30 setembro 2008

OS FANTASMAS DE 1929

O meu artigo de hoje no Diário de Notícias sobre a crise financeira internacional:
O chumbo do plano de resgate do sistema financeiro americano por parte da Câmara de Representantes é um sério revés para a estabilidade dos mercados financeiros internacionais e ressuscita os fantasmas da Grande Depressão que se seguiu ao colapso de Wall Street em 1929.
Esta é, sem dúvida alguma, a maior crise financeira que o mundo já enfrentou desde 1929 e as ramificações far-se-ão sentir no resto da economia. Ainda assim, apesar da sua potencial magnitude e das inevitáveis semelhanças, não é crível que a crise se venha a transformar numa nova Grande Depressão, quando o mundo foi arrastado para a maior recessão económica desde o início da Revolução Industrial. Actualmente, os governos e os bancos centrais estão muito melhor preparados para lidar com crises financeiras do que em 1929. Na altura, a Fed tinha menos de duas décadas de existência e a ideologia dominante não advogava a intervenção nos mercados. Por isso, nos anos 1930, a Fed respondeu às falências dos bancos privados com uma ainda maior contracção dos fundos ao dispor da economia. Hoje em dia, os bancos centrais aprenderam as lições da Grande Depressão e têm feito tudo para injectar grandes quantidades de fundos nos mercados para que estes não tenham problemas de liquidez. Os governos são também muito mais interventores do que na década de 1930.
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Ainda assim, os riscos de uma crise económica acentuada são bastante elevados e é patente que é necessário fazer alguma coisa para evitar o colapso dos mercados financeiros. As inevitáveis consequências para o resto da economia desta crise poderão incluir mais falências de instituições financeiras, mais nacionalizações temporárias, uma menor disponibilidade de crédito para os particulares e as empresas, crédito mais caro (que certamente terá consequências em Portugal), menor volume de negócios e um aumento do desemprego.
Por todos estes motivos e mesmo que o Congresso americano consiga chegar a um novo acordo nos próximos dias, uma recessão das principais economias mundiais parece inevitável. É difícil prever qual será a duração da crise, mas é natural que a recessão seja a mais prolongada das últimas duas décadas. Os próximos tempos o dirão. Entretanto, a enorme volatilidade dos mercados irá certamente continuar.

29 setembro 2008

BAILOUT E IDEOLOGIA

Depois da crise financeira estar sanada, podemos ter a certeza que a ideologia dominante das últimas décadas vai sofrer grandes alterações, principalmente a nível da regulamentação dos mercados. Acima de tudo, ficaria verdadeiramente surpreendido se a crise financeira não fosse aproveitada para aumentar o nível de proteccionismo das economias ocidentais.
Não haverá quem ponha as culpas à economia de mercado pelo que está a acontecer e aproveite a ocasião para levar a cabo uma ideologia mais proteccionista. Quem sofrerá com isto tudo? Os consumidores dos países mais avançados (que terão que pagar mais pelos produtos que consomem) e, principalmente, os países subdesenvolvidos que irão ver as portas dos mercados dos países mais avançados fechar-se mais uma vez.

BAILOUT

Os líderes do Congresso Americano anunciara hoje que tinham chegado a acordo sobre o plano de resgate das instituições financeiras do país. As sombras da crise financeira ainda pairam sobre os mercados internacionais, mas os investidores já podem respirar um pouco mais tranquilos. Por aquilo que já foi dado a conhecer os principais pontos do plano incluem: a protecção dos contribuintes (através da compra de títulos de empresas com valor), a entrega faseada do dinheiro ao governo americano para o resgate das intituições financeiras, (alguma) ajuda aos donos das casas com problemas de pagamentos, limites para o pagamento de compensações aos presidentes e aos CEOs das empresas em dificuldades, bem como o estabelecimento de duas novas instituições de controlo e supervisão dos mercados financeiros.
Pelo que parece, tanto os Democratas como uma grande parte dos Republicanos concordam com o plano. Veremos se tal acontece na votação do plano no Congresso.
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Entretanto, as ramificações da crise continuam a chegar à Europa. Desta vez, foi no Reino Unido e na Bélgica, cujos governos optaram por nacionalizar dois bancos de grande dimensão, o Fortis NV, e uma das maiores instituições de concessão de crédito hipotecário no Reino Unido.
E certamente que não ficaremos por aqui.

A FARSA BELARRUSSA

No fim-de-semana passado realizaram-se eleições na Belorrússia. Havia 99 novos assentos parlamentares em jogo e, surpresa das supresas, o partido do governo conquistou-os todos. E das duas umas: ou carisma do líder belorrusso, Alexandre Lukashenko, rivaliza o de Fidel (já reformado) em Cuba ou do Querido Líder na Coreia do Norte, ou as eleições foram uma farsa para ocidental ver. O que será?

