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15 junho 2011

PRODUTIVIDADE NA OCDE

Uma das formas de comparar a produtividade média nos diversos países é-nos dada pelo cálculo do PIB produzido por hora trabalhada, ou seja, o valor de todos os bens e serviços produzidos por hora de trabalho. Este cálculo nem sempre é possível de efectuar porque nem todos os países têm boas estimativas do número de horas trabalhadas num determinado período (geralmente um ano). Porém, felizmente, estes problemas não se colocam para os países da OCDE, para os quais existem estatísticas relativamente de boa qualidade. Assim, é possível comparar a produtividade média destes países de acordo com este indicador. É exactamente isso que é feito no gráfico abaixo, onde se apresentam os cálculos do PIB dos países da OCDE por hora trabalhada em relação aos valores registados nos EUA (aos quais corresponde um valor de 100%). Neste sentido, é interessante verificar que numa hora nós produzimos cerca de 54% do que é produzido nos Estados Unidos, um valor que é significativamente mais baixo do registado na Grécia (60%), na média da OCDE (77,3%), na Itália (78%), e, principalmente, na Espanha (82%). Estas comparações são relevantes, pois mostram claramente o atraso que ainda registamos ao nível da produtividade. Obviamente, uma baixa produtividade é altamente penalizadora da competitividade dos nossos produtos, principalmente porque os nossos baixos custos laborais não são suficientes para tornar os nossos produtos atractivos quando nos comparamos a países como a China, e até a maioria dos países da Europa de Leste. Por sua vez, uma produtividade baixa e uma menor competitividade estão associados a um menor dinamismo das exportações, contribuindo assim para o nosso défice externo (e o endividamento da nossa economia). 
Moral da história: nos próximos tempos, o crescimento da produtividade tem mesmo de se tornar num dos imperativos nacionais. Porquê? Porque a médio prazo a competitividade das nossas exportações vai depender essencialmente da evolução da produtividade. E, como é evidente, o crescimento da produtividade vai ser um dos principais determinantes dos nossos níveis de vida. Como fazê-lo? Como o gráfico sugere, não temos de ir muito longe. Basta olhar para a Espanha. É que se nós atingissemos os níveis de produtividade dos nossos vizinhos espanhóis seria meio caminho andado para conseguirmos alcançar ganhos de produtividade substanciais. Esperemos assim que o consigamos fazer nos próximos tempos.

PIB por hora trabalhada em % dos Estados Unidos da América
Fonte: OCDE


18 maio 2011

A VERDADE SOBRE O PLANO TECNOLÓGICO (2)

A melhoria dos indicadores da inovação nacionais são, sem dúvida alguma, uma boa notícia. Pelo menos em princípio (mais abaixo veremos o que poderá tornar estas notícias menos boas). E também acho que devemos que devemos reconhecer que esta melhoria dos indicadores da inovação se devem, pelo menos em parte, à maior aposta que tem sido dada a este sector nos últimos anos. Assim, é de assinalar que, de acordo com os dados mais recentes da OCDE, Portugal registou uma assinalável convergência em vários indicadores de ciência e de tecnologia, principalmente no que diz respeito às despesas em actividades de Investigação e Desenvolvimento (I&D) em percentagem do PIB. Como podemos ver no gráfico abaixo, nos últimos anos, Portugal parece ter convergido com a média da OCDE em termos de despesas com I&D em percentagem do PIB. 


Despesas em actividades de I&D em percentagem do PIB, 1980-2009
Fonte: OCDE 

Ainda assim, devo admitir que tenho muitas reservas sobre alguns destes indicadores e sobre estas melhorias alcançadas em tempo recorde. Mais concretamente, tenho bastantes dúvidas e poucas certezas relativamente aos nossos indicadores de Investigação e Desenvolvimento. Porquê? Porque não sei o que é realmente uma melhoria real e o que são meras manipulações estatísticas. 
Porquê estas dúvidas? Como é que é possível proferir tais afirmações? Porque fiquei com um pé atrás em relação às estatísticas de I&D desde que, em 2009, ouvi Carlos Zorrinho afirmar numa conferência que antes deste governo nós nem contabilizávamos bem as despesas de Desenvolvimento. É sabido que cerca de dois terços das despesas em I&D são relacionam-se com o Desenvolvimento. Assim, se não houver uma contabilização correcta destas despesas, os indicadores de I&D são subavaliados. Por isso, uma contabilização mais adequada destas despesas fará aumentar o valor do I&D em percentagem do PIB, sem que haja um crescimento real destas despesas. Para quem quiser confirmar as afirmações de Carlos Zorrinho, pode fazê-lo aqui, principalmente a partir do 27m e 30s do video, onde se revela que antes de 2006 não se "registavam" bem as despesas de Desenvolvimento: 




