22 outubro 2008

O DEGELO DOS MERCADOS DE CRÉDITO

Nos Estados Unidos os mercados de crédito dão mostras de (finalmente) estarem a voltar ao normal. As intervenções governamentais estão finalmente a dar resultados.
Na Europa a Euribor continua a baixar, mais um sintoma que a intervenção está a dar frutos.
A recapitalização dos bancos (iniciada pelos britânicos e pelos restantes europeus, e em seguida pelos americanos) parece ter sido sido o factor que conseguiu estabilizar os mercados financeiros.

21 outubro 2008

PORTUGAL, PAÍS MODELO

Quem diria que Portugal se tornaria num modelo para um país como o Canadá? Não, não estou a ser irónico nem malicioso. A CBC, a televisão pública canadiana, apresentou Portugal como um modelo a seguir ao nível das energias alternativas. Sob o título "The little nation that could go green - and is" a reportagem da CBC rasga enormes elogios ao nosso país pelas inovações introduzidas na área das energias alternativas. Sinceremente, fiquei orgulhoso ao ver o artigo. Vou tentar arranjar o video no You Tube para o postar aqui no blogue.
Quem disse que de Portugal só vêm más notícias?

PRÉMIO MO IBRAHIM

O prémio Mo Ibrahim de boa governação no continente africano foi atribuído ao ex-presidente do Botswana Festus Gontebanye Mogae. Esta é a segunda vez que o prémio é atribuído. No ano passado o prémio foi ganho pelo ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano.
Se Chissano foi uma óptima escolha em 2007, Mogae é outra excelente escolha em 2008. O Botswana é uma das maiores histórias de sucesso económico nas últimas 3 décadas, quando o país passou de um dos mais pobres do mundo para um país de rendimentos médios. Fora da Ásia, o Botswana (e agora Moçambique) é o milagre económico mais impressionante dos últimos 30 anos. Uma das razões para tal ter acontecido foi exactamente a boa governação que este país africano tem tido. E só por isso, a atribuição do prémio Mo Ibrahim a Festus Gontebanye Mogae é inteiramente merecida.

18 outubro 2008

LEITURAS DE FIM-DE-SEMANA

Dois artigos interessantes para ler este fim-de-semana. Joseph Stiglitz (Prémio Nobel em 2001) fala com clareza sobre as origens da crise financeira neste artigo da revista Time.
A Economist debate o futuro das economias de mercado (e o capitalismo) depois da crise. Vale a pena ler.

17 outubro 2008

ORÇAMENTO DE ESTADO

As minhas respostas às seguintes perguntas do PUBLICO (de hoje) sobre o Orçamento de Estado:
"O défice é de 2,2 por cento, igual ao de 2008; a dívida sobe de 63,5 para 64 por cento; os funcionários públicos têm um aumento salarial de 2,9 por cento, o maior desde 2001; está prevista uma redução da taxa aplicada no IRC.
As perguntas são:
1) Este pode ser um bom orçamento para combater a crise?
2) Teme que o progresso feito na redução do défice durante os últimos anos se possa vir a perder?
3) As projecções para o cenário macro económico são realistas?"
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1) Este é o orçamento mais expansionário e despesista dos últimos anos e visa claramente os ciclos eleitorais que se aproximam. Por isso, este é mais um orçamento eleitoral do que um orçamento de combate à crise. Porquê? Porque se adiam mais uma vez o combate aos problemas estruturais da Administração Pública e se dá prioridade ao aumento dos salários dos funcionários públicos e ao crescimento das despesas públicas em áreas como a Justiça (onde já somos um dos países europeus que mais gasta por habitante) e com as obras públicas como o TGV. O aumento salarial dos funcionários públicos é particularmente preocupante, pois é sabido que o peso dos salários destes funcionários nas despesas do Estado é um dos mais elevados de toda a União Europeia. Neste sentido, não me parece que haja outro propósito com esta medida que não seja eleitoral.
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2) Sim, temo. O meu receio é que estejamos a desbaratar mais uma vez a oportunidade de combater a crise económica do país. E, ainda por cima, fazemo-lo da pior maneira. Ou seja, estamos a aumentar a despesa pública e os salários dos funcionários públicos em vez de tentar melhorar a competitividade das empresas nacionais (através de incentivos fiscais e do corte de impostos) e auxiliar as famílias portuguesas (sobreendividadas e com os seus rendimentos estagnados) em tempos de crise. Assim, damos mais uma vez prioridade ao crescimento do Estado em vez de ajudarmos quem realmente precisa de ajuda. Ora, o problema é que o crescimento do Estado (e das despesas públicas) não tem dado resultado no combate à crise. É por isso vital mudar de estratégia. É pena que o Governo assim não o entenda (ou não queira entender num intenso período eleitoral).
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3) As projecções do governo para o cenário macroeconómico da economia no próximo ano não me parecem nem realistas nem irrealistas. A verdade é que ainda é demasiado cedo para saber o que vai acontecer. No último ano vimos acontecer um choque petrolífero que foi seguido pela maior crise financeira desde a Grande Depressão. Como as coisas têm evoluído a um ritmo tão rápido, ainda não é possível saber quão grave será a recessão da economia mundial (e europeia). Neste sentido, a previsão do governo não é mais do que um vaticínio do que poderá acontecer. Certamente que as previsões serão revistas assim que tivermos mais dados sobre a situação económica actual.

