29 agosto 2008

OBAMA, OBAMA


Mais um discurso memorável de Barack Obama. Perante 85 mil pessoas num estádio em Denver e milhões de outras nos ecrãs da televisão, Barack Obama proferiu um dos melhores discursos dos últimos tempos. Não sou eu que o digo, mas sim practicamente a maioria dos analistas americanos. Até Pat Buchanan, conhecido analista e político da direita mais extremista, afirmou que o discurso de Obama foi o melhor que algum dia ouviu numa convenção partidária. Aqui está a reacção do New York Times e aqui a do Washington Post.
O ataque a McCain foi cerrado, e poucos assuntos foram negligenciados. Dos planos de saúde para todos, dos direitos das mulheres ao direito de ter armas, até à discriminação contra pessoas de diferente orientação sexual, Obama surpreendeu os analistas pelo seu arregaçar das mangas e atacar os republicanos em todos os princípios que defendem. Toda a gente sabia que Obama é um orador excepcional. Mas hoje Obama transcendeu-se e deu um passo de gigante para se tornar no próximo presidente dos Estados Unidos.
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Obama é tão bom que às vezes é fácil esquecer o significado histórico dos últimos dias. Pela primeira vez na história da América e do mundo ocidental, um negro é candidato à liderança de um dos maiores partidos de um país. A América continua a dar o exemplo. Não é à toa que se viu tanta gente a chorar quando Obama foi nomeado, quando Michele Obama deu um discurso extraordinário e quando Barack proferiu o discurso de hoje.
Para perecebermos o quão importante foi para tanto e tanto afro-americano, vale a pena ler este artigo de opinião no Washington Post.

27 agosto 2008

A REPROVAÇÃO DOS PORTUGUESES


Estas são as taxas de reprovação e desistência escolar em Portugal (clique no quadro para ver melhor), segundo o Ministério da Educação. Se reparar com atenção, verá que, nos últimos 2 anos, houve uma redução de 30 por cento na taxa de insucesso e desistência escolar, sem que haja razão aparente. Hmmmm.... Mistérios... Apesar deste milagre estatístico, os nossos indicadores de retenção dos alunos continuam dos mais altos de toda a OCDE. E uma das nossas vergonhas, sem dúvida alguma.

OBSTÁCULO AO CRESCIMENTO

O que a OCDE pensa do nosso sistema educativo. Andamos há décadas a apaixonarmo-nos pela Educação, mas as nossas insuficiências persistem:
"The lack of human capital in Portugal has become a key obstacle to higher growth... Despite progress in the past decades, Portuguese children spend comparatively few years in formal education, and they do not perform as well as children from other OECD countries. Adults, especially the least educated, do not participate enough in lifelong learning and training programmes. This situation does not stem from a lack of resources devoted to education and training but from inefficiencies and misallocation of spending, and weaknesses in the quality of the services that compound the low starting point of Portugal regarding education. Modernizing the Portuguese economy therefore requires a broad reform which increases human capital at all levels."

25 agosto 2008

MAIS UMA APOSTA NA EDUCAÇÃO

O governo anunciou hoje que o próximo orçamento de Estado irá, mais uma vez, dar prioridade à Educação e à Ciência. Aí vem mais dinheiro para essas áreas. Não sou contra, mas vale sempre a pena lembrar que já não gastamos pouco com a Educação. Em percentagem do PIB, gastamos tanto como a média da OCDE, o clube dos países ricos e mais do que a Coreia do Sul, a Alemanha ou a Espanha. Fundos adicionais podem ajudar, mas não é o que mais precisamos. No ensino superior, vale a pena recordar que há gente a mais em muitas universidades, não a menos. O problema é que uma parte dos professores e investigadores não faz nada ou muito pouco.
Se queremos mesmo tornar Portugal num país com qualidade educativa, num país que recompensa a investigação, o mais importante é mudar as regras dentro das instituições, não necessariamente contratar mais gente ou arranjar mais fundos. Entre as medidas que fariam muito mais pela qualidade de ensino do que uns milhões de euros adicionais incluem-se:
  • Acabar com os numerus clausus dos diversos graus da carreira docente
  • promover a concorrência entre as universidades,
  • acabar com o compadrio escandaloso nos concursos de recrutamento de docentes, promover a meritocracia (em que os professores são recompensados pela investigação e pela qualidade da docência que fazem),
  • acabar com alguns dos privilégios medievais dos professores,
  • acabar com a excessiva permissividade das épocas de exames
  • avaliação dos professores

Ou seja, para alcançarmos a tão almejada qualidade na Educação é mais importante alterar os incentivos da docência dos alunos e dos professores do que injectar centenas de milhares de euros adicionais para o sector.

