09 maio 2008

MOÇÃO DE CENSURA

Alguém me podia dizer para que é que servir aquela moção de censura do PCP? O que é que ganhámos com isso? Uma gaffe do primeiro-ministro? E depois? Ficámos mais iluminados com tal moção? Mais esclarecidos? Mais aleviados? Não, claro que não. E se é assim, para que é que serviu? Para debater coisas que se debatem todos os meses na Assembleia da República? Qual é o propósito de tais exercícios? Servirão as moções de censura para alguma coisa ou somente para nos relembrar que tais moções existem?
Nos moldes em que foi apresentada, a moção de censura foi trivializada e esvaziada do seu real propósito, do propósito para o qual foi criada. Uma inutilidade e uma perda de tempo, digo eu.

60 ANOS DE ISRAEL


Parabéns a Israel pelos seus 60 anos. 60 anos muito atribulados que levaram muitos a questionar a sua existência e viabilidade (por exemplo, Fernanda Câncio tem hoje no DN uma crónica muito interessante onde apelida Israel de "País kamikaze"). Ainda hoje se debate se as Nações Unidas erraram ou não ao permitirem que Israel fosse localizado no Médio Oriente. É certo que o território israelita tinha um grande significado histórico e religioso para os judeus, mas colocar um pequeno país judaico naquele região foi, no mínimo, uma decisão controversa. Dito isto, também é claro que tirar dali Israel não é solução nenhuma. Não é possível. Para bem ou para mal, Israel está lá e lá ficará, a não ser que haja algum cataclismo, alguma loucura, que afecte irremediavelmente esse país bem como os países que o rodeiam.
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A nível pessoal, devo dizer que Israel foi dos países que mais me impressionou. Visitei Jerusalém há dois anos atrás a propósito de uma conferência internacional precisamente na altura em que começaram os raptos de soldados israelitas, que deram azo aos conflitos em Gaza e no Líbano. Jerusalém é uma cidade fascinante cuja maior virtude e maior tragédia é ter "demasiado" história. Por onde quer que se vá, a história persegue-nos e envolve-nos.
O facto que mais me chocou na minha visita de então foi constatar o quão perto os árabes e os judeus (e cristãos e os arménios, entre outros) vivem. Literalmente, vivem lado a lado. O ar expirado por um árabe é inspirado por um judeu e vice versa. Poucos metros de distância separam um povo do outro. Por exemplo, nas mesmas ruas estreitas de Jerusalém judeus ortodoxos vivem a menos de 20 metros de distância do mundo árabe. Ainda pior, uma das zonas mais sagradas para os judeus é o muro das lamentações que é composto não só por aquilo que todos vemos nas televisões, mas também por uma secção bem maior que só é acessível por tuneis. Tuneis que passam literalmente por baixo das casas árabes. E, é claro, que para além dos judeus e dos árabes, Jerusalém é ainda sagrada para os cristãos e albergue para muitas nacionalidades.
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A situação é tão complicada que, na altura, saí de Jerusalém a pensar que a cidade nunca poderá ter uma solução fácil ou monopartidária. Jerusalém é tão importante para tantos e tão distintos povos que a única solução de paz duradoura tem que passar por incorporar a cidade como um protectorado da ONU e/ou como uma cidade internacional.
Outro facto que me impressionou foi o quão perto alguns dos colonatos estão dos territórios palestinianos (muitos deles, como é sabido, estão mesmo nos territórios palestinianos).
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Os primeiros 60 anos de Israel dificilmente poderiam ter sido mais atribulados. Houve muito radicalismo, pouca paz, muitas atrocidades (de parte a parte) e muita falta de diálogo. Também houve muito desenvolvimento (Israel é hoje um país bastante moderno). Esperemos que nos próximos 60 anos haja mais paz e entendimento entre as diversas partes. E que o desenvolvimento continue e que abarque também a Palestina e demais Médio Oriente. E que os israelitas, os palestinianos e os restantes árabes aprendam finalmente a viver uns com os outros, aceitando as suas diferenças e semelhanças. É difícil, muito difícil que tal aconteça. Mas não custa sonhar.

O FANTASMA DA GUERRA CIVIL

A situação no Líbano continua a agravar-se de dia para dia. As coisas estão tão más que o líder do Hezzbolah acusou o governo de ter feito uma declaração de guerra ao movimento xiita. Tudo porque o governo fechou um sistema de telecomunicações privado do movimento. Os confrontos sobem de tom e já se registaram bastantes confrontos entre xiitas e sunitas durante todo o dia de ontem. A situação é tão grave que várias organizações internacionais já lançaram o aviso que o Líbano estava à beira de uma nova guerra civil. Se tal acontecer (o que parece quase certo), um dos países mais prósperos e mais avançados do Médio Oriente irá mais uma vez retroceder para a idade das trevas.
Em parte é a própria natureza do Líbano que propicia um novo recrudescimento do conflito. O Líbano é o terreno ideal numa luta entre as duas principais visões do Islão que não são necessariamente compatíveis. O conflito entre sunitas e xiitas já tem muitos séculos de existência, e as tensões entre os dois grupos têm-se agravado substancialmente nos últimos anos. Recorde-se que o governo é maioritariamente sunita e o Hezzbolha é xiita. Porém, o conflito libanês também é internacional, entre as diversas potências do Médio Oriente, de Israel à Síria e ao Irão. Mais uma vez, o Líbano vê-se no meio de todos estes conflitos e mais uma vez é muito provável que este trágico país descenda à barbaridade de uma nova guerra civil. Esperemos que não, mas ficaria surpreendido se tal não acontecesse.

CHOQUE PETROLÍFERO


Retirado da slate.com

08 maio 2008

A CRISE COMO OPORTUNIDADE OU AMEAÇA?