A ESQUERDA E A DIREITA DA ECONOMIA

O Sócrates tem o seguinte comentário e pergunta:
"Poder-se-ia argumentar que a população no geral beneficia com os períodos de prosperidade do mercado liberal, não coloco isso em causa..., no entanto não será mais seguro um mercado fortemente regulado para que quando as coisas correm mal, a população no geral não seja a sacrificada de sempre, pagando a crise com a perda do seu poder de compra, desemprego e ainda pelos seus impostos que vão "salvar" as grandes empresas (que pelos vistos "ganham" sempre). Não será mais seguro e lógico um crescimento sustentado que evite grandes alterações sociais (tanto de "enriquecimento" rápido, como de "empobrecimento")?"
Caro Sócrates,
Obrigado pela pergunta.
A grande maioria dos economistas acredita que os mercados são a melhor forma que temos para assegurar o crescimento económico e, assim, o aumento dos rendimentos das populações. Não interessa ser de esquerda ou de direita, pois quase todos pensam assim (as únicas excepções a esta regra são as esquerdas e as direitas radicais). A grande diferença entre os economistas de direita e de esquerda é exactamente ao nível da regulação do mercado. Os de direita preferem desregulamentar, enquanto os de esquerda consideram que a regulamentação é necessária.
Nas últimas décadas, assistimos a uma desregulação generalizada dos mercados (financeiros, de capitais, etc). A crise financeira actual é em parte devida aos excessos cometidos pela ausência de regulações eficazes nos mercados imobiliários e financeiros dos Estados Unidos.
Por isso, certamente que nos próximos tempos veremos o retorno do Estado e da regulamentação da economia. Quase todos concordam com esta proposição. O problema é que certamente que muitos irão ver a crise actual como uma tendência natural para o capitalismo gerar crises graves, o que não é verdade. As crises acontecem, é verdade, mas não são a característica principal das economias de mercado. A principal vantagem das economias de mercado é a capacidade de gerar crescimento económico duradouro e sustentado.
Claro que as crises acontecem. Esporadicamente, mas acontecem. Porém, o importante é assegurar que o impacto da crise seja o menor possível. E é aqui que entra o papel do Estado.
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Voltando à sua questão, mais e melhor regulamentação é certamente necessária. Porém, mais do que regulamentação, o importante é que o Estado proteja e auxilie aqueles que são afectados negativamente por fenómenos como a globalização ou pela recessão de uma economia, quer através de programas sociais, quer através da introdução de programas de formação profissional. A economia de mercado não é incompatível com a protecção social, como certamente veremos nos próximos tempos (que se adivinham recessivos).