27 setembro 2008

AS CAUSAS DA CRISE (NACIONAL)

Segunda parte do meu artigo na Revista EXAME de Setembro:
A crise actual tem três grandes causas, duas conjunturais e uma estrutural. Em primeiro lugar, a crise está claramente associada à nossa adesão ao euro. No tempo em que ainda tínhamos o escudo, quando a crise batia à porta, a solução era relativamente simples: desvalorizávamos a moeda para tornar as nossas exportações mais competitivas, baixávamos as taxas de juros para estimular a procura agregada (através do investimento e do consumo) e o governo aumentava as despesas (ou cortava os impostos). A adopção da moeda unida europeia privou-nos das políticas cambiais e monetárias independentes e restringiu seriamente a política fiscal, limitando a eficácia da resposta da política económica.
A nível cambial, as dificuldades já eram esperadas, pelo menos em parte. Nas últimas décadas Portugal nunca teve uma moeda forte e, por isso, a introdução da moeda única iria sempre colocar problemas de competitividade a muitas empresas portuguesas. No entanto, o choque do euro foi bem maior do que se previa, pois desde os meados do ano 2000 o euro valorizou-se 80 por cento em relação à moeda americana, bem como contra todas as divisas (como a chinesa) que gravitam à volta do dólar.
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Mesmo se o euro não se tivesse valorizado tanto, o facto de não podermos utilizar mais a política monetária retirou-nos margem de manobra na condução de políticas anti-crise. As restrições orçamentais do Pacto de Estabilidade só vieram diminuir ainda mais a importância da política económica em tempos recessivos. Para além do mais, o euro deu azo ainda a um outro efeito perverso. A pronunciada descida das taxas de juros associadas à adesão ao euro fez com que muitas famílias portuguesas se endividassem para níveis nunca dantes vistos na história moderna portuguesa. Actualmente as famílias estão tão sobre-endividadas que há pouca margem para o consumo privado se expandir. Para complicar ainda mais a situação, o endividamento do Estado e elevado défice orçamental dos últimos anos impossibilitaram a utilização da política fiscal para estimular a economia. Por todos estes motivos, os primeiros anos do euro não têm sido muito auspiciosos para a economia nacional.
Porém, como se já não nos bastassem as dificuldades causadas pelo super-euro, nas últimas duas décadas temos sido vítimas (e beneficiários) de uma das mais importantes transformações estruturais das últimas décadas: o renascimento da Índia e da China, que tem originado enormes problemas de competitividade a muitas das nossas empresas. Já sabíamos que o nosso modelo económico tradicional estava esgotado e que, mais cedo ou mais tarde, os nossos principais sectores exportadores não seriam competitivos face aos seus concorrentes asiáticos e da Europa de Leste. Porém, a adesão ao euro e a liberalização do comércio mundial vieram acelerar o fim do nosso modelo económico baseado em baixa produtividade e salários baixos.
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Apesar de todas as dificuldades, em finais de 2007, parecia que a economia portuguesa já começava a operar eficientemente dentro dos constrangimentos do euro e da globalização. As exportações cresciam a um ritmo muito saudável e a confiança dos investidores dava mostras de estar a regressar. O investimento tornou-se positivo pela primeira vez em 5 anos. O governo e o Banco de Portugal saudaram quase entusiasticamente um crescimento económico de quase 2 por cento em 2007 (um valor que seria considerado anémico noutras alturas) e tudo indicava que uma retoma sustentada estava finalmente à porta.
E foi então que começámos a sentir os efeitos do choque petrolífero e as repercussões da crise financeira americana. Presentemente, arriscamo-nos a voltar ao indesejado mundo da estagflação que caracterizou os anos 70, ameaçando originar ainda mais desemprego bem como o regresso da inflação. Por enquanto, a economia mundial tem resistido relativamente bem à subida dos preços petrolíferos e dos produtos alimentares. Os países em desenvolvimento continuam a ser o motor da economia mundial e, apesar do abrandamento económico, a recessão ainda não chegou à maioria dos países da OCDE. Ainda assim, o risco de um abrandamento brusco permanece elevado. É bom lembrar que os choques de oferta negativos são o pior dos choques que podem afectar uma economia e que as crises mais acentuadas da economia mundial dos últimos 60 anos foram sempre associadas aos choques petrolíferos.
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Sendo uma economia muito aberta ao exterior e muito integrada com a Europa, Portugal certamente está a sentir o efeito do choque petrolífero, tanto a nível da produção como dos preços. As sombras da recessão começam novamente a pairar sobre a economia portuguesa. Perante este cenário, interessa averiguar a existência de sinais que possam indiciar uma reviravolta na crise dos últimos anos.
(continua...)

25 setembro 2008

CRISE FINANCEIRA

O plano da Administração Bush para tentar salvar a economia americana continua a ser debatido no Congresso. Quando tivermos os pormenores do plano falarei sobre o mesmo no Desmitos.
Entretanto, John McCain interrompe a sua campanha (e suspende a sua participação no primeiro debate com Obama agendado para esta sexta-feira) para regressar a Washington com o objectivo de ajudar resolver a crise. Hmmm, há quem diga que a verdadeira intenção de McCain é adiar o debate entre Sarh Palin e Joe Biden. É que quando Palin fala não há como disfarçar a sua falta de preparação extrema sobre os mais elementares assuntos. A postura de Palin nas entrevistas também é de arrepiar. Se não acredita, veja com os seus próprios olhos:

O MILAGRE BRASILEIRO

A Revista Time tem um artigo interessante sobre o milagre económico brasileiro. O Brasil é cada vez mais visto pela comunidade internacional como um dos exemplos a seguir. Parece que o futuro está mesmo a chegar ao eterno-país-com-futuro.

FOER EM VIDEO

Uma das coqueluches da nova literatura americana, Jonathan Safran Foer, fala sobre os seus livros e sobre a escrita neste video.