O GRANDE CIRCO

Hoje começa em Denver a convenção Democrata que irá nomear formalmente Barack Obama como o candidato Democrata às eleições presidenciais de Novembro. A convenção promete animada, até porque as convulsões das primárias ainda se fazem sentir. Os Clintons continuam convencidos que deviam ter uma maior voz no partido e, por isso, os seus partidários podem estar tentados a fazer um golpe de teatro qualquer. Há bastante gente no campo Hillary que não ficou satisfeita com a forma como Clinton foi tratada por Obama na escolha do candidato à vice-presidência (soube-se que Obama provavelmente não a considerou para o cargo). Assim, não será totalmente surpreendente se alguma surpresa acomtecer. Se o fizerem, claramente só estarão a arranjar lenha para queimar Obama e, por consequência, o seu partido. Já há muito se sabia que nestas eleições o principal inimigo do partido Democrata era o partido Democrata. Nos próximos dias veremos.

A BELEZA DAS FREIRAS

Um sacerdote italiano decidiu promover um concurso de beleza original. Cansado de ouvir que as freiras actuais eram velhas e feias, o padre italiano lançou um concurso destinado a mostrar a beleza das monjas. As concorrentes têm de enviar um foto delas para o dito sacerdote, que então escolherá as mais bonitas. Se então desejarem, as freiras mais belas irão desfilar no seu tradicional traje (e não em fato de banho). Um padre e umas freiras originais, sim senhor...

22 agosto 2008

SUCESSO NA EMPRESA NA HORA

O Banco Mundial, através do seu projecto Doing Business que compara a facilidade de efectuar negócios em 178 países, é altamente elogioso para o programa "Empresa na Hora" introduzido em 2005. Segundo o BM, “Em 2005 eram precisos 11 procedimentos e 78 dias para começar um negócio em Portugal _ mais lento do que na República Democrática do Congo. Um empreendedor necessitava de preencher 20 formulários e documentos, mais do que noutro qualquer país da União Europeia, e o custo rondava os dois mil euros... Actualmente, Portugal é um dos países onde é mais fácil começar um novo negócio, sendo necessários somente 7 procedimentos, 7 dias e 600 euros.” O programa também já está a ser estudado por outros países: "Angola and Cape Verde have requested legal and technical assistance based on the Portuguese model. Cape Verde will soon be ready to follow through with the reform. Other countries such Slovenia, Hungary, Egypt, Mozambique, Angola, São Tomé and Principe, Chile, Finland, Bosnia-Herzegovina, Romania, China, Brazil, Turkey, Sweden, and Andorra have visited the On the Spot Firm service."
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Que mais nos diz o Doing Business 2008?
As principais debilidades da economia portuguesa encontram-se tanto na dificuldade de obtenção de licenças, como, principalmente, em empregar trabalhadores. As leis laborais portuguesas permanecem bastante rígidas, constituindo verdadeiros entraves à recliclagem e renovação da força de trabalho. Não é à toa que Portugal está em 157º lugar em 178 possíveis neste índice. Renovar licenças é igualmente uma das grandes deficiências da nossa burocracia. Obter crédito em Portugal ainda é excessivamente problemático e o processo de pagamento de impostos é demasiado complicado. Portugal também não tem um bom desempenho em relação à burocracia relacionada com o registo de propriedades
Para obter uma licença são precisos, em média, passar por 20 penosos procedimentos e 327 dias, o que corresponde a um custo de 54% do rendimento per capita. Têm-se registado poucas ou nenhumas melhorias neste campo. Empregar e despedir trabalhadores em Portugal é uma verdadeira tortura.
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Por outro lado, tem havido algumas melhorias a nível do registo de propriedade, pois conseguimos reduzir para metade o número de dias necessários para o fazer. Em média, são precisos 42 para registar uma propriedade enquanto há apenas 2 anos eram necessários 83. Ainda assim, temos muito que andar nesta área, pois permanecemos um país em que registar uma propriedade é uma verdadeira aventura.
Os nossos bancos podem ser muito dinâmicos nalgumas áreas (como na introdução de multibancos e dos sistemas a eles associados), mas não o são decisivamente a nível da concessão de crédito.
Na protecção dos investidores não estamos mal posicionados (33º em 178), mas ainda é possível melhorar. No cumprimento de contratos deixamos muito a desejar. Se é verdade que estamos melhor que a Grécia ou a República Checa, estamos substancialmente pior do que países como a Hungria. Os processos de cobranças de dívidas necessitam de uns impressionantes 36 procedimentos e demoram, em média, uns incríveis 577 dias, com um custo de cerca de 18 por cento do total da dívida. No comércio trans-fronteiriço, Portugal é um dos países em que os custos não são dos mais elevados.

