09 abril 2008

PRESERVATIVOS SALVADORES

Foi esta semana inaugurada uma fábrica de preservativos na Amazónia brasileira, que tem por objectivos principais combater a deflorestação e criar emprego. Mais de cem milhões de preservativos serão produzidos todos os anos, utilizando a borracha da Amazónia. É o que se diz matar dois coelhos de uma cajadada só: protege-se a floresta e protegem-se milhares e milhares de casais.

PREÇOS ALIMENTARES

Mais um aviso da ONU sobre o impacto da subida dos preços alimentares nos países subdsenvolvidos. O ONU prevê um aumento do número de protestos e de conflitos nos países mais vulneráveis e instáveis. Ou seja, segundo a ONU, a própria segurança mundial está em jogo devido à subida dos preços alimentares. Um pouco dramático demais, mas aqui fica o aviso.

O TERROR DO INFERNO

Fotografia: Michael Kamber

Debaixo de fogo em Sadr City, Iraque.

O REGRESSO DO MEDO


Roberto Schmidt/Agence France-Presse -- Getty Images

A tensão voltou ao Quénia. As conversações entre o governo e a oposição falharam novamente e a tensão regressa a este país africano.

08 abril 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO

O PUBLICO dá hoje grande destaque ao acordo ortográfico. A oposição por parte de alguns puristas continua (principalmente do sempre empenhado Vasco Graça Moura), mas a maioria dos participantes no debate sobre o assunto na Assembleia da República mostrou-se muito favorável à ratificação do acordo. Estranhamente, um representante da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) esteve "frontalmente contra pelos prejuízos que vão recair "sobre a generalidade das populações", obrigadas a gastar "milhões de euros" em novos livros".
O quê??? Gastar milhões de euros em novos livros??? Que chatice! (sinceramente, não entendo a posição da APEL. Se vão vender mais livros, porque é que estão a reclamar?)
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Independentemente daquilo que se pensa sobre o novo acordo (já em discussão e acordado há mais de uma década...), é preciso perceber que uma língua evolve, todos os dias, em todos os instantes. As línguas não são estanques. Quem ler textos portugueses do século 19 ou mesmo do início do século 20, prontamente perceberá que a língua e a grafia que hoje utilizamos é muito distinta da de então, tanto a nível do conteúdo como da forma.
Para além do mais, para quem está tão preocupado com a mudança do "nosso" português, ou com a "brasileirização" do português, será que não percebe que, mais do que um acordo ortográfico, as telenovelas brasileiras têm um efeito muito mais transformador na língua portuguesa?
Porque é que reclamamos? Apesar da uniformização que o acordo acarreta, a verdade é que o mercado irá ditar a evolução da língua tanto ou mais do que as novas deliberações. E os escritores nem sequer serão afectados. Mia Couto será sempre Mia Couto. Agualusa, Agualusa. E Lobo Antunes ou Saramago, serão sempre Lobo Antunes e Saramago. E não é um acordo ortográfico que irá modificar isto.

PULITZER DAS LETRAS

O vencedor deste ano dos prémios Pulitzer na categoria da literatura foi "The Brief Wondrous Life of Oscar Wao" de Junot Dias. Mais uma escrito por um imigrante nas Américas. Ainda não o li, mais está na minha lista de compras desde que ouvi o podcast sobre o livro na National Public Radio. Outras críticas são igualmente extremamente favoráveis. Aqui está a sinopse da editora:
"[One} might at first be surprised by how many chapters of a book entitled The Brief and Wondrous Life of Oscar Wao are devoted not to its sci fi–and–fantasy-gobbling nerd-hero but to his sister, his mother and his grandfather. However, Junot Diaz's dark and exuberant first novel makes a compelling case for the multiperspectival view of a life, wherein an individual cannot be known or understood in isolation from the history of his family and his nation.Oscar being a first-generation Dominican-American, the nation in question is really two nations. And Dominicans in this novel being explicitly of mixed Taíno, African and Spanish descent, the very ideas of nationhood and nationality are thoughtfully, subtly complicated. The various nationalities and generations are subtended by the recurring motif of fukú, the Curse and Doom of the New World, whose midwife and... victim was a historical personage Diaz will only call the Admiral, in deference to the belief that uttering his name brings bad luck (hint: he arrived in the New World in 1492 and his initials are CC). By the prologue's end, it's clear that this story of one poor guy's cursed life will also be the story of how 500 years of historical and familial bad luck shape the destiny of its fat, sad, smart, lovable and short-lived protagonist. The book's pervasive sense of doom is offset by a rich and playful prose that embodies its theme of multiple nations, cultures and languages, often shifting in a single sentence from English to Spanish, from Victorian formality to Negropolitan vernacular, from Homeric epithet to dirty bilingual insult. Even the presumed reader shape-shifts in the estimation of its in-your-face narrator, who addresses us variously as folks, you folks, conspiracy-minded-fools, Negro, Nigger and plataneros. So while Diaz assumes in his reader the same considerable degree of multicultural erudition he himself possesses—offering no gloss on his many un-italicized Spanish words and expressions (thus beautifully dramatizing how linguistic borders, like national ones, are porous), or on his plethora of genre and canonical literary allusions—he does helpfully footnote aspects of Dominican history, especially those concerning the bloody 30-year reign of President Rafael Leónidas Trujillo. The later Oscar chapters lack the linguistic brio of the others, and there are exposition-clogged passages that read like summaries of a longer narrative, but mostly this fierce, funny, tragic book is just what a reader would have hoped for in a novel by Junot Diaz."