LIVRO TERMINADO

Acabei ontem de escrever o meu novo livro, que tem por título "O Mito do Insucesso Nacional". Os próximos dias serão dedicados às necessárias revisões, mas o principal está feito.
O livro tenta radiografar a situação actual, pô-la no seu devido contexto histórico e internacional, e apresenta possíveis soluções para a economia portuguesa sair da crise. Entre outras coisas, debatem-se temas como:
  • Porque é que a ditadura não foi assim tão má (mas nos marcou tanto)
  • Porque é que foi óptimo termos sido colonizadores
  • Porque é que até as sanitas são sexys
  • Porque é que Braga já não produz só padres
  • Porque é que devíamos dar com os pés a Bruxelas
  • Porque é que Lisboa faz mal ao país
  • Porque é que devíamos fazer mais manguitos
  • Porque é que não premiamos a iniciativa

Alguns dos títulos parecem polémicos (como o do império), mas não o são na prática. Outros temas incluem a ineficiência da Justiça, a fraca qualidade da educação, bem como a verdade dos números do TGV.

Gostaria também de dizer que este livro também é vosso, assim como será mencionado na Introdução. Muitos dos temas têm sido aqui abordados e discutidos e os vossos comentários foram uma enorme fonte de inspiração. Obrigado a todos.

17 setembro 2008

PROCESSOS PENDENTES

Numa altura em que se debatem os salários dos juízes vale a pena relembrar o estado lamentável da Justiça portuguesa. O gráfico acima apresenta o número de processos pendentes nos tribunais portugueses entre 1992 e 2006. Os processos pendentes, aumentaram de cerca de 600 mil em 1995 para 1,6 milhões em 2005. Se isto é uma Justiça eficiente, então eu não sei o que é eficiência. Mas talvez esteja a ser demasiado pessimista. Talvez a produtividade na Justiça portuguesa se meça pelo número de processos nos tribunais. Se assim for, estamos cada vez melhores.
PS. Os dados são do Ministério da Justiça.

NACIONALIZAÇÃO DISFARÇADA

Mais uma nacionalização disfarçada na América. Desta vez foi a maior seguradora americana, a AIG, que tem estado em grandes dificuldades. Para evitar que esta importante empresa vá à falência, o governo americano optou por conceder um empréstimo de 85 mil milhões de dólares por dois anos à taxa de juro de 11,31%. Em contrapartida, o governo americano fica com 80% da empresa. Hmmm... Mais uma vez, os defensores do comércio livre e do Estado mínimo nacionalizam uma empresa quando esta está em risco. É interessante, pois quando os outros países têm empresas em dificuldades, a receita é sempre a mesma: deixem o mercado actuar!Enfim, como se diz na América, "some talk the talk, but don't walk the walk"...
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Veremos se a turbulência financeira pára por aqui. Quase de certeza que não...

16 setembro 2008

POLÍTICA EXTERNA

O Washington Post tem hoje um artigo do consagrado Fareed Zakaria sobre a política externa dos EUA e as eleições americanas que vale a pena ler.

O GRANDE DEGELO CONTINUA

Como já se previa, parece que este ano se vai bater um novo recorde do degelo no Ártico. A grande generalidade dos cientistas concordam que o grande degelo é consequência das emissões dos gases de efeito de estufa gerados pelos humanos. Quase toda a gente concorda. (Sarah Palin não...). Pessoalmente, acho que o degelo das calotas polares é o principal, se não único, sinal concreto que as alterações climáticas estão mesmo a acontecer.
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Desconfio sempre quando este ou aquele fenómeno natural é atribuído às alterações climáticas. É que um evento não é uma tendência. Assim, atribuir conflitos como o Darfur às alterações climáticas (como o secretário-geral da ONU fez recentemente) não faz sentido.
Porém, o mesmo não se passa com o degelo dos pólos. Os modelos climatéricos sempre o previram e os dados recolhidos mostram uma clara tendência de degelo que até tem superado as nossas piores previsões. As consequências de tal degelo ainda são intensamente debatidas. No entanto, a inevitabilidade do mesmo degelo é cada vez menos questionada.

15 setembro 2008

MAIS MÁS NOTÍCIAS PARA O SISTEMA FINANCEIRO

As más notícias no sistema financeiro não param. Agora foi a vez do Lehman Brothers, um dos maiores e mais antigos bancos de investimento americanos, que hoje declarou falência. Outra das maiores firmas de Wall Street, a Merryl Lynch está em dificuldades e vai ser vendida ao Bank of America. E, ainda por cima, uma das maiores seguradoras mundiais, a AIG, dá sinais de estar em grandes apertos. A contracção do crédito não pára e ameaça arrastar a economia mundial ainda para piores lençóis. Veremos como é que os mercados reagem a estas péssimas notícias. Provavelmente mal. Muito mal.

RECESSÃO NAS EXPORTAÇÕES?

A economia portuguesa está a atravessar o período de maior abrandamento dos últimos 80 anos. Quando as coisas pareciam estar a melhorar em finais de 2007, a crise financeira nos Estados Unidos e, principalmente, o choque petrolífero que se tem feito sentir um pouco por todo o mundo, começaram a ter impactos significativos na economia mundial.
Um choque petrolífero é o que em economês se apelida de choque de oferta negativo e é o pior de todos os choques possíveis. Nomeadamente, a acentuada subida dos preços dos produtos petrolíferos tem dado origem a um novo episódio de estagflação, que combina a estagnação económica (e uma subida do desemprego) e o aumento dos preços.
Tanto nos anos 70, como nos 80, os choques petrolíferos levaram a economia mundial à recessão e foram bastante nefastos para a economia mundial. O choque petrolífero actual não será excepção. O pronunciado abrandamento da economia mundial dos últimos meses e, principalmente, a recessão nos nossos principais parceiros económicos não augura nada de bom para a fragilizada economia portuguesa, pois a nossa procura externa cairá. Por todos estes motivos, seria verdadeiramente surpreendente (e um óptimo sinal) se conseguíssemos evitar cair numa recessão.

