17 fevereiro 2009

A GRANDE CRISE?

Todos os dias ficamos a saber que a crise internacional se está a tornar cada vez mais grave e que as condições económicas se têm deteriorado de forma significativa um pouco por todo o mundo. Porém, até agora, se é verdade que a crise financeira actual é a mais séria desde 1929, ainda é cedo para saber se a crise económica será a mais grave desde a Grande Depressão. Por enquanto, a crise assemelha-se mais com as recessões dos anos 80 ou dos anos 70, apesar de o ritmo de contracção estar a ser mais acelerado do que nas recessões mais recentes. A grande diferença é que a crise é mais globalizada do que em recessões anteriores.

12 fevereiro 2009

O PLANO OBAMA

O plano Obama de estímulo económico foi aprovado pelo Senado americano. Agora é esperar que resulte. Porém, mesmo que resulte, os resultados só se irão ver dentro de 6 ou 12 meses. Só então é que poderemos saber melhor quão grande é esta crise.
Entretanto, se quiser saber o que alguns dos melhores economistas mundiais pensam sobre o plano Obama e a crise numa linguagem acessível a todos, vale a pena espreitar aqui.

GUERRA COLONIAL

Um dos websites mais interessantes que tomei conhecimento nos últimos tempos foi este dedicado à Guerra Colonial. Para além dos factos relatados e das imagens impressionantes, o website tem igualmente excelentes fontes estatísticas. Vale a pena ver.

CRISE NO BOTSWANA

O Botswana, o grande e surpreendente milagre económico africano dos últimos 40 anos, começa a sofrer o travo amargo da crise internacional. Porquê? Porque tanto o preço como a procura de diamantes (a maior exportação do país) têm diminuído dramaticamente nos últimos anos.

Já agora, quão grande foi o milagre do Bostwana? Enorme. Em 1966, o país tinha um rendimento médio por pessoa de 80 dólares. Hoje em dia, este valor é de 7,000 dólares. O sistema de saúde funciona bem (apesar de um impacto devastador do HIV/SIDA) e a educação é gratuita até aos 13 anos. Um exemplo que os economistas gostam sempre de enaltecer.

A CORRIDA DO REFUGIADO


A nossa alma caridosa nas Nações Unidas teve uma ideia original durante o Fórum Económico Mundial que se realizou em Davos, Suíça. António Guterres e a sua equipa decidiram fazer a "corrida do refugiado", na qual os participantes do congresso podiam passar por refugiados. Uma experiência única, sem dúvida. E que (surpresa!) foi altamente criticada por alguns dos intelectuais mais influentes do planeta, tais como William Easterly.
PS. Obrigado ao Paulo Ferreira por me ter alertado para esta notícia.

10 fevereiro 2009

NOVO LIVRO


Aí está a capa do meu novo livro, "O Medo do Insucesso Nacional". O livro é editado pela Esfera dos Livros e tem prefácio de Belmiro de Azevedo. Começa a ser distribuído no dia 19 de Fevereiro. Nos próximos dias irei falar um pouco mais sobre o seu conteúdo e as razões que me levaram a escrevê-lo. Entretanto, pode conferir algumas informações adicionais neste lugar.

NEW BOOK

In the postwar period, the Portuguese economy was the second-fastest growing European economy and the country was touted for being one of the most important economic miracles after 1945. After it joined the European Economic Community (EEC) in 1986, the success of the Portuguese economy continued, and Portugal was regarded as an example for other countries to follow in the process of European economic integration and good macroeconomic management. However, in the last 10 years, Portugal witnessed an extraordinary reversal of fortunes, after the country began preparing its adhesion to the European monetary union and the European Union initiated its process of expansion to Eastern Europe. The real exchange rate appreciated and the country’s exports lost competitiveness. An excessively expansionary fiscal policy aggravated budget imbalances and reduced the effectiveness of fiscal policy. Consequently, GDP growth stagnated, trend productivity growth fell, and the convergence process was interrupted.

This is the background behind my latest book, “The Fear of National Failure” which is a policy book that not only aims to analyze the trends of the Portuguese economy in the last few decades, but also discusses several policy alternatives to tackle the recent economic crisis.

The book proceeds as follows. The first part of the book surveys the main factors behind the success and the failure of the Portuguese economy since its adhesion to the European Community. Part II analyzes the economic miracle of the postwar period, and presents the reasons behind the success of the industrialization period. Thus, chapter 4 surveys the economic implications of Salazar’s (and Caetano’s) dictatorship (1926-1974) in the short and in the long run. It concludes that, in spite of unprecedented economic success, the dictatorship left two important structural deficiencies: first, there was low investment in human capital (which still persists today in relative terms), and, second, the regime restricted competition and hindered innovation (which impacted negatively the country’s average entrepreneurial practices). Both factors had considerable long-term consequences for Portugal’s performance in the long run. In turn, chapter 5 studies the economic legacy of the Portuguese empire, and debates the shock that the loss of the empire entailed for the Portuguese economy.