20 agosto 2008

A SAÚDE PORTUGUESA


(Por favor clique nas figuras se quiser visualisá-las melhor)

Afinal, gastamos pouco ou muito na Saúde? Segundo os dados mais recentes, somos dos países da OCDE que mais gastam com a Saúde em percentagem do PIB. A média da OCDE é de 8,9% do PIB, enquanto nós gastamos 10,2% (primeiro gráfico).
Os valores em gastos por habitante são melhores (segundo gráfico), visto que gastamos em média 2,102 dólares americanos (em paridades de poder de compra) enquanto a média da OCDE é de 2,824 dólares
Entre 2000 e 2006, as despesas com a Saúde cresceram 3,3% ao ano, um valor inferior à média da OCDE, que foi igual a 5%. O maior crescimento das despesas com a Saúde registou-se com as despesas farmacêuticas, que são quase 22% das despesas totais com a Saúde
Outros indicadores interessantes:

  • Portugal tem 3,4 médicos(as) por cada 1000 habitantes (a OCDE 3,1)
  • Temos bastante menos enfermeiras(os) do que a média da OCDE: nós temos 4,6 enfermeiros(as) por cada 1000 habitantes enquanto a OCDE tem 9,7
  • Temos menos camas nos cuidados intensivos:
    _ Portugal 2,2 por cada 1000 habitantes
    _ OCDE: 3,9
  • Em linha com a OCDE, nos últimos anos, o número médio de dias de estadia hospitalar tem diminuído consideravelmente
  • O número das tecnologias disponíveis nos hospitais portugueses tem aumentado substancialmente

19 agosto 2008

150 MIL EMPREGOS

Sinceramente não percebo o que é que o primeiro-ministro quer dizer quando afirma que 133 mil empregos líquidos já foram criados desde o início desta legislatura. As economias estão sempre a criar e a destruir empregos. Se por criação líquida entendemos que criamos mais empregos do que os que são destruídos, então devíamos ver uma descida do desemprego. Ora, contrariamente ao que as palavras de José Sócrates insinuam, a taxa de desemprego permanece bem acima da registada quando este govermo tomou posse. Aliás, a taxa de desemprego continua historicamente alta, tal como podemos constatar na figura acima (com dados trimestrais do Banco de Portugal). Ou seja, não tem havido uma criação líquida de emprego, mas sim uma destruição líquida de emprego. Aliás, a taxa de desemprego só não é mais elevada porque alguns portugueses desistiram de procurar empregos (e por isso não contam nas estatísticas) enquanto milhares de outros tem optado por emigrar. Isto não é uma crítica. É somente uma contestação.

18 agosto 2008

A CRISE QUE NÃO ACABA

As primeiras frases de um (longo) artigo sobre a crise actual (e possíveis soluções) que irá ser publicado na revista EXAME de Setembro:
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Economicamente os últimos 7 anos foram os piores das últimas 8 décadas. Este facto é notável se nos lembrarmos que durante esse período vivemos sob uma ditadura pouco visionária, houve uma guerra mundial, lutámos guerras coloniais, fizemos uma revolução, perdemos um império, efectuámos nacionalizações e reformas agrárias de utilidade questionável, tivemos graves crises financeiras e aderimos ao maior espaço comercial do mundo. De facto, o desempenho da economia nacional dos últimos anos tem sido tão sofrível que o processo de convergência com a União Europeia foi invertido e vários países “ultrapassaram” o PIB per capita português. O desemprego atingiu níveis históricos no período democrático e o crescimento da economia é de tal modo baixo que, a este ritmo, serão precisos 50 a 70 anos para duplicar o rendimento médio nacional.
Esta não é certamente a maior crise da nossa história. Bem longe disso. No entanto, esta é a maior crise que há memória. Por todos estes motivos, urge implementar o quanto antes uma estratégia de combate à estagnação económica.