A PARTÍCULA DE DEUS

Dentro de pouco tempo irá entrar em funcionamento o acelerador de partículas que já está em construção há cerca de 15 anos nos arredores de Genebra. Este acelerador de partículas é o maior do mundo e pretende recriar as condições do universo nos primeiros instantes do Big Bang (literalmente, nos primeiros trilionésimos do universo... se a palavra existe). A principal esperança dos cientistas é que se consigam angariar as provas da existência da chamada Partícula de Deus, também chamada de Higgs boson, uma partícula que confere massa a todo o resto da matéria. Como alguém disse, este acelerador de partículas é uma verdadeira máquina do Génesis. Eu acho muito bem. A única coisa que me deixa ligeiramente nervoso (um trilionésimo de um neurónio) é se as coisas correm mal. É que, como o físico Martin Rees alertou no seu livro (um pouco alarmista, eu sei) "Our Final Hour", há sempre a possibilidade de estas experiências, tão nobres cientificamente, possam correr mal ou originar reacções em cadeia inesperadas... É um cenário muito, muito remoto, mas é uma possibilidade, mesmo que ínfima.

PREÇOS ALIMENTARES (2)

A propósito da subida dos preços alimentares (principalmente dos cereais e do arroz), Paul Krugman assina um artigo de opinião no New York Times que vale a pena ler. Ontem, registaram-se mais protestos e confrontos, desta feita no Haiti (na foto).

GRAVURAS EM TONDELA

Segundo o DN, várias gravuras rupestres foram descobertas em Tondela, no distrito de Viseu. Nos próximos tempos as gravuras vão ser estudadas por arqueólogos para determinar a importância e o significado desta descoberta. De qualquer maneira, pelo que parece, desta vez não teremos que parar a construção de barragens ou sequer de estradas para preservar este património. Veremos o que os próximos tempos nos reservam sobre esta matéria.

SUSPEITO NO IRAQUE

Fotografia: Maya Alleruzzo /AP
Um polícia iraquiano carrega um suspeito às costas.

AS VACAS E OS POBRES

FACTO:
Sabia que as vacas na União Europeia ganham mais do que a grande maioria das pessoas do mundo? Cada vaca europeia recebe mais de 2 dólares por dia em subsídios, enquanto dois terços das pessoas do mundo vivem com menos de 2 dólares por dia.

07 abril 2008

OS INCENTIVOS DO SNS

A saída de centenas de médicos do Sistema Nacional de Saúde (SNS) faz hoje capa no DN. Segundo o jornal, entre 2006 e 2007, mais de 400 médicos(as) abandonaram o SNS. Segundo o Bastonário da Ordem dos Médicos continuam a "empurrar-se os médicos para fora do SNS, que, muitas vezes, saem não tanto pelo que podem ganhar no privado, mas porque se sentem insultados com medidas estúpidas." Que fazer para travar a saída dos médicos do SNS? Talvez seja preciso eliminar as "medidas estúpidas". Contudo, na entrevista, o bastonário realça principalmente "salários justos e medidas de carácter afectivo e melhores condições de evolução na carreira". Igualmente, o dirigente do Sindicato Independente dos Médicos defende que a única maneira de reter os médicos no SNS é através de "uma justa política de incentivos, que ainda não está suficientemente generalizada no universo hospitalar".
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Pois faz todo o sentido. Afinal, se as outras pessoas respondem aos incentivos, os médicos também o fazem. O que eu gostaria de saber era o seguinte:
1) o que é que serão "salários justos"? Os determinados pela oferta e pela procura, tal como no sector privado?
2) que incentivos é que estamos a falar? "Salários justos" ou mais algumas coisas (tais como mehores condições de trabalho, mais e melhor equipamento, etc)
3) os valores de 400 médicos a abandonar o SNS são retirados fora do contexto. Neste sentido, interessa perguntar: quantos médicos abandonavam o SNS em 1990? Em 1995? Em 2000? Ou seja, um ano não quer dizer nada, o que interessa é a tendência. E o artigo e o bastonário não a refere.
4) O representante dos médicos afirma também que precisamos de formar 2000 médicos por anos, mas só se estamos a formar 1500. Numa simples lógica de oferta e procura, será que este senhor não percebe que se se aumentar a oferta de médicos, os salários não subirão? Isto é, mais médicos significa que gaverão menos "salários justos"...