O que é que poderá acontecer com as recessões na Alemanha e na Espanha. Primeiro, é muito natural que as nossas exportações sejam bastante afectadas, eliminando alguns dos ganhos dos últimos 2 ou 3 anos. Em segundo lugar, é muito natural que, havendo menos procura destas economias, os exportadores procurem outros mercados. Ou seja, haverá uma tendência para diversificar os nossos mercados externos. Quais serão os mercados em causa? Provavelmente Angola, Moçambique, o Brasil, entre outros. Porquê? Não só pelas nossas afinidades históricas, mas também porque estas economias estão em franca expansão, o que tem levado muitos portugueses a investir nestes mercados.
Finalmente, o que é que poderemos fazer para atenuar a recessão? Acabar com a obsessão do défice e combater a crise. Como? Não gastando mais (que é a receita tradicional), mas dando mais incentivos e benefícios fiscais às empresas e aos particulares, de forma a estimular o investimento e o consumo. A lógica é simples: se as exportações decrescerem significativamente por causa da recessão europeia, ficamos sem um dos motores da retoma económica. Por isso, resta-nos tentar utilizar o outro, que é o investimento. Não despendendo mais fundos em obra faraónicas como o TGV, mas sim tornando as nossas empresas mais competitivas.
PS. Resposta a perguntas do DN sobre o efeito da recessão internacional sobre o nosso sector exportador

12 setembro 2008

O MILAGRE DA EDUCAÇÃO NACIONAL

O meu artigo no PUBLICO de hoje:
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Nos últimos anos, Portugal está a viver um autêntico milagre no sector da Educação. Segundo os dados mais recentes do Ministério da Educação, os progressos registados no sector educativo têm sido simplesmente notáveis, até mesmo prodigiosos. Em dois anos apenas (entre 2005 e 2007) as taxas de retenção escolares desceram mais de 30% no ensino secundário. Trinta por cento! Em dois anos! A melhoria dos indicadores nas taxas de retenção é generalizada no ensino secundário, apesar de ser mais pronunciada nos cursos tecnológicos. Em apenas dois anos, a taxa de retenção dos cursos tecnológicos do 10º ao 12º ano baixou 15 pontos percentuais, de 43,7% para 28,7% (um decréscimo de 34%). As taxas de retenção do 12º ano do ensino geral desceram 23% e dos cursos tecnológicos 34%. Ainda mais impressionante, as taxas de insucesso dos cursos tecnológicos do 11º ano decresceram quase 40%! A este ritmo, Portugal vai erradicar o insucesso escolar em menos de meia década e vai-se tornar num caso paradigmático de sucesso internacional.
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Porém, o milagre da Educação nacional não se restringe ao abandono escolar. Nas disciplinas em que tradicionalmente somos mais fracos, os nossos alunos descobriram recentemente fontes de inspiração e de conhecimento previamente inexploradas. Só no último ano, na Matemática do 12º ano as notas aumentaram mais de 30% e as reprovações baixaram para metade. Nos exames de Física as notas aumentaram quase 30% e em Biologia cerca de 15%.
Sinceramente não sei o que é que andamos a dar aos nossos alunos para terem tanto sucesso. Talvez sejam os efeitos da internet ou talvez a inspiração do Plano Tecnológico da Educação. No entanto, com estas melhorias, certamente que no próximo estudo comparativo dos sistemas educativos realizado pela OCDE (o chamado PISA) iremos passar de penúltimos (à frente do México) para primeiros (ou perto disso) a nível do desempenho dos nossos alunos. Não mais sofreremos a ignomínia de termos os piores rankings europeus da Educação, nem mais sofreremos a humilhação dos nossos atrasos estruturais no sector persistirem há décadas.
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De facto, com um progresso assim, não vale a pena angustiarmo-nos com o estado lastimável do nosso sector educativo. Não vale a pena preocuparmo-nos com as nossas taxas de abandono escolar terceiro-mundistas, que têm condenado gerações de jovens a trabalhos pouco qualificados e salários baixos. Não vale a pena deambularmos com o facto de gastarmos na Educação tanto como a média da OCDE em percentagem do PIB, mas continuarmos a ter o pior desempenho educativo da União Europeia. Não vale a pena analisar as razões porque é que, entre 57 sistemas de ensino nacionais, os alunos portugueses têm desempenhos medíocres nas áreas da Matemática, das Ciências e da Leitura.
Os avanços são tão extraordinários que nem vale a pena questionar se tudo não será um mero truque estatístico. Afinal, é sabido que os governos em Portugal têm por vezes a tendência em camuflar as nossas dificuldades estruturais na Educação com melhorias artificiais nos indicadores do sector, para que o país pareça melhor nos rankings internacionais. O milagre registado nos últimos anos não só é demonstrativo que acabámos de vez com esta lamentável tendência, como também nos dá garantia de uma inequívoca melhoria na qualidade da Educação nacional.
Ao ritmo do progresso alcançado nos últimos 3 anos, Portugal será dentro em breve a sociedade do conhecimento por excelência. Para quê preocuparmo-nos?
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PS. Este artigo foi escrito antes do Ministério da Educação ter publicado os dados referentes a 2007-08, os quais mostraram uma descida ainda mais impressionante das taxas de insucesso escolar. Deste modo, os novos dados só vêm reforçar ainda mais a ideia deste artigo.

