30 junho 2008

JUROS MAIS ALTOS

E aí está a confirmação de que os juros na zona Euro vão aumentar. A inflação subiu mais do que se esperava e atingiu o valor mais alto de sempre (o "sempre" são só meia dúzia de anos...) na zona Euro. Já não há dúvidas que o Banco Central Europeu vai actuar. Os juros vão subir e, por consequência o euro vai-se valorizar um pouco mais. O combate ao abrandamento económico fica para outra altura. Afinal, como sabemos, a estabilidade dos preços é a única prioridade e o único objectivo para o BCE. Mais más notícias para a economia nacional e para dezenas de milhares de portugueses sobre-endividados, que irão ver as prestações mensais dos seus empréstimos bancários subir ainda mais.

VIVA ESPAÑA

A Espanha ganhou o Euro 2008. Mereceu. Foi, sem dúvida, a melhor selecção. Teve o melhor futebol, não claudicou no último jogos dos grupos nem na fase eliminatória e apresentou-se em grande forma. A Espanha já exorcitou os fantasmas de serem os eternos "underachievers". Os nossos continuam. Parabéns Espanha!

28 junho 2008

MANDELA AOS 90


Nelson Mandela fez 90 anos. Celebrou a ocasião em Londres juntamente com mais de 40 mil pessoas e muitas estrelas e artistas. É bom que haja reconhecimento ainda em vida para pessoas como Mandela. Mandela é indubitavelmente uma das figuras do século 20. A África do Sul certamente não seria a mesma se não fosse ele. E se as coisas não estão perfeitas nesse país (tanto a nível das desigualdades que persistem, o flagelo da SIDA, bem como os altos índices de criminalidade) por certo estariam bem piores se Mandela não tivesse existido. Mandela não é nem foi perfeito (principalmente na ausência de um combate acérrimo contra o HIV-SIDA). Ainda bem que não o é. É mais humano assim. Mais como todos nós.
Mesmo assim, Mandela é um verdadeiro herói, uma lenda. Mandela é uma daquelas figuras que nos fazem acreditar que a humanidade é bonita. E que tem futuro.
Obrigado Nelson Mandela.

ENTREVISTA _ LIVROS COM RUM

Uma das entrevistas mais agradáveis e interessantes que fiz nos últimos tempos foi feita na Rádio Universitário do Minho no programa Livros com RUM. A conversa foi sobre o "Diário" e sobre o "Mitos". Aqui está o link:
http://podcast.rum.pt/uploads/Livros_com_RUM/77-livros_com_rum-2008-05-08.mp3

27 junho 2008

OS NOSSOS IMPOSTOS

Impostos em Percentagem do PIB

O Eurostat publicou ontem números mais recentes dos impostos pagos pelos europeus. A tabela acima resume alguns desses dados. Ordenei os dados por ordem crescente dos encargos fiscais. Ou seja, os países que pagam menos impostos em 2006 (em percentagem do PIB) aparecem em primeiro e os que pagam mais surgem em último. A última coluna calcula o aumento ou a redução dos impostos entre 1996 e 2006. Que conclusões podemos retirar da tabela?
  • É fácil ver que os que pagam mais impostos em percentagem do PIB são os países escandinavos. Nenhuma surpresa aí.
  • Os que pagam menos são quase todos mais pobres do que nós (em termos de rendimento per capita). Mesmo assim, há excepções. A Grécia, a Irlanda, Malta e Luxemburgo têm todos rendimentos per capita superiores ao nosso e, no entanto, têm cargas fiscais menos pesadas.
  • A carga fiscal portuguesa aumentou 10 por cento nos últimos 1o anos. Foi das que mais aumentou
  • Ainda assim, houve países em que a carga fiscal aumentou ainda mais: Chipre, Malta e Espanha viram um agravamento das suas cargas fiscais ainda maiores do que os portugueses
  • É de assinalar que alguns dos países que melhores desempenhos registaram nos últimos anos foram os que viram as suas cargas fiscais diminuir na última década. A Eslováquia, a Letónia, a Estónia, a Irlanda, a Polónia, o Luxemburgo, a Hungria, a Alemanha, a Holanda, a Aústria, a Finlândia e a Suécia, todas tiveram desagravamento fiscal nos últimos 10 anos. Ou seja, quase metade dos países da UE viram as suas cargas fiscais diminuir, enquanto a nossa aumentou.
Assim, o que estes dados revelam é que na última década vimos a nossa competitividade fiscal decrescer de uma forma bastante significativa. Isto é, tornámo-nos menos atractivos. Ora, se é certo que a carga fiscal é só uma variável entre muitas para a competitividade das empresas e para a atracção do investimento estrangeiro, também não deixa de ser significativo que os últimos anos não têm ajudado. Pelo menos a nível da carga fiscal.
É verdade que Portugal não tem das fiscalidades mais elevadas na UE. No entanto, se não controlarmos o apetite voraz do Estado e se continuarmos a ceder à tentação de aumentar as receitas fiscais para cobrir o défice orçamental, facilmente chegaremos a uma situação em que a carga fiscal portuguesa será verdadeiramente desvantajosa para as empresas nacionais e/ou que pretendam sediar-se em Portugal.
Não estará assim na hora de mudarmos este estado de coisas? Não terá chegado a hora de inverter a tendência dá última década? Não estará na altura de acabar com a preocupação irracional com o défice e fazer algo que possa verdadeiramente ajudar a economia portuguesa a sair da crise? Não estará na altura de ajudar as empresas (exportadoras ou não) e os restantes portugueses oferecendo-lhes um desagravamento fiscal que lhes permita ser mais competitivos nos mercados internacionais e nacionais?

