist sobre a crise política nacional. Como a revista nota, e bem, um dos principais problemas da crise actual tem a ver com as eventuais (mas mais que certas) negociações com os nossos parceiros europeus e com o FMI sobre as contrapartidas necessárias para que seja activado um plano de resgate. A grande questão é assim: quem é que nos irá representar nessas importantes negociações? O governo? Ou mais alguém? Seria bom que os principais partidos estivessem representados e não só o governo actual, pois o governo não tem nem a necessária credibilidade nem (e principalmente) a confiança política das outras forças partidárias, algumas das quais certamente formarão governo daqui alguns meses e terão que arcar com as consequências do acordo negociado. Os próximos dias devem esclarecer esta questão.
A Economist resume bem este dilema. Segundo a revista, a crise: "also created a political vacuum in which nobody may have enough authority to negotiate a bail-out. Few doubt that Portugal is close to the moment when it has no alternative but to seek assistance from the European Financial Stability Facility (EFSF), the euro-zone’s bail-out fund. But economists say that the crisis increases the chances that Portugal will need EU funds soon."
23 março 2011
DEFAULT, DIZEM ELES
A possibilidade de um país europeu entrar em incumprimento é cada vez mais debatida nos círculos europeus. Em 2013 ou até antes, é provável que algo aconteça.
Já agora, uma das frases mais interessantes do artigo do FT
revela bem a diferença entre nós e a Espanha: "Fears of a Spanish default have receded sharply in recent weeks because of the determination of its government to introduce reforms."
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