PINHEIROS AMEAÇADOS (3)


O Guardian de hoje noticia a ameaça do escaravelho dos pinheiros e do seu impacto em Portugal e no sul da Europa, que já foi aqui referida. A ameaça é real e alarmante. Na British Columbia, Canadá, já foram afectados mais de 130 mil quilómetros quadrados de floresta (a foto é de uma das áreas atingidas). Vastos recursos já foram investidos em tentativas de prevenção, mas ainda não se conhece nenhuma forma eficaz de parar a praga.

11 agosto 2008

DERRAPAGENS MAIS-QUE-ESPERADAS

Segundo o PUBLICO de hoje, algumas das concessões rodoviárias promovidas pelo governo vão ter uma derrapagem orçamental de pelo menos 40 por cento, o equivalente a cerca de 750 milhões de euros. De acordo com o jornal, "A disparidade entre os valores anunciados e aqueles que aparecem nas propostas é explicado por uma "diferença de conceitos relevante": "enquanto o custo divulgado pelo Governo é o típico custo de construção da via, a rubrica "custo de construção" apresentada pelos concorrentes inclui quer o custo de construção da via, quer o custo com equipamentos e expropriações". A mesma fonte acrescenta que os valores anunciados pelo Governo são meras "estimativas realizadas de acordo com os projectos iniciais que serviram de base ao lançamento dos concursos", enquanto as propostas dos concorrentes incorporam, também, todos os efeitos do risco de construção. "
Ou seja, estes 750 milhões de euros adicionais nem sequer têm em linha de conta as derrapagens de custos que irão certamente acontecer devido ao aumento dos preços dos produtos petrolíferos e dos custos de construção. Ou seja, as diferenças entre o que estas obras vão custar e o orçamentado e previsto pelo governo serão bastante elevadas.
Ora, se é assim com estradas (que estamos habituados a fazer), o que irá acontecer com o TGV? Não há problema. Afinal, haverá sempre quem pague a factura (isto é, os contribuintes). Foi um azar, dizer-nos-ão. Foram os imponderáveis, informar-nos-ão. Talvez sejam. Mas o mais provável é que tudo não passou de mau planeamento na pressa de satisfazer a febre do betão. É só pena que nunca haja ninguém que se responsabilize por estas derrapagens mais-que-esperadas.

VALE A PENA VISITAR

Dois dos melhores e mais interessantes economistas portugueses estão na net com os seus blogues. O Pedro Lains (um dos mais influentes historiadores económicos portugueses) está aqui .
O Nuno Garoupa (um dos mais internacionais economistas portugueses, especialista da área de Economia do Direito e mudanças institucionais) está aqui.
Vale a pena visitar.

MORALISTA DESMASCARADO

Mais um moralista desmascarado nos Estados Unidos. Desta vez foi John Edwards, um dos Democratas mais populares e influentes dos últimos anos. Na sua campanha para as presidenciais, Edwards não se cansou de apelar ao retorno dos "valores familiares" da América e à seriedade dos políticos. Edwards chegou a afirmar categoricamente que mentir para o público e trair os parceiros era de tal modo grave que, se fosse feito por um(a) político, este(a) deveria abandonar de imediato o seu cargo. Em casa de ferreiro espeto de pau, e, por isso, ficámos anteontem a saber que o próprio Edwards mandou os "valores familiares" às malvas e traiu a mulher com uma assistente da sua campanha eleitoral. Ainda mais grave, fê-lo quando a sua mulher combatia um cancro. E, claro, mentir ao público.
De facto, a situação só não é mais grave porque Edwards perdeu as eleições primárias. No entanto, o que ontem se debatia entre os comentadores americanos era saber o que é que teria acontecido se Edwards fosse o nomeado dos Democratas ou, mesmo, se fosse o escolhido para a vice-presidência. Com um escândalo deste tamanho, Edwards deitaria a perder todas e quaisquer possibilidades dos Democratas ganharem as eleições. Enfim, mais um moralista desmascarado. E ainda bem, digo eu.

MITOS NOS TOPS

O "Mitos da Economia Portuguesa" voltou aos tops de Economia e Gestão. Na última semana, o "Mitos" estava no segundo lugar da Bertrand. O topo da lista era ocupado pelo livro "Terramoto BCP" de Maria Teixeira Alves. O Mitos também esgotou na FNAC mais uma vez.
Obrigado a todos.

31 julho 2008

O GIGANTE EMERGENTE?