16 outubro 2008

ORÇAMENTO DE ESTADO

O Orçamento de Estado para o próximo ano acarreta um grande crescimento das despesas em vários ministérios. A Justiça, as Obras Públicas e até a Justiça são os grandes beneficiários. É tempo de eleições e a crise é a melhor desculpa para que o Estado prossiga uma politica expansionária. Acabou o discurso do défice, pelo menos por um ano. Resta saber se as prioridades apresentadas pelo governo são as mais adequadas para amenizar o impacto da recessão.

AÍ VEM O TGV

Segundo o Orçamento de Estado, as despesas das obras públicas vão aumentar quase 10 por cento no próximo ano. Em parte tal acontece por causa das (várias) eleições que se irão realizar em 2009. Porém, é mais do que isso. 2009 é o primeiro ano em que os gastos com a construção do TGV começam a ser mais significativos. Nos anos seguintes o peso das obras públicas vai ser ainda maior. Bem maior.

0,6 POR CENTO

A previsão do governo para o crescimento da economia no próximo ano não me parece nem realista nem irrealista. A verdade é que ainda é demasiado cedo para saber o que vai acontecer. Como as coisas têm evoluído a um ritmo tão rápido, ainda não é possível saber quão grave será a recessão da economia mundial e europeia. Neste sentido, a previsão do governo é principalmente uma estimativa do que poderá acontecer. Certamente que será revista quando tivermos mais dados sobre a situação económica actual.

NOVAMENTE PARA BAIXO

E os mercados bolsistas voltaram a cair fortemente após a publicação de alguns dados económicos que indiciam que a recessão está mesmo à porta. A grande questão não é se nem sequer quando é que a recessão acontecerá mas sim quão grande será. Tudo dependerá da acção dos governos, da evolução da confiança dos agentes económicos e do ajustamento das economias às novas realidades dos mercados financeiros.

15 outubro 2008

ORÇAMENTO DE ESTADO (nota)

Como o governo ainda não apresentou o Orçamento de Estado completo, prefiro esperar até mais tarde para o analisar.

ELEIÇÕES NO CANADÁ (2)

As eleições no Canadá correram exactamente como o previsto. Stephen Harper e os conservadores ganharam, mas não conseguiram a maioria. Os conservadores obtiveram 37, 7% dos votos, o que lhes deu direito a 142 deputados (8 a menos do que era necessário para alcançar a maioria). Os grandes derrotados foram os Liberais (cujo líder Stephane Dion foi um verdadeiro desastre), bem como a própria democracia (pois a abstenção foi a maior da história recente). Este é o terceiro governo minoritário seguido no Canadá. E certamente não ficaremos por aqui. Dentro de 2 ou 3 anos haverá eleições novamente. Esperemos que sejam mais animadas...

PRÉMIOS LITERÁRIOS

O primeiro Prémio Leya foi atribuído ao jornalista brasileiro Murillo António de Carvalho, autor do livro "O Rastro do Jaguar". Segundo o DN, "O seu romance, que venceu entre 448 originais, fala sobre a guerra do Paraguai no século XIX, cuja trama passa por Portugal, Brasil, Argentina e Uruguai. Um jornalista português e um índio que é levado para a Europa em criança e regressa aos 50 anos, vindo a tornar-se num líder guerreiro guarani, são alguns dos personagens. "O livro não fala só dessa guerra, fala também de como esses índios concebem o universo e como vêem a guerra contra brancos e gaúchos", conclui o autor."
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No Reino Unido, o Booker de 2008 foi ganho por Aravind Adiga, um indiano de 33 anos, autor do livro "White Tiger". O livro passa-se na Índia moderna e analisa alguns dos impactos sociais do milagre económico indiano.
Dois livros a ler.

AINDA A CRISE FINANCEIRA

Aqui está um artigo interessante no New York Times sobre as semelhanças entre a situação actual e outras crises financeiras que a precederam, principalmente no que diz respeito à intervenção estatal. Como pode ver, a intervenção do Estado neste tipo de crises não é, de modo algum, invulgar.
Este artigo debate se as origens da crise actual não se encontram na era Greenspan.