26 junho 2008

PORTUGAL ULTRAPASSADO

Já saíram os dados mais recentes do Eurostat sobre o rendimento por pessoa dos europeus (obrigado ao Tiago Villanueva por me alertar para este facto). Os números deste índice estão em paridades de poder de compra e assumem que a média europeia é igual a 100 (pode clicar na tabela para ver melhor). Vários factos devem ser realçados. Primeiro, a Irlanda passou definitivamente de parente pobre da União ao país mais próspero (com a excepção do pequeno Luxemburgo, cujos números são inflacionados pelo sector financeiro). Segundo, a Espanha já é (segundo estes números) mais rica do que a Itália, a qual continua a sua trajectória descendente de estagnação (muito como Portugal). A Grécia já desfruta practicamente de um rendimento médio igual ao do cidadão médio europeu (a 27 países). Este facto é de assinalar, porque há menos de uma década os portugueses auferiam rendimentos superiores aos dos gregos. Como os gregos cresceram e nós não, as consequências estão à vista de todos.
Quarto, continuamos a ser "ultrapassados" por mais e mais países do Leste europeu (bem como Malta e o Chipre). Estaremos assim condenados ao "declínio inequívoco" como Medina Carreira previu num artigo recente do Público? Não. Longe disso. Este cair do ranking relativo deve-se à estagnação económica dos últimos anos. No entanto, não há nada que indique que iremos continuar para sempre neste marasmo económico. Aliás, existem alguns óptimos indicadores nas exportações que irei aqui falar dentro de uns dias.
^
Sinceramente, a mim não me preocupam os rankings nem as "ultrapassagens" virtuais de mais este e aquele país europeu. Só me preocupo com uma coisa: quando e como é que o crescimento económico é retomado? O que é que podemos fazer para acelerar este processo? O que fazer para retomar o crescimento dos níveis de vida portugueses?
Por isso, em vez de nos preocuparmos com os outros, o melhor é mesmo fazer tudo para ultrapassar esta crise económica. Estou certo que o conseguiremos. Na nossa história, já o fizemos várias vezes e não será desta que iremos falhar. É tudo uma questão de tempo. O que seria bom era que o governo e a oposição conseguissem avançar com uma série de medidas (fiscais, principalmente) que ajudassem diminuir esse mesmo tempo. O que, manifestamente, não é o caso.

TEMPESTADE EM HONG KONG

MISTÉRIO DOS PÉS (2)

Lembram-se do mistério dos pés que têm aparecido na costa da British Columbia? Pois bem, ainda não se sabe o que é que tem causado tão intrigante ocorrência. O que se sabe é que o sexto pé a dar à costa não o é. Tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto. Alguém inseriu uma pata de um animal dentro de uma sapatilha e encheu-a com uma meia cheia de algas. E assim a notícia correu mundo (p.e. foi a página de abertura da http://www.cnn.com/), mas não era verdadeira. O mistério, esse, continua. Se tiver interessado(a), clique no gráfico deste jornal canadiano.

