09 janeiro 2008

O CHORO E A PRESIDÊNCIA

Vale a pena ler a sempre-acutilante Maureen Dowd sobre o "choro" de Hillary, que, provavelmente, lhe valeu uma vitória em New Hampshire.
Resta saber o efeito que esse (alegado) momento de fraqueza terá a longo prazo para a candidatura de Hillary. Se o "choro" lhe deu New Hamsphire, o "choro" poderá ser-lhe fatal para as suas aspirações presidenciais. É verdade que os homens também choram. No entanto, quer gostemos quer não, as mulheres ainda não são tratadas da mesma maneira que os homens, pelo menos quando se candidatam a cargos públicos. Para muitos, um homem a chorar é revelador de emoção ou sensibilidade, enquanto uma mulher é sinal de fraqueza. Neste sentido, se ganhar a nomeação Democrata, há alguma dúvida que os Republicanos irão utilizar o "choro" em New Hampshire como prova de que Hillary não tem nem estofo nem resistência psicológica para ser a "commander-in-chief"?

AS EXCEPÇÕES DA LEI

Ora, aí está. Um novo pedido de excepção. Segundo o PUBLICO, "Presidente da Associação Nacional de Discotecas diz que, se houver excepções para os casinos,também quer tratamento especial". Não era evidente?

ESTAMOS TRATADOS...

Segundo o PUBLICO de hoje "Uma eventual opção de Portugal por um referendo ao Tratado de Lisboa teria sido encarada pelos parceiros da União Europeia (UE) como uma traição e a quebra de um acordo tácito no sentido de assegurar uma ratificação rápida e sem sobressaltos."
Pois. O que não se percebe é porque Sócrates alimentou a ilusão de que haveria um referendo. Para quê? Para mostrar que o governo supostamente quer dar voz aos cidadãos? Que o governo se preocupa com a nossa opinião? Ou, mais cinicamente, será que foi só para passar a imagem de que o governo nos quer ouvir sobre a Europa, mas o presidente da república nem por isso?

AS CORRIDAS CONTINUAM


Temos corrida(s)! Depois da surpresa Obama em Iowa e dos resultados acima da média de Huckabee, a normalidade regressou às primárias americanas. Hillary e McCain ressuscitaram. No lado Republicano, é de salientar a vitória do senador de Arizona. Para percebermos o quão importante este resultado representa para McCain, basta lembrar que há dois meses atrás a sua campanha estava sem dinheiro e sem ideias. Depois da revolução organizativa da sua equipa, McCain revitalizou e galvanizou os seus apoiantes, conseguindo repetir a proeza de 2000 (quando, surpreendentemente, bateu George Bush). Apesar de ter ficado em terceiro, Huckabee mostrou-se bastante satisfeito no seu discurso de derrota, muito porque Romney, o seu principal adversário nas sondagens, não ganhou num estado que devia, teoricamente, ser seu.
No campo Democrata, a grande vitoriosa foi, claramente, Hillary. A estratégia deu resultado. Quer tenha sido planeada ou não, a imagem de Hillary emocionada e de voz embargada provavelmente fez a diferença. Se atentarmos para os números, veremos que, contrariamente a Iowa, as mulheres votaram principalmente a favor de Clinton. As imagens de uma Hillary humana terão tido o impacto desejado. O grande perdedor dos Democratas foi John Eduards, que ficou num distante terceiro lugar.
Tudo em aberto, portanto. Quais são as primárias que se seguem? Michigan: 15 de Janeiro, Nevada: 19 de Janeiro, Carolina do Sul: 26 de Janeiro, a Flórida: 29 de Janeiro e no dia 5 de Fevereiro realiza-se a chamada "Super Tuesday", em que 23 estados estarão em jogo. Talvez só então as coisas fiquem mais definidas.

MITOS NA BLOGOSFERA

Vários blogues têm falado no Mitos. Aqui estão os links aos comentários da blogosfera:

Obrigado a todos.

08 janeiro 2008

O REFERENDO QUE NÃO CHEGOU A SER

Que novidade! O governo decidiu recuar e não propôr a realização do referendo europeu. Nenhuma surpresa. Depois de todos os esforços para termos um tratado europeu com o nome de Lisboa, seria perfeitamente ridículo e despropositado se fossemos nós a referendar e a vetar o mesmo tratado. Como José Sócrates não queria arriscar dar um tiro no pé, recuou.

PORQUE É QUE ESTAMOS A FICAR ENTABACADOS


Segundo o PUBLICO de hoje, "no caso dos casinos, será possível combinar a Lei do Tabaco com a Lei do Jogo, que, ao contrário da legislação antitabágica, não estabelece limites para as áreas reservadas a fumadores e não-fumadores". É verdadeiramente impressionante. Sempre parece que, para acomodar o irresponsável inspector-geral da ASAE, estamos dispostos a inventar excepções ex post à lei do tabaco. Repare-se que o que está em causa não é a validade de uma lei do tabaco (eu, pessoalmente, sou a favor, como explicarei brevemente). O que está em causa é se queremos ou não tal lei. E é muito simples: ou a implementamos ou não. Abrir excepções ad hoc é errado e contra-producente. Não tarda muito surgirão outros a pedir mais e mais e mais excepções.
Como sempre, esta polémica resulta da tradicional falta de planeamento nacional. Introduzem-se leis sem tomarmos em linha de conta todos os possíveis contornos das mesmas. Como não planeámos adequadamente, depois temos remediar. Reagimos em vez de prevenirmos. Exactamente o contrário do que devíamos fazer.

LEYA(MOS) MAIS E MELHOR


Aquele que é agora o maior grupo editorial português, LEYA, anunciou os seus planos para o corrente ano, bem como a criação do maior prémio literário português. Sinceramente, e como já referi aqui, penso que uma maior concentração editorial pode ser benéfica para o subdesenvolvido mercado livreiro nacional. Esperemos que sim.
Quanto ao prémio literário, claro que é uma boa notícia. Para os escritores, quanto mais melhor. Agora só falta um Booker Prize português...