Há uma nova estrela emergente no mundo económico. Para espanto de muitos, essa estrela chama-se Brasil, durante décadas conhecido como o país do futuro cujo futuro nunca chegava. Ora, contra as previsões de muitos, parece que o futuro do Brasil está finalmente a chegar. Na última década, o crescimento económico brasileiro atingiu já não vistos há mais de três décadas e as tremendas desigualdades sociais parecem finalmente ter começado a decrescer (pelo menos em termos relativos). O Brasil internacionaliza-se cada vez mais (como o recente anúncio de investimento da Embraer em Portugal o demonstra) e diversifica-se, tanto a nível industrial como agrícola. Esperemos que assim continue.
Ainda por cima, há pouco tempo foram descobertas enormes reservas petrolíferas na costa brasileira, augurando ainda mais receitas para o Estado e para o país. Paradoxalmente, esta pode ser a pior notícia que o Brasil poderia ter. Numa altura em que a economia mostra grande dinamismo e uma crescente diversificação das actividades económicas, a descoberta dessas reservas petrolíferas fará certamente valorizar o real (pois haverá maior procura de moeda brasileira), o que poderá afectar negativamente os sectores exportadores do país, bem como outras áreas da economia que poderão menos competitivas com a valorização do real.
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Mas, esperemos que isso não aconteça ou, a acontecer, esperemos que a recente vitalidade do Brasil seja suficiente para aguentar o impacto que a valorização do real terá no sector exportador brasileiro. Entretanto, saudemos os feitos económicos do Brasil, que parece finalmente ter deixado de continuar permanentemente adiado.
PS. Vale a pena ver aqui uma reportagem do New York Times sobre o crescimento brasileiro.

30 julho 2008

NEGOCIAÇÕES FALHADAS

Como já era esperado, falharam as negociações que deviam dar azo a um novo (e mais abrangente) acordo para o comércio mundial. É de certa forma natural, não só porque este tipo de negociações é sempre extremamente difícil, mas também porque a liberalização do comércio quase nunca acontece em tempos recessivos. Como há um crescente número de núvens recessivas no horizonte, o proteccionismo volta a estar no topo da agenda de muitos governos, tornando ainda mais difícil um acordo entre as várias nações.
Como, ainda por cima, a China e a Índia se sentem cada vez mais confiantes para desafiar os Estados Unidos na cena internacional, as negociações colapsaram e não se sabe quando é que regressarão.
Quem perde? Ninguém ganha com toda esta contenda. No entanto, é claro que os principais perdedores são aqueles que não têm voz, os países médios e pequenos, os países mais pobres e subdesenvolvidos, que continuarão a ver as portas da UE, dos EUA e do Japão fechadas à exportação dos seus produtos.

29 julho 2008

CASAS MENOS CARAS

O DE noticia hoje que o preço médio das casas em Portugal baixou 4,6 por cento no segundo trimestre deste ano. Em média, o preços das casas é mais baixo do que há 4 anos atrás. Um mercado, portanto, para quem compra e não para quem vende. Mais uma consequência da estagnação económica dos últimos anos e mais um sinal do (ainda) crescente endividamento das famílias, com reflexos óbvios no mercado imobiliário. Obviamente, a previsível subida das taxas de juros projectada para os próximos meses não irá ajudar a esta situação.

O LEGADO DE BUSH

Para além da Guerra do Iraque, o principal legado da Administração Bush será o maior défice (em valor absoluto) de sempre. Para o próximo ano, projecta-se um défice no mínimo de 482 biliões (ou 482 mil milhões na notação portuguesa) e dólares, um valor que não inclui algumas despesas com a guerra. A dívida pública americana já está perto dos 10 triliões de dólares (ou 10 biliões na notação portuguesa, se preferirem). Para perceber quão significativos são estes números, basta pensar que Bush herdou um orçamento em superavit...
E quem irá pagar os défices e a dívida de Bush? O povo americano, como é óbvio. E quem terá a responsabilidade de o fazer? Quem ficará com a culpas por implementar medidas para combater o défice? O próximo presidente, como é óbvio. Bush, entretanto, já estará nessa altura no seu rancho do Texas, sem possibilidades de danificar ainda mais a reputação e as finanças da América. É caso para dizer que vale mais tarde do que nunca.

PISCINA DE GENTE

Foto: Reuters


Uma piscina num dia de calor na China, na cidade de Suining.