14 outubro 2008

ELEIÇÕES NO CANADÁ

Hoje há eleições no Canadá. As eleições no Canadá são muito diferentes das americanas. No Canadá as eleições são simplesmente uma chatice. Os debates não têm cor, a paixão não existe em quase nenhum partido e os líderes são tão entusiasmantes como Ferro Rodrigues ou Carlos Carvalhas. As eleições canadianas são tão aborrecidas que no dia 2 de Outubro milhões de canadianos preferiram ver o debate entre os candidatos à vice-presidência americana, entre Biden e Palin, do que ver o debate entre os líderes dos principais partidos canadianos.
Quem vai ganhar? Provavelmente o conservador Stephen Harper. No entanto, pela terceira vez seguida, não haverá maioria parlamentar. O que quer dizer que os canadianos voltarão às urnas dentro de um ou dois anos. Esperemos que então as coisas sejam mais animadas.

KRUGMAN (2)

A propósito desta pergunta do analisedasemana:
Os escritos de Paul Krugman (académicos ou jornalísticos) nunca são aborrecidos. Todos os livros mais populares são interessantes, apesar de que, nos últimos anos, Krugman tem jogado em demasia a carta ideológica e política.
O melhor para começar a ler Krugman é ir directamente ao blogue dele (recomendado aqui há alguns dias). Um óptimo lugar para perceber quão interessante são os seus escritos é um livrinho chamado "Geography and Trade", onde a teoria do comércio internacional entra em diálogo com a geografia. É muito interessante.
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Já agora, um esclarecimento. Alguns blogues, tal como o Ladrão de Bicicletas congratularam-se com a atribuição do Nobel a Krugman por ele ser de "esquerda". Porém, a esquerda de Krugman é muito diferente da nossa esquerda.
O Krugman (ou o Dani Rodrik ou até o Brad deLong) é menos de esquerda do que a grande maioria dos nossos politicos, incluindo Manuela Ferreira Leite ou Marcelo Rebello de Sousa. Todo o trabalho do Krugman tem apontado para a insuficiência e irrazoabilidade dos modelos neoclássicos mais simples. No entanto, isto não quer dizer que Krugman seja de "esquerda", pelo menos da mais tradicional. Um "Liberal" ou um Democrata nos Estados Unidos é muito mais de direita do que a maior parte dos políticos de direita europeus. Krugman não é uma excepção.

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL? (3)

O António pergunta: "a curto prazo o problema parece ter ficado sob controlo.Mas será que a médio prazo a questão ficou resolvida? Algo me diz que não. Algo me diz que isto não foi mais que um balão de oxigénio porque de facto nada mudou. A economia ocidental continua deprimida e aceita-se que ainda fique mais deprimida."
Sem dúvida que as coisas ainda vão piorar antes de melhorar a nível económico. O que interessa agora é estabilizar os mercados para evitar um colapso financeiro. Quando este objectivo for alcançado, os governos têm que começar a dar prioridade ao combate à recessão que vem aí. As principais economias ocidentais dão sinais de estarem a entrar em recessão e, por isso, os governos têm que começar a actuar. O que fazer? Nos EUA a política monetária está muito limitada, pois os juros já estão muito baixos. Na Eurolândia e no Reino Unido ainda há bastante margem de manobra para baixar os juros. O que falta, por enquanto, é vontade dos bancos centrais. Veremos se as coisas mudarão nos próximos meses. Esperemos que sim.
Por isso, e porque esta é uma crise com contornos semelhantes ao que aconteceu na década de 1930 (com muitas diferenças também), os governos têm que começar a atacar a recessão com as suas políticas fiscais. Isto é, com baixas de impostos e aumentos das despesas públicas (para quem pode...). Na UE, esperemos que a crise acabe de uma vez com o fundamentalismo do défice. Veremos se a ideologia dogmática consegue resistir aos ventos recessivos.

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL (2)

Os mercados continuam a reagir muitíssimo bem às notícias do fim-de-semana. Depois da Europa e dos Estados Unidos, os índices bolsistas continuam a subir mais de 10% na Ásia. Se não houver nenhuma surpresa, os mercados europeus devem continuar a recuperar.