Part III and Chapter 6 present examples of entrepreneurial success, and try to understand the determinants of this success in the context of the Portuguese macroeconomy. Part IV investigates economic policy in the last 2 decades. Chapter 7 analyzes the trends in fiscal policy since 1974, especially in terms of the evolution of budget deficits and public debt. The chapter also emphasizes Portugal’s entry in the European Monetary Union and its impact on the country’s economic policy. Chapter 8 takes a closer look to the causes of the structural deficiencies of the country, especially with regards to the education system, average business practices, as well as the inefficiency of Portugal’s Justice system and its impact on competitiveness and productivity. Chapter 9 looks at Portugal’s business demography (birth, death and survival rates of enterprises).

Chapter 10 appraises the public policy choices of the last decade and presents policy alternatives to some of these policies. A major contribution of this chapter is a critical appraisal of the biggest and most important public works project since the start of democracy: the construction and adoption of high-speed trains in Portugal. After analyzing all the cost-benefit studies of the project, the book concludes that not only there is a high opportunity cost associated with the implementation of the project, but also its adoption will likely restrict even further the role of fiscal policy in the future (due to the increasing level of public debt and the greater budget deficits that the project will necessarily entail). The chapter thus looks at alternatives to the project (more tax and financial incentives to entrepreneurship, better investment in human capital, greater incentives for companies and individuals in the interior of the country) in order to spur Portuguese economic growth.

The last two chapters discuss a few more policy choices for the future. This is the official summary of the book:

“Throughout this book, the reader will get to know that causes of stagnation of the Portuguese economy. The author analyzes Portuguese economic growth, the economic consequences of the dictatorship of Salazar and the losses of the Portuguese colonial empire; [he also] diagnoses the reasons behind economic and social stagnation, including the low quality of education, the inßefficient of the Justice system, the State’s bureaucracy, and the investment in large public works of questionable usefulness; and presents cases of entrepreneurial success as well as stories of success.”

08 fevereiro 2009

OSCAR WAO

"The Brief Wondrous LIfe os Oscar Wao" de Junot Díaz foi um dos livros de ano de 2008, tendo ganho o Pulitzer Prize, entre outros prémios e reconhecimentos. O livro relata a história de um jovem americano de ascendência dominicana e da sua família. É mais um livro da tendência mais interessante da literatura anglo-saxónica, em que emigrantes ou filhos de emigrantes escrevem sobre as experiências das suas comunidades tanto no país de acolhimento como nos seus países de acolhimento, nos quais se incluem Jumpa Lahiri, Ha Jin, entre outros. Através da voz das suas personagens, Díaz relata a crueldade do regime de Trujillo que dominou a República Dominicana durante várias décadas até ser assassinado em 1961, bem como a voracidade sexual do ditador que transformou aquele país caribenho na primeira "culocracia" do mundo (nas palavras de Díaz). Só por isso o livro valeria a pena, pois a ditadura de Trujillo é apresentada aqui numa vertente muito diferente da escolhida por Mário Vargas Llosa no seu excelente livro "A festa do Chibo".
Porém, o romance vale muito mais. A escrita é muito boa, num estilo moderno e fluído, misturando frequentemente o espanhol e o inglês e, assim, representando exemplarmente o inglês falado pelas comunidades hispânicas nos Estados Unidos.
O livro será publicado em Portugal em Abril pela Porto Editora e o meu único voto é que a tradução faça justiça ao texto. Este livro é um clássico à nascença e vale mesmo a pena ler.

05 fevereiro 2009

VETO PRESIDENCIAL

O Presidente da República vetou a alteração da Lei Eleitoral, que acabava com o voto por correspondência dos emigrantes. Ainda bem. Sinceramente não consigo perceber a intenção de tal lei. Só quem não conhece a realidade de outros países (e das comunidades emigrantes) é que pode pensar avançar com uma lei que exigisse aos emigrantes o voto presencial nas eleições legislativas. A verdade é que votar é uma verdadeira aventura para quem reside no estrangeiro. Há muitíssimas dificuldades e obstáculos, que quase impossibilitam os votos dos emigrantes. Só para dar um exemplo, quem residir nas províncias canadianas ou nos estados americanos onde não existe um consulado teria que se meter num avião para ir votar ao consulado mais próximo (a várias horas de distância) ou viajar durante um ou dois dias de carro ou comboio para exercer o ser "direito de voto". Ou seja, ridículo. É assim que se pretende que os emigrantes votem? Ou será que a intenção é exactamente o contrário?
Ora, a alteração da lei peca por ser exactamente o contrário do que devia ser. Em vez de facilitar o voto dos emigrantes através de um maior incentivo ao voto por correspondência (como acontece na maioria dos países ocidentais), a lei penalizava ainda mais o voto não presidencial. Um contra-senso. Uma medida emanada directamente da Idade da Pedra. do tempo em que as novas tecnologias da informação ainda não existiam. Ainda bem que Cavaco Silva percebeu o tremendo erro que se estava prestes a cometer e vetou a lei.