A prolongada estagnação económica actual será um pequeno soluço no caminho do desenvolvimento nacional ou será um sintoma de um mal-estar mais profundo da nossa economia? Será a recessão uma consequência da crise das contas públicas ou será indiciadora de uma grave crise estrutural da economia portuguesa? Estas são, sem dúvida, algumas das maiores questões que enfrentamos, questões ainda mais fundamentais para o futuro da economia nacional que o próprio equilíbrio das contas públicas, por muito importante que este seja para a economia a médio prazo.
De certa forma, o impasse económico que hoje vivemos é resultante da conjugação de três factores: a adesão ao euro, as imposições do Pacto de Estabilidade e a globalização da economia mundial. Em primeiro lugar, o euro ditou o fim das políticas cambiais e monetárias independentes, com graves consequências para a recuperação da economia em tempos de recessão. Durante décadas, quando a economia entrava numa recessão, a receita era simples: aumentavam-se as despesas públicas e desvalorizava-se a moeda (também havia a possibilidade de se imprimir mais dinheiro, mas este mecanismo não podia ser utilizado frequentemente). Estes dois mecanismos funcionavam como uma autêntica aspirina para os sectores em maiores dificuldades, pois tanto a procura interna crescia (devido ao crescimento das despesas públicas) como a procura externa era estimulada (visto que a desvalorização do escudo tornava as exportações mais baratas e as importações mais caras). A introdução do euro acabou de vez com esta situação.
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Em segundo lugar, as imposições do Pacto de Estabilidade conjugadas com a crise nas contas públicas retiraram margem de manobra à política fiscal, não sendo possível estimular a economia nem cortando os impostos nem aumentando as despesas públicas. Neste sentido, em retrospectiva, é notável apercebermo-nos da ausência de bom senso nos finais dos anos 90 quando se permitiu o crescimento da despesa pública para níveis insustentáveis logo na véspera da entrada para a moeda única, sabendo (como se sabia) que o Pacto de Estabilidade iria impor severos limites a nível fiscal.
E assim chegamos ao terceiro factor preponderante para a crise actual: o comportamento das exportações. Nas últimas décadas, um dos impulsionadores da economia nacional tem sido o sector exportador. Este sector tem tido um papel fundamental na recuperação económica em tempos recessivos, como sucedeu em 1993. Porém, contrariamente ao sucedido então, as exportações nacionais têm demonstrado uma inércia preocupante. Depois de uma recuperação promissora em 2004, as exportações estagnaram uma vez mais, só voltando a recuperar no primeiro trimestre de 2006.
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Ora, como não existe margem de manobra a nível fiscal, como o investimento público não é capaz de originar os efeitos multiplicadores de outrora, como a evolução do investimento privado permanece desolador, e como já não temos as aspirinas das políticas cambiais e monetárias, a única possibilidade para a sustentabilidade da retoma é esperar que a recuperação das exportações seja duradoura. Porém, sabendo que uma grande quota das exportações nacionais é baseada em sectores de baixa produtividade, será que é realista esperar que as exportações guiem a economia nacional para a tão almejada retoma?
Não tenhamos dúvidas que o fim da actual estagnação económica vai estar intimimamente ligado ao comportamento das exportações. O investimento também é crucial, mas as exportações são fundamentais para a retoma. No sector exportador, a velha política de competitividade baseada em salários baixos e risível produtividade não é mais sustentável, devido ao alargamento da UE a Leste e à intensificação da globalização. Assim, é imperioso reforçar a aposta no aumento da qualidade e da produtividade da mão-de-obra nacional.

Neste sentido, paradoxicalmente, a crise actual representa a melhor oportunidade que temos para reformar a economia nacional. Graças à crise, algumas reformas têm sido iniciadas, mas ainda falta muito por fazer. Similarmente, se a curto prazo, um euro forte é sinónimo de desemprego em muitos dos nossos sectores tradicionais, um euro forte representa igualmente a melhor oportunidade que temos para estimular a produtividade dos nossos sectores exportadores, que se vêem forçados a reestruturar e a aumentar a produtividade dos seus factores produtivos.
Se os sectores exportadores nacionais aproveitarem os desafios e as exigências do euro e utilizarem a crise para reestruturarem as suas organizações e produções, então poderemos ter a certeza que a economia nacional emergirá da estagnação actual muito mais forte e robusta, ficando muito mais preparada para competir num mundo cada vez mais globalizado e competitivo. É a nós que nos compete decidir se a crise deve ser vista somente como uma ameaça ou também como uma oportunidade.

AJUDA A MYANMAR

É possível que mais de 100 mil pessoas tenham perecido no ciclone que afectou a Birmânia (Myanmar). Nestas situações de grande emergência a comunidade internacional costuma reagir bastante rápida e generosamente para a judar as vítimas das tragédias naturais. Certamente que desta vez não será excepção. O problema que a comunidade internacional e as diversas organizações enfrentam neste tipo de situações é saber se a ajuda externa (i.e. os dólares e os euros de pessoas bem intencionadas) chega a quem realmente necessita. Serão os pobres que recebem a ajuda dos países ricos? Serão os esfomeados que recebem a comida que enviamos? Serão os deslocados e os desabrigados que recebem a nossa generosidade? A resposta a estas perguntas é: depende. Às vezes sim, mas muitas outras não. Vários estudos mostram que a eficácia da ajuda externa depende muito de quem gere o dinheiro da ajuda externa (se os governos dos países recebedores ou as ONGs), do nível de corrupção existente no país afectado, bem como do tipo de regime político em vigor no país que recebe a ajuda.
Infelizmente, no caso de Myanmar há muitas dúvidas sobre a eficácia da ajuda externa e bastantes receios que os lacaios da junta militar se apropriem dos fundos da comunidade internacional para seu proveito próprio. Isso mesmo noticia o Guardian na sua edição de hoje.