AFINAL, HILLARY É HUMANA

O facto mais saliente (e extensamente debatido) da campanha ontem em New Hamsphire, foi a declaração emocionada de Hillary Clinton. Afinal, e contra todas as expectativas, Hillary é humana, tem sentimentos... Ou será, que tudo não passará de uma encenação da nova "Comeback Kid"???

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (4) _ Produtividade pós 25 de Abril

Fernando Santos e Silva tem os seguintes comentários:
"Em primeiro lugar desejo agradecer o ter publicado o seu livro "Mitos". Permita-me apenas um comentário sobre os indicadores de produtividade assentarem basicamante no factor de produção população. Assim se compreende (e assim refere) o abaixamento de produtividade logo a seguir ao 25ABR74. Ora, a balança de pagamentos no fim de 1973 já estava completamente desequilibrada e a diminuição da produtividade industrial (que de facto é dificil de quantificar) não terá sido tão grande como isso. Por isso penso que a apresentação dos indicadores de produtividade de 1974 em diante tal como o faz poderão levar alguns leitores a dizer cobras e lagartos do 25 de Abril. Gostaria de saber a sua opinião."
Caro Fernando,
Muito obrigado pelos seus comentários. Tem toda a razão sobre a produtividade no período pós 25 de Abril. Segundo alguns estudos, a descida da produtividade explica-se principalmente pelo aumento populacional devido à chegada dos portugueses das ex-colónias. No entanto, o que estes estudos não referem é que as elevadas taxas de produtividade nos anos 60 foram positivamente influenciadas pelo grande êxodo populacional para as colónias e para outros países. Também interessa sublinhar que tanto a produtividade industrial como a agrícola melhoraram após 1980. Mesmo nos anos 90 a produtividade destes sectores teve bons desempenhos. A grande excepção são os serviços. E é isso que é preciso resolver.

A propósito das eleições americanas, o Fernando Santos e Silva tem o seguinte artigo sobre as regras eleitorais.

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (3)

Rolando Almeida, filósofo e autor do blog A Filosofia no Ensino Secundário, tem os seguintes comentários sobre o Mitos:
"Vi a informação sobre o livro no Rerum Natura e, hoje mesmo, comprei o livro que acabei agora de ler, de uma assentada só. Sou da filosofia e reclamo muito este género de livros para a minha área, que existem às centenas em língua inglesa e nenhum em língua portuguesa (apesar dos esforços do colega Desidério Murcho). Este trabalho de divulgação de um saber é fundamental porque é capaz de recrutar muitos interessados para as diferentes áreas do saber que, de outro modo, não teriam qualquer informação. Carl Sagan foi, para mim, um verdadeiro mestre. E é um pouco esse o trabalho que procuro desenvolver no meu blog. Mais uma vez lhe agradeço. Realmente confesso que nunca tinha lido um livro de economia com tal interesse! Devo-o a si e ao seu trabalho."

07 janeiro 2008

NEW HAMPSHIRE


A próxima etapa das primárias americanas é realiza-se em New Hampshire. Contrariamente a Iowa (onde o sistema eleitoral é feito com os curiosos "causus"), em New Hampshire todos os votos contam. Quem tiver mais votos, ganha. New Hampshire muitas vezes dá boas indicações sobre os candidatos que poderão chegar ao fim, à nomeação desejada. Para além do mais, como New Hampshire é um estado sui generis no nordeste americano (é muito mais conservador do que os outros estados da região), os resultados das primárias amanhã serão importantes para os candidatos. Como o então governador do estado, John Sununu, afirmou em 1988: "The people of Iowa pick corn, the people of New Hampshire pick presidents".
As primárias serão principalmente importantes para os que perderam em Iowa: Hillary Clinton and Mitt Romney. Serão igualmente importantes para John McCain e para Rudi Giuliani.
No campo Democrata, as sondagens mostram que Obama (38-39%) tem agora uma vantagem de dez pontos percentuais sobre Clinton (28-29%). Em contraste, a nível nacional, Clinton (33%)ainda tem vantagem rem relação a Obama (29%). É por isso que New Hampshire é tão importante para Clinton. Se aspirar manter a vantagem a nível nacional, Hillary tem que ganhar as próximas primárias. Hillary tem que ganhar algo até à chamada Super Tuesday (onde vários grandes estados estão em jogo) no início de Fevereiro. Se tal não acontecer, Obama será imparável na corrida à nomeação Democrata (e, possivelmente, à Casa Branca).
PS. O Estado de New Hampshire aparece a vermelho no mapa.

A FACE OCULTA DAS AMÉRICAS

O DN tem hoje uma notícia curiosa sobre uma face da América do Norte (EUA e Canadá) menos conhecida. Cansados "de viver num sistema colonial de apartheid" (segundo eles), a nação Lakota tenciona negociar a independência dos Estados Unidos, reclamando um território que inclui partes das duas Dakotas, do Nebraska, e secções do Wyoming e Montana.
É duvidoso que os Lakota tentem e, principalmente, alcancem a almejada independência. No entanto, esta é claramente uma estratégia que pode resultar nas concessões que os Lakota podem obter do governo federal e dos diversos estados, principalmente a nível territorial.
Nos últimos anos, várias nações indígenas (chamadas First Nations no Canadá e First Americans nos Estados Unidos) têm negociado e alcançado tratados com os governos federais, provinciais e estaduais, que lhes concedem uma maior autonomia na gestão e governo de vastos territórios. Apesar de uma certa celeuma e de todas as vozes dissonantes, esta é uma tendência a saudar. Vale a pena recordar a tragédia que a chegada dos Europeus representou para os primeiros habitantes das Américas. Uma tragédia que hoje consideraríamos um genocídio, pois nalgumas regiões mais de 90 por cento da população indígena sucumbiu às armas, aos germes (principalmente) e ao aço dos Europeus (como Jared Diamond tão bem argumenta no seu magistral Guns, Germs and Steel).
Depois do extermínio veio a assimilação forçada, a discriminação (mesmo oficialmente até aos anos 60 no Canadá), o racismo, e o isolamento nas reservas. O resultado foi uma quase total alienação das populações indígenas do resto da população. O resultado foi o alcoolismo. Os abusos. A pobreza extrema. O isolamento. Ir a uma grande maioria das reservas indígenas quer nos Estados Unidos e no Canadá é entrar noutro mundo, num sub-mundo, num terceiro-mundo.
A verdade é que mais do que os Afro-americanos, mais do que os Hispânicos, os First Americans e os First Nations são os grandes segregados das sociedades norte-americanas. Como referi anteriormente, se Obama ganhar a nomeação dos Democratas ou a presidência americana será uma grande vitória do lado bom da humanidade . O dia em que um First American ou um First Nation for eleito para um alto cargo das nações americanas, teremos finalmente enterrado os fantasmas da tragédia que começou com a chegada de Colombo às Américas.