Ora, se a nossa "melhoria" dos indicadores estatísticos das actividades se deve a acertos estatísticos (como Carlos Zorrinho parece indicar), então das duas uma: ou a melhoria dos indicadores de I&D foram principalmente legadas pelos governos anteriores mas não tinham sido devidamente contabilizadas, ou a melhoria é mais aparente do que real.
Eu não digo que este governo não tem qualquer mérito em ter dado uma maior ênfase à questão da inovação. A verdade é que a aposta na inovação e na melhoria da produtividade é importantíssima e deve ser continuada pelo próximo governo. O que eu desconfio é que as melhorias dos indicadores de inovação não se possam atribuir à política iluminada e "modernizadora" deste governo. É que, sabendo o que se tem passado em outras áreas, é sempre muito difícil saber o que é realidade ou mera malabarismo estatístico. E este é, de facto, um dos tristes legados deste governo. Este é um governo que nos deixou à beira da bancarrota e que nos lega os piores indicadores económicos desde o século 19, mas que conseguiu fomentar toda uma série de "melhorias" que foram principalmente alcançadas à custa da contabilidade criativa. Apesar de todo o desastre económico, não há dúvida que a contabilidade criativa foi das (poucas) indústrias de grande sucesso no nosso país. As estatísticas de Investigação e Desenvolvimento aí estão para o provar. Infelizmente.

26 abril 2011

AINDA O MITO DA CRISE INTERNACIONAL

Ainda ontem ouvimos o primeiro ministro afirmar que esta crise é a maior dos últimos 100 anos. Tem razão e é exactamente isso que mostro no segundo capítulo do meu novo livro. Só que, infelizmente, e contrariamente ao que o primeiro ministro afirma, a crise nacional não tem só 3 anos. Como já aqui vimos, os sintomas da Grande Recessão Portuguesa começaram a fazer-se sentir bem antes de 2008. A crise internacional só agravou a crise nacional e apressou os ajustamentos que teriam de ser feitos mais cedo ou mais tarde. Mais uma vez, e para quem ainda tem dúvidas sobre este assunto, aqui vão mais três indicadores comparativos do cenário macroecónómico que vigorava ainda antes de 2008. 
Comecemos pelo crescimento económico médio entre 2000 e 2008. Se atentarmos para o primeiro gráfico, podemos facilmente verificar que, na última década, Portugal registou a segunda mais baixa taxa de crescimento económico de toda a OCDE. Pior que nós só a Itália. O nosso desmpenho económico é especialmente decepcionante se nos lembrarmos que a taxa de crescimento média da OCDE entre 2000 e 2008 foi cerca do dobro das taxas de crescimento portuguesas. Ou seja,em vez de convergirmos com os países mais ricos, na última década temos vindo a afastarmo-nos destes mesmos países.

Fonte: OCDE

Porém, as más notícias não ficam por aqui. Uma das razões que explica o mau desempenho do crescimento da economia portuguesa foi o acumular dos desequilíbrios externos e a perda de competitividade das exportações nacionais. Os nossos problemas de competitividade podem observados no próximo gráfico, que apresenta o saldo médio da balança corrente em percentagem do PIB na OCDE. Como podemos  ver, entre 2000 e 2008, Portugal registou o maior défice médio da balança corrente de toda a OCDE. O nosso défice externo anual foi quase de 10% do PIB durante este período. Grande parte do excessivo endividamento nacional justifica-se exactamente pela existência deste défice.