13 outubro 2008

KRUGMAN, O NOBEL MERECIDO

Paul Krugman recebeu o Prémio Nobel de Economia. O prémio é justíssimo pelo seu trabalho na teoria do comércio internacional (intra-industrial), pela reabilitação da economia geográfica, bem como pela sua investigação sobre crises cambiais. Para além disso, Krugman é o melhor comunicador da sua geração de economistas, tanto na imprensa como através de livros em que o economês é decifrado para os não-economistas. Aliás, este era o principal motivo que poderia fazer Krugman não ganhar o Nobel. Quando começou a escrever para os jornais, Krugman foi extremamente criticado por ter cedido à tentação de explicar os conceitos económicos para os não-especialistas e não~economistas. Ainda por cima, Krugman escreve no New York Times e define-se claramente como um "liberal", ou seja Democrata.
Por isso, havia muita gente que Krugman nunca iria receber o Nobel, apesar de claramente merecer. Obviamente, estavam errados.
O Nobel fica em muito boas mãos.

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL?

Ainda é cedo para retirar conclusões definitivas, mas parece que finalmente estamos a ver luz ao fundo do túnel na crise financeira. Após a reúnião dos ministros das Finanças do G7 neste fim-de-semana e após o acordo entre os líderes europeus sobre as medidas a tomar para estancar a crise, parece que os mercados começam a acreditar que a turbulência excessiva das últimas semanas possa estar a abrandar. Esperemos que sim. Para bem dos mercados e da estabilidade da economia mundial.
Nomeadamente, este fim-de-semana pode ter sido importante por dois motivos. Primeiro, pela primeira vez em várias semanas, não tivemos bancos ou seguradoras a falir num sábado ou num domingo. Só isso é assinalável, pois os últimos fim-de-semanas têm sido um verdadeiro desastre para a confiança dos mercados financeiros. Segundo, as reuniões deste fim-de-semana parecem indiciar que começa a emergir algum consenso sobre o que fazer para estabilizar os mercados. Mais concretamente, o caminho a seguir parece mesmo ser a recapitalização das instituições financeiras. A promessa de recapitalização dos bancos é uma espécie de nacionalização temporária dos bancos e das instituições financeiras europeias. As autoridades americanas também já sinalizaram que irão seguir o mesmo caminho. Esta é uma medida drástica (já seguida pelo Reino Unido e que irá ser adoptada pelos restantes países), mas fundamental para conseguir dar alguma confiança aos mercados.
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Note-se que esta medida não significa o fim das economias de mercado ou dos mercados financeiros. Mesmo defensores intransigentes da economia de mercado, como Milton Friedman, acreditavam que em momentos de crise dos sistemas financeiros é preciso actuar de uma forma muito agressiva. Ben Bernanke também partilha desta crença. Uma nacionalização temporária das instuições financeiras pode ser o mal menor perante as terríveis possibilidades de um possível colapso do sistema financeiro mundial, que teria enormes consequências para os restantes sectores da economia mundial. Quando a confiança retornar aos mercados, quando os sistemas financeiros tiverem recuperado, e quando a regulamentação dos mercados tiver sido feito, os vários Estados podem voltar a vender as participações públicas nas instituições financeiras agora semi-nacionalizadas.
Obviamente, este é o primeiro passo. O que interessa agora é estabilizar os mercados financeiros e evitar o colapso dos mesmos. Quando tal objectivo for alcançado, o passo seguinte é começar a atacar de forma decisiva a recessão económica que está à porta.

CRISE FINANCEIRA _ CARTOON (2)

CRISE FINANCEIRA _ CARTOON (1)

11 outubro 2008

A CRISE QUE NÃO ACABA (3)