O MITOS NOS BLOGS _ DA LITERATURA

O Eduardo Pitta escreve o seguinte sobre o Mitos no seu blog Da Literatura:

"Álvaro Santos Pereira (n. 1972), professor de economia na Universidade de York, que no ano passado surpreendeu o milieu com um romance provocador, Diário de um Deus Criacionista, acaba de publicar um livro que radiografa os equívocos da nossa economia: Os Mitos da Economia Portuguesa. Mitos? Precisamente. Ele são as “receitas mágicas”, os “brandos costumes”, os “salários baixos”, a “paixão educativa”, o “perigo espanhol”, os “imigrantes”, o “mezzogiorno português”, a “independência madeirense” e outros que tais. Dezasseis capítulos escritos numa linguagem ágil, alicerçada em dados rigorosos, sempre acessível ao leitor não especializado. Afinal, como diz Nicolau Santos no prefácio, «a economia não tem de ser uma coisa chata». Pois não. E aqui não é, decididamente. Álvaro Santos Pereira, que tem um fino escopro de análise, pontuado com a ironia de quem lê o país à distância do Reino Unido, trata com desenvoltura temas que moldam o nosso quotidiano. Como pergunta a contracapa, «Porque é que temos tantos doutores e engenheiros, mas a produtividade não cresce?» Por que será?"

VALE A PENA DESCOBRIR



Souad Massi é uma espécie de Mariza da Argélia. Já editou três albuns de originais e uma compilação. A beleza, a melancolia, e a sensualidade da voz e da guitarra de Massi são inconfundíveis. Imperdíveis. Vale a pena descobrir.

AINDA À ESPERA...

Já passaram seis dias desde o dia em que foi apanhado a fumar num casino e o inspector-geral da ASAE ainda não se demitiu nem foi demitido. Lamentável. Verdadeiramente lamentável. Para quando uma cultura de responsabilização pessoal em Portugal?

06 janeiro 2008

PORQUE É QUE JOÃO JARDIM IRÁ SER AINDA MAIS JOÃO JARDIM


Como é debatido no Mitos, nos últimos anos Madeira tem sido um dos poucos pontos brilhantes da economia nacional. A Madeira tem registado um crescimento económico significativo, bem como um aumento da produtividade. Com efeito, na última década, se Portugal fosse a Madeira, não estaríamos para aqui a lamentarmo-nos que somos um país de coitadinhos, que não chegamos a lado nenhum, que os espanhóis vão comprar tudo, que que que...

O problema, para a Madeira, é que o arquipélago tem sido vítima do seu próprio sucesso. Como o rendimentos madeirense está acima da média nacional e já ultrapassa os 75 por cento do rendimento médio europeu, tanto os subsídios nacionais como europeus têm diminuído (e vão continuar a decrescer nos próximos anos).

É neste contexto que devem ser entendidas as afirmações mais recentes de Alberto João Jardim. Durante a cerimónia de abertura das comemorações do quinto centenário da elevação do Funchal a cidade, João Jardim acusou os "cubanos" (os continentais) de 500 anos de "extorsão e roubo de dois terços do produto do suor dos madeirenses, que foi retirado da Madeira e levado para as fantasias do Reino".

Penso que as afirmações crescentemente nacionalistas e independentistas de João Jardim se devem compreender no âmbito de uma correcta (e planeada?) estratégia e racionalidade económica. Podemos não concordar ou gostar do estilo, mas é indubitável que João Jardim tem sido extremamente eficaz no uso da cartada independentista quando lhe é conveniente. Quando existem ameaças veladas ou implíticitas de corte de fundos, João Jardim torna-se ainda mais João Jardim e, quase sempre, os governos do continente cedem. O problema é que agora o governo do continente está numa crise orçamental e os fundos europeus para a região autónoma vão igualmente diminuir. Deste modo, as receitas do governo regional irão ser grandemente afectadas.

O que é que resta a João Jardim para tentar contrariar este estado de coisas? A cartada independentista e a retórica nacionalista. Podemos ter a certeza que nos próximos meses João Jardim irá ser ainda mais João Jardim e as ameaças independentistas irão subir de tom. Como é que podemos ter tal certeza? Porque esta estratégia é a que tem uma maior racionalidade económica. E, podemos estar certos, de racionalidade económica percebe João Jardim. Não é à toa que João Jardim é João Jardim.