ESTRATEGA DEMITIDO

A duas semanas das primárias de Filadélfia, a campanha de Hillary Clinton sofre um grave revés. Mark Penn, o estratega-líder de Clinton teve que se demitir, porque se descobriu que Penn se reuniu na semana passada com representantes da Colômbia para discutir um tratado comercial entre os americanos e os colombianos. Não haveria problema se Clinton não discordasse desse tratado e se ela não se tivesse oposto publicamente contra esse acordo. Sai Penn, um dos principais responsáveis pela estratégia de "atirar a banca da cozinha" contra Obama (ou seja, fazer tudo o possível para ganhar as eleições, seja com que argumento for). Mais um sintoma que a campanha de Clinton não está a passar pelos seus melhores dias.

PREÇOS E REVOLTA NO EGIPTO


Como já aqui falámos, a considerável subida dos preços dos produtos alimentares tem provocado uma série de revoltas um pouco por todo o mundo. No Egipto, estes protestos foram aliados a uma greve no maior complexo têxtil do país. O governo não gostou e atacou os manifestantes (na foto). Há relatos de vários mortos e feridos, mulheres e crianças incluídos. Segundo um analista político da região "Egypt is getting closer to a full political meltdown with every week that passes."

TIBETE OLÍMPICO

As autoridades chinesas já devem estar arrependidas por terem decidido ir para a frente com a passagem da tocha olímpica por algumas cidades europeias (bem como por São Francisco, no final desta semana). Em Londres as coisas não correram de feição. Apesar de terem sido destacados mais de mil agentes policiais, e de se terem gasto mais de um milhão e meio de euros na protecção da tocha, a passagem do símbolo olímpico deu azo a violentos protestos por parte de muitos britânicos e exilados tibetanos por causa da repressão chinesa no Tibete. Os manifestantes tentaram tudo: roubar a tocha, apagá-la com extintores (na foto), bem como atirar ao chão os atletas que a carregavam. No final, as coisas ficaram tão más que as forças policiais viram-se forçadas a colocar a tocha olímpica dentro de um autocarro...
Depois de Londres (e Atenas), certamente que nos próximos dias veremos cenas idênticas noutras cidades onde o símbolo olímpico irá passar. Um mau presságio para as autoridades chinesas sobre o que poderá acontecer durante os Jogos. Já estou mesmo a ver manifestações de protesto tanto na cerimónia de abertura, nas competições , bem como mesmo nas cerimónias de atribuição de medalhas.

COMO SALVAR O MUNDO

A Madre Teresa do Desenvolvimento Económico, o famoso e controverso Jeffrey Sachs, tem um novo livro ("Common Wealth: Economics for a Crowded Planet") e mais algumas receitas mágicas de como salvar o mundo e de como resgatar os países subdesenvolvidos da pobreza extrema. Ainda não li o livro, mas parece-me mais do mesmo do que Sachs defendeu no "Fim da Pobreza" (já publicado em Portugal). Isto é, mais ajuda externa, mais perdão das dívidas externas, mais ajuda dos países ocidentais. Ou seja, nada de novo. A propósito do seu novo livro, o Guardian entrevista Sachs aqui.

06 abril 2008

A CONSTITUIÇÃO DO DR. MENEZES

Segundo o PUBLICO, o líder do maior partido da oposição vêm-nos agora dizer que precisamos de uma nova Constituição que, entre outras coisas, deve definir "outras formas de organização jurídico-constitucional, outras regras no relacionamento do Estado central com as autarquias e regiões... Que seja uma Constituição simples, que não seja complexa e burocrática, difícil de analisar, ao serviço dos portugueses".
Dito isto, vale a pena perguntar: valerá a pena o esforço? Uma revisão constitucional até poderia fazer sentido para acabar de vez com os resquícios revolucionários e socializantes do texto fundamental. Mas uma nova Constitutição. Já pensaram nos meses e meses de discussão inútil que tal projecto iria alimentar? Os milhares e milhares de euros que gastaríamos com um debate que nada faria para nos tirar a economia do marasmo? E para quê? Conseguiria uma nova Constituição resgatar a economia do marasmo? É claro que não. Há países bem sucedidos que têm Constituições minimalistas, mas há muitos outros com Constituições complicadíssimas e sucedem igualmente. O único problema surge quando as Constituições distorcem dos incentivos dos agentes económicos, assim como acontecia na União Soviética. Ora, este não é claramente o caso da nossa Constituição.
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Deste modo, vale a pena questionar: uma nova Constituição? Para quê? O que é que uma nova Constituição traria para Portugal e para a nossa economia? Nada. Ou pouco, muito pouco. Demasiado pouco para o sacrifício que tal projecto acarrataria. Será que o vazio de ideias pollíticas e económicas atingiu profundidades tão profundas que já só nos resta apelar a uma nova Constituição? É verdadeiramente lamentável. Ao que leva o desespero. Antes de pensar numa nova Constituição, o dr. Menezes devia apresentar medidas concretas de politica económica que ajudassem a melhorar a economia portuguesa. Antes disso, a retórica sobre uma nova Constituição é pura demagogia.