25 junho 2008

PODER LOCAL E ASSIMETRIAS REGIONAIS

Muitas vezes culpamos o poder central pelo exacerbar das assimetrias de rendimento entre as diversas regiões. No entanto, tal explicação é demasiado simples. Parte das disparidades dos rendimentos regionais é explicada pelos diferentes níveis de capital humano e físico das diversas regiões. Contudo, sejamos claros: não podemos culpar somente o governo central pelo subdesenvolvimento de muitas das regiões portuguesas. Muitas vezes é o próprio poder local que propicia a perpetuação das assimetrias regionais, devido à manutenção de burocracias asfixiantes e à preservação de clientelas locais. Neste sentido, tanto o poder central como o poder local são igualmente responsáveis pela persistência do Mezzogiorno português, contribuindo quer para a existência de ciclos virtuosos de desenvolvimento nas regiões de Lisboa e vale do Tejo e do Grande Porto, quer para a permanência de ciclos viciosos de subdesenvolvimento nas regiões menos desenvolvidas.
^
Nomeadamente, nas regiões menos desenvolvidas, a desvantagem de possuir infraestruturas e recursos humanos menos favoráveis é exponenciada pela falta de investimento nessas regiões bem como pela existência de caciquismos locais e de burocracias inoperantes. Não é assim de estranhar que muitas empresas decidam não investir nas regiões menos desenvolvidas, prolongando o ciclo vicioso de subdesenvolvimento.
Os próprios subsídios europeus têm tido um papel ambíguo no desenvolvimento destas regiões. Por um lado, aumentaram consideravelmente a qualidade das infraestruturas. Por outro, os subsídios europeus fomentaram a corrupção e o compadrio do poder local, e criaram a ilusão de que os problemas das assimetrias regionais poderiam ser resolvidos simplesmente com a injecção de fundos. Qual é então a solução para um desenvolvimento regional sustentável? Apesar de não existirem receitas fáceis, uma das mais importantes condições é a existência de estruturas do poder local que estejam verdadeiramente interessadas no bem-estar das populações. É por isso que é tão importante que exista um verdadeiro combate contra a corrupção e o nepotismo do poder local (e central). Uma tarefa que não é nada fácil, assim como é demonstrado pelos recentes casos de suspeita de corrupção e favorecimento que poucos resultado deram (pelo menos até agora).

LIXO VALIOSO

www.bbcnews.com

Esgravatando o lixo em Bali, Indonésia.

24 junho 2008

HORAS TRABALHADAS

Contrariamente ao que se possa pensar, nos últimos 5o anos registou-se uma descida do número de horas trabalhadas em Portugal (e na Europa também). Esta tendência de descida (bem patente na Figura acima) não se deve nem às chamadas "conquistas de Abril" nem às acções dos sindicatos. A razão principal tem outro nome e chama-se produtividade. Os ganhos de produtividade têm-nos permitido trabalhar menos horas e, mesmo assim, produzir mais. A tendência de descida do número de horas trabalhada deve continuar nos próximos anos, pois, apesar de tudo, Portugal continua a ser um dos países europeus onde se trabalha um maior número de horas. Assim, na Europa Ocidental, o número médio de horas trabalhadas é o seguinte:
Alemanha 1,437
Austria 1,519
Belgica 1,611
Chipre 1,809
Dinamarca 1,575
Espanha 1,774
Finlandia 1,714
França 1,529
Grécia 1,912
Holanda 1,413
Irlanda 1,636
Italia 1,592
Luxemburgo 1,540
Malta 1,790
Portugal 1,709
Reino Unido 1,624
Suécia 1,588
Ou seja, de um modo geral, quanto mais rico menos são as horas trabalhadas. Porquê? Porque nos tornamos preguiçosos com uma maior riqueza do país? Não. Porque nos tornamos mais produtivos. Portugal não é uma excepção nesse campo.

POLÍTICA ENERGÉTICA DOS EUA

A propósito da subida dos preços dos combustíveis e da política energética americana, a Rita Carreira recomenda este artigo muito interessante do conceituado Thomas Friedman: http://www.nytimes.com/2008/06/22/opinion/22friedman.html?em&ex=1214366400&en=1d288dfdedd325e6&ei=5087%0A

CÃO MAIS FEIO

Concorrente (à direita) do concurso do Cão Mais Feio do Mundo que se desenrolou na Califórnia. Outros participantes podem ser vistos aqui.

CITAÇÃO DO DIA

A citação do dia pertence ao editorial do DN, que se insurge contra uma nova política de betão:
"O Portugal de hoje não é o Portugal que os governos de Cavaco Silva rasgaram de auto-estradas nos anos 80. Esse era um país onde a demora e o mau estado das estradas prejudicavam o desenvolvimento. Nessa altura, as auto-estradas podiam ser consideradas infra-estruturas básicas. Hoje, as auto--estradas que continuamos a fazer e a projectar já podem ser consideradas um luxo. Basta dizer que para ir de Lisboa ao Porto podemos escolher entre dois percursos."
Nem mais

DEMOCRACIA À MUGABE

www.guardian.co.uk

Está provado. As eleições do Zimbabwe serão mesmo uma farsa. Face ao crescendo de violência, a oposição já abandonou o escrutínio e o líder do principal partido da oposição encontra-se refugiado na embaixada holandesa. Já foram assassinados dezenas de opositores do regime e os militares continuam a apoiar o regime assassino de Mugabe. Mugabe já mostrou que prefere matar o seu povo à fome do que abandonar o poder. A comunidade internacional já condenou os últimos acontecimentos no Zimbabwe, mas continua bastante passiva. Afinal, quem é que verdadeiramente se importa com um pequeno país do sul de África sem petróleo ou grandes riquezas naturais?