Balança corrente em percentagem do PIB, 2000-2008

Fonte: OCDE

Finalmente, vale a pena olharmos ainda para a produtividade laboral durante o mesmo período. Aqui as coisas não são tão más, mas, mesmo assim, não são motivo de grande orgulho. Como podemos ver no gráfico abaixo, o crescimento da produtividade laboral portuguesa rondou os 1,2% ao ano, melhor do que a Itália, a Espanha, o Canadá e a Dinamarca, mas bastante inferior à taxa média da OCDE (que foi cerca de 1,6%). Mais significativamente, a nossa taxa de crescimento da produtividade laboral foi muitíssimo mais reduzida do que em todos os países da Europa de Leste, que registaram taxas de crescimento acima dos 3%-4% ao ano. 
Ainda assim, o crescimento da produtividade laboral é-nos bastante favorável, visto que quando atentamos para a produtividade total dos factores (isto é, a produtividade do trabalho e do capital) as comparações são-nos ainda mais desfavoráveis. A verdade é que, entre 2000 e 2008, só a Itália apresentou taxas de crescimento da produtividade total dos factores piores do que as nossas. Por outras palavras, o desempenho da produtividade portuguesa entre 2000 e 2008 foi mesmo muito sofrível e altamente preocupante.

Taxa de crescimento da produtividade laboral, 2000-2008

Fonte: OCDE

Moral da história: é verdade que esta é a maior crise económica do nosso país desde, pelo menos, o final do século XIX. Porém, e contrariamente ao que a propaganda governamental nos quer tentar convencer (com o intuito de desculpabilizar o governo de ter sido o principal responsável pela situação actual), a crise nacional já vem de longe, muito longe. As origens da crise nacional remontam ao final da década de 1990, quando se iniciou a trajectória ascendente do nosso endividamento explosivo, quando a economia portuguesa começou a demonstrar sinais alarmantes de falta de competitividade, e quando os governos insistiram em políticas erradas e num despesismo desmesurado que nos trouxeram ao estado de coisas presente. Por isso, só uma inversão total destas tendências e só o fim destas políticas erradas poderão fazer-nos retomar o sucesso que caracterizou a economia nacional desde o final dos anos 1950.

21 abril 2011

FERIADOS E PONTES

A edição de hoje do Jornal de Notícias tem uma pequena entrevista sobre a questão dos feríados e das "pontes". Aqui estão as minhas respostas (que também podem ser vistas e comentadas aqui). 

JN: É possível medir o impacto económico de um feriado (quanto a economia perde)? Sim, é possível. Assim como é possível estimar os custos de eventos extraordinários, como sejam as greves gerais. Segundo algumas estimativas, o custo dos feriados está entre 40 e 50 milhões de euros. E, como é óbvio, este custo aumenta se houver “pontes” e/ou tolerâncias de ponto no Estado. Como há 14 feriados em Portugal e mais 2-3 “pontes” por ano, o custo total ronda anualmente os 680 e 850 milhões de euros. Porém, um cálculo mais relevante é compararmo-nos com os países mais avançados da Europa, que têm entre 8 e 10 feriados por ano e onde não há “pontes” (pois os feriados são encostados aos fins-de-semana). Se o fizermos, verificamos que os feriados que usufruímos a mais em relação à Europa têm um custo adicional entre os 300 e os 450 milhões de euros.

JN: Considera que Portugal devia abdicar pelo menos destas pontes oficialmente concedidas pelo Governo aos trabalhadores do Estado? Claro que sim. Pelo menos a maior parte delas. Estas “pontes” e tolerâncias de ponto só têm um objectivo: agradar eleitores e potenciais votantes. Contudo, não fazem qualquer sentido no mundo actual e muito menos numa altura de grande austeridade.

JN: O nosso país é visto no estrangeiro como sendo pouco produtivo? Infelizmente, a percepção que existe no estrangeiro é exactamente essa. E o descalabro das finanças públicas e a espiral de endividamento dos últimos anos não ajudam nessa mesma percepção. Muito pelo contrário. Portugal tem uma enorme falta de credibilidade neste momento. É lamentável que tal aconteça, pois não só porque, até recentemente, Portugal foi das economias europeias com mais sucesso nos últimos 50 anos, mas também porque nós temos alguns sectores bastante dinâmicos e produtivos. A actual imagem do país é que não ajuda muito.