O FIASCO DO TERMINAL 5

Temos a mania que somos uns desorganizados (o que é verdade) e que só a nós é que nos acontecem os "desastres" e os fiascos reservados habitualmente reservados aos países menos subdesenvolvidos. Se acredita nisto, então atente nesta notícia, que também serve de aviso para o novo aeroporto em Alconhete. Durante anos, a British Airways e o governo britânico apostaram muito do seu prestígio na construção do Terminal 5 no aeroporto de Heathrow. Este terminal supostamente iria tornar-se num dos maiores e mais sofisticados de todo o mundo, possuindo um sistema de controlo de bagagens controlado por um sistema de computador que, supostamente, tornaria Heathrow um dos aeroportos mais eficientes do planeta.
Tudo parecia bem encaminhado até à inauguração há 10 dias atrás. Houve grande pompa e cirscuntância e... depois o dilúvio. Nos primeiros dias de entrada em operação, 250 vôos foram cancelados, 28 mil sacos "perderam" os seus vôos (dos quais 9 mil ainda não foram devolvidos aos seus donos) e mais de 25 milhões de euros em prejuízos. Num país que costuma planear tudo até ao ínfimo pormenor, o fiasco do terminal 5 já foi considerado uma "humilhação nacional" e um embaraço sem limites. Quem disse que estas coisas só podem acontecer em Portugal???

ALQUEVA

Pôr-do-sol no Alqueva (foto do Guardian).

AS VÁRIAS FACES DE UM NÚMERO

Um número é um número é um número. Ou, será que não? À primeira vista, um número parece só um número. Porém, se olharmos de perto, veremos que as coisas não são tão simples. Um número pode estar aberto a toda a espécie de interpretações. Para alguns, um número pode ser grande, enquanto, para outros, pode ser manifestamente pequeno. Em que é que ficamos então? Quase sempre o que é importante é o contexto, o quão relativo é esse número.
Por exemplo, suponhamos que estamos a estudar as desigualdades sociais de um país em franco desenvolvimento económico. Suponhamos que no início do nosso estudo (p.e. o ano 2000), os ricos ganham em média 50,000 euros, enquanto os pobres ganham somente 200 euros por ano (um exemplo típico num país pobre). No final do período do estudo (digamos 2007), percebemos que o crescimento económico fez com que os ricos auferissem 100,000 euros, enquanto os pobres recebem 400 euros por ano. A desigualdade aumentou ou diminuiu?
"
A resposta certa é: depende. Depende do contexto, de como se interpretarem os números e até da minha preferência política. Se eu quiser sublinhar as desigualdades de rendimento existentes, irei subtrair o rendimento dos ricos do rendimento dos pobres em 2007 e 2000:
Em 2000: RICOS – POBRES = 50,000 – 200 = 49,800 EUROS
Em 2007: RICOS – POBRES = 100,000- 400 = 99,600 EUROS
Assim, podemos concluir que a desigualdade aumentou.
"
Ou, será que não? Como é sabido que é mais fácil fazer crescer um número grande do que um pequeno, devemos analisar a questão das desigualdades em termos relativos. Isto é, dividindo os rendimentos dos dois grupos nos dois períodos. Deste modo, temos
EM 2000: RICOS / POBRES = 50000/200 = 250
Em 2007: RICOS / POBRES = 100000/400 = 250
Isto é, as desigualdades mantiveram-se, pois os rendimentos dos pobres e dos ricos aumentaram exactamente na mesma proporção. Que interpretação escolhemos dar depende de muitos factores, inclusivamente da agenda política de cada um.
(Post a propósito de algumas perguntas feitas pela revista Sábado para a edição desta semana).