PORQUE É QUE O QUÉNIA É IMPORTANTE


Nos últimos anos, vários economistas e politólogos têm investigado os efeitos da fragmentação étnica sobre a democracias e o crescimento económico. Vários estudos demonstram que países com uma maior fragmentação étnica tendem, em média, a ter mais conflitos, menos democracia e mais fraco desempenho económico. Qual é a região do mundo com maior diversidade étnica? África. Com efeito, a fragmentação étnica é muitíssimo maior em África do que em qualquer outra região do globo, com a excepção da Papua Nova Guiné (que não é propriamente conhecida por ser uma região muito desenvolvida).
Ora, os (potenciais e reais) conflitos relacionados com a fragmentação étnica africana foram agravados pelos colonos europeus quando, no século 19, dividiram África em países com fronteiras perfeitamente arbitrárias, sem tomar em linha de conta as divisões étnicas existentes.
Vários trabalhos têm mostrado (ou sugerido) que grande parte da tragédia económica (e militar) africana é resultante deste factor. O Quénia é um caso extremo das divisões étnicas. Existem cerca de 40 etnias diferentes nesse país, das quais as mais populosas são os Kikuyu (22% da população total), os Luhya (14%), os Luo (13%), os Kalenjin (12%), os Kamba (11%), os Kisii (6%), os Meru (6%), e outros (15%). Os dominantes Kikuyu estão concentrados na região Nairobi.
A grande diversidade étnica no Quénia e as desigualdades económicas e sociais existentes têm sido factores de conflito, e a economia tem sofrido o preço. Ainda assim, os últimos anos têm sido de algum progresso, aliás como tem sucedido um pouco por toda a África subsaariana (Moçambique e Angola incluídos). É por isso (para além da questão humanitária) que é tão importante fazer tudo para que o conflito não descambe numa guerra civil ou pior. É por isso que é tão crucial que a comunidade internacional se empenhe verdadeiramente para ajudar o Quénia a sair da crise. É por isso que é tão fundamental que o Quénia não caia, como é costume, no nosso esquecimento.

MITOS NOS TOPS

O Mitos foi o mais vendido dos livros de Economia e Gestão nas livrarias Bertrand na última semana de Dezembro. O top 5 foi o seguinte:


1. Os Mitos da Economia Portuguesa
Alvaro Santos Pereira (Guerra e Paz)

2. Organizem-se! A Gestão Segundo Fernando Pessoa
Filipe Fernandes (Oficina do Livro)

3. De Bom a Excelente
Jim Collins (Casa das Letras)

4. O Futuro da Gestão
Gary Hamel (Actual Editora)

5. Bolsa _ Investir e Ganhar Mais
Miguel Gomes da Silva (K Editora)

05 janeiro 2008

LIVRO DA SEMANA (1)



Em 2007, um dos livros mais badalados no mundo anglo-saxónico foi The Road de Cormac McCarthy ("A Estrada" entre nós, publicado pela Relógio D'Água). Esta é a história da viagem de um pai e de um filho por entre os escombros e o que resta do mundo após um desastre nuclear. Do princípio ao fim, a paisagem é desoladora. Angustiante. Enervantemente real. Possível. Desta tragédia apocalíptica somente restam alguns humanos, que fazem tudo (tudo mesmo) para sobreviver. Pai e filho também tentam sobreviver, percorrendo uma estrada em direcção ao mar. No sentido da esperança. Uma fútil e vã esperança.
Nos últimos anos têm surgido bastantes visões trágicas sobre o nosso futuro comum, das quais se destacam o fabuloso Oryx and Crake da canadiana Margaret Atwood (uma das candidatas ao Nobel este ano), ainda não publicado entre nós (incompreensivelmente, digo eu). Este não é mais um romance sobre as consequências de um desastre nuclear. Este é o romance sobre as consequências de um desastre nuclear. O enredo é captivante. O ritmo de escrita é perfeito. Lento. Penoso. Doloroso.
Quem o ler certamente que nunca esquecera as paisagens de cinza e destruição relatadas por McCarthy. Um livro a comprar. Hoje, se possível.
Estrelas: 4 e meia

04 janeiro 2008

OS INCENTIVOS DO DAKAR


Confesso que não sou grande adepto do rally Lisboa-Dakar. No entanto, o cancelamento do evento merece algumas reflexões. À primeira vista, o cancelamento do rally por motivos de segurança parece lógico e sensato, principalmente tendo em conta que a organização do evento terá sido alertada pelos serviços secretos franceses sobre a possibilidade de atentados na Mauritânia.
Mesmo assim, o cancelamento do rally é não só uma vitória dos terroristas, mas também fornece incentivos errados a futuras organizações da prova. Quem garantirá aos patrocionadores e pilotos que o mesmo não irá acontecer para o próximo ano? Ou para o seguinte? Que motivo tem um patrocinador para investir numa prova que pode ser cancelada à última hora devido a alegados problemas de segurança? Que motivação tem um piloto para se preparar um ano inteiro para um rally-que-pode-não-acontecer?
Mais importante, se os terroristas ganharam este ano, não terão eles alento adicional para tentar fazer o mesmo no próximo ano? Ao cancelar a prova, não estaremos a fornecer os incentivos errados a todas as partes envolvidas?

ECONOMIA DIVERTIDA

Crónica de Carlos Fiolhais hoje no PUBLICO (também pode ser lida no De Rerum Natura):