10 fevereiro 2011

UM PAÍS TECNOLÓGICO (3) _ TELEMÓVEIS

Mais um facto interessante da base de dados da OCDE: Portugal é um dos países com mais assinaturas de telemóveis por 100 habitantes. O mesmo é verdade para o número de telemóveis pré-pagos por 100 habitantes, onde estamos igualmente no top 5 da OCDE. Ora, aqui está o verdadeiro Plano Tecnológico sem ter sido planeado. Nós somos verdadeiramente apaixonados pelos nossos telemóveis. 
Aliás, não é à toa que muitas das nossas melhores empresas inovadoras nos últimos anos estão associadas exactamente a este sector.

Assinaturas de telemóveis por 100 habitantes
Fonte: OCDE

09 fevereiro 2011

UM PAÍS TECNOLÓGICO (2)

Prosseguindo a análise dos dados mais recente dos dados da OCDE sobre o sector tecnológico e das tecnologias de informação e comunicação, vale a pena olhar para a percentagem do emprego tecnológico no sector empresarial ("business sector" em inglês, e que inclui tudo que não seja Estado e particulares), que é responsável por mais de dois terços do valor acrescentado dos países da OCDE.
Neste sentido, se atentarmos para o gráfico abaixo, não é dificil verificar o enorme atraso que ainda temos nesta área. Portugal é o país da OCDE que tem a percentagem mais baixa de emprego tecnológico no sector empresarial. Assinale-se que estes dados não incluem a Islândia, o México, a Nova Zelândia, a Polónia e a Turquia e, por isso, talvez a nossa posição relativa não seja tão má. Talvez até estejamos à frente dos turcos e dos mexicanos. De qualquer maneira, e mais uma vez, é fácil de ver que da propaganda à realidade vai uma grande distância.

Percentagem de emprego tecnológico no emprego do sector empresarial

Fonte: OCDE (2010), Information Technology Outlook

Quem desejar consultar estes dados pode fazê-lo aqui.     

07 fevereiro 2011

UM PAÍS TECNOLÓGICO

Por de trás de toda a retórica que rodeia as reformas "modernizadoras" dos últimos anos, há estatísticas que não mentem. Esta é uma delas: a percentagem de famílias portuguesas com acesso à internet ainda está bem abaixo da média europeia e ainda mais abaixo da média da OCDE.

Gráfico_ Percentagem de famílias com acesso à internet
Fonte: OCDE (2010)

25 janeiro 2011

EXPORTAÇÕES DE TICs

Um dos sectores mais promissores da nossa economia é o das tecnologias de informação e comunicação (TICs). Este sector contém alguns dos nossos empreendedores mais inovadores, bem como várias empresas altamente internacionalizadas. O sector tem sido ainda apadrinhado pelas políticas dos nossos governos, tendo sido inclusivamente o principal beneficiário do há-muito-esquecido Plano Tecnológico. 
Resultado? Desde os meados da década de 90, as exportações dos TICs têm vindo a aumentar, um sinal do crescente dinamismo dos sectores de maior valor acrescentado da nossa economia.  Pelo menos é isso que nos vem dizendo a propaganda oficial. Mas será que a realidade é mesmo essa?
Sim e não. É verdade que o sector das TICs é um dos sectores mais inovadores e internacionalizados da economia nacional, mas não é verdade que o Plano Tecnológico tenha tido um impacto considerável para o sucesso do sector. Bem pelo contrário. Uma mostra disso mesmo é-nos dada se atentarmos para a percentagem das exportações de TICs em percentagem das exportações totais. Como podemos ver no gráfico abaixo, as exportações das TICs têm vindo a diminuir nas nossas exportações totais. Ou seja, não só o Plano Tecnológico foi um enorme fracasso, (como já aqui tinha mencionado), como também, e infelizmente, o sector das TICs tem vindo a perder importância relativa nas nossas exportações. Assim, em 2008 (referente aos dados mais recentes), a percentagem das TICs nas nossas exportações totais já era mais baixa do que em 1999. Por outras palavras, se o sector algum dia vier a ter a importância que merece e que todos desejamos, certamente que tal não acontecerá com mais ou com menos Planos Tecnológicos ou com mais ou com menos propaganda política. É que, como sempre, o sucesso do sector depende bem mais do empreendedorismo e da inovação dos empresários(as) e dos trabalhadores do sector do que um qualquer plano iluminado.