Terceira parte do meu artigo da EXAME de Setembro: (escrito antes da crise financeira se ter alastrado)
As retomas económicas em Portugal são quase sempre motivadas pelo crescimento do investimento e/ou das exportações. Ora, de todas as variáveis macroeconómicas, o investimento tem sido a mais decepcionante nos últimos anos. Entre os finais de 2001 e o primeiro semestre de 2007, o comportamento do investimento foi quase sempre negativo e só mesmo no último ano é que se registou uma recuperação significativa desta variável, motivada pela maior confiança dos investidores (entretanto dissipada). Apesar da baixa das expectativas dos investidores associada à subida dos preços dos produtos petrolíferos, o comportamento do investimento nos trimestres mais recentes poderá finalmente vaticinar melhores dias para esta importante variável macroeconómica.
As exportações têm tido um desempenho bastante mais positivo, e até surpreendente, crescendo a taxas já não vistas há quase uma década. Recorde-se que esta subida das exportações nacionais é ainda mais notável quando tomamos em linha de conta a situação internacional extremamente adversa provocada tanto pela forte valorização do euro como pela subida dos preços petrolíferos. Ainda mais significativamente, o crescimento das exportações tem ocorrido não só devido ao maior dinamismo dos sectores mais tradicionais (como é o caso dos têxteis), mas principalmente graças à exportação de produtos de média e alta tecnologia. Na última década, a percentagem das exportações das tecnologias de ponta no total das exportações portuguesas quase duplicou, o que representa um dos melhores desempenhos de um país europeu. É verdade que as exportações de alta tecnologia ainda não são tão importantes para Portugal como são para países como a Irlanda, o Luxemburgo, o Reino Unido e mesmo a Hungria. Todavia, é inegável que as exportações portuguesas destes sectores têm exibido um dinamismo assinalável.
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Este dinamismo das exportações portuguesas de tecnologias de ponta é ainda mais visível quando observamos a evolução das exportações dos produtos industriais transformados. Num trabalho recente, Manuel Cabral, docente da Universidade do Minho, argumenta que nos últimos anos se registou não só uma diversificação dos nossos mercados externos e das nossas exportações, como também se deu uma melhoria significativa do conteúdo tecnológico das exportações nacionais. Como podemos observar no quadro 3, o peso dos produtos de alta e média tecnologia no total das exportações de produtos industriais transformados já atinge os 45 por cento, um valor que certamente irá crescer nos próximos tempos. Aliás, entre 2003 e 2006, as exportações de produtos de alta tecnologia contribuíram para 64 por cento do crescimento do volume das exportações nacionais.
Assim, vivemos actualmente uma situação complexa. Por um lado, regista-se um crescente dinamismo das exportações e o investimento tem dado mostras de poder recuperar. Por outro, o choque petrolífero ameaça pôr em causa a tímida recuperação da economia portuguesa. Perante o actual estado de coisas, o que é que pode ser feito para acelerar a retoma? Poderá o governo auxiliar a economia? Se sim, como?
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QUE FAZER?
A tarefa mais urgente da política económica é, sem dúvida alguma, parar de imediato com a absurda obsessão com o défice orçamental. Como vimos anteriormente, este é o abrandamento económico mais significativo dos últimos 80 anos. Não faz assim sentido permanecer de mãos atadas enquanto continuamos obstinados em agradar Bruxelas. É, assim, preciso ter coragem para enfrentarmos Bruxelas, esquecendo o défice durante 2 ou 3 anos. Em contrapartida, o governo devia comprometer-se com os restantes parceiros europeus em introduzir legislação que obrigue os governos nacionais a atingirem o equilíbrio orçamental ao longo do ciclo económico ou político.
Feito isto, temos duas possibilidades para reanimar a economia: fomentar o investimento público ou utilizar a política fiscal (i.e., gastar mais ou cobrar menos impostos). Ora, os rendimentos decrescentes associados à sempre-na-moda política do betão significam que o investimento público não deve ser suficiente para a retoma. Uma estrada hoje não tem o mesmo rendimento nem externalidades do que quando completámos a A1. Deste modo, apesar das dezenas de projectos de investimento públicos já anunciados, não é linear que estes venham a ter uma importância decisiva para a retoma da economia.
Ora, como aumentar as despesas do Estado está fora de questão (pois não surte grande efeito, como podemos ver pelos últimos anos) só nos resta cortar os impostos, principalmente o IRC e talvez o IRS, para podermos aumentar a competitividade das nossas empresas. Se o fizermos, as descidas terão que ser substanciais (mas faseadas) e talvez diferenciadas geograficamente, oferecendo fiscalidade bonificada às regiões deprimidas.
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Mas, como é possível baixar os impostos se não há margem de manobra orçamental? Continuando a reforma do Estado, racionalizando recursos, e adiando projectos megalómanos como o TGV, que ameaça ser o nosso maior erro financeiro desde a construção da barragem de Cahora Bassa. O TGV tem um enorme custo de oportunidade tanto nas escolas e nos hospitais não construídos, como a nível da fiscalidade mais baixa que poderia ser concedida aos particulares, às empresas e às regiões menos desenvolvidas.
Ora, se queremos ser sérios no combate à insustentável estagnação económica dos últimos anos, as prioridades da política económica têm de mudar. É perfeitamente desapropriado continuar a dar primazia ao défice orçamental. A prioridade tem de ser dada à competitividade. Uma forma de o fazermos é melhorar a competitividade das nossas empresas ao oferecer-lhes um alívio fiscal nestes tempos recessivos. De facto, esse será o estímulo mais adequado para fazer ressuscitar o investimento e para auxiliar os nossos exportadores a enfrentarem a crise internacional.