"Uma das minhas resoluções de ano novo foi a de tentar saber mais sobre algumas coisas de que sei pouco. E uma das coisas de que sei menos é economia. Confesso que tenho sido muito económico no que respeita a leituras de economia. Mas, agora, descobri que há livros de ”economia divertida”, que têm o mérito de pôr essa disciplina ao alcance de ignorantes. Livros como “Freakonomics” (de Steven Levitt e Stephen Dubner, Presença, 2006) e “O Economista Disfarçado” (de Tim Harford, na mesma editora e ano) estão para a economia como os livros de divulgação científica estão para a ciência. Fazem sentir próximo algo que parecia longínquo.Julgo ser um sintoma do nosso progresso que comecem a aparecer também livros de divulgação da economia escritos em português e por portugueses. É o caso daquele que tenho entre mãos: “Os Mitos da Economia Portuguesa”, de Álvaro Santos Pereira (Guerra e Paz, 2006). O autor é um economista licenciado em Coimbra, doutorado em Vancouver, Canadá, e professor em York, Inglaterra. A obra explica-nos que o atraso económico português tem muito que ver com o nosso atraso na chegada ao trabalho: segundo o autor, só chegamos a horas ao futebol e à missa. Sobre o funcionamento dos serviços públicos, conta-nos as suas aventuras em repartições de finanças e governos civis. Mas não se esquece de acrescentar que não é só o Estado que tem culpa da nossa baixa produtividade: aponta também o dedo a gestores e a sindicatos. E, justificando o título, desmonta vários mitos. Desmonta o mito da “paixão educativa”, que deu os resultados conhecidos: apesar do investimento, éramos educados mal e continuamos mal educados. Mas refere que a culpa não é apenas do governo: por exemplo, nas universidades nacionais professores e estudantes são corresponsáveis pela mediocridade. Desmonta o mito da Europa (precisamos dela, é claro, mas a Europa por si só não nos garante a boa vida), o mito da ameaça espanhola (precisamos de mais empresas espanholas), o mito do excesso de emigrantes (devemos querer mais ucranianos e mais brasileiros) e o mito da independência da Madeira (se Malta é independente, porque é que a Madeira não poderá ser?). E conclui que devíamos insistir naquilo em que somos bons, mesmo que isso seja futebol, Fátima e fado.Apesar dos nossos defeitos, o autor lembra-nos que ocupamos um lugar bastante razoável no “ranking” da riqueza mundial (estamos entre os 25 por cento mais ricos), pelo que há muitos países atrás de nós (por exemplo, Angola, que neste momento é o país do mundo com maior taxa de crescimento económico). Pegando na expressão do historiador de economia Pedro Lains, lembra-nos que há “progressos do atraso”.É, portanto, munido com algumas noções de economia aprendidas de fresco que me preparo para tomar outra decisão no novo ano: passar o dinheiro da Caixa Geral de Depósitos para o Millenium BCP ou passar o dinheiro do Millenium BCP para a Caixa Geral de Depósitos. Há, claro, uma outra opção: passar o dinheiro dos dois para uma conta nova num outro banco, português ou estrangeiro (segundo o “El País” de 31/12/2007, o Banco Santander Central Hispano já é, em capitalização, o sexto maior do mundo ao passo que o Banco Bilbao e Vizcaya é o 16º). Somos bons nos três éfes, mas em finanças nem por isso. Apesar das minhas leituras de economia, ainda não percebi porque é que os nossos bancos privados têm de passar a ter os gestores públicos seus concorrentes quando fazem asneiras, ainda que das grossas. E estou sem perceber porque não se privatiza o banco público que Scolari, muito bem pago, publicitava com grande entusiasmo (não, o burro não é ele). Os espanhóis não têm nenhum banco público como a nossa Caixa e vivem felizes. Ou talvez perceba: é o capitalismo português que gosta de dormir na almofada do Estado. E o Estado gosta disso. Jorge Coelho mostrava-se outro dia tão escandalizado com a hipótese de a Caixa ser privatizada que fiquei convencido que era mesmo uma boa ideia. Pelo menos serviria para diminuir o défice e talvez servisse para dinamizar a economia."

TOLERÂNCIA NA EUROPA E NA AMÉRICA


Tem razão um leitor, ao chamar a atenção que a Europa tem e já teve mulheres a liderar, enquanto que os Estados Unidos nunca tiveram. As eleições deste ano são particularmente curiosos, pois no campo Democrata existe uma mulher e um afro-americano que possibilidades hipóteses reais de ganhar.
Mesmo assim, se começarmos a pensar, há coisas em que os europeus são mais tolerantes do que os americanos. Por exemplo, na Europa é possível ter governantes agnósticos ou mesmo ateus (mesmo Portugal teve Mário Soares) e até homossexuais declarados (como já aconteceu na Inglaterra, na Escandinávia e na Holanda). Nos Estados Unidos isto não seria possível, pelo menos a nível federal, devido à formidável (e nefasta) influência dos evangélicos e outros cristãos fundamentalistas.

OBAMA


Aí estão os primeiros resultados das Primárias americanas. Barak Obama e Mike Huckabee são os claros vencedores. Para Huckabee a vitória foi maior do que o esperado, mas Iowa é Iowa (um estado muito conservador) e veremos se este evangélico consegue o mesmo feito nas primárias que se seguem.
Obama é uma daquelas histórias que nos faz acreditar na humanidade. Afro-americano, filho de um imigrante queniano, surgiu de rompante em 2004 como a estrela emergente dos Democratas, quando ganhou um lugar no Senado. Extremamente articulado e cativante, Obama poderá ser para a América actual o que Kennedy representou nos anos 60. Um catalizador de mudança. Mesmo que não ganhe a nomeação dos Democratas, o que já alcançou é muito substancial e significativo.
A contundente vitória de Obama é ainda mais notável, porque teve lugar num estado conservador em que 95 por cento dos votantes são brancos. A grande perdedora da noite foi Hillary Clinton. Para ela, a próximas primárias são verdadeiramente cruciais.
Por último, vale a pena lembrar o quão distante a Europa está dos Estados Unidos a nível da integração racial e dos imigrantes. Nós, europeus, temos a mania que somos melhores e mais avançados do que os americanos. Supostamente, temos mais cultura (o que quer que isso represente), um maior respeito pelos direitos humanos (não temos a pena de morte) e somos mais avançados a nível da protecção social. No entanto, alguém realmente acredita que um negro, filho de imigrantes, poderia concorrer com sucesso à presidência ou ao governo de um qualquer país europeu? Por mais que isso custe admitir a muitos entre nós, a América ainda continua a dar muitas lições de moral à velha Europa.

UM ANO DEPOIS


Há exactamente um ano, estava eu numa entrevista de emprego em Vancouver quando recebi um email do Manuel Fonseca, na altura editor da Guerra e Paz, a informar-me que tinha lido 50 páginas do Diário de um Deus Criacionista e que tinha gostado tanto do que tinha visto que me propôs a imediata publicação do livro, mesmo sem ler as restantes páginas. Escusado será dizer que fiquei tão satisfeito com as novidades que a entrevista de emprego correu muitíssimo bem e, assim, uns meses mais tarde, regressei à cidade mais bonita do Canadá.
Uns dias mais tarde encontrei-me pela primeira vez com o Manuel em Lisboa para combinar os detalhes da efectiva publicação do romance. Nessa ocasião, o Manuel perguntou-me (e desafiou-me) se não gostaria de escrever um livro de Economia num estilo mais descontraído, um desafio que aceitei uns dias mais tarde. Foi assim que surgiu o Mitos da Economia Portuguesa.
Entretanto, o Criacionista foi publicado em finais de Abril. O blog do livro encontra-se aqui.