Percentagem das exportações de TICs nas exportações totais, 1996-2008:
Fonte: World Development Indicators

01 novembro 2010

A VERDADE SOBRE O PLANO TECNOLÓGICO

Uma das políticas mais propagadas nos últimos anos foi o chamado Plano Tecnológico, que visava combater as insuficiências estruturais do país na área das tecnologias. À partida, a aposta nas novas tecnologias parece-me incontroversa, pois todos teríamos a ganhar com a melhoria das nossas competências tecnológicas, ainda que seja disputável se a melhor forma de atingir tal objectivo é mesmo um "Plano" delineado por um governo. Independentemente dos seus méritos e deméritos, um dos principais objectivos da política do governo nesta área passava por melhorar a intensidade tecnológica das nossas exportações, que assim se tornariam mais atractivas e mais competitivas nos mercados internacionais. 
Por isso, vale a pena olharmos com atenção os números da intensidade tecnológica das nossas exportações, para ver se conseguimos descortinar alguma alteração de tendência ocorrida nos últimos anos. Ora, se atentarmos para as estatísticas mais recentes do Ministério da Economia, podemos, sem dúvida, observar uma quebra de tendência em relação à intensidade tecnológica das exportações nacionais. O problema é que esta alteração de tendência não tem o sentido "certo" ou esperado pelos defensores do Plano Tecnológico. Porquê? Porque se o Plano Tecnológico tivesse dado os frutos desejados, então seria de esperar que a percentagem das exportações de alta tecnologia e de tecnologia média-alta tivesse aumentado nas exportações totais. No entanto, o inverso tem acontecido. Como podemos ver no gráfico abaixo, a percentagem de exportações de alta tecnologia tem vindo a decrescer na última década, com especial preponderância desde 2008, quando estas exportações baixaram de 10% das exportações industriais totais em 2008 para 7,6% em 2010. Por sua vez, o peso relativo das exportações de tecnologia média-alta tem-se mantido bastante estável, apesar de se ter registado uma pequena diminuição da sua importância em 2009. 

Em contrapartida, não só a tecnologia média-baixa tem vindo a aumentar a sua importância relativa nas exportações portuguesas (e esta é uma das tendências mais significativas da economia nacional dos últimos anos), como também as exportações de baixa tecnologia registaram uma evolução surpreendente nos últimos 2 anos. Assim, enquanto em 2008, as exportações de baixa tecnologia correspondiam a cerca de 35,7% das nossas exportações industriais, em 2009, este valor tinha subido para uns extraordinários 39,1% do total.

Gráfico _ Intensidade Tecnológica das Exportações industriais portuguesas, 2002-Agosto 2010
Fonte: Ministério da Economia

Por outras palavras, se o propagado Plano Tecnológico teve algum efeito nas exportações portuguesas, certamente que este impacto não foi positivo. No mínimo, se formos (demasiado) optimistas, os efeitos do Plano Tecnológico não foram suficientes para contrariar o impacto que a crise internacional teve na estrutura das exportações portuguesas. O mais certo é que o Plano Tecnológico foi um fracasso com muito alarido, mas sem resultados palpáveis.
A verdade é que, apesar de toda a propaganda, o Plano Tecnológico foi somente mais um sonho "modernizador" deste governo  que se esvaneceu sob o peso da realidade económica.