10 outubro 2008

FALÊNCIA DA GM?

As acções da General Motors perderam 30% do seu valor na sessão de ontem. Os rumores de uma hipotética falência desta (outrora) eminente empresa não param de aumentar. A GM é a quinta maior empresa do mundo e, por isso, se tal acontecer, certamente que irão haver bastantes repercussões para a economia americana e para a economia mundial. Nos próximos dias veremos se a GM consegue sobreviver.

A CRISE CONTINUA

Apesar das medidas sem precedentes levadas a cabo pelos bancos centrais, a crise financeira não dá mostras de abrandar. Ontem os mercados financeiros americanos baixaram cerca de 7 por cento, enquanto hoje os mercados asiáticos sofrem perdas entre 7 a 10 por cento. Os mercados estão em pânico e, por enquanto, nada parece estar a dar resultado. Nos EUA já se fala na nacionalização temporária dos principais bancos e instituições financeiras através da compra de acções por parte do Estado americano. O mais provável é que os mercados financeiros continuem a baixar nos próximos dias. A volatilidade está aqui para ficar, pelo menos nos próximos tempos.

CRISE NA ISLÂNDIA (3)

A crise na Islândia continua a dar que falar. O governo já nacionalizou a banca toda e já houve uma tentativa falhada de fixar o valor da taxa de câmbio. A Islândia continua a tentar salvar-se da bancarrota através de empréstimos contraídos junto da Rússia e do FMI. Independentemente do que se venha a passar, a crise financeira islandesa não tem precedentes na história recente dos países mais ricos.

CASAMENTO HOMOSSEXUAL

O PUBLICO de hoje pergunta a dezenas de portugueses: "Concorda ou não com o casamento homossexual? Com ou sem limitação do direito à adopção? E com ou sem limitação dos direitos patrimoniais? Prefere outra fórmula jurídica?"
Eis a minha resposta:
Não me parece que compete ao Estado decidir as preferências sexuais das pessoas. A orientação e a união sexual de cada um é uma escolha pessoal que não deve ser ditada pelo Estado nem sequer pelas preferências da sociedade. Por isso, sou a favor da aprovação de legislação que conceda os mesmos direitos às uniões homossexuais e heterossexuais, incluindo os mesmos limites em relação aos direitos patrimoniais.
O direito de adopção é diferente. A adopção envolve terceiros. Por isso, antes de decidirmos sobre o direito de adopção por casais homossexuais temos que realizar um debate abrangente e chegar uma conclusão sobre o assunto, quiçá através de referendo.

DIVÓRCIO JUSTO

Como os divórcios são processos muito alongados e burocráticos no Cambódia, um casal não teve meias medidas e dividiu a casa... a meio. Já viram se a moda pega?
PS. Segundo a BBC, o ex-marido levou a outra metade da casa para parte incerta

INFLAÇÃO MILIONÁRIA

Sabe qual é a inflação no Zimbabwe? No mínimo é 231,000,000%. Duzentos e trinta e um milhões de por cento. Ainda não é o recorde mundial (que pertence à Alemanha de 1923), mas começa a aproximar-se a passos largos. E claro, certamente que a inflação do Zimbabwe já aumentou desde que começou a ler este post.