GREVES VIOLENTAS

Protestos durante uma greve contra o agravamento dos salários reais em Beirute, Líbano. E ainda nós dizemos mal das greves da CGTP...

07 maio 2008

PINHEIROS AMEAÇADOS

Depois de serem detectados novos focos de "infecção" na região de Coimbra, o governo decidiu suspender as exportações de "material sem garantias fitossanitárias por causa do problema do nemátodo do pinheiro". Em termos menos técnicos, este nemátodo do pinheiro é conhecido no Canadá como o escaravelho do pinheiro e tem causado uma desvastação sem precendentes nas extensas florestas canadianas, principalmente nas províncias de British Columbia (onde resido) e de Alberta (vizinha da primeira). Os canadianos já gastaram milhões e milhões de dólares para combater a praga, mas sem grande resultado. E nem o frio canadiano tem dado frutos. Por onde passem estes insectos, as florestas simplesmente morrem. Por mais que se cortem e se tentem conter, a verdade é que ainda não existe nenhum remédio eficaz que combata tal praga. Nem o abate de pinheiros nem quaisquer pesticidas resultam. A única solução encontrada? O frio. No Canadá, a única coisa que mata tais bichos é o frio. Os escaravelhos morrem com as baixas temperaturas e o seu ciclo reprodutivo é interrompido. Estas são as boas notícias.
As más notícias é que o frio que estamos a falar não é o frio que temos em Portugal. Somente temperaturas abaixo de 30 graus negativos durante vários dias é que resultam contra esta praga. Por isso, a ameaça que estes insectos representam é muito, muito séria. Este problema tem o potencial para destruir as nossas florestas de pinheiros e arruinar a indústria madeireira, bem como as comunidades que dependem desta indústria. Esperemos que não, mas este problema pode ser tão ou mais grave para as florestas portuguesas quanto os tradicionais incêndios do Verão.

O SALVADOR

Há ironias levadas da breca. Aquele que em quatro meses de desgovernação ameaçou quebrar todas as regras do bom-senso político e arruinar o país em seguida, teve a coragem de apresentar-se como candidato do maior partido da oposição para "ousar enriquecer Portugal". Segundo Santana Lopes, "O que importa agora é garantir-lhes que, a partir do próximo ano, Portugal vai criar um caminho que os fará viver bem melhor do que vivem com o Governo de José Sócrates."
Muito bem. Acho mesmo muito bem. E já agora, dr. Lopes, quais são então as propostas concretas que tem para que o país "ouse enriquecer"? Somos todos ouvidos, dr. Lopes. Somos todos ouvidos.

PREGO NO CAIXÃO

Mais um dia de primárias na América. À primeira vista, os resultados foram os esperados: Barack Obama ganhou a Carolina do Norte e Hillary Clinton venceu em Indiana. Deste modo, parecia que tudo iria continuar na mesma, que a corrida democrata iria permanecer sem decisão aparente. Porém, apesar da tendência ter sido a esperada, a magnitude dos resultados não foi. As últimas duas semanas foram terríveis para Obama e parecia que Clinton tinha finalmente encontrado uma mensagem e um discurso que agradava ao eleitorado. Nos últimos dias, Hillary apareceu crescentemente descontraída e confiante, enquanto Obama viu-se obrigado a justificar mais uma vez as suas ligações com o seu antigo pastor e conselheiro espiritual. Contra as melhores previsões, Obama ganhou a Carolina do Norte por mais de 15 pontos percentuais e quase, quase ganhou em Indiana.
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Com excepção dos "staffers" de Clinton, todos, mas mesmo todos os analistas já dão como garantido que Obama ganhou a nomeação democrata. Agora, é mesmo só uma questão de tempo para Clinton ter que sair da corrida. Pelo que parece, a senadora de Nova Iorque está a passar por um momento de reflexão, visto que cancelou a sua participação nos talk-shows da manhã seguinte às eleições. Mesmo assim, é provável que Clinton (lutadora como é) permaneça na corrida por mais duas ou três semanas. Nas próximas semanas, é muito provável que ganhe na Virgina Ocidental e no Kentucky, mas deverá perder em Oregon, que talvez será a última paragem na campanha de Hillary. Até lá, muitos dos chamados super-delegados irão declarar o seu apoio a Obama, tornando uma hipotética de Hillary efectivamente impossível.
Para além das opiniões dos analistas, o sintoma mais revelador de Clinton ter perdido (e Obama ter assegurado) a nomeação foi-nos dado por Bill Clinton e pela sua filha Chelsea. Durante o discurso de Hillary, Bill parecia um defunto. Chelsea estava profundamente emocionada, fazendo tudo por tudo para evitar as lágrimas enquanto a mãe falava.
Finalmente, dentro em breve, os democratas poderão concentrar-se na corrida contra os republicanos. Já é mais que tempo que tal aconteça.

A TRAGÉDIA NA BIRMÂNIA (MYANMAR)


Fotos do New York Times
O ciclone da Birmânia (Myanmar) fez mais de 50 mil mortos. 50 mil. Em parte, a tragédia aconteceu devido à geografia do delta afectado. Mesmo assim, numa democracia ou pelo menos num regime mais humano é provável que as populações tivessem sido avisadas da intensidade do terrível ciclone que se aproximava da costa do país. A junta militar não o fez ou não o fez adequadamente. E assim morreram milhares e milhares de pessoas desnecessariamente. As ditaduras são assim. As necessidades do povo não são a prioridade dos tiranos. Esperemos ao menos que o ciclone sirva para que a junta militar seja finalmente deposta. Uma junta, recorde-se, que mudou o próprio nome do país, que atacou e assassinou milhares e milhares de monges, que tem mantido prisioneira a líder da oposição que é extremamente popular junto das populações. Esperemos que este seja o princípio do fim da junta militar e os restantes militares corruptos.