26 outubro 2010

O EXEMPLO ALEMÃO

O Wall Street Journal tem hoje um artigo que tenta "explicar" o recente sucesso alemão. Enquanto a Europa estagna, o Sul da Europa (Portugal e Itália) entra na sua segunda década perdida, e países como a Espanha, a Grécia e a Itália têm acumulado elevados défices externos (ou seja, as suas exportações são bem menores do que as importações), a Alemanha cresce a ritmos muito consideráveis. Assim, as previsões mais recentes sugerem que a economia alemã vai crescer cerca de 3,4% em 2011, uma taxa de crescimento a fazer inveja a economias anémicas como a nossa.
Qual é a razão de tanto sucesso? A competitividade das exportações alemães, que têm sido a locomotiva da economia germânica nos últimos anos.
E quais são as causas de tanta competitividade? Um forte crescimento da produtividade e uma politica de contenção salarial. Estes dois factores têm contribuído para o controlo do crescimento dos custos unitários do trabalho alemão, o que tem aumentado a atractividade e a competitividade das exportações germânicas. E é exactamente isto que explica o sucesso alemão (de acordo com este artigo do WSJ, bem como segundo vários economistas) e é exactamente isto que ajuda a explicar o insucesso nacional nos últimos anos. Porquê? Porque os custos unitários nacionais têm vindo a crescer a um ritmo mais elevado do que na Zona Euro e do que em países como a Alemanha. Podemos ver isso no gráfico abaixo, que mostra como os custos nacionais têm vindo a crescer bem mais depressa do que os custos médios na Zona Euro.
Qual é o problema? O problema é que as nossas exportações têm ficado menos competitivas ou atractivas nos mercados internacionais, o que tem agravado o nosso défice externo e, consequentemente, tem contribuído para a subida do endividamento externo (pois temos que financiar a diferença entre as importações e as exportações). 
Para deteriorar a situação, em 2009 os custos unitários nacionais subiram ainda mais por motivos eleitoralistas, pois o governo patrocinou um aumento salarial na ordem dos 2,9%, embora a nossa produtividade estar não esteja a crescer. Quem pagou a factura do eleitoralismo foram as nossas exportaçoes, que perderam competitividade nos mercados internacionais, o que acentuou o défice externo.
Esta é a explicação dada por diversos economistas nacionais e internacionais. Entre nós, o economista que mais tem alertado para este mecanismo é Vitor Bento, que acabou de publicar mais um livro que ainda não li, mas tenciono fazê-lo nos próximos tempos, pois os seus livros são sempre de uma qualidade irrepreensível e muito polémicos (o que é bom).
Apesar de concordar em parte com este argumento, eu tenho uma explicação alternativa para os nossos problemas de competitividade. Mas isso fica para o novo livro, que continua a ser escrito a bom ritmo.

Gráfico_ Custos Unitários do Trabalho na Zona Euro, em Portugal, na Alemanha e na Europa da Sul
 Fonte: AMECO

(Nota: clique no gráfico para ampliar)

25 outubro 2010

LEGADOS DESTE GOVERNO (4) _ PRODUTIVIDADE ZERO

Outros dos lamentáveis legados deste governo foi não ter conseguido inverter a pronunciada descida da produtividade nacional que ocorreu na última década. Como podemos ver no gráfico abaixo, a produtividade total dos factores portuguesa tem vindo a decair sucessivamente nos últimos anos. Actualmente, o crescimento da produtividade total dos factores é já negativo. E se tivermos em linha de conta a média dos últimos 5 anos, verificamos que a produtividade total dos factores tem crescido a uma taxa média a rondar os zero por cento ao ano (Para quem não conhece o economês, este é um indicador da produtividade de todos os factores incluídos na produção de bens e serviços, tais como o trabalho, o capital e a terra).
Se atentarmos para a produtividade laboral, a conclusão é exactamente a mesma: a taxa de crescimento da produtividade nacional tem vindo a decrescer significativamente nos últimos anos. Isto apesar do propagado Plano Tecnológico, das Novas Oportunidades que melhoram as nossas estatísticas da Educação aos olhos do mundo, e do "notável" esforço de "modernização" do país.
Ora, contrariamente a toda a propaganda, o declínio da taxa de crescimento da produtividade nacional é simplesmente o factor mais importante para explicar o nosso medíocre crescimento económico na última década. Um declínio que, como é óbvio, as políticas económicas do governo não conseguiram contrariar. Bem pelo contrário. As más políticas dos últimos anos só acentuaram ainda mais os nossos problemas de competitividade (através de uma maior carga fiscal) e as nossas insuficiências de produtividade.
E a verdade é que só quando conseguirmos inverter esta tendência negativa da produtividade e implementarmos melhores políticas (e melhores práticas organizacionais) é que iremos alcançar uma retoma económica sustentada.

Crescimento da produtividade total dos factores em Portugal, 1960-2009

Fonte: AMECO