09 outubro 2008

DESCIDA DO IRC

A descida do IRC anunciada ontem pelo governo é uma boa medida, mas que terá um impacto muito limitado. A medida releva que: "Os primeiros 12.500 euros de matéria colectável serão tributados a uma taxa de 12,5 por cento e o restante à taxa de 25 por cento."
Esta é uma boa notícia, pois a descida da carga fiscal irá beneficiar muitas das nossas pequenas empresas. Porém, o impacto será limitado, pois, segundo o que o PUBLICO conseguiu apurar, somente um terço das nossas empresas com rendimentos inferiores a 12500 euros paga IRC. As restantes não o fazem pois não apresentam resultados suficientes.
Porém, ironicamente, a descida do IRC até poderá beneficiar mais o Estado do que a economia nacional. Como todos sabemos, é graças aos marabilismos financeiros que muitas empresas não pagam impostos. A descida das taxas poderá formecer um incentivo necessário para que estas empresas passem a pagar os seus impostos, pois o risco das suas artimanhas financeiras poderão não compensar o não de pagamento de impostos. Assim, a descida das taxas do IRC para as empresas de menor dimensão poderá até beneficiar o saldo orçamental do Estado...
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Apesar disso, esta é uma medida que só peca por não ser extensível às restantes empresas. A descida do IRS seria uma medida bem-vinda numa altura em que a estagnação económica não dá mostras de abrandar (bem pelo contrário). Se a taxa de IRC mais elevada 25% descesse para 15 ou 20%, quem beneficiaria seria a competitividade das nossas empresas e, consequentemente, a competitividade da nossa economia.
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Uma última palavra: desconfio que este não seja o último corte de impostos antes das eleições. Desconfio que o IVA irá baixar mais um ponto percentual antes de irmos às urnas. Deste modo, o governo poderia argumentar que baixou a carga fiscal da economia. Veremos.

BLOGUE RECOMENDADO

Um blogue que vale a pena ler nesta altura de crise financeira é o de Paul Krugman, que reflecte sobre as causas e as possíveis soluções para o problema. O link para o blogue está aqui.

NOBEL DA LITERATURA

O vencedor do Nobel da Literatura deste ano foi o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, considerado pelo comité do Nobel como um "autor de novas partidas, aventuras poéticas e extase sensual". Confesso que nunca li os seus livros. Tenho agora mais uma boa razão para o fazer...

08 outubro 2008

JUROS MAIS BAIXOS

Quais são os melhores sintomas do quão séria é a crise financeira? As medidas dos bancos centrais. Nos últimos tempos tem havido uma concertação de posições dos principais bancos centrais mundiais, principalmente atavés da injecção de grandes quantidades de fundos para os mercados financeiros. Agora, chegou a vez da posição concertada no corte das taxas de juros.
Hoje de manhã, seis bancos centrais (o BCE, a Fed, o Banco de Inglaterra, o Banco do Canadá, o Banco da Suécia e o Banco da Suíça) actuaram em conjunto cortando as taxas de juros em 0,5 por cento. Objectivo? Tentar descongelar os mercados de crédito dos seus países (e regiões).
Veremos se tais medidas têm efeito. No entanto, é de salientar que estas são as acções mais agressivas por parte dos bancos centrais das últimas décadas. Só isso indicia o quão preocupados os bancos centrais estão com a crise actual.

LUCRAR COM O BAILOUT

Após o governo americano ter concedido um empréstimo de emergência no montante de 85 mil milhões de dólares à seguradora AIG, os quadros executivos da empresa decidiram ir até a um spa da Califórnia para esquecer as misérias dos mercados financeiros. Em menos de uma semana, esses quadros executivos gastaram mais de 400 mil dólares em massagens, em bebidas e em comida. 400 mil dólares que vieram, obviamente, do bolso dos contribuintes. Nada mau. Quem disse que a crise financeira afecta todos da mesma maneira?