05 abril 2008

A IRRESPONSABILIDADE DO ESTADO

Segundo o DN, "As empresas concessionárias de auto-estradas pedem ao Estado 1,1 mil milhões de euros a título de indemnizações por alterações aos traçados, atrasos nas expropriações de terrenos ou por perdas de receitas. Até ao fim de 2007, o Governo já aceitou reclamações de oito concessionárias, no valor de 457 milhões de euros... Os pedidos de mais dinheiro por parte das concessionárias igualam o montante já liquidado pelo Estado desde 2003, a título de compensações por ausência de portagens ... e por complementos nas vias com portagens."
Sim, leu bem: 1,1 mil milhões de euros ou cerca de o.8 por cento do PIB. O equivalente a muitos centros de saúde e muitas escolas, ou a uma descida significativa do défice orçamental. Ou, se quisermos, o equivalente a uma descida adicional do IVA em cerca de 2 por cento.
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Como os acordos já estabelecidos entre o governo e as concessionárias têm levado a valores entre os 50 e os 60 por cento reclamados pelas concessionárias, dos 1,1 mil milhões estaremos a falar entre 500 a 700 milhões de euros. Indemnizações, relembre-se, porque alguém se lembra de alterar o traçado previamente acordado e/ou pelas SCUTs. O que eu gostaria de saber é se alguém já foi responsabilizado por esse desperdício dos dinheiros dos contribuintes. Que eu saiba, não. Andamos a poupar com a saúde, a educação e a Administração Pública (na minha opinião, bem), para depois o esbanjar desta maneira. Uma vergonha. Um autêntico escândalo.

JUMPA LAHIRI


Uma das escritoras que mais me impressionou nos últimos anos foi a Indo-Americana Jumpa Lahiri, autora de livros como "The Interpreter of Maladies" (que ganhou o prémio Pulitzer para ficção) e "The Namesake" (que deu azo a um filme com o mesmo título). Com uma prosa segura e sedutora, Lahiri descreve os dilemas e as dificuldades dos imigrantes indianos na América do Norte como poucos. As suas histórias são sempre ricas, coloridas e fascinantes. Foi por isso com enorme satisfação que fiquei a saber o o novo livro de Lahiri acabou de sair para as livrarias. Chama-se "Unaccustomed Earth" e é uma colecção de oito histórias. O New York Times faz a crítica e acha-o excelente. Não me surpreende. Poucos autores têm a mestria e a beleza de Lahiri. Uma das minhas compras deste fim-de-semana, com certeza.

O DINHEIRO DA POLÍTICA

Após terem sido pressionados durante vários meses para libertarem ao público as suas declarações de rendimento, os Clinton finalmente capitularam. Ontem ficou-se a saber que o casal Clinton faz parte actualmente do topo 1 por cento das famílias mais ricas da América, auferindo um rendimento líquido de cerca de 109 milhões de dólares nos últimos 8 anos. Para quem saiu da Casa Branca cheio de dívidas não está nada mal. Como é que o casal Clinton conseguiu tal proeza? Com a escrita de livros e com palestras, que têm um módico preço de (pelo menos) 250 mil dólares cada. Nada mau, nada mau. Quem disse que a política não compensa? (Já agora, se tem curiosidade em ver as declarações de rendimento dos Clintons, vá aqui e clique em "Clintons' tax records").

PREÇOS ALIMENTARES

As notícias da subida dos preços alimentares continuam. Agora chegou a vez do arroz. Prevê-se que o preço do arroz vá aumentar significativamente nos próximos meses, provavelmente entre os 25 e os 30 por cento. Vários países têm registado protestos e manifestações das populações contra a subida dos preços dos cereais, que no último ano aumentaram de preço cerca de 40 por cento. Entre outros, já se deram confrontos por causa da subida dos preços da comida no Egipto, a Costa do Marfim, os Camarões, o Burkina Faso, em Moçambique, bem como o Haiti (ontem). A subida do preço do arroz não irá certamente ajudar.

AS FEZES DA DISCÓRDIA

A tese dominante sobre os primeiros povos a colonizar as Américas mantém que estes pioneiros chegaram ao continente americano pelo estreito de Bering cerca de 13 mil anos atrás. Esta hipótese é disputada por muitos grupos de First Nations (os "indios" americanos, como eram conhecidos antigamente), que consideram que os seus antepassados chegaram às Américas anteriormente (e muitos defendem inclusivamente que a teoria do estreito de Nering é errada, pois acreditam que os seus antepassados tiveram origem no próprio continente americano). Fezes humanas fossilizadas encontradas numa gruta americana vêm agora dar mais credibilidade e consistência à hipótese de uma colonização mais antiga. Segundo os novos dados, os primeiros humanos no continente americano chegaram entre 14 mil e 18 mil anos atrás. Não parece muito, mas é o suficiente para pôr em causa algumas das teorias existentes, como sejam a da extinção de alguns mamíferos americanos que coincide com a "chegada" dos humanos às Américas 13 mil anos atrás. Veremos o que novas escavações e investigações nos trarão nos próximos anos.