A RECESSÃO E AS EXPORTAÇÕES

Um artigo do DN de hoje, da autoria de Rudolfo Rebêlo, debate com economistas o impacto que a recessão internacional poderá ter nas exportações portuguesas (e na economia nacional).

10 setembro 2008

PALIN, PALIN

A corrida à Casa Branca modificou-se totalmente com a chegada da Sarah Palin, candidata dos Republicanos à vice-presidência dos Estados Unidos. A primeira reacção foi de surpresa. Depois, veio o descrédito. Vários analistas deram a corrida por terminada, pois não era crível que uma governadora do pequeno estado do Alasca com apenas dois anos de experiência pudesse ajudar McCain. Estaria McCain a ficar demente?, perguntaram uns. Como é que ele teve coragem de escolher alguém com tão pouca experiência e com credenciais tão duvidosas (como, por exemplo, o marido ter pertencido a um partido que defense a independência do Alasca).
E depois veio o discurso na convenção Republicana. E tudo mudou. De um momento para o outro, Sarah Palin ficou uma heroína para os Republicanos, uma líder incontestada, uma mãe de cinco filhos que representa “tudo de bom que há na América”. Como Obama conseguiu na convenção democrata de 2004, Palin ficou uma estrela do seu partido imediatamente.
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Independentemente de gostarmos ou não das ideias de Palin, deve dizer-se que o discurso foi realmente muito bom e muito incisivo. A história de Palin é admirável, nem que não seja pelo facto de ser a primeira mulher com filhos pequenos que pode atingir um cargo tão importante nos EUA. E o discurso mudou a corrida à presidência. Não é à toa que McCain está à frente de todas sondagens pela primeira vez em muitos meses.
Porém, apesar de todas as suas virtudes, também convém não esquecer aquilo que Sarah Palin representa. Palin é uma criacionista que defende o ensino do criacionismo nas escolas públicas, acredita que a guerra do Iraque é literalmente uma guerra em prol de Deus, pensa que uma conduta petrolífera do Alasca é uma obra divina, acredita que o fim do mundo está a chegar, entre muitas outras coisas. Palin é tão ou mais radical do que Bush. E, como muitos dizem, está a um “bater do coração” (heartbeat) e a um coração de 72 anos de se tornar a pessoa mais poderosa do planeta.

PEDIDO DE DESCULPAS

Gostaria de pedir desculpas a todos por ter andado um pouco mais arredado do Desmitos nos últimos dias. Estou a acabar o nvo livro e as coisas têm andado um pouco "intensas". Espero que compreendam.

29 agosto 2008

OBAMA, OBAMA


Mais um discurso memorável de Barack Obama. Perante 85 mil pessoas num estádio em Denver e milhões de outras nos ecrãs da televisão, Barack Obama proferiu um dos melhores discursos dos últimos tempos. Não sou eu que o digo, mas sim practicamente a maioria dos analistas americanos. Até Pat Buchanan, conhecido analista e político da direita mais extremista, afirmou que o discurso de Obama foi o melhor que algum dia ouviu numa convenção partidária. Aqui está a reacção do New York Times e aqui a do Washington Post.
O ataque a McCain foi cerrado, e poucos assuntos foram negligenciados. Dos planos de saúde para todos, dos direitos das mulheres ao direito de ter armas, até à discriminação contra pessoas de diferente orientação sexual, Obama surpreendeu os analistas pelo seu arregaçar das mangas e atacar os republicanos em todos os princípios que defendem. Toda a gente sabia que Obama é um orador excepcional. Mas hoje Obama transcendeu-se e deu um passo de gigante para se tornar no próximo presidente dos Estados Unidos.
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Obama é tão bom que às vezes é fácil esquecer o significado histórico dos últimos dias. Pela primeira vez na história da América e do mundo ocidental, um negro é candidato à liderança de um dos maiores partidos de um país. A América continua a dar o exemplo. Não é à toa que se viu tanta gente a chorar quando Obama foi nomeado, quando Michele Obama deu um discurso extraordinário e quando Barack proferiu o discurso de hoje.
Para perecebermos o quão importante foi para tanto e tanto afro-americano, vale a pena ler este artigo de opinião no Washington Post.

27 agosto 2008

A REPROVAÇÃO DOS PORTUGUESES


Estas são as taxas de reprovação e desistência escolar em Portugal (clique no quadro para ver melhor), segundo o Ministério da Educação. Se reparar com atenção, verá que, nos últimos 2 anos, houve uma redução de 30 por cento na taxa de insucesso e desistência escolar, sem que haja razão aparente. Hmmmm.... Mistérios... Apesar deste milagre estatístico, os nossos indicadores de retenção dos alunos continuam dos mais altos de toda a OCDE. E uma das nossas vergonhas, sem dúvida alguma.

OBSTÁCULO AO CRESCIMENTO

O que a OCDE pensa do nosso sistema educativo. Andamos há décadas a apaixonarmo-nos pela Educação, mas as nossas insuficiências persistem:
"The lack of human capital in Portugal has become a key obstacle to higher growth... Despite progress in the past decades, Portuguese children spend comparatively few years in formal education, and they do not perform as well as children from other OECD countries. Adults, especially the least educated, do not participate enough in lifelong learning and training programmes. This situation does not stem from a lack of resources devoted to education and training but from inefficiencies and misallocation of spending, and weaknesses in the quality of the services that compound the low starting point of Portugal regarding education. Modernizing the Portuguese economy therefore requires a broad reform which increases human capital at all levels."