Vale a pena recordar que este é "um diário da História de Deus e da Sua solidão infinita durante biliões e biliões e biliões e biliões de anos e da Sua magnífica e bela Obra e do BIG BANG e da incrível criação dos universos e do Tempo e da matéria e das estrelas e da expansão desmesurada do Cosmos-que-atingiu-uma-ENORMIDADE-tal-deixou-o-Divino-com-os-nervos-em-franja e do aparecimento dos Anjos e da rebelião do Diabo e do desenvolvimento da vida e dos dinossauros e do maldito asteróide que os aniquilou e do crescimento dos mamíferos e dos símios-que-desceram-das-árvores e dos símios-grunhidores-que-tanto-irritaram-o-Eterno e de Adão e de Eva e de Noé e de Abraão e de Sara e de Moisés e de todos os restantes protagonistas de todos os livros sagrados e de todos os santos e de todos os tementes do seu Criador, que é só Um, Uno, Infinito e Sagrado. Esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com a realidade poderá ou não ser coincidência. Só Deus saberá.”

03 janeiro 2008

MERCADO DOS LIVROS (2)_ A GRANDE DESCOORDENAÇÃO


O Francisco José Viegas discute aqui a utilidade e a veracidade dos tops livreiros nacionais. Igualmente, vale a pena relembrar o lastimoso estado de descoordenação que existe entre os livreiros, as distribuidoras e as editoras, pelo menos no que diz respeito aos números das vendas de livros.
Se um(a) editor(a) ou um(a) autor(a) quiser saber se um livro está a vender bem, simplesmente isso não é possível, pelo menos na grande maioria dos casos (com a excepção dos grandes best-sellers). Nem é só conhecer os números das vendas semanais, como acontece noutros países por publicações como o Bookseller, o New York Times, entre outros. Eu já nem pedia tanto. No entanto, em Portugal nem sequer as vendas mensais e, por vezes, trimestrais, estão disponíveis. Vivemos num estado de pura ignorância em relação às vendas da grandessíssima maioria dos livros à venda em Portugal.
Com efeito, se um livro vende bem mas não chega aos tops, é extremamente difícil saber se e quando novas edições se justificam. Simplesmente, espera-se até haver poucos exemplares (umas poucas centenas) nos stocks da distribuidora para se decidir fazer (ou não) uma nova edição. Ora, como preparar uma nova edição demora cerca de 10 a 15 dias (até o livro estar disponível nas livrarias), surgem inúmeras situações em que se registam graves atrasos na colocação das novas edições nas livrarias. Como certamente já aconteceu a muitos de nós, muitas vezes vamos à procura de um livro que supostamente está a vender bem e não o conseguimos comprar. Uma edição esgotou-se e a nova ainda não está disponível. E esperamos, esperamos até ele finalmente chegar, ou, então, perdemos simplesmente o interesse.
Como é óbvio, a falta de coordenação e comunicação entre livrarias, editoras e distribuidoras, limitam seriamente a capacidade de resposta na venda de livros. Quem perde? Os autores, as editoras, as distribuidoras e os próprios livreiros. Ou seja, todos. A falta de coordenação entre todos resulta numa situação em que ninguém ganha e todos perdem.
O sector livreiro português continua a proceder como se não existissem computadores para gerir stocks, como se não fosse do interesse de todos haver uma maior coordenação por parte de todos os actores interessados (editoras, distribuidoras e livrarias). Será que já não era hora de mudarmos este lastimável estado de coisas?

PORQUE É QUE A ASAE ESTÁ ENTABACADA


Depois do fiasco protagonizado pelo seu inspector-geral (que ainda não se demitiu nem foi demitido...), a ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica) vem-nos agora dizer que os casinos são regulados pela Lei do Jogo, não sendo abrangidos pela Lei do Tabaco. Era só o que faltava. Todos concordamos que as medidas anti-tabaco introduzidas em vários países (e não só Portugal) destinam-se principalmente a proteger os trabalhadores de locais fechados do fumo passivo (pelo menos, esta é a intenção). Se é assim, então vejamos:
1) Os casinos são ou não são lugares fechados? Sim, são.
2) Os trabalhadores dos casinos têm ou não os mesmos direitos que os trabalhadores de outros estabelecimentos comerciais e locais públicos? Sim, têm.
3) Os trabalhadores dos casinos são ou não afectados pelo fumo passivo? Sim, são.
Se concordarmos que as respostas as estas perguntas são positivas, porque razão não seriam os trabalhadores dos casinos abrangidos pela lei da mesma forma que outros trabalhadores? Afinal, se abrirmos uma excepção para os casinos, porque é que não fazemos o mesmo para as discotecas? Para os cafés? Para os gabinetes dos inspectores da ASAE?

Tenhamos razoabilidade. Se queremos mesmo que a lei avance (o que não é linear), então a mesma tem que se aplicar a todos. Se, por outro lado, não gostamos da lei, então a melhor maneira de dar cabo dela é começar a introduzir excepções atrás de excepções atrás de excepções.

ELEIÇÕES AMERICANAS

Hoje realizam-se as primeiras Primárias das eleições americanas. Iowa, um pequeno estado americano, irá nos dar as (importantes) indicações iniciais sobre os muitos candidatos à corrida presidêncial. Veremos se vai haver supresas.
Se está interessado(a), vale a pena ver os seguintes websites e blogs:
http://www.instapundit.com/
http://www.dailykos.com/ (Democrata)
http://andrewsullivan.theatlantic.com/ (Republicano)

02 janeiro 2008

LISBOA NO NEW YORK TIMES


O New York Times considera Lisboa um must para visitar em 2008, sendo o segundo destino mais apetecível para fazer turismo neste ano. Porquê? Não apenas porque ainda é relativamente barata, mas também devido à crescente oferta cultural, como o Museu Berardo.
Segundo o NYT:
"Bargain-seeking tourists have long flocked to Lisbon, typically among the most affordable of European cities. But now the Portuguese capital is also emerging as a cultural force. The new Berardo Collection Museum, in the historic Belem district, boasts a major trove of modern and contemporary art. Designer hotels like Fontana Park and Jerónimos 8 are attracting style-savvy travelers. And the Design and Fashion Museum, scheduled to open in late 2008, will go a long way toward cementing the city’s avant-garde status."
PS: Obrigado à Luísa Espirito Santo por me ter chamado à atenção para esta agradável notícia.