23 junho 2008

NIVELAR PELA MEDIOCRIDADE

As reacções aos exames nacionais deste ano têm sido quase unânimes num aspecto: são demasiado fáceis. São os próprios alunos e professores que o dizem. E se é verdade, interessa perguntar: porquê? Qual é a intenção? Que os alunos tenham boas notas? Que as estatísticas portuguesas no sector da educação melhorem? Para mostrar obra feita? Para demonstrar que a "paixão pela educação" começa finalmente a dar frutos? Mas, se é assim, não nos estaremos a enganar a nós próprios? O que é que ganhamos em inflacionar os resultados dos exames?
Diga-se de passagem que sou contra aquela noção antiga de chumbar por chumbar, ou a ideia que a competência de um(a) professor(a) é directamente proporcional ao número de reprovações. Esta tradição vigora ainda em muitos estabelecimentos de ensino (principalmente nas universidades) e é simplesmente errada. Um bom professor não se mede pelo número de chumbos, mas sim pela qualidade das suas aulas e pelo nível de preparação dos alunos.
No entanto, convém não cair no outro extremo. Nivelar por baixo nunca é uma boa medida nem dá resultados duradouros. É sempre preciso manter um nível de exigência mínimo, tanto no ensino como nos exames nacionais. Se não, estaremos a criar uma geração de impreparados e de quase-ignorantes-técnicos. Ou seja, de indivíduos que têm os diplomas e as credenciais mas não têm o devido conhecimento.
^
Este é o risco que acarreta a decisão (tácita ou não) de baixar o nível de exigência dos exames nacionais. E é isto que devemos estar cientes quando nos congratulamos com os "excelentes" resultados dos nossos alunos e filhos nos exames nacionais.
PS. Dito isto, se formos um pouco mais optimistas, também é provavelmente verdade que as algumas das percepções dos alunos que os exames são fáceis se devem ao maior investimento que muitos pais têm feito na preparação dos seus filhos para os exames. A palavra exame (nacional) acarreta consigo toda uma conotação e todo um estigma que levou muitos pais a increverem os seus filhos em toda a espécie de explicadores e outros auxílios suplementares, de forma a permitir um melhor desempenho dos seus filhos nos exames. Neste sentido, a "facilidade" dos exames pode ser somente um sintoma que os nossos filhos estão melhor preparados que nunca. Esperemos que sim. Infelizmente, é improvável que assim seja, pelo menos na totalidade dos casos. Como os professores também argumentam que os exames estão mais fáceis este ano, o mais certo é que estejamos a nivelar por baixo o grau de exigência.

22 junho 2008

GASTOS DAS FAMÍLIAS

Estes são os dados mais recentes do Eurostat (referentes a 2005) sobre os gastos das famílias portuguesas (nota: estes são gastos médios das famílias e, assim, não incluem as despesas que o Estado faz). Em média, gastamos um terço do nosso rendimento com as nossas casas e um quinto em alimentação. Os transportes e os gastos com restaurantes e hoteis são ainda bastante significativos. À primeira vista, parece que não gastamos muito com a Educação e a Saúde. No entanto, como veremos no próximo post, em termos comparativos, a tendência é exactamente a oposta. Na Europas, as famílias portuguesas são verdadeiras campeãs de gastos na Educação e na Saúde.

GASTOS DAS FAMÍLIAS (1)

Na passada sexta-feira o DN noticiou o inquérito do Eurotsat mais recente sobre os gastos das famílias. Aqui está a notícia:

"As famílias portuguesas são as que, na União Europeia, maior fatia dos seus orçamentos gastam em despesas de saúde (6,1%), revela um relatório do Eurostat divulgado ontem. Os dados colocam ainda os portugueses no topo das despesas em restaurantes e hotéis e em quarto lugar, entre 27 países, na lista dos que maior fatia do ordenado aplicam no ensino.Os gastos das famílias com a saúde, diz Natália Nunes, da Deco - Associação de Defesa do Consumidor, não deixam de ser um sinal de que algo está mal com o Serviço Nacional de Saúde: "É contraditório que se gaste tanto em despesas privadas, atendendo ao que todos nós investimos, através dos impostos, no SNS", admitiu.Para o economista, Álvaro Santos Pereira , é também claro que esta despesa, da qual só os gregos (5,9%) se aproximam, indica a "ineficiência" do sector público e parece comprovar a "impaciência" dos portugueses com situações conhecidas, como as listas de espera. "Há países, nomeadamente os escandinavos, que pagam mais impostos, mas depois quase não ? têm despesas privadas".

Já em relação ao ensino, diz Albino Almeida, da Confederação Nacional das Associações de Pais, "os números provam que os portugueses não facilitam na educação, como se tem dito ultimamente". O responsável da confederação de pais considera, no entanto, que há despesas "incomportáveis", dando o exemplo dos manuais: "O nosso salário mínimo não chega aos 500 euros e há alguns cabazes de livros, no terceiro ciclo, que chegam aos 250". O Estado, reconhece, poderia ajudar mais, nomeadamente "ampliando" a rede de creches públicas, "mas também podemos esperar melhorias graças à escola a tempo inteiro, que reduziu os gasto pelas famílias com a ocupação dos tempos livres".

21 junho 2008

TAXA ROBIN DOS BOSQUES

A chamada taxa Robin dos Bosques que (pelo que parece) será brevemente introduzida pelo governo português e, quiçá, por outros países europeus não terá os efeitos desejados. A ideia é taxar os lucros elevados das petrolíferas (só este ano as receitas do petróleo dos países do Golfo crescerão 75%) para depois distribuir o dinheiro para as camadas mais pobres da população. É uma ideia nobre e bonita. Taxa-se os ricos para das aos pobres. Infelizmente, a ser introduzida, tal taxa não terá o efeito desejado. É verdade que o Estado arrecadará mais receitas, que serão eventualmente reconduzidas para os mais pobres (mas não obrigatoriamente, pelo menos na sua totalidade). No entanto, como sempre se passa, quem pagará o aumento dos impostos das petrolíferas não serão essas empresas mas... nós todos. Sempre que há um aumento dos impostos dos produtos petrolíferos, as empresas do sector fazem o óbvio: transferem os encargos fiscais para os consumidores através de preços mais elevados. Uma taxa Robin dos Bosques não será diferente. Apesar do nosso idealismo, a verdade é que quem pagará a factura de tal medida seremos todos nós. Podemos ficar contentes em pensar que estamos a dar uma lição aos malvados das petrolíferas, mas não estaremos. Infelizmente, só nos estaremos a iludir (bem como a encher ainda mais os cofres do Estado...).
E, claro, convén não esquecer que não há impostos temporários. Impostos temporários quase sempre se tornam permanentes. Ou seja, mesmo que os preços do petróleo baixem um dia, a taxa Robin dos Bosques não desaparecerá.

SER EMIGRANTE

As contradições de se ser emigrante, bem como os choques e as contradições culturais que se sentem são temas desta interessante conversa que Jumpa Lahiri (que já aqui falámos) teve com o Guardian.

RESPIRAR CARBONO


20 junho 2008

AINDA O BOICOTE DOS COMBUSTÍVEIS

A Sábado desta semana idealizou um cenário onde o boicote dos combustíveis seria prolongado por umas semanas. Aqui estão alguns cenários possíveis e prováveis:
Um cenário de boicote prolongado dos combustíveis seria uma espécie de bomba de neutrões económico. Ou seja, após a bomba (i.e. o fim dos combustíveis) as infra-estruturas manter-se-iam nos seus lugares, mas tudo o resto seria afectado. Para bem ou para mal, o petróleo é como o sangue nas veias da economia mundial (e nacional, como é óbvio). Se falta o petróleo (ou os combustíveis), não existe energia suficiente para que as actividades económicas se façam normalmente. Um tal cenário não destruiria por completo as actividades económicas. Afinal, até há poucas décadas atrás, o petróleo não desempenhava nenhum papel significativo na economia mundial. No entanto, uma escassez absoluta dos combustíveis iria causar dificuldades tremendas para muitos sectores.
^
Um dos problemas que se colocariam seria com a produção e distribuição de alimentos. Como mencionei, há umas décadas atrás o petróleo não era tão importante como hoje. Porém, na altura, uma grande parte das populações ainda vivia ligada à terra. O mesmo não é verdade hoje em dia. Nos países ocidentais, somente entre 3 e 10 por cento das populações nacionais trabalham directa ou indirectamente da agricultura. Por isso, num cenário de escassez absoluta de combustíveis, as pessoas certamente iriam tentar armazenar a maior quantidade possível de alimentos. É provável até que houvesse um certo pânico das populações que tentariam guardar o mais possível alimentos não perecíveis. Prontamente surgiria um mercado negro (ou não oficial) de todo o tipo de produtos (alimentares incluídos), a especulação aumentaria, e os preços cresceriam de uma forma significativa. Um outro mercado negro surgiria certamente para os próprios combustíveis, que seriam mais valiosos que o ouro.
^
Os sectores mais afectados inicialmente seriam os ligados aos transportes e à distribuição de produtos. Táxis e transportes privados seriam os primeiros a sentir o efeito, e só mais tarde os transportes públicos (porque, certamente, seria dada prioridade a este tipo de transportes). Aos poucos e poucos até estes transportes seriam afectados. Os menos afectados seriam as actividades do sector dos serviços, tais como o sector financeiro e as empresas ligadas às novas tecnologias de informação (principalmente àquelas que dependem da internet).
Passadas umas semanas, e se os combustíveis ficassem realmente escassos, toda uma série de serviços públicos (p. ex. A recolha do lixo, etc) iriam ser afectados consideravelmente. Para evitar situações de ruptura da ordem pública e para manter a saúde pública, a prioridade total seria dada ao abastecimento dos serviços do Estado. Para tal, seria declarado o estado de emergência, no qual seriam mantidas reservas nacionais de combustíveis para sectores como a defesa e a segurança interna, bem como para o sector da saúde.
^
Numa situação de desespero, alguns poderiam ser tentados a reintroduzir alguns animais de carga e de transporte, como os burros (se ainda existirem...) e outros. Muitos poderiam ser tentados a procurar alternativas ao petróleo, mas estas tentativas seriam quase todas em vão. É certo que existem algumas energias alternativas. Contudo, mesmo que houvesse um maior investimento nessas áreas, a verdade é que levaria demasiado tempo para que quaisquer alternativas surtissem efeito a curto ou médio prazo.
O tempo de resistência dependeria muito do sector em causa. Os mais rapidamente afectados seriam os dos produtos perecíveis e o sector dos transportes. Os sectores que não dependem directamente do sector dos transportes seriam menos afectados.
Os hábitos dos consumidores e dos privados seriam muito afectados. O chamado “tele-commuting” (trabalhar de casa) aumentaria exponencialmente. Muitos iriam para os seus empregos a pé ou de bicicleta. Muitas escolas fechariam, etc., etc. Somente serviços essenciais seriam mantidos.
^
O impacto macroeconómico seria tremendo. A Inflação dispararia. A Economia entraria em recessão. O desemprego e o sub-emprego cresceriam dramaticamente. A escala das actividades económicas seria substancialmente reduzida
O comércio internacional seria gravemente afectado. A maior parte das nossas exportações iria acabar. Se o mundo não fosse afectado, as nossas maiores importações seriam alimentos e combustíveis. Se o mundo fosse afectado, então o comércio internacional seria reduzido quase para zero.

19 junho 2008

NEAR MISSES


Um comentador inglês afirmou que parecia que Portugal continuava a ser uma equipa de "near misses". Outro questionou se nós não seríamos "perpetual underachievers". É, de facto, uma pena. Mais uma vez não foi cumprido todo o nosso potencial.

ASSIM SE VÊ A FORCA (sem cedilha) DO PC

Perante a crise que se agrava, o Partido Comunista avançou ontem com uma série de propostas para diminuir o mal-estar. Entre as medidas sugeridas estão as seguintes:
_ preços máximos para o pão, o leite e os produtos de higiene
_ uma subida do salário mínimo nacional
_ um aumento intercalar dos salários dos funcionários públicos
_ crescimento de 4 por cento das pensões mais baixas
_ criação de um imposto sobre os lucros das petrolíferas
_ utilização do gasóleo profissional nos transportes públicos "já anunciada pelo Governo, mas que “tarda a concretizar-se”"
_ congelamento dos preços dos títulos de transporte
Em suma, a receita do costume dos partidos comunistas: controlo e congelamento de preços, subida dos salários e pensões, e impostos sobre os lucros das empresas.
^
A única coisa que o PC não diz (nunca o faz) é quem é que pagaria a factura por estas medidas? Se não vejamos. Comecemos pelos preços máximos. Parecem razoáveis à primeira vista de forma a aliviar os mais pobres entre nós. No entanto, se o fizéssemos, quem (e como) é que compensaria os produtores e os importadores de tais produtos? Se não houvesse compensação, porque é que estes produtores e importadores continuariam a produzir ou importar bens para nós? Porque é que não se voltariam para Espanha ou outros mercados? Por nacionalismo ou patriotismo? Não me parece que tal acontecesse...
Segundo, a subida do salário mínimo e das pensões seria obviamente benvinda. Afinal, há demasiada pobreza em Portugal e tais medidas ajudariam principalmente os mais pobres. Porém, quem pagaria a factura? O resto dos contribuintes, como é óbvio. O problema é que uma grande maioria dos contribuintes já se encontra demasiado apertada e certamente não veriam com bons olhos uma possível subida dos impostos (necessária para possibilitar a subida das pensões e dos salários). Por isso, tal iniciativa estaria condenada ao fracasso.
^
E que dizer da subida intercalar dos salários da função pública? Pura demagogia, principalmente porque é proposta numa altura em que ainda não há margem de manobra orçamental.
E um imposto sobre os lucros das petrolíferas? Não será esta uma boa medida numa altura em que estas empresas têm lucros recordes? À primeira vista, parece boa. Porém, se analisarmos o que acontece nestas situações, a ilusão desaparece. O que é que acham que as petrolíferas fazem quando os governos aumentam os seus impostos? Pois é. Todos nós pagamos. Ou seja, os impostos são inteiramente incorporados nos preços dos combustíveis. Assim, se criarmos mais impostos para estas empresas quem acabará por pagá-los somos todos nós.
^
Resumindo, as medidas propostas pelo PC não têm razoabilidade económica. Nem sequer são exiquíveis ou passíveis de atenuar a crise. Muito pelo contrário. São verdadeiros exercícios de demagogia política.
Dito isto, sinceramente tiro o meu chapéu ao PC. Ao menos, o PC pensa em soluções para a crise. Mal, mas pensa. Ao menos o PC dá soluções para a crise. Soluções erradas, é certo, mas são soluções.
Que outros partidos têm feito o mesmo? Nenhuns. Ou é a obsessão dogmática pelo défice ou é o vazio ideológico. Por isso, parabéns ao PC por esta iniciativa. É errada, mas ao menos lança o debate. E só por isso merece o nosso aplauso.