28 julho 2008

EMBRAER EM PORTUGAL

No passado sábado, foi assinado um acordo com a empresa brasileira Embrarer para a construção de duas fábricas de componentes para aviões em Évora. O investimento tem um valor de 148 milhões de euros (mais ou menos o que a IKEA investiu na sua fábrica no norte do país). Como sempre acontece nestas ocasiões, há fortes incentivos financeiros para o investimento da Embraer em Portugal. Como sempre, surgiram opiniões discordantes sobre o apoio estatal, mas não faz sentido a oposição pela oposição. A verdade é que neste tipo de projectos os Estados fazem sempre tudo para atrair empresas e este acordo não é excepção.
Para além do mais, este pode ser o primeiro passo para que a Embraer invista mais em Portugal, quiçá através da construção de uma fábrica de aeronaves. Independentemente, disso se concretizar ou não, porque é que o investimento da Embraer é uma boa notícia? Primeiro, porque a Embraer é simplesmente a líder mundial no segmento das aeronaves médias, produzindo aviões destinados a mercados regionais e médios. Neste segmento a Embraer só tem uma grande concorrente, que é a canadiana Bombardier. Segundo, porque este investimento reforça a tendência (pouco falada entre nós) das exportações portuguesas nos últimos 5 anos, que é o grande crescimento das exportações de médio e alta tecnologia.
De facto, Portugal tem sido um dos países da UE onde as exportações de tecnologia média e alta têm crescido mais rapidamente nos últimos 5 anos, um sinal promissor que algo possa estar a mudar na estrutura das nossas exportações. O investimento da Embraer (e o da Intel, que será anunciado esta semana) só pode ser saudado como um reforço desta saudável tendência. Mais que o TGV ou a construção de novas estradas, é com estes investimentos que a economia portuguesa poderá crescer mais e tornar o seu crescimento mais sustentado e produtivo.

26 julho 2008

O JOGO DE DeNIRO



Acabei de ler "De Niro's Game" do escritor líbano-canadiano Rawi Hage, que foi recentemente editado entre nós pela Civilização Editora com o estranho título "Como a Raiva ao Vento" (não percebo muito bem porque é que não traduziram o título inglês, mas enfim). Como o li em inglês, não sei como é que será a tradução portuguesa. No entanto, este é um livro a comprar. Um livro óptimo para as suas férias do Verão.

Este é o primeiro romance de Rawi Hage, um livro que recebeu em, Junho último o prémio literário mais generoso do mundo, o International IMPAC Dublin Literary Award, para o qual livros de todos os países podem concorrer. O livro merece o galardão. Hage descreve magnificamente a história de dois rapazes que crescem no ambiente violento da guerra civil libanesa. Beirute é uma cidade cercada e dominada pelas milícias cristãs, muçulmanas e comunistas. Bassam e George (De Niro) vivem as atribulações e as idiossincracias da guerra e são moldados pela mesma. Hage transporta-nos para a vida em Beirute durante a guerra, com todos os seus excessos, perigos e contradições. Apesar dos estilos serem muito diferentes, Rawi Hage é uma espécie de Khaled Hosseini do Líbano. Um livro fabuloso que vale a pena ler.

25 julho 2008

CAROS CARROS

Depois da General Motors, chegou a vez da Ford de apresentar prejuízos astronómicos. Nada mais nada menos que 8,7 biliões de dólares (ou 8,7 mil milhões, se preferirem) no último trimestre. Tudo porque a Ford, como a GM, insistiu durante anos afio em apostar em carros de grande dimensão para os mercados norte-americanos, verdadeiros carros "à americana". A subida do preço do petróleo torna estes carros (e camiões) demasiado caros para uma grande parte da população americana e, por isso, tanto a GM como a Ford têm visto as suas quotas de mercado baixarem vertiginosamente e os prejuízos a amontoarem-se.
Para sobreviverem, as duas companhias prometem agora apostar em carros mais pequenos e mais eficientes. Em carros de "dimensão europeia", segundo dizem. E ainda bem digo eu.

OBAMANIA


Independentemente de ganhar ou não as eleições de Novembro, Barack Obama é um impressionante fenómeno de popularidade, estando ao mesmo nível habitualmente reservado para as estrelas de cinema e artistas pop. Ontem, em Berlim, mais de 200 mil pessoas foram ver o senador americano dar um discurso sobre as relações transatlânticas. Um mar de gente que ele não chegará nem sequer a ter quando der o seu discurso de vitória em Denver dentro de 35 dias.

PRIMEIRA CLASS


Hoje, ao fazer investigação sobre os tempos da ditadura, encontrei esta jóia: a capa de um livro oficial da primeira classe do regime salazarista. Palavras para quê?
E, já agora, sabe que existe um abaixo-assinado para tentar rebaptizar a ponte 25 de Abril de Ponte Salazar???