06 maio 2008

OS PREÇOS DAS CASAS

Os reflexos da prolongada estagnação começam a fazer-se sentir num dos sectores que mais dinamismo demonstrou nos anos 90: o mercado imobiliário. Com a excepção do Norte do país, nos últimos tempos tem havido uma descida considerável dos preços das casas. A razão é simples: demasiado oferta para pouca procura. Assim, quem vende uma casa quase sempre se vê forçado a baixar o preço da mesma. Pelo menos para as casas das famílias de rendimento médio (o mercado das casas de luxo ainda não foi afectado grandemente). O mercado imobiliário actual beneficia os compradores e penaliza os vendedores. Enquanto o crescimento económico não se reanimar e os rendimentos médios não começarem a subir, é provável que esta situação se mantenha.

O TURISMO DO EURO

Como em tudo na vida, há coisas boas e más associadas com a tremenda valorização do euro (mais de 70 por cento nos últimos 3 anos). A curto prazo, a subida do euro afecta negativamente as nossas exportações, pois torna-as mais caras. No entanto, a longo prazo, uma moeda mais forte pode obrigar as nossas empresas a serem mais competitivas e inovadoras, pois têm que compensar em produtividade e criatividade aquilo que perdem com o aumento dos custos cambiais.
Ainda assim, a curto prazo nem tudo é mau. Para aqueles que podem (e, pelo que parece, não são poucos) um euro mais forte torna alguns destinos turísticos bem mais atractivos. Este é exactamente o caso da fantástica cidade de Nova Iorque e de outros destinos norte-americanos. Deste modo, não é de estranhar que nos últimos anos se têm batido todos os recordes de visitas de portugueses(as) à América do Norte, assim como noticia hoje o DN.

O DÓLAR E O SUPEREURO _ Perguntas dos Leitores (15)

O Miguel F. Carvalho pergunta...
"1 - Como é que o dólar, que foi sempre nos últimos tempos a moeda âncora da economia mundial se conseguiu depreciar tanto em relação ao Euro nos últimos anos? E até que ponto essa situação vai afectar ainda mais as exportações europeias nos próximos tempos?
2 - como é que se justifica o aumento exponencial do preço do crude nos mercados internacionais, já que, apesar do aumento do consumo chinês e indiano, a produção não tem sofrido quebras nos últimos anos? Será que a lei do mercado está a ser gradualmente substituída por uma lei da especulação? Dá-me a impressão que estes aumentos são muito mais psicológicos do que derivados da lei da oferta e da procura, não?"
1. As moedas valorizam-se ou desvalorizam-se de acordo com uma série de factores, dos quais se salientam o diferencial das taxas de juro entre os países, o diferencial do crescimento económico (e da produtividade) entre os países, e a especulação. Há outros factores, mas estes são bastante importantes para explicar a evolução cambial de uma moeda em relação a outra.
O diferencial das taxas de juro é importante, porque quando os juros no nosso país são mais elevados do que noutro país, os nossos activos são mais procurados. Nomeadamente, há muitos títulos (como as obrigações do tesouro) cujos rendimentos/dividendos aumentam com as taxas de juro. Deste modo, se as nossas taxas de juro aumentarem em relação aos outros países, os nossos títulos (como as obrigações) são mais procurados, aumentando a procura da nossa moeda. Quando a procura da nossa moeda aumenta, o preço da moeda também aumenta. Isto é, a nossa moeda valoriza-se.
Tudo isto para dizer que uma das razões principais para a valorização do euro deve-se em parte à manutenção de taxas de juro europeias mais elevadas do que as americanas. E, ainda por cima, com a descida vertiginosa das taxas de juro americanas nos últimos meses, o diferencial dos juros europeus e americanos aumentou ainda mais, colocando ainda mais pressão para o euro se valorizar.
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Como é isto afecta as exportações europeias? Negativamente. Pelo menos a curto prazo. A longo prazo, as exportações europeias (e portuguesas) dependem das nossas vantagens comparativas, bem como de outros factores como a produtividade. No entanto, as taxas de câmbio são bastante importantes a curto prazo e, por isso, é natural que as exportações europeias continuem a sofrer.
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2. Em parte, o aumento do preço do crude justifica-se pelo dinamismo sem precedentes da economia mundial nos últimos anos, principalmente dos países subdesenvolvidos (dos quais se destacam a China e a Índia). No entanto, há outros factores, tais como o facto da OPEC (o cartel dos países exportadores do petróleo) ainda não ter feito nada para baixar os preços do crude através de um aumento da oferta. Não o fazem porque há muitos países (e governos) a beneficiarem da subida do preço do crude.
Por outro lado, a subida dos preços petrolíferos não tem sido ainda mais danosa porque o dólar se tem desvalorizado muito, o que tem amortecido o impacto da subida dos preços (como já falámos aqui). Finalmente, existe obviamente o factor especulação, que tem ajudado à manutenção dos preços altos.

DARFUR ESQUECIDO



O conflito (genocídio?) em Darfur continua esquecido pela comunidade internacional.

AJUDA ALIMENTAR

05 maio 2008

INFLAÇÃO E DESEMPREGO _ Perguntas dos Leitores (14)

O Quebra Ossos pergunta:
"Sendo a inflação inversamente proporcional ao desemprego, qual a posição que defende em relação à problemática “Desemprego ou inflação”? Qual a sua opinião em relação às medidas tomadas, pelas entidades competentes (europeias e nacionais), nesta matéria?
Uma dos temas mais debatidos na Economia é a suposta relação inversa entre a taxa de inflação e desemprego, tecnicamente chamada de curva de Phillips. A ideia é simples. Numa recessão, existe menos procura de bens e serviços, o que faz com que os preços tendam a baixar (ou, pelo menos, a crescer menos rapidamente). Por outro lado, como nas recessões a produção de bens e serviços tende a diminuir, as empresas vêem os seus stocks a acumular-se nos seus armazéns e, consequentemente, são forçadas a diminuir as suas produções. Como há menos produção, há menos necessidade de manter os mesmos postos de trabalho, de maneira que os despedimentos aumentam e a taxa de desemprego cresce. Neste sentido, quando há recessões, quase sempre há uma descida dos preços bem como um aumento do desemprego. Assim, a inflação e o desemprego movem-se em direcções opostas: a inflação cai e o desemprego aumenta.
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A mesma lógica também se aplica às expansões económicas. Quando há mais crescimento económico, há maior procura de trabalhadores, e o desemprego diminui. Por outro lado, a expansão conduz a um aumento dos rendimentos, e a procura de bens e serviços cresce. Como há maior procura, os preços tendem a subir, e a inflação aumenta. Isto é, em períodos de expansão, (quase sempre) os preços sobem e o desemprego diminui. Ou seja, mais uma vez, o desemprego e a inflação andam em direcções contrárias.
Ora, como o desemprego e a inflação andam desencontrados e em direcções opostas, parece que os governos têm um menu de alternativas entre taxas de inflação e o desemprego. Se um governo (tradicionalmente de esquerda) abomina o desemprego, a solução é simples: o Estado gasta mais, o que aumenta a procura global de bens e serviços, aumentando o emprego. Em contrapartida, os preços sobem, devido à mesma maior procura de bens e serviços. Se, por outro lado, um governo (tradicionalmente de direita) se preocupa mais com a estabilidade macroeconómica, então a prioridade é dada à estabilidade dos preços (isto é, a taxas de inflação pouco elevadas). Gasta-se menos, contraindo a procura de bens e serviços, o que diminui a pressão nos preços. Como se gasta menos, há menos procura de bens e serviços, e as empresas reduzem as suas produções, cortam nas suas forças de trabalho, o que faz subir o desemprego.
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E assim, à primeira vista, é fácil. É só escolher a combinação inflação-desemprego que mais nos satisfaz e tudo se resolve. Ou... será que não?
O problema com este raciocínio é que só funciona nos chamados choques da procura. Se o choque em causa for do lado a oferta, as coisas já não são tão simples e a relação inversa entre desemprego e a inflação simplesmente desaparece. Vejamos porquê.
Suponhamos que, como está a acontecer actualmente, os preços dos produtos petrolíferos aumentam significativamente. Devido à importância do petróleo como fonte de energia, os aumentos dos preços dos produtos petrolíferos faz aumentar os restantes preços, o que causa um aumento da inflação. Por outro lado, o aumento dos preços do petróleo aumenta os custos das empresas, o que as leva a cortar outros custos, tais como os salários... Para sobreviverem, muitas empresas diminuem as suas forças de trabalho, o que faz aumentar o desemprego.
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Ou seja, num choque de oferta como este (um choque negativo), a inflação sobe e o desemprego também. Não há nenhuma relação inversa entre as duas variáveis. O oposto ocorre com os choques de oferta positivos, principalmente quando há uma aceleração das inovações tecnológicas. Nestes casos, se um governo insistir em escolher um menu de baixas taxas de inflação e mais desemprego ou vice-versa, tal governo estará a cometer um grave erro de política económica. A curva de Phillips não existe nos choques de oferta.
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Portanto, o que é que defendo na relação inflação-desemprego: prudência. A relação nem sempre existe e é imperioso não ser dogmático nesta matéria. O que é que prefiro? Mais desemprego ou mais inflação? Depende das circunstâncias. Ninguém gosta de mais desemprego, mas às vezes a estabilidade dos preços é importante para estabilizar a economia a atrair mais investidores.
Nesta matéria, como tantas outras em Economia, não há respostas lineares. E ainda bem, digo eu.

1 DE MAIO (4)

O Dia do Trabalhador na Ucrânia, onde, pelo que parece, alguns ainda nutrem alguma nostalgia pela União Soviética...

AVISO DE BUFFETT

O homem mais rico do mundo, Warren Buffett, afirmou este fim-de-semana que o pior da grande contracção do crédito ("credit crunch") já passou, pelo menos paraos investidores. O pior que está para vir (na economia americana) está mais relacionado com as dificuldades que muitos donos das casas têm sentido para manter as suas propriedades. Mesmo assim, segundo ele, é provável que não haja nenhuma crise financeira com consequências devastadoras para a economia mundial. Pelo menos num futuro próximo.

04 maio 2008

PREÇOS ALIMENTARES EM ÁFRICA

A subida dos preços dos produtos alimentares continua e ameaça principalmente os países mais pobres. Muitas organizações internacionais já manifestaram a sua preocupação sobre as consequências da crise alimentar. Aqui está a posição do Banco Mundial sobre o impacto que a subida dos preços alimentares pode ter em África:
"Are higher global food prices a special concern for the Africa region?
RT: Yes. On average, basic staples such as maize, rice and wheat account for 20 percent of the food consumed in Sub-Saharan Africa, with these three crops alone providing about 30 percent of the calories. Higher global food prices have also led to higher local food prices, particularly for rice and wheat. Forty five percent of rice and 85 percent of wheat consumed in the region is imported. The region almost produces enough maize to meet domestic demand, with imports from international markets accounting for only five percent of consumption. Significant differences in grain consumption patterns across the region have led to differing impacts. The region imports almost all the fertilizer it uses, and because fertilizer prices have doubled over the last year, there is growing concern about the negative impacts on food production in the planting season ahead.
Which African countries are most affected by higher food prices, and why?
RT: Countries in West Africa, the Horn of Africa, and fragile African states recovering from conflict are especially vulnerable to higher global food prices. In West Africa, rice accounts for a much larger share of food consumption than in Eastern and Southern Africa. As more rice than maize is imported, local food prices in West Africa will be more affected. Countries with local supply disruptions are also particularly vulnerable to global price increases, as experience with the drought in Burkina Faso, the recent cyclone in Madagascar, and localized floods in Ghana have shown. Less local supply means more reliance on imports to meet domestic demand -- imports which are now much more costly. Within these countries, the poor will be especially vulnerable as they often spend as much as half their disposable income on food."

UNIVERSIDADES MEDÍOCRES

Actualmente, salvas raras excepções, as universidades portuguesas têm demasiado vícios e são muitas vezes meras fábricas de reprodução de mediocridade. Não existem critérios de exigência, os professores permanecem agarrados a práticas desfazadas da realidade actual, os alunos continuam a protestar por protestar, e os reitores estão mais preocupados em manter a ordem vigente do que em efectuarem reformas que aumentem a competitividade das universidades.
Ora, um dos grandes problemas das universidades portuguesas encontra-se ao nível dos sistemas de incentivos existentes. Por um lado, a mobilidade é um conceito que não existe nas universidades nacionais. A nível do recrutamento, apesar de haverem concursos públicos, a verdade é que é conhecimento comum (e prática geral) que estes estão viciados à partida, isto é, abrem-se os concursos não para se contratarem os melhores, mas candidatos já pre-seleccionados. Ou seja, a renovação não é feita por mérito, mas por relacionamentos pessoais.
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Por outro lado, a renovação dos quadros é demasiado lenta. Existem de facto números clausus nos diversos escalões académicos e só quando alguém se reforma (ou morre) é que um professor num escalão inferior pode progredir. Não interessam as publicações ou a qualidade do ensino, pois a progressão só poderá acontecer quando uma vaga no escalão superior abrir.
Finalmente, é patente que há nas universidades demasiados professores, que permanecem no quadro mais por antiguidade ou motivos políticos do que por mérito académico. No entanto, a triste verdade é que uma grande parte dos nossos professores universitários não faz nada, ou praticamente nada. Não publicam, não se interessam pela qualidade do ensino, e não promovem a reciclagem dos conhecimentos. Ser-se bom professor é bastas vezes função do número de alunos reprovados em vez da excelência da docência.
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Perante este clima de inércia e compadrio, não é de espantar que muitos dos nossos doutorados prefiram ou tenham que permanecer no exterior, agravando o problema da fuga de cérebros nacional.
Deste modo, as prioridades do novo estatuto das universidades deveriam enfatizar a mobilidade, a renovação, e a qualidade do pessoal docente. É urgente: 1) acabar com as promoções à docência de alunos doutorados pelas institutições que concedem o grau, 2) aumentar a transparência dos concursos públicos, 3) apostar na renovação de recursos, 4) promover o recrutamento a nível internacional, 5) fomentar elevados critérios de exigência a nível da investigação e do ensino. Só assim conseguiremos ter um ensino superior de qualidade, capaz de contribuir decisivamente para o aumento da sofrível produtividade nacional.
PS. Artigo anteriormente publicado no DN

CARA GASOLINA

03 maio 2008

A CRISE

Num estudo recente do European Restructuring Monitor, a economia portuguesa é apontada como sendo uma das mais afectadas pelo fenómeno da deslocalização. Segundo este estudo, estima-se que na União Europeia a economia portuguesa seja a terceira economia mais afectada pela deslocalização das empresas, logo atrás da Eslovénia e da Finlândia (nada mau para companhia).
À primeira vista, estes dados parecem confirmar os piores receios dos profetas da desgraça que crescentemente apregoam que o alargamento da UE a Leste e uma globalização “desregulada” são as principais causas do recente aumento do desemprego e da estagnação económica. Segundo estes analistas, a globalização e o alargamento da UE ameaçariam inclusivamente o futuro da economia portuguesa, pondo em causa a própria sobrevivência do país. Assim, não é de espantar que a crise actual tem sido também o principal ponto de discussão de todos os candidatos à presidência da República, alguns dos quais têm dramatizado o presente estado de coisas, atribuindo o aumento do desemprego aos fenómenos da globalização e da deslocalização das empresas.
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Porém, apesar de todos os dramatismos, se analisarmos de forma isenta a relação entre a crise actual e o fenómeno das deslocalizações veremos que a realidade é bem diferente. Se não vejamos.
Em primeiro lugar, o número dos trabalhadores afectados pelas deslocalizações de empresas é extremamente baixo. Segundo o referido estudo do European Restructuring Monitor, estima-se que cerca 0,11% da população activa portuguesa perca os seus empregos devido a deslocalizações para os países da Europa de Leste e da Ásia. Mesmo que este valor esteja subestimado, a verdade é que o desemprego relacionado pelas deslocalizações é praticamente insignificante. O resto é propaganda e sensacionalismo.
Em segundo lugar, apesar da nossa desvantagem geográfica, Portugal possui várias vantagens comparativas em relação às suas congéneres europeias. Por exemplo, apesar de existir uma certa percepção entre nós que somos um dos países mais corruptos da UE, a verdade na UE-25, todos os novos estados membros da UE têm níveis de corrupção mais elevados do que a economia portuguesa. Por outro lado, os trabalhadores portugueses ainda são relativamente baratos em relação à média europeia da UE-15. Assim, um trabalhador espanhol custa em média 75% mais do que um seu congénere português. Todavia, na UE-25, as notícias são menos animadoras, visto que, em média, um trabalhador português custa quase o dobro do que um trabalhador dos países de Leste. Neste sentido, se houverem deslocalizações numa escala maior, o que poderá acontecer é uma redistribuição do investimento directo estrangeiro em função das diferentes áreas geográficas. Por exemplo, se é certo que uma empresa alemã tem incentivos maiores para investir nos países de Leste europeu, também é verdade que, nesta lógica, um investidor espanhol terá também um maior incentivo de o fazer em Portugal, onde os custos laborais são muito mais baixos do que em Espanha.
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Deste modo, apesar de todos os dramatismos relacionados com a crise actual e apesar de algumas deficiências dos indicadores de competitividade, a verdade é que a economia portuguesa não padece de uma falta de competitividade crónica. A situação actual é grave, mas não ainda é desesperante e certamente não ameaçará o nosso futuro como nação. Portugal é uma nação com quase 900 anos de história, durante os quais já tivemos e vivemos períodos bem mais conturbados do que o actual. Neste sentido, interessa perguntar que tipo de país seríamos se uma crise económica com meia dúzia de anos pudesse pôr em causa a nossa independência económica?