A FOME DE MUGABE

Há cada vez mais indícios que Mugabe e os seus lacaios da junta militar não irão permitir que a oposição vença as eleições. Há actualmente um clima de terror e de intimidação que não augura nada de bom para este país africano. O mais provável é que Mugabe e os seus compinchas continuem no poder à força. Continuarão no poder e continuarão a destruir a economia do país. A hiperinflação de 160 mil por cento continuará a subir para patamares ainda mais destruidores e a economia do Zimbabwe continuará a caminhar a passos largos para o desastre, quiçá mesmo para o colapso. Por isso, não é de estranhar que a ONU tenha vindo avisar que mais de 5 milhões de pessoas estão ameaçadas pelo espectro da fome. Enquanto os corruptos continuam a encher as suas contas bancárias no estrangeiro com o sangue dos seus compatriotas, os cidadãos comuns continuam a pagar com a sua própria pele a permanência de Mugabe na presidência do país. Uma tragédia de dimensões cada vez mais catastróficas.

O MISTÉRIO DOS PÉS

Um dos mistérios mais macabros e curiosos dos últimos tempos passa-se mesmo aqui onde resido, na British Columbia, no oeste do Canadá. No último ano têm dado à costa uma série de pés de pessoas quase sempre ainda com sapatos. Só os pés. Mais nada. Até à data, já são 6 os pés. Todos de pessoas diferentes. Quase todos são pés direitos (só um é que é esquerdo). O que tem confundido as autoridades canadianas é que estes pés não parecem ter sido separados à força dos corpos. Pelo que parece, em princípio, foi a própria decomposição natural dos corpos que os fez separar dos corpos. Mesmo assim, as autoridades estão verdadeiramente espantadas. De onde virão os pés? De um naufrágio? Serão resultantes de um crime? A quem pertencem? Porque é que só aparecem os pés? Porque não mãos? Ou outra parte do corpo? Ninguém sabe.
Um mistério. Um verdadeiro mistério. Um mistério que se adensa com o tempo e cujas respostas continuam a iludir as autoridades.

VISTA DE GAZA


FALTAS AOS EXAMES (2)

A propósito das faltas aos exames, o Rolando Almeida, autor do blogue Filosofia no Ensino Secundário, comenta: "Sinceramente ainda nem sei quais as consequências desta falta (só na sala onde estive faltaram 5 alunos em 20). Há muitas lições a tirar dos exames, entre as principais:1) muitos professores defendem um ensino sem exames2) Existe um verdadeiro drama em relação aos exames, o que prova a falta de hábitos dos nossos estudantes em fazer exames.3) muitos professores trabalham com 30 ou mais alunos na sala de aula, mas para os exames estão dois professores vigilantes para um máximo de 20 alunos por sala;4) Dada a extinção de mais alguns exames, os alunos fazem , este ano, dois ou três exames e ficam com metade de Junho, Julho inteiro, Agosto inteiro e mais alguns dias de Setembro sem escola.5) mesmo que os estudantes faltosos não pudessem usar outra oportunidade para fazer o exame, o certo é que tem muitas alternativas duvidosas para completar o ensino secundário.6) Hoje mesmo li nas notícias que a Ministra da Educação está feliz pelos resultados das provas de aferição. Quanto a avaliações internas temos o assunto resolvido. São os noventas e tais de sucesso a matemática e português. Só mesmo em avaliações externas é que estas percentagens perdem qualquer significado."

Obrigado pelo esclarecimento, Rolando.