04 abril 2008

JARDIM E OS JORNALISTAS

Alberto João Jardim interditou o acesso da comunicação social os trabalhos do congresso do PSD-Madeira porque, segundo o PUBLICO, "o partido "não confia" na cobertura de alguns dos "empregados" dos órgãos de informação." Ora, este é um exemplo perfeito daquilo que é o legado de João Jardim: um misto de bom e de mau, com o mau muitas vezes a sobrepôr-se desnecessariamente ao mau. Se não vejamos. Dentro de alguns anos, quando fizermos o balanço da governação de João Jardim, o que saltará à vista das brumas da memória será o impressionante desenvolvimento económico atingido nas últimas décadas. Este desenvolvimento deve-se aos madeirenses, mas também em grande parte à liderança de João Jardim.
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É por isso que estas atitudes autoritaristas são completamente desnecessárias e difíceis de compreender. Em vez da Madeira e do governo madeirense serem admirados pelos feitos económicos alcançados, a imagem que passa para o resto dos portugueses é a de uma região dominada por um líder com tendências prepotentes e pouco democráticas. É caso para dizer: não havia necessidade, dr. Jardim. Não havia necessidade.

OS TIGRES GIGANTES


Na economia internacional, existe um facto crescentemente importante e notório, que é o crescimento excepcional e sustentado das economias chinesa e indiana. Com efeito, o desempenho económico destes dois gigantes asiáticos será provavelmente o acontecimento mais marcante a nível económico neste século, originando consequências enormes tanto para o sistema económico internacional como para o equilíbrio geopolítico mundial.
Os números são verdadeiramente impressionantes. Por um lado, nos últimos 20 anos, a economia chinesa tem crescido cerca de 10% ao ano. Mesmo se tomarmos em linha de conta alguma provável manipulação estatística, com taxas de crescimento a este nível, o produto interno bruto chinês dobra cada dez anos. Sabendo que o crescimento populacional na China é actualmente inferior a 1% ao ano, um crescimento económico tão elevado implica que o rendimento médio de um habitante chinês duplica mais ou menos cada 8 anos! Assim, não é de espantar que a redução da pobreza extrema tem sido um dos factos mais notáveis do milagre económico chinês. Segundo dados do Banco Mundial, desde 1990, o número de chineses a viverem com menos de 1 dólar por dia decresceu de 300 milhões para cerca de 100 milhões.
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Nas últimas duas décadas, a China também passou de economia marginalizada para uma das maiores potências mundiais. Por exemplo, enquanto no princípio da década de 80, a economia chinesa recebia uma parte ínfima do investimento directo estrangeiro (IDE) mundial, actualmente a China é o maior país receptor de IDE, à frente dos Estados Unidos. A economia chinesa é igualmente já o quinto maior exportador mundial de mercadorias, atrás dos EUA, Japão, Alemanha e França.
Por outro lado, recentemente, o outro gigante asiático despertou de uma letargia de décadas, após uma série de reformas que aumentaram a atractividade da economia indiana e forneceram maior incentivos ao investimento privado. Assim, nos últimos 15 anos, a economia indiana tem crescido a taxas médias próximas dos 6 por cento. A nível do rendimento per capita, os números não são tão impressionantes, devido à permanência de um elevado crescimento populacional (a taxa de fertilidade indiana é cerca de 2.9%/ano). Apesar de tudo, o rendimento per capita indiano cresceu cerca de 4 por cento ao ano na última década, o que significa que o rendimento médio indiano duplica cada 18 anos. Deste modo, o crescimento económico dos últimos anos não só permitiu a dezenas de milhões de indianos escaparem à pobreza extrema, como também possibilitou a criação de uma classe média crescentemente forte e numerosa, que certamente se tornará num dos factores de dinamismo da economia indiana.
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Obviamente, a nível interno, tanto a China como a Índia têm ainda muito que fazer para diminuírem o impacto de uma estagnação económica que durou várias décadas. Afinal, mais de um terço dos chineses ainda vivem à parte do milagre económico. A China também se defronta com problema ecológico de proporções colossais (16 das 20 cidades mais poluídas do mundo são chinesas) que só poderá ser resolvidos com elevados custos económicos. A Índia ainda tem mais de 30% dos seus habitantes abaixo do (muito baixo) limiar de pobreza, 40% dos seus habitantes são analfabetos, a mortalidade infantil ronda os 65 por mil, e cerca de metade das crianças indianas sofrem de má nutrição crónica.
Mesmo assim, não há dúvidas que o impressionante crescimento económico dos últimos anos tem sido benéfico principalmente para quem mais dele precisa, os pobres. Neste sentido, os milagres económicos chinês e (esperemos) indiano são, sem dúvida, de saudar, devido principalmente à dramática redução dos níveis de pobreza a nível mundial. Visto que a Índia e a China, por si sós, contêm cerca de dois quintos da população mundial e grande parte dos pobres do mundo, qualquer boa notícia para o combate à pobreza nesses países é sem dúvida uma óptima notícia para o desenvolvimento humano.