LITERATURA CHINESA

A Índia produziu uma das literaturas mais interessantes que emergiu nos últimos anos. Depois de Salman Rushdie ter atingido notoriedade com o seu magnífico "Midnight's Children" ("Os Filhos da Meia-Noite", D. Quixote), um número crescente de escritores indianos tem conseguido singrar nos mercados internacionais.
O mesmo não tem acontecido com os escritores chineses, pelo menos até recentemente. Ha Jin é já considerado um dos melhores escritores da actualidade e há uma nova geração de escritores que promete revolucionar a literatura chinesa. É por isso mesmo que o New York Times dedica grande parte da sua revista literária à literatura da China. Vale a pena ler para descobrir novos talentos e uma nova perspectiva sobre o gigante chinês.

DIA DO TRABALHADOR (3)

Ibrahim Usta/AP


Protestos no Dia do Trabalhador em Istambul, Turquia

02 maio 2008

O PIB IMPERFEITO

O Publico traz hoje um artigo com o título: "PIB, um indicador económico cada vez mais imperfeito". Será? Vejamos então a veracidade de tal afirmação.
Em primeiro lugar, o que é o PIB ou Produto Interno Bruto? O PIB dá-nos o valor de todos os bens e serviços produzidos num país ou território. Ou seja, o PIB inclui serviços também e não só os bens. Quer dizer que se eu for cortar o cabelo ao meu barbeiro, ou se comprar uma casa, o serviço que o barbeiro me presta ou que o agente imobiliário é contabilizado no PIB.
Por outro lado, o PIB regista apenas valores monetários e transaccionados legalmente. Quer isto dizer que as actividades ilegais, tais como o tráfego de drogas ou a prostituição, não contam para o PIB. São parte da economia informal.
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O PIB tem vários defeitos. Uma anedota que os economistas contam há muitas décadas é que se eu me casar com a minha empregada de limpeza, o PIB do país cai. Porquê? Porque antes de me casar eu pagava pelo serviço que ela prestava, mas depois de casar já não o faço. Isto é, após o casamento, se há pagamento (pela limpeza da minha casa) não é monetário. Por isso, não conta. Por outro lado, se poluirmos as nossas cidades, a limpeza dessa poluição aumenta o PIB, em vez de o diminuir.
Com efeito, os exemplos das imperfeições do PIB poder-se-iam multiplicar quase ad nauseum.
O PIB tem-se tornado mais imperfeito nos últimos anos, porque alguns problemas que enfrentamos actualmente (p. ex. as alterações climáticas) ocorrem porque há falhas de mercado que o PIB não consegue medir. Quer isto dizer que devíamos deixar o PIB de lado de uma vez por todas? Não. E não, porque, apesar de imperfeito, o PIB é de longe ainda o melhor indicador que temos para medir o bem-estar de uma economia, bem como para efectuar análises comparativas entre as economias.
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Nas últimas décadas, os economistas têm tentado arranjar melhores medidas do que o PIB, isto é medidas que representem com mais exactidão os desgates ambientais e outros "maus" da economia. Mais de 5 ou 6 décadas já se passaram desde que começaram as primeiras tentativas de substituição do PIB, mas pouco foi alcançado. O PIB continua a ser o indicador que temos. O PIB é imperfeito? Sem dúvida. Mas é, de longe, o pior indicador do bem-estar de uma economia à excepção de todos os outros.

TECLADOS RETRETE

Sabia que há teclados tão sujos, tão nojentos que chegam a ter 5 a 10 vezes mais bactérias do que um tampo sujo de sanita??? Pois é. Não parece, mas é. Segundo um estudo recente, muitos de nós deixam acumular tanta porcaria nos teclados dos computadores que o nível bacteriano chega a ser 150 vezes mais elevado do que o limite bacteriano recomendado (e saudável). Um autêntico nojo e um perigo para a saúde pública. Ainda bem que a ASAE ainda não descobriu este estudo (julgo eu). Se não, certamente que teríamos os inspectores à pega, para ver o nível bacteriológico dos nossos teclados...

INFLAÇÃO E O PREÇO DO PETRÓLEO _ PERGUNTAS (13)

A Gambozina pergunta:
"Com o aumento constante e quase vertiginoso do preço dos combustiveis no nosso país, como é que os valores da inflação estão relativamente controlados? Não é suposto o custo de todos os produtos dependerem mais ou menos directamente do preço dos combustiveis? Então porque é que não se reflecte? As empresas estão a assumir esse aumento de custo e ganham menos?"
A inflação não tem sido mais elevada porque o dólar americano tem-se desvalorizado consideravelmente em relação ao euro. Como o petróleo é negociado em dólares, a subida do preço do crude não é totalmente reflectida nas nossas contas quando o importamos. Um euro forte significa exportações mais caras, mas importações mais baratas. Por isso, importamos o petróleo menos caro devido à subida do euro. E assim a inflação importada não é tão significativa.
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O gráfico abaixo reflecte exactamente o diferencial entre os preços do petróleo em dólares ($) e em euros. Como podemos ver, o preço do crude tem subido mesmo em euros, mas tem crescido muito mais em dólares. Se não fosse a desvalorização do dólar, estaríamos a importar bens (como o petróleo) bem mais caros e a inflação seria bem mais preocupante.