OS EXEMPLOS QUE VÊM DE CIMA

É inacreditável a cultura de desresponsabilização pessoal que existe em Portugal. Independentemente de concordarmos ou não com uma determinada lei, o mínimo que podemos esperar dos nossos governantes e dirigentes ligados ao Estado é que cumpram o estipulado por eles(as) mesmos(as) . Ora, entre nós, muitas vezes os representantes do Estado são os primeiros a desrespeitar a lei. Frequentemente, ouvimos que este(a) ou aquele(a) ministro(a) foi apanhado(a) a andar bem acima dos 120km/h. Agora, era inevitável, chegou a vez do tabaco. António Antunes, inspector-geral da Autoridade de Segurança Alimentar e Económico (ASAE), um dos responsáveis pela inspecção da aplicação da lei antitabágica em lugares fechados, foi fotografado a fumar uma cigarrilha num casino no dia 1 de Janeiro. Perante tal situação, noutro país este responsável demitir-se-ia ou seria forçado a demitir-se imediatamente. O que é que acontece em Portugal? Desculpamo-nos que a lei não se aplica! Nas palavras deste (ir)responsável governamental a nova lei “não proíbe expressamente o tabaco nos casinos e nas salas de jogos”. Ou seja, não sou eu que estou mal, é a lei que não esclarece! É verdadeiramente impressionante o clima de impunidade vigente entre nós. Com estes exemplos que nos “vêm de cima”, como é que querem que os cidadãos comuns cumpram as leis e acreditem nos seus governantes?

CONCENTRAÇÃO EDITORIAL


Este será o ano em que veremos os resultados da concentração editorial em Portugal. Recorde-se que recentemente Paes do Amaral comprou algumas das maiores editoras nacionais, incluindo a Dom Quixote, a Asa, a Texto Editora e a Caminho. A Gradiva foi comprada pelo grupo da Oficina do Livro/Explorer. Provavelmente, a tendência de concentração irá continuar, com outras editoras a seguirem o exemplo.
A concertação editorial não é, por si só, nefasta ou prejudicial. Actualmente, existem centenas de editoras em Portugal. Nos últimos anos, surgiram dezenas de novas editoras, muitas das quais extremamente inovadoras e dinâmicas (entre as quais se conta a minha editora, a Guerra e Paz). No entanto, é claro que a tendência de repartição do mercado não podia continuar. As fusões e concentrações (bem como as falências) eram inevitáveis. A única coisa que foi surpreendente foi um grupo comprar as principais editoras do país.
Dito isto, e tendo em conta o novo panorama editorial muito mais concentrado, interessa perguntar: Irão os novos colossos editoriais ter uma palavra a dizer nas margens de lucro dos distribuidores? Haverá menos espaço para as escritas menos ortodoxas? Serão os consumidores (os leitores) a pagar o preço pela maior concentração editorial? Irão os grandes grupos editoriais apostar ainda mais em best-sellers com qualidade duvidosa ou será que haverá lugar para os novos autores? Em Portugal, por não haver agentes literários, é extremamente difícil e moroso publicar o primeiro livro. Irá esta situação piorar ou melhorar com os novos grandes grupos editoriais?
Estas são perguntas para as quais começaremos a ter respostas ao longo dos próximos meses. Pessoalmente, não estou muito preocupado com a concentração editorial. Por um lado, se resultar (um grande "se"...), pode ser verdade que haja uma maior aposta e divulgação da literatura portuguesa no mundo lusófono (o que seria ideal), bem como noutros países. Por outro lado, mesmo que os nossos piores receios (em relação aos novos autores, etc.) se confirmem, teremos sempre as editoras pequenas para inovar e para apostar em novos autores. Afinal, Bill Gates, que é Bill Gates, sempre confessou que o seu pior pesadelo (sobre o futuro da Microsoft) era aparecer algum (jovem) espertalhão, capaz de inovar de forma decisiva radical, capaz de retirar a liderança da inovação à própria Microsoft. Quem nos garante que o mesmo não se passe com os colossos editoriais agora criados?

ASP

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (2)

O Miguel Faria e Castro, estudante de Economia na UNL, comenta o “Mitos”

“...O seu livro foi, dentro desta temática, uma das obras que mais me marcaram. De forma objectiva, e armado com uma série de indiscutíveis fundamentos estatísticos (caso para dizer: "mais forte era impossível"), consegue desmontar e destruir por completo a grande maioria dos bitaites ... que são persistentemente utilizados por opinion-makers, empresários, sindicalistas e, triste e essencialmente, por políticos portugueses.
Sendo um estudante de Economia a meio do seu curso, não posso deixar de destacar os capítulos referentes à alegada "Invasão Espanhola" e aos "Salários Baixos". Apesar de adoptar um discurso natural, simples e acessível a qualquer leitor ... consegue construir uma perspectiva clara e fundamentada dos problemas que o país atravessa e, acima de tudo, como podem esses problemas ser convertidos em oportunidades. Foi, definitivamente, o aspecto que mais se evidenciou na obra: a harmonia com que foi capaz de compatibilizar a acessibilidade do discurso ao "comum mortal" e o "trabalho de bastidores" econométrico que suporta todos os pontos que são assertados ao longo do livro.
Sem qualquer dúvida, terminei a leitura do livro com a ideia de que este, sim, deveria ser um manual indispensável, leitura preparatória obrigatória para qualquer político, economista ou comentador que se atreva a escrever mais do que duas linhas (ou mesmo só duas linhas!) sobre a Economia Portuguesa.
Um grande bem haja, os meus parabéns pel'Os Mitos e, acima de tudo, os meus agradecimentos pela excelente leitura!”