25 agosto 2008

MAIS UMA APOSTA NA EDUCAÇÃO

O governo anunciou hoje que o próximo orçamento de Estado irá, mais uma vez, dar prioridade à Educação e à Ciência. Aí vem mais dinheiro para essas áreas. Não sou contra, mas vale sempre a pena lembrar que já não gastamos pouco com a Educação. Em percentagem do PIB, gastamos tanto como a média da OCDE, o clube dos países ricos e mais do que a Coreia do Sul, a Alemanha ou a Espanha. Fundos adicionais podem ajudar, mas não é o que mais precisamos. No ensino superior, vale a pena recordar que há gente a mais em muitas universidades, não a menos. O problema é que uma parte dos professores e investigadores não faz nada ou muito pouco.
Se queremos mesmo tornar Portugal num país com qualidade educativa, num país que recompensa a investigação, o mais importante é mudar as regras dentro das instituições, não necessariamente contratar mais gente ou arranjar mais fundos. Entre as medidas que fariam muito mais pela qualidade de ensino do que uns milhões de euros adicionais incluem-se:
  • Acabar com os numerus clausus dos diversos graus da carreira docente
  • promover a concorrência entre as universidades,
  • acabar com o compadrio escandaloso nos concursos de recrutamento de docentes, promover a meritocracia (em que os professores são recompensados pela investigação e pela qualidade da docência que fazem),
  • acabar com alguns dos privilégios medievais dos professores,
  • acabar com a excessiva permissividade das épocas de exames
  • avaliação dos professores

Ou seja, para alcançarmos a tão almejada qualidade na Educação é mais importante alterar os incentivos da docência dos alunos e dos professores do que injectar centenas de milhares de euros adicionais para o sector.

O GRANDE CIRCO

Hoje começa em Denver a convenção Democrata que irá nomear formalmente Barack Obama como o candidato Democrata às eleições presidenciais de Novembro. A convenção promete animada, até porque as convulsões das primárias ainda se fazem sentir. Os Clintons continuam convencidos que deviam ter uma maior voz no partido e, por isso, os seus partidários podem estar tentados a fazer um golpe de teatro qualquer. Há bastante gente no campo Hillary que não ficou satisfeita com a forma como Clinton foi tratada por Obama na escolha do candidato à vice-presidência (soube-se que Obama provavelmente não a considerou para o cargo). Assim, não será totalmente surpreendente se alguma surpresa acomtecer. Se o fizerem, claramente só estarão a arranjar lenha para queimar Obama e, por consequência, o seu partido. Já há muito se sabia que nestas eleições o principal inimigo do partido Democrata era o partido Democrata. Nos próximos dias veremos.

A BELEZA DAS FREIRAS

Um sacerdote italiano decidiu promover um concurso de beleza original. Cansado de ouvir que as freiras actuais eram velhas e feias, o padre italiano lançou um concurso destinado a mostrar a beleza das monjas. As concorrentes têm de enviar um foto delas para o dito sacerdote, que então escolherá as mais bonitas. Se então desejarem, as freiras mais belas irão desfilar no seu tradicional traje (e não em fato de banho). Um padre e umas freiras originais, sim senhor...

22 agosto 2008

SUCESSO NA EMPRESA NA HORA

O Banco Mundial, através do seu projecto Doing Business que compara a facilidade de efectuar negócios em 178 países, é altamente elogioso para o programa "Empresa na Hora" introduzido em 2005. Segundo o BM, “Em 2005 eram precisos 11 procedimentos e 78 dias para começar um negócio em Portugal _ mais lento do que na República Democrática do Congo. Um empreendedor necessitava de preencher 20 formulários e documentos, mais do que noutro qualquer país da União Europeia, e o custo rondava os dois mil euros... Actualmente, Portugal é um dos países onde é mais fácil começar um novo negócio, sendo necessários somente 7 procedimentos, 7 dias e 600 euros.” O programa também já está a ser estudado por outros países: "Angola and Cape Verde have requested legal and technical assistance based on the Portuguese model. Cape Verde will soon be ready to follow through with the reform. Other countries such Slovenia, Hungary, Egypt, Mozambique, Angola, São Tomé and Principe, Chile, Finland, Bosnia-Herzegovina, Romania, China, Brazil, Turkey, Sweden, and Andorra have visited the On the Spot Firm service."
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Que mais nos diz o Doing Business 2008?
As principais debilidades da economia portuguesa encontram-se tanto na dificuldade de obtenção de licenças, como, principalmente, em empregar trabalhadores. As leis laborais portuguesas permanecem bastante rígidas, constituindo verdadeiros entraves à recliclagem e renovação da força de trabalho. Não é à toa que Portugal está em 157º lugar em 178 possíveis neste índice. Renovar licenças é igualmente uma das grandes deficiências da nossa burocracia. Obter crédito em Portugal ainda é excessivamente problemático e o processo de pagamento de impostos é demasiado complicado. Portugal também não tem um bom desempenho em relação à burocracia relacionada com o registo de propriedades
Para obter uma licença são precisos, em média, passar por 20 penosos procedimentos e 327 dias, o que corresponde a um custo de 54% do rendimento per capita. Têm-se registado poucas ou nenhumas melhorias neste campo. Empregar e despedir trabalhadores em Portugal é uma verdadeira tortura.
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Por outro lado, tem havido algumas melhorias a nível do registo de propriedade, pois conseguimos reduzir para metade o número de dias necessários para o fazer. Em média, são precisos 42 para registar uma propriedade enquanto há apenas 2 anos eram necessários 83. Ainda assim, temos muito que andar nesta área, pois permanecemos um país em que registar uma propriedade é uma verdadeira aventura.
Os nossos bancos podem ser muito dinâmicos nalgumas áreas (como na introdução de multibancos e dos sistemas a eles associados), mas não o são decisivamente a nível da concessão de crédito.
Na protecção dos investidores não estamos mal posicionados (33º em 178), mas ainda é possível melhorar. No cumprimento de contratos deixamos muito a desejar. Se é verdade que estamos melhor que a Grécia ou a República Checa, estamos substancialmente pior do que países como a Hungria. Os processos de cobranças de dívidas necessitam de uns impressionantes 36 procedimentos e demoram, em média, uns incríveis 577 dias, com um custo de cerca de 18 por cento do total da dívida. No comércio trans-fronteiriço, Portugal é um dos países em que os custos não são dos mais elevados.

20 agosto 2008

A SAÚDE PORTUGUESA


(Por favor clique nas figuras se quiser visualisá-las melhor)

Afinal, gastamos pouco ou muito na Saúde? Segundo os dados mais recentes, somos dos países da OCDE que mais gastam com a Saúde em percentagem do PIB. A média da OCDE é de 8,9% do PIB, enquanto nós gastamos 10,2% (primeiro gráfico).
Os valores em gastos por habitante são melhores (segundo gráfico), visto que gastamos em média 2,102 dólares americanos (em paridades de poder de compra) enquanto a média da OCDE é de 2,824 dólares
Entre 2000 e 2006, as despesas com a Saúde cresceram 3,3% ao ano, um valor inferior à média da OCDE, que foi igual a 5%. O maior crescimento das despesas com a Saúde registou-se com as despesas farmacêuticas, que são quase 22% das despesas totais com a Saúde
Outros indicadores interessantes:

  • Portugal tem 3,4 médicos(as) por cada 1000 habitantes (a OCDE 3,1)
  • Temos bastante menos enfermeiras(os) do que a média da OCDE: nós temos 4,6 enfermeiros(as) por cada 1000 habitantes enquanto a OCDE tem 9,7
  • Temos menos camas nos cuidados intensivos:
    _ Portugal 2,2 por cada 1000 habitantes
    _ OCDE: 3,9
  • Em linha com a OCDE, nos últimos anos, o número médio de dias de estadia hospitalar tem diminuído consideravelmente
  • O número das tecnologias disponíveis nos hospitais portugueses tem aumentado substancialmente

19 agosto 2008

150 MIL EMPREGOS

Sinceramente não percebo o que é que o primeiro-ministro quer dizer quando afirma que 133 mil empregos líquidos já foram criados desde o início desta legislatura. As economias estão sempre a criar e a destruir empregos. Se por criação líquida entendemos que criamos mais empregos do que os que são destruídos, então devíamos ver uma descida do desemprego. Ora, contrariamente ao que as palavras de José Sócrates insinuam, a taxa de desemprego permanece bem acima da registada quando este govermo tomou posse. Aliás, a taxa de desemprego continua historicamente alta, tal como podemos constatar na figura acima (com dados trimestrais do Banco de Portugal). Ou seja, não tem havido uma criação líquida de emprego, mas sim uma destruição líquida de emprego. Aliás, a taxa de desemprego só não é mais elevada porque alguns portugueses desistiram de procurar empregos (e por isso não contam nas estatísticas) enquanto milhares de outros tem optado por emigrar. Isto não é uma crítica. É somente uma contestação.

18 agosto 2008

A CRISE QUE NÃO ACABA

As primeiras frases de um (longo) artigo sobre a crise actual (e possíveis soluções) que irá ser publicado na revista EXAME de Setembro:
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Economicamente os últimos 7 anos foram os piores das últimas 8 décadas. Este facto é notável se nos lembrarmos que durante esse período vivemos sob uma ditadura pouco visionária, houve uma guerra mundial, lutámos guerras coloniais, fizemos uma revolução, perdemos um império, efectuámos nacionalizações e reformas agrárias de utilidade questionável, tivemos graves crises financeiras e aderimos ao maior espaço comercial do mundo. De facto, o desempenho da economia nacional dos últimos anos tem sido tão sofrível que o processo de convergência com a União Europeia foi invertido e vários países “ultrapassaram” o PIB per capita português. O desemprego atingiu níveis históricos no período democrático e o crescimento da economia é de tal modo baixo que, a este ritmo, serão precisos 50 a 70 anos para duplicar o rendimento médio nacional.
Esta não é certamente a maior crise da nossa história. Bem longe disso. No entanto, esta é a maior crise que há memória. Por todos estes motivos, urge implementar o quanto antes uma estratégia de combate à estagnação económica.

PINHEIROS AMEAÇADOS (3)


O Guardian de hoje noticia a ameaça do escaravelho dos pinheiros e do seu impacto em Portugal e no sul da Europa, que já foi aqui referida. A ameaça é real e alarmante. Na British Columbia, Canadá, já foram afectados mais de 130 mil quilómetros quadrados de floresta (a foto é de uma das áreas atingidas). Vastos recursos já foram investidos em tentativas de prevenção, mas ainda não se conhece nenhuma forma eficaz de parar a praga.

11 agosto 2008

DERRAPAGENS MAIS-QUE-ESPERADAS

Segundo o PUBLICO de hoje, algumas das concessões rodoviárias promovidas pelo governo vão ter uma derrapagem orçamental de pelo menos 40 por cento, o equivalente a cerca de 750 milhões de euros. De acordo com o jornal, "A disparidade entre os valores anunciados e aqueles que aparecem nas propostas é explicado por uma "diferença de conceitos relevante": "enquanto o custo divulgado pelo Governo é o típico custo de construção da via, a rubrica "custo de construção" apresentada pelos concorrentes inclui quer o custo de construção da via, quer o custo com equipamentos e expropriações". A mesma fonte acrescenta que os valores anunciados pelo Governo são meras "estimativas realizadas de acordo com os projectos iniciais que serviram de base ao lançamento dos concursos", enquanto as propostas dos concorrentes incorporam, também, todos os efeitos do risco de construção. "
Ou seja, estes 750 milhões de euros adicionais nem sequer têm em linha de conta as derrapagens de custos que irão certamente acontecer devido ao aumento dos preços dos produtos petrolíferos e dos custos de construção. Ou seja, as diferenças entre o que estas obras vão custar e o orçamentado e previsto pelo governo serão bastante elevadas.
Ora, se é assim com estradas (que estamos habituados a fazer), o que irá acontecer com o TGV? Não há problema. Afinal, haverá sempre quem pague a factura (isto é, os contribuintes). Foi um azar, dizer-nos-ão. Foram os imponderáveis, informar-nos-ão. Talvez sejam. Mas o mais provável é que tudo não passou de mau planeamento na pressa de satisfazer a febre do betão. É só pena que nunca haja ninguém que se responsabilize por estas derrapagens mais-que-esperadas.

VALE A PENA VISITAR

Dois dos melhores e mais interessantes economistas portugueses estão na net com os seus blogues. O Pedro Lains (um dos mais influentes historiadores económicos portugueses) está aqui .
O Nuno Garoupa (um dos mais internacionais economistas portugueses, especialista da área de Economia do Direito e mudanças institucionais) está aqui.
Vale a pena visitar.

MORALISTA DESMASCARADO

Mais um moralista desmascarado nos Estados Unidos. Desta vez foi John Edwards, um dos Democratas mais populares e influentes dos últimos anos. Na sua campanha para as presidenciais, Edwards não se cansou de apelar ao retorno dos "valores familiares" da América e à seriedade dos políticos. Edwards chegou a afirmar categoricamente que mentir para o público e trair os parceiros era de tal modo grave que, se fosse feito por um(a) político, este(a) deveria abandonar de imediato o seu cargo. Em casa de ferreiro espeto de pau, e, por isso, ficámos anteontem a saber que o próprio Edwards mandou os "valores familiares" às malvas e traiu a mulher com uma assistente da sua campanha eleitoral. Ainda mais grave, fê-lo quando a sua mulher combatia um cancro. E, claro, mentir ao público.
De facto, a situação só não é mais grave porque Edwards perdeu as eleições primárias. No entanto, o que ontem se debatia entre os comentadores americanos era saber o que é que teria acontecido se Edwards fosse o nomeado dos Democratas ou, mesmo, se fosse o escolhido para a vice-presidência. Com um escândalo deste tamanho, Edwards deitaria a perder todas e quaisquer possibilidades dos Democratas ganharem as eleições. Enfim, mais um moralista desmascarado. E ainda bem, digo eu.

MITOS NOS TOPS

O "Mitos da Economia Portuguesa" voltou aos tops de Economia e Gestão. Na última semana, o "Mitos" estava no segundo lugar da Bertrand. O topo da lista era ocupado pelo livro "Terramoto BCP" de Maria Teixeira Alves. O Mitos também esgotou na FNAC mais uma vez.
Obrigado a todos.

31 julho 2008

O GIGANTE EMERGENTE?


Há uma nova estrela emergente no mundo económico. Para espanto de muitos, essa estrela chama-se Brasil, durante décadas conhecido como o país do futuro cujo futuro nunca chegava. Ora, contra as previsões de muitos, parece que o futuro do Brasil está finalmente a chegar. Na última década, o crescimento económico brasileiro atingiu já não vistos há mais de três décadas e as tremendas desigualdades sociais parecem finalmente ter começado a decrescer (pelo menos em termos relativos). O Brasil internacionaliza-se cada vez mais (como o recente anúncio de investimento da Embraer em Portugal o demonstra) e diversifica-se, tanto a nível industrial como agrícola. Esperemos que assim continue.
Ainda por cima, há pouco tempo foram descobertas enormes reservas petrolíferas na costa brasileira, augurando ainda mais receitas para o Estado e para o país. Paradoxalmente, esta pode ser a pior notícia que o Brasil poderia ter. Numa altura em que a economia mostra grande dinamismo e uma crescente diversificação das actividades económicas, a descoberta dessas reservas petrolíferas fará certamente valorizar o real (pois haverá maior procura de moeda brasileira), o que poderá afectar negativamente os sectores exportadores do país, bem como outras áreas da economia que poderão menos competitivas com a valorização do real.
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Mas, esperemos que isso não aconteça ou, a acontecer, esperemos que a recente vitalidade do Brasil seja suficiente para aguentar o impacto que a valorização do real terá no sector exportador brasileiro. Entretanto, saudemos os feitos económicos do Brasil, que parece finalmente ter deixado de continuar permanentemente adiado.
PS. Vale a pena ver aqui uma reportagem do New York Times sobre o crescimento brasileiro.