Figura: http://www.eurotrib.com/story/2008/3/12/143238/164

1 DE MAIO

www.bbcnews.com

Dia do Trabalhador no Líbano.

SUPEREURO REVISITADO

Já aqui falámos várias vezes do supereuro (por exemplo, aqui e aqui) e do impacto que uma moeda forte europeia tem na economia. Agora, a doença portuguesa (relacionada com a coexistência de uma moeda forte e a falta de competitividade de muitos sectores produtivos) ameaça repetir-se noutros países, tais como a Itália (cuja economia está ainda mais debilitada do que a portuguesa) e a Espanha (menos grave). É inevitável. Em momentos de crise, haverá sempre a tentação para alguns países deixarem cair o euro e regressarem às suas moedas nacionais. Pelo menos enquanto o euro for jovem, enquanto a memória das moedas nacionais permanecer. Neste contexto, vale a pena ler este texto do New York Times, que realça um dos dilemas dos países que adoptaram o euro: a da assimetria política existente no seio da moeda única. É possivel imaginar uma situação em que países como a Espanha ou a Itália decidem abandonar a moeda única. Porém, será mesmo possível (ou aconselhável) para um país pequeno como Portugal abandonar o euro? Esta é uma incógnita cuja resposta é difícil de dar, mas que quase certamente será negativa. Como afirma um analista nesse artigo citado: “There will be lots of talk about Spain and Italy leaving the euro, but the weak cannot afford to leave”. Nem mais.

01 maio 2008

BIOCOMBUSTÍVEIS E PREÇOS


Uma das grandes causas da subida dos preços alimentares tem sido a crescente utilização de alguns cereais como biocombustíveis. Nem todos os biocombustíveis são iguais e nem todos são culpados pela subida dos preços (p. ex. o etanol brasileiro não é causador da subida dos preços alimentares). No entanto, podemos estar certos que, após esta crise estar sarada, muitos dos planos de conversão de terras para cultivo de biocombustíveis serão simplesmente postos de lado. Pelo menos até ver. E ainda bem.
PS. figura da Slate.com

DIA DO TRABALHADOR

Hoje é dia do Trabalhador. Se na Europa e noutras partes do mundo o dia é assinalado com um feriado, no mundo anglo-saxónico isso não se passa. Na Inglaterra, o dia do trabalhador é celebrado na última semana do mês de Maio, enquanto nos Estados Unidos e no Canadá o "Labour Day" acontece na primeira semana de Setembro.
Em Portugal, certamente que o dia será aproveitado pelas organizações sindicais para se manifestarem contra "a política do governo" e a "favor dos direitos dos trabalhadores". E também contra a "precaridade do emprego", isto é, contra o novo código do trabalho.
Que trabalhadores é que as centrais sindicais estão a falar? Todos? Não necessariamente. Para estas organizações, alguns trabalhadores são mais trabalhadores do que os outros. Sempre achei interessante que, para as centrais sindicais, os "trabalhadores" são principalmente aqueles ligados às fábricas, os operários em particular. Esta noção restrita de trabalhador é cada vez mais desadequada à realidade actual, visto que uma das grandes tendências das economias mais desenvolvidas é o crescimento do sector dos serviços e a diminuição do sector industrial. Seria bom que neste Dia do Trabalhador os sindicatos também dessem conta da inevitabilidade dessa tendência.

A CRUZ DOS TRABALHADORES



Um trabalhador indiano numa fábrica de tijolos.

SNIFANDO CADEIRAS

A Austrália está a passar por um dos escândalos políticos mais divertidos dos últimos tempos. Soube-se recentemente que o líder da oposição, um conservador, foi acusado de assédio por uma funcionária do partido conservador.Esse senhor, de nome Troy Buswell, já corroborou a história, admitindo (lavado em lágrimas) que se pôs de gatas para snifar a cadeira onde essa mesma funcionária se tinha sentado. Escusado será dizer que Buswell é casado e tem filhos. Noutro episódio, Buswell já tinha sido acusado de ter roubado (como?) o soutien de uma outra funcionário do partido. Cheira a uma demissão certa. Entretanto, os australianos(as) irão certamente continuar a divertir-se com toda esta caricata situação.

CIÊNCIA E RELIGIÃO


O New York Times tem hoje um artigo muito interessante sobre o trabalho do cientista espanhol (naturalizado americano) Francisco Ayala, que defende o diálogo entre a ciência e a religião. Sendo um ataque ao fundamentalismo do criacionismo, Ayala advoga que a religião não deve renegar a teoria da evolução. Muito pelo contrário. Segundo ele, a teoria da evolução deve fazer parte da base da própria teologia.
Ainda assim, Ayala acha (e bem, digo eu) que é um disparate ensinar o criacionismo juntamente com a teoria da evolução. Neste sentido ele afirma: "We don’t teach alchemy along with chemistry. We don’t teach witchcraft along with medicine. We don’t teach astrology with astronomy.” Por isso, porquê ensinar o dogmatismo do criacionismo lado a lado com os preceitos da ciência?
Por outro lado, Ayala não considera que haja necessariamente um conflito entre a ciência e a religião. Segundo ele, “Science and religion concern nonoverlapping realms of knowledge... It is only when assertions are made beyond their legitimate boundaries that evolutionary theory and religious belief appear to be antithetical.” Sem dúvida, um livro a comprar.