18 junho 2008

MALÁRIA EM PORTUGAL

Sabia que a malária já foi endémica em Portugal? Eu não sabia, pelo menos até ter começado um trabalho sobre o assunto. Pois é, parece incrível mas é verdade. A malária era uma das grandes doenças nacionais até aos anos 50. Mais de 40 a 50 mil pessoas ficavam infectados todos os anos com a doença, muitos dos quais pereciam (a figura acima dá-nos a evolução do número de infectados anualmente). O impacto da malária era significativo, principalmente no interior e nas regiões mais rurais. O rio Sado, partes de Portalegre, Coimbra, Aveiro, Évora e Faro, eram as regiões mais afectadas. Os mais pobres eram quem mais sofriam com a doença. As cidades eram pouco afectadas.
O grande combate contra a doença deu-se a partir dos anos 30 e, principalmente, nos anos 40, quando o DDT foi utilizado para pulverizar as zonas mais afectadas e quando centenas de milhares de comprimidos de quinina (e derivados) foram utilizados no combate à malária. A estratégia teve tanto sucesso que a Organização Mundial de Saúde declarou Portugal livre de malária em finais dos anos 50.
Um sucesso que nos devemos orgulhar e que demonstra que, quando queremos, conseguimos feitos admiráveis. Quão admiráveis? Muitíssimo admiráveis. A doença já era endémica em Portugal há milénios, tendo inclusivamente sido referenciada por poemas de Gil Vicente.
Quem disse que não fazemos nada de jeito?

INDIA INUNDADA


À espera de ajuda...

ELEGER UM MORTO

Numa vila romena, os habitantes decidiram votar numa pessoa já falecida para ser o seu presidente de câmara. Insólito, não? Pelo que parece, o presidente da câmara ia a escrutínio contra outro senhor. O problema é que o presidente morreu uns dias antes da eleição, o que provocou um dilema para a população, pois já era legalmente demasiado tarde para mudar os boletins de voto. Ora, como muitos dos habitantes da vila não gostavam mesmo nada do opositor do (agora) falecido, optaram por votar no morto em vez de eleger o detestado como seu presidente. O morto ganhou... E agora já há quem fale em novas eleições...
Já viram se a moda pega, os problemas que isso não irá causar???

FALTAS AOS EXAMES

Mais de 10 mil (sim, 10 mil) alunos(as) faltaram ao exame de Português realizado ontem. Dez mil. Mais de 14 por cento dos inscritos. As razões para tal omissão transcendem-me (Rolando, alguma ideia?). No entanto, a minha intuição é que tantas faltas têm uma justificação: a demasiada permissividade dos exames. Ou seja, não se faz hoje o exame, faz-se noutra altura. Arranja-se uma justificação qualquer (i.e. um atestado médico, a morte de um familiar, etc) e escreve-se o exame na segunda fase. Assim, juntam-se menos exames de uma vez... É mais fácil...
Enfim, são, sem dúvida, generosos os critérios de exigência do nosso ensino...

MAIS UMA CRISE

Mais uma crise... A pior?

17 junho 2008

UM ANJO PREVENIDO VALE POR MUITOS

Uma das histórias mais interessantes dos últimos dias é contada pelo New York Times. O sismo chinês destruiu 7 mil escolas, levando à morte mais de 10 mil crianças. Mas nem todas as escolas ruiram. Uma das que escapou à destruição do terramoto foi a Sangzao Middle School, que resistiu à violência do sismo. Ainda bem, porque na altura estavam na escola mais de 2 mil crianças, que teriam tido o mesmo destino de tantas e tantas crianças noutras escolas se não fosse a visão do seu director. Há uns anos atrás, este senhor, Ye Zhiping, verificou que a construção da escola tinha sido bastante precária em relação à protecção anti-sísmica. Em vez de cruzar os braços, Ye Zhiping foi à luta, exigindo acção às autoridades regionais. Após muita insistência, Ye Zhiping alcançou o seu objectivo e as estruturas da escola foram reforçadas. O trabalho foi tão bem feito que a escola foi das poucas que não ruiu durante o sismo. Todas as crianças foram salvas. E é por isso que Ye Zhiping é agora conhecido como o Anjo de Sichuan.

JUROS A SUBIR

Ontem ficámos a saber que a taxa de inflação na zona euro foi de 3.7 or cento em Maio, o valor mais alto desde a criação da moeda única europeia. O que é que isto significa? Que os juros vão subir muito brevemente. Não seria de espantar se na sua próxima reunião, o Banco Central Europeu subisse as taxas de juros de uma forma agressiva, provavelmente na ordem dos 0,5 pontos percentuais.
Consequências? Para além do maior aperto de cinto para as famílias (muitas das quais já extremamente endividadas), é certo que o euro continua a apreciar-se em relação ao dólar americano, pois aumentará o diferencial entre as taxas de juro europeias e americanas. Quem sofrerá? Os exportadores, que irão ver os seus custos aumentar ainda mais.
Más notícias para a Europa e, em especial, para a economia portuguesa. A crise internacional começa a ter cada vez mais um impacto muito significativo na economia nacional.