ECONOMIA ESPANHOLA

Há cada vez mais sinais que a economia espanhola está a abrandar...

03 abril 2008

RESUMINDO AS LIÇÕES

Concluímos aqui a série de lições de outros países que podem servir de guia à nossa própria política económica. Estes exemplos demonstram que o sucesso de países semelhantes ao nosso requer não só estabilidade macroeconómica, como também recursos humanos quailificados e uma política tecnológica agressiva mas flexível. Por outro lado, em países de pequena dimensão, é essencial promover o investimento estrangeiro, de modo a fomentar clusters com alto valor acrescentado.
Os exemplos espanhóis, irlandeses e finlandeses são particularmente pertinentes para nós, porque estes países estavam em situações parecidas à nossa nos anos 80. Todos estes países tiveram crises estruturais das quais saíram em rumo à excelência e inovação. Todos aproveitaram estas crises para estabelecer pactos sociais e para fomentar reformas estruturais nas suas economias. Para além disso, a Irlanda privilegiou o investimento estrangeiro, a Finlândia deu primazia a uma política tecnológica agressiva, enquanto que a Espanha criou os seus próprios campeões nacionais com fortes imagens de marca.
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Talvez uma combinação destas três estratégias seja indicada para nós. Países pequenos como o nosso não podem, em princípio, aspirar a ser líder dos principais desenvolvimentos tecnológicos a nível mundial. Porém, existem certos mecanismos que podemos adoptar para apanhar a boleia do comboio da inovação.
Apesar de todo o pessimismo reinante, os últimos anos foram, de uma forma perversa, bastante positivos, pois serviram para demonstrar aos portugueses e aos seus governantes que não existe outra alternativa de futuro que não seja reformar estruturalmente a economia. Graças à crise que vivemos, existe actualmente um consenso entre as principais forças políticas e os principais analistas acerca do conjunto de medidas a tomar, principalmente a nível da reforma do Estado. Se estamos verdadeiramente interessados em alcançar os tão almejados objectivos da reestruturação da nossa economia não existem muitas alternativas às reformas estruturais tão cruciais para o nosso país.

A IGNORÂNCIA DISTRAÍDA

Segundo o PUBLICO, o CDS/PP quer que seja realizado um inquérito à subida dos preços alimentares, que têm crescido a uma taxa mais elevada do que a inflação. Nomeadamente, o pão e o leite subiram cerca de 10 por cento entre Fevereiro de 2006 e 2007, o que alarmou os dirigentes deste partido político. Deixando de lado a demagogia política, estes(as) senhores(as) deviam fazer a lição de casa antes de tomar iniciativas como esta. Por todo o mundo, os preços alimentares (principalmente os cereais) têm subido de forma dramática. Os preços dos cereais subiram mais de 40 por cento no último ano nos mercados internacionais, o que tem inclusivamente levado a vários protestos violentos em diversas partes do mundo. Será que é assim tão difícil somar 2 + 2?
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Aqui está um extracto da notícia do PUBLICO:
"O CDS-PP apresentou ontem no Parlamento duas iniciativas que visam tornar mais transparente o funcionamento do mercado em matéria de fixação de preços. Por um lado, recomenda ao Governo que solicite à Autoridade da Concorrência um inquérito sobre a evolução real dos preços de bens essenciais, como o pão, o leite, os ovos, a fruta e o peixe. Por outro, pede a criação de um portal de preços que permita, desde já, monitorizar a evolução dos preços dos bens essenciais e dos produtos afectados pela descida do IVA em um por cento, em especial o vestuário.No primeiro caso, o CDS-PP recorda que, segundo o INE, em Fevereiro de 2007, comparando com o mesmo mês de 2006, o pão estava cerca de 10 por cento mais caro; o leite, queijos e ovos custavam mais 11 por cento, enquanto o gás subiu cerca de sete pontos percentuais e a electricidade aumentou quatro pontos. "Os bens essenciais subiram muito acima da inflação, especialmente nos últimos meses", afirmou Diogo Feio, líder parlamentar do CDS, defendendo ser "essencial fazer um estudo comparativo e da evolução dos preços desses bens e perceber por que é que isso aconteceu".

A OPOSIÇÃO GANHA

Os resultados eleitorais referentes ao parlamento do Zimbabué dão a vitória para a oposição ao regime de Mugabe. Parece que nem a fraude chegou para negar o óbvio, que os dias de Mugabe no poder estão a chegar ao fim. Para bem do seu povo e do seu país. Resta saber se o ditador sai a bem ou a mal.