24 julho 2008

O PÉRIPLO DE OBAMA

O périplo internacional de Barack Obama destina-se mostrar ao público americano que o candidato democrata não só está à vontade na área da política externa (onde está em desvantagem perante a maior experiência de John McCain), como também pretende provar que Obama tem postura e imagem presidenciais.
As visitas ao Afeganistão e ao Iraque são bastante significativas, pois indiciam a mudança de rumo que a política externa americana irá ter caso Obama ganhe as eleições em Novembro próximo. Obama garante que, se se tornar presidente, as tropas americanas irão retirar-se do Iraque no espaço de 16 meses e concentrar-se no conflito do Afeganistão. Como na América, a decisão de invadir o Iraque é cada vez mais vista como um erro estratégico com graves custos humanos e financeiros, Obama aparece assim ao lado do(a) americano(a) médio, ao contrário de John McCain, que continua a advogar a permanência das tropas americanas no território iraquiano por tempo indeterminado. Tal posição certamente dará cartas (e votos) a Obama no confronto de Novembro.
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Se ganhar as eleições, e mesmo que a retirada do Iraque corra mais ou menos bem, os principais problemas de um presidente Obama poderão ser os imponderáveis. Há cada vez mais analistas que pensam que poderá estar por meses um ataque israelita às instalações nucleares do Irão. É quase impossível prever as consequências políticas, militares e económicas de tal ataque (para além do agravamento do choque petrolífero actual). Como reagirá Obama a tal cenário será certamente uma das questões que serão colocadas ao candidato Democrata quando visitar Israel.
Para além do mais, é visível que a situação no Afeganistão não é a mesma do que há sete anos atrás. Há sete anos havia apoio das populações e as forças da coligação controlavam quase todo o território afegão. Hoje em dia, nenhuma das condições se encontra presente. Como manter a tropas americanas (e ocidentais) num terreno cada vez mais hostil, será uma das questões que o próximo presidente americano terá de enfrentar.
Mas isso são questões para o futuro. Por enquanto, o melhor que Obama tem a fazer é continuar a parecer presidencial. O tempo das grandes decisões pode esperar.
PS: Artigo escrito para o DN

23 julho 2008

PARAGEM DOS FUNDOS EUROPEUS

Numa acção sem precedentes, a União Europeia vai cortar as tranferências de fundos estruturais a duas agências governamentais búlgaras. Os pagamentos totalizam várias centenas de milhões de euros e, por isso, esta decisão da UE é muito significativa. Razões? Alegações de corrupção generalizada, ritmo lento de adopção do acquis comunitaire e ligações das agências governamentais ao mundo do crime organizado. Parece que finalmente a UE abriu os olhos ao destino dos fundos que concede, uma decisão que se saúda, pois durante anos o esbanjar do dinheiro dos contribuintes europeus chegava a ser obsceno (até a própria UE o admitia). Vamos lá ver se esta decisão é mesmo para ficar ou se é apenas fogo de vista.

22 julho 2008

UMA ÓPTIMA NOTÍCIA


Nem tudo vai mal. Ontem tivemos uma óptima notícia, ao saber que Radovan Karadzic foi preso em Belgrado, onde vivia com outra identidade (e disfarçado, como se vê na foto). Ainda bem. É bom saber que nem todos os grandes criminosos de guerra conseguem escapar à justiça. O mundo está melhor com a prisão de Karadzic.

UM POUCO DE CANADÁ


Hoje, um pouco do Canadá através do Guardian e da BBC.
Vancouver é das cidades mais bonitas do mundo. A combinação de montanhas, florestas densas, mar e uma cidade de 2 milhões de habitantes é única. Há gente que faz questão de não morrer sem ir a Meca, a Roma, a Nova Iorque, Machu Pichu, as pirâmides do Egipto, entre outros. Fazem bem. Porém, a esses lugares devíamos juntar Vancouver. A cidade é lindíssima e "super natural" (como um dos slogans da British Columbia anuncia). Há gente de todo o lado do mundo, mas a comunidade asiática é crescentemente dominante. Dim sum, sushi e churrasco coreano são os pratos da região, bem como o inevitável salmão selvagem. Apesar da inclemente chuva que cai durante todo o Inverno (e Primavera e Outono), os "Vancouverites" gostam de dizer que este é o melhor lugar no mundo. Aliás, as matrículas dos carros assim o anunciam. Mesmo que não seja o melhor, é sem dúvida, um dos sítios mais agradáveis para viver e visitar. Acredite e, se puder, venha ver com os seus próprios olhos, principalmente se for no Verão, quando o tempo é muito bom.
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Obviamente, nem tudo é bom. Como já aqui falei, Vancouver e a British Columbia são também dos maiores exportadores de marijuana, como esta reportagem da BBC indica. A criminalidade é ainda baixa, mas, se for comprar uma casa, é sempre bom verificar se anteriormente não terá sido utilizada para a produção de droga...
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Por ser tão bonita e agradável, Vancouver tem-se tornado numa cidade muito cara para comprar casa. O preço médio das casas é de cerca 450 mil dólares, mas uma casa com um cantinho de vista pode facilmente chegar ao 1 milhão de dólares. Penthouses com vista para as baías de Vancouver custam uns bons milhões. Nos últimos anos, o anúncio de que Vancouver irá acolher os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 deram azo a uma autêntica corrida às casas, o que fez com que os preços aumentassem ainda mais. No entanto, nem tudo foi mal. Vancouver aproveitou a ocasião para se renovar e, como se pode ver aqui nesta reportagem do Guardian, tornou-se num modelo de como regenerar os centros das grandes cidades.
Uma cidade que vale a pena visitar.