Muito obrigado pelas simpáticas palavras. O livro foi, sem dúvida, escrito a pensar nos não-economistas, bem como nos próprios estudantes de Economia. Quando era estudante, sempre procurei encontrar um livro que me explicasse de forma mais simples e natural os problemas da economia portuguesa, sem recurso a modelos elaborados ou sofisticados testes econométricos. Foi com essa intenção que o Mitos foi escrito e é bom saber que, segundo o Miguel, este objectivo foi cumprido.

ASP

COMENTÁRIO DOS LEITORES (1)

O Cristiano contesta alguns dos mitos abordados no livro e coloca algumas questões interessantes. Ele pergunta:
“É mito, o facto de eu ter 10 anos de experiência no ensino superior, 6 anos de experiência em consultadoria em sistemas de informação, ser mestre em gestão de informação e ter como vencimento 1020 euros? É mito estar a concorrer a quase todos os empregos em consultadoria de sistemas há mais de 1 ano e até agora ter tido apenas duas respostas para uma entrevista, tendo depois ouvido que se tivesse 25 anos ou se estivesse disposto a receber 800 euros entraria na empresa?É mito concluir que cerca de 60 por cento dos meus antigos colegas de faculdade terem emigrado? É mito concluir que mais 80 por cento dos meus antigos colegas de faculdade que ainda permanecem no país não terem filhos e estarem a trabalhar com recibos verdes contra sua vontade? Tenho muita pena em lhe dizer que, infelizmente, não tem razão em relação aos "mitos". Em Portugal, quem tem mais de 50 anos tem quase só direitos e quase nenhum dever, quem está entre os 40 e os 50 anos é uma questão de sorte e quanto aos restantes não têm praticamente direitos, apenas deveres! Este é o verdadeiro Portugal de 2007.”

Eu concordo completamente que Portugal não tem salários altos. Um trabalhador português médio ainda é cerca de três vezes mais barato do que um alemão ou um sueco. No entanto, o que eu contesto é o facto de nos rotularmos de um país de salários baixos. 1000 euros por mês não dá para grandes (ou nenhumas) folgas. Muito menos com filhos. Mesmo assim, um português médio (incluindo nas áreas de sistemas de informação) é cerca de duas vezes mais caro do que um checo ou um polaco e três vezes mais caro do que um romeno ou um búlgaro. Ou seja, Portugal não tem salários baixos nem altos. Portugal é um país com salários médios, com todos os problemas e dificuldades que isso acarreta. Os salários só subirão através de dois mecanismos interligados: o crescimento económico e a subida da produtividade média.
Por outro lado, a questão do desemprego de longa duração e para pessoas com mais de 45 anos é muito mais delicada. Em todos os países, ficar desempregado aos 40 ou 50 anos é, de uma forma geral, um drama. No fundo, um desempregado com esta idade encontra-se num dilema: tem demasiada experiência e conhecimentos para aceitar (e conseguir) empregos para recém-licenciados, habitualmente menos remunerados. Quando uma economia cresce, tudo é mais fácil. A reciclagem e a rotatividade de empregos acontecem sem grandes dificuldades (e rapidamente). O problema é que Portugal tem registado baixas taxas de crescimento económico. Deste modo, a rotatividade no mercado de trabalho é muitíssimo mais lenta, resultando em maiores dificuldades para os desempregados com mais de 45 anos.
Esta situação é ainda mais dramática se nos lembrarmos que uma das tendências mais acentuadas dos últimos tem sido o envelhecimento das populações. A faixa etária com maiores índices de crescimento no mundo ocidental é a dos centenários. Ou seja, cada vez mais, aos 50 anos não se está perto da reforma, mas sim no meio da nossa vida activa. O que é que o Cristiano pode fazer? Primeiro, nunca desistir. Continuar a procurar um emprego que o satisfaça, quer profissionalmente, quer monetariamente. Segundo, se isso não resultar, porque não usar os conhecimentos para iniciar um projecto próprio? Ás vezes, nas economias, as oportunidades espreitam quando as crises surgem. Porque não pensar que o mesmo se pode passar a nível individual?

01 janeiro 2008

COMPANHIA DE ESCRITA (2)


Desconhecida do público português, a indo-canadiana Kiran Ahluwalia é uma das minhas preferidas companhias de escrita. Ritmos indianos antigos são combinados com a modernidade dos arranjos. Os seus "gazals" são intensamente belos, profundos. Vale a pena descobrir.

PREÇOS E SALÁRIOS, 1500-1900


Hoje é o primeiro dia formal do projecto “Prices and Wages and Rents in Portugal, 1500-1900” (Preços, Salários e Rendas em Portugal, 1500-1900”. O projecto é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. A equipa de investigação inclui o Jaime Reis (Instituto de Ciências Sociais), a Conceição Andrade Martins (Instituto de Ciências Sociais), a Inês Amorim (Universidade do Porto), a Leonor Costa (ISEG), o Hélder Fonseca (Universidade de Évora), e eu próprio. Nos próximos três anos iremos angariar dados de várias partes do país (Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Évora, e mais uma ou duas cidades do interior) a nível dos preços de vários bens, dos salários e das rendas, desde 1500 até 1900. Munidos com estas séries temporais, será possível ter uma visão diferente (mais global e de longo prazo) da economia portuguesa. Poderemos observar a evolução dos níveis de vida portugueses desde os tempos das Descobertas, a variação dos preços, os ciclos económicos, bem como analisar as assimetrias regionais portuguesas, a evolução da produtividade, novos cálculos do produto nacional, entre muitas outras coisas. Tencionamos também construir uma base de dados dos preços, salários e rendas portuguesas, que será disponibilizada a todos investigadores e público em geral. Não tenho dúvidas que este projecto não só nos fornecerá muitos dados, como também conduzirá a uma nova perspectiva (mais quantificada e mais exacta) da economia nacional.