O SOL E O CLIMA

Através da utilização de imagens de satélite, cientistas britânicos confirmaram aquilo que era crescentemente evidente: as mudanças do comportamento do sol não são suficientes para justificar o aumento das temperaturas globais nas últimas décadas. Cai por terra a hipótese avançada por muitos dos cépticos que questionam que as alterações climáticas são provocadas pelos humanos. Mais uma prova que há que começar a fazer algo para reverter e reduzir as emissões de CO2 (e metano) para a atmosfera.

CEGONHAS ESPANHOLAS

Jorge Rey/EPA
Cegonhas em Caceres, Espanha. Certamente que não faltará quem pense que estas cegonhas não são tão bonitas como as portuguesas...

02 abril 2008

IMPOSTOS _ BELMIRO DE AZEVEDO

Segundo o PUBLICO, o decano dos empresários portugueses veio a público afirmar aquilo que muitos já fizeram (e que nós já discutimos aqui e aqui): que a descida de um ponto percentual do IVA tem um efeito praticamente nulo na economia. Mal seria se o fosse. Voltando a exemplos concretos, imagine que vai a uma loja comprar um leitor de DVD. Suponhamos que o leitor custa 100 euros antes da descida do IVA. Você acha caro e não compra. Vamos agora supor também que a descida do IVA é incorporada pela empresa (o que não é linear) e o leitor de DVD baixa para 100 euros depois da redução do IVA. Acha mesmo que será um euro que fará a diferença entre comprar e não comprar? Talvez sim. Mas eu, sinceramente, duvido.
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Em termos comparativos, muitos reclamam que não é justo compararmos Portugal a Espanha (porquê, transcende-me). Deste modo, vale a pena relembrar as taxas de IVA noutros países da União Europeia:
AUSTRIA 16,0 %/20,0 %
BELGICA 21,0 %
BULGARIA 20,0 %
CHIPRE 15,0 %
REPUBLICA CHECA 19,0 %
ALEMANHA 19,0 %
DINAMARCA 25,0 %
ESTONIA 18,0 %
ESPANHA 16,0 %
FINLANDIA 22,0 %
FRANCA 19,6 %
REINO UNIDO 17,5 %
GRECIA 19,0 %
HUNGRIA 20,0 %
IRLANDA 21,0 %
ITALIA 20,0 %
LITUANIA 18,0 %
LUXEMBURGO 15,0 %
LETONIA 18,0 %
MALTA 18,0 %
PAISES BAIXOS 19,0 %
POLONIA 22,0 %
ROMENIA 19,0 %
SUECIA 25,0 %
ESLOVENIA 20,0 %
ESLOVÁQUIA 19,0 %

OS IMPOSTOS _ COMENTÁRIOS DOS LEITORES (14)

A propósito dos comentários do Tiago Moreira Ramalho, da Gi e do Antonio, vale a pena tecer as seguintes considerações:
  1. Os impostos continuarão a descer, pelo menos até às eleições. Porquê? Porque já começa a haver alguma margem de manobra a nível orçamental e porque o primeiro-ministro não quer ser acusado de ser o governo dos impostos altos. Quer isso dizer que o governo vai baixar os impostos com fins eleitoralistas? Claro que sim. Quem não o faria? Eu não conheço nenhum governo em nenhuma parte do mundo que não o faça. O governo de José Sócrates não será excepção.
  2. Quanto baixará o IVA? Pelo menos mais um ponto percentual, para os 19%. No entanto, é possível que o governo baixe o IVA um pouco mais, talvez para os 18%. José Sócrates poderia assim argumentar que o IVA estaria mais baixo do que quando subiu ao poder.
  3. 1% é muito ou é pouco? Como já aqui discutimos, o efeito será limitado, até porque a descida do IVA não será completamente incorporada nos preços dos produtos. Se há impacto é a nível das expectativas (sobre futuras descidas de impostos) e não sobre a economia real. Se ainda tem dúvidas, pergunte-se a si mesmo: Se uma televisão digital descer 10 euros (de 1000 para 990), será que isso faz a diferença entre comprar e não comprar a televisão? Claro que não. E se é assim porque é que seria diferente com a descida de 1 ponto percentual do IVA?
  4. É melhor baixar o IVA, o IRC, ou o IRS? Depende do objectivo do governo e para quem se destinam as políticas e reformas. Neste momento, penso que o governo beneficiaria mais com uma descida do IRS. O endividamento das famílias ainda é apreciável, e, por isso, uma descida dos impostos sobre o rendimento poderia ter um efeito positivo junto dos particulares.
  5. O que é que é preferível, baixar o IVA ou o IRC? Os economistas acham sempre que os impostos sobre os rendimentos impõem mais distorções na economia do que os impostos sobre das vendas ou sobre o consumo. Nesse sentido, será sempre preferível baixar o IRS ou o IRC do que descer o IVA