ÁGUA SALGADA

A Austrália está a viver a maior seca da sua história moderna. Há zonas do país que quase não viram chuva nos últimos 10 anos ou, pelo menos, a chuva não tem sido em quantidade suficiente. Uma das regiões mais afectadas é a parte ocidental da Austrália, que inclui Perth, uma cidade de 2 milhões de habitantes. As coisas estão tão más que a cidade viu-se forçada em investir em fontes alternativas de obtenção de água, tais como a dessalinização da água do mar. A cidade tem tido algum sucesso nesta área e já há quem diga que outras cidades australianas vão seguir o exemplo de Perth. Quiçá se o mesmo não terá que ser feito no sul da Península Ibérica, principalmente se algumas das previsões relacionadas com as alterações climáticas se materializarem. (eu sei, eu sei, que este inverno não tem havido falta de pluviosidade. Bem pelo contrário. Porém, o que interessa em relação às alterações climáticas é o longo prazo, não um só ano).

"I SCREWED UP"

E aí temos os primeiros erros da nova administração americana. Depois do novo Secretário do Tesouro ter ser alvo de críticas em relação ao não pagamento de impostos, eis que a escolha de Obama para chefiar o ministério da Saúde americano, o ex-senador, Tom Daschle, foi acusado de não ter pago cerca de $140,000 de impostos e juros de mora. Perante a enorme pressão dos meios de comunicação social e do próprio Congresso americano, Daschle decidiu abdicar do cargo. Na sua entrevista mais recente, Obama já confessou que errou na nomeação. Mais concretamente, Obama disse: "I screwed up". Nem mais. É bom ver um presidente que admite os seus erros, mas, sem dúvida, esta situação não devia ter acontecido numa administração que se queria destacar e distinguir pela transparência e pela "maneira diferente" de fazer as coisas.

03 fevereiro 2009

ESTADOS UNIDOS DA ÁFRICA

Vinte países africanos chegaram a acordo para a criação de um governo federal africano, por forma a melhorar o posicionamento internacional do continente. A ideia parece interessante, principalmente porque augura uma nova era de cooperação num continente onde tantos antagonismos ainda persistem. Porém, será mesmo possível avançar com tal projecto? Sinceramente duvido. Não acredito que um governo federal africano se torne realidade num futuro minimamente próximo. No entanto, desde que tal iniciativa dê azo a uma maior cooperação, tudo bem. Para além do mais, seria bom que tal servisse para que o mapa de África fosse parcialmente redesenhado. É que é conhecido que um dos problemas do continente é a existência de inúmeros países inviáveis, principalmente aqueles que não têm acesso ao mar e estão rodeado de vizinhos em conflito, tais como o Chade ou a República Central Africana. É bem sabido que as antigas potências coloniais agravaram o problema ao criarem países artificiais sem respeitar as divisões étnicas. Por isso, há muitos que advogam a fusão de um ou mais países africanos para aumentar a sua influência e viabilidade política e económica. Talvez o diálogo originado pela iniciativa de criar um estado africano ajude a criar estados mais estáveis e mais viáveis. Se for assim, só por isso, esta iniciativa é de louvar.

20 MILHÕES DE DESEMPREGADOS

Um dos países mais afectados pela crise global tem sido a China. O crescimento económico ainda é relativamente forte, pelo menos comparado às restantes economias, mas o sector exportador tem sido de tal modo atingido que o desemprego não pára de crescer. Segundo as estimativas mais recentes, mais de 20 milhões (sim, 20 milhões de trabalhadores já perderam os seus empregos nos últimos meses). Dois Portugais. E estes são só os trabalhadores que regressaram às suas terras no campo. A estes ainda temos que adicionar os que decidiram ficar nas cidades, para os quais ainda não há estimativas. Um problema social colossal, que pode vir a ter consequências bastante desagradáveis para o regime chinês.

02 fevereiro 2009

AINDA O FREEPORT

O caso Freeport continua a dar que falar. Independentemente das nossas preferências políticas pessoais, há dois princípios que me parecem evidentes. Primeiro, mesmo que as investigações em curso o ilibem de qualquer culpa, dificilmente José Sócrates livrar-se-à do clima de suspeição em redor da sua pessoa. É mais ou menos natural que assim o seja, principalmente após o lamentