Segunda parte do meu artigo na Revista EXAME de Setembro:
A crise actual tem três grandes causas, duas conjunturais e uma estrutural. Em primeiro lugar, a crise está claramente associada à nossa adesão ao euro. No tempo em que ainda tínhamos o escudo, quando a crise batia à porta, a solução era relativamente simples: desvalorizávamos a moeda para tornar as nossas exportações mais competitivas, baixávamos as taxas de juros para estimular a procura agregada (através do investimento e do consumo) e o governo aumentava as despesas (ou cortava os impostos). A adopção da moeda unida europeia privou-nos das políticas cambiais e monetárias independentes e restringiu seriamente a política fiscal, limitando a eficácia da resposta da política económica.
A nível cambial, as dificuldades já eram esperadas, pelo menos em parte. Nas últimas décadas Portugal nunca teve uma moeda forte e, por isso, a introdução da moeda única iria sempre colocar problemas de competitividade a muitas empresas portuguesas. No entanto, o choque do euro foi bem maior do que se previa, pois desde os meados do ano 2000 o euro valorizou-se 80 por cento em relação à moeda americana, bem como contra todas as divisas (como a chinesa) que gravitam à volta do dólar.
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Mesmo se o euro não se tivesse valorizado tanto, o facto de não podermos utilizar mais a política monetária retirou-nos margem de manobra na condução de políticas anti-crise. As restrições orçamentais do Pacto de Estabilidade só vieram diminuir ainda mais a importância da política económica em tempos recessivos. Para além do mais, o euro deu azo ainda a um outro efeito perverso. A pronunciada descida das taxas de juros associadas à adesão ao euro fez com que muitas famílias portuguesas se endividassem para níveis nunca dantes vistos na história moderna portuguesa. Actualmente as famílias estão tão sobre-endividadas que há pouca margem para o consumo privado se expandir. Para complicar ainda mais a situação, o endividamento do Estado e elevado défice orçamental dos últimos anos impossibilitaram a utilização da política fiscal para estimular a economia. Por todos estes motivos, os primeiros anos do euro não têm sido muito auspiciosos para a economia nacional.
Porém, como se já não nos bastassem as dificuldades causadas pelo super-euro, nas últimas duas décadas temos sido vítimas (e beneficiários) de uma das mais importantes transformações estruturais das últimas décadas: o renascimento da Índia e da China, que tem originado enormes problemas de competitividade a muitas das nossas empresas. Já sabíamos que o nosso modelo económico tradicional estava esgotado e que, mais cedo ou mais tarde, os nossos principais sectores exportadores não seriam competitivos face aos seus concorrentes asiáticos e da Europa de Leste. Porém, a adesão ao euro e a liberalização do comércio mundial vieram acelerar o fim do nosso modelo económico baseado em baixa produtividade e salários baixos.
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Apesar de todas as dificuldades, em finais de 2007, parecia que a economia portuguesa já começava a operar eficientemente dentro dos constrangimentos do euro e da globalização. As exportações cresciam a um ritmo muito saudável e a confiança dos investidores dava mostras de estar a regressar. O investimento tornou-se positivo pela primeira vez em 5 anos. O governo e o Banco de Portugal saudaram quase entusiasticamente um crescimento económico de quase 2 por cento em 2007 (um valor que seria considerado anémico noutras alturas) e tudo indicava que uma retoma sustentada estava finalmente à porta.
E foi então que começámos a sentir os efeitos do choque petrolífero e as repercussões da crise financeira americana. Presentemente, arriscamo-nos a voltar ao indesejado mundo da estagflação que caracterizou os anos 70, ameaçando originar ainda mais desemprego bem como o regresso da inflação. Por enquanto, a economia mundial tem resistido relativamente bem à subida dos preços petrolíferos e dos produtos alimentares. Os países em desenvolvimento continuam a ser o motor da economia mundial e, apesar do abrandamento económico, a recessão ainda não chegou à maioria dos países da OCDE. Ainda assim, o risco de um abrandamento brusco permanece elevado. É bom lembrar que os choques de oferta negativos são o pior dos choques que podem afectar uma economia e que as crises mais acentuadas da economia mundial dos últimos 60 anos foram sempre associadas aos choques petrolíferos.
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Sendo uma economia muito aberta ao exterior e muito integrada com a Europa, Portugal certamente está a sentir o efeito do choque petrolífero, tanto a nível da produção como dos preços. As sombras da recessão começam novamente a pairar sobre a economia portuguesa. Perante este cenário, interessa averiguar a existência de sinais que possam indiciar uma reviravolta na crise dos últimos anos.
(continua...)