21 julho 2008

CAMPEÕES NACIONAIS

No meu próximo livro de Economia, há um capítulo sobre os chamados "Campeões Nacionais", empresas que pelo seu impacto nos mercados interno e externo se tornam verdadeiros campeões (económicos e de investigação científica e tecnológica). Já tenho 5 ou 6, mas não me importaria de adicionar mais alguns exemplos. Alguma sugestão?

CIGANOS ITALIANOS

Não é só em Portugal que as comunidades ciganas recebem um tratamento discriminatório e pouco adequado segundo os nossos "elevados" padrões de europeus. Em Itália, as coisas são tão más ou piores que em Portugal. Duas raparigas de etnia cigana afogaram-se este fim-de-semana numa praia perto de Nápoles. Os corpos vieram dar à praia e antes que fossem retirados pelas autoridades, o que é que os(as) banhistas fizeram? Nada. Olharam para os corpos e voltaram costas, banhando-se como se nada tivesse acontecido. Somos assim os europeus. Lutamos pelas grandes causas e pelos direitos humanos em Darfur, pela liberdade do Tibete e da Birmânia, insurgimo-nos contra as atrocidades de Guantanamo, mas quando nos chega a nossa vez fingimos que não é nada connosco. Mas o que é que interessa? São ciganos... Enfim...

NOTA DE 100 BILIÕES

E como as notas de 5, de 10, de 25 e 50 biliões já não chegam para as encomendas, eis que surgem as notas de 100 biliões de dólares no Zimbabwe. O que é que 100 biliões de dólares compram? Nem um pão de segunda. Como as hiperinflações destroem as economias, não é de surpreender que o Guardian fale hoje da possibilidade de haver uma grande fome nesse país africano. Segundo a ONU, cerca de 5 milhões de pessoas poderão ser afectadas pela quebra de produção alimentar no Zimbabwe. Há cada vez mais gente a emigrar do país.

LISBOA NO NEW YORK TIMES

Lisboa continua a ter destaque no New York Times. Desta vez, o Times tem um artigo sobre a vida cultural lisboeta. Para ver aqui.
PS. Obrigado ao Tiago Villanueva pela referência ao artigo

18 julho 2008

NOTA DE 50 BILIÔES


Como prometido, aqui estão as notas de 5, 25 de de 50 (!!!) biliões de dólares do Zimbabwe. Como já são zeros a mais, o banco central deixar de emitir notas "normais" e passou a imprimir notas de "agro-cheques", que, como se pode ver, não têm zeros. Mais uma singularidade do regime de Mugabe. Recorde-se que outra originalidade do Banco Central Zimbabweano é emitir notas com data de validade. O dinheiro expira no Zimbabwe, quer porque perde valor com a hiperinflação quer porque a partir de certa data não mais é aceite.

Quanto valem 5 biliões de Z dólares? Cerca de 20 cêntimos de um euro, o preço de um ovo. E isto era ontem. É provável que já esteja mais "caro", pois is preços duplicam quase todos os dias.

NOTA DE 500 MILHÕES

E aí está uma nota de 500 milhões de dólares do Zimbabwe. Pelo que parece, já há notas de 1,5 biliões de dólares e de 2,5 biliões de dólares... Uma cerveja já custa a módica quantia de 15 biliões de dólares. Uma pechincha, pois é bem menos que um euro. Um jornal custa(va) cerca de 25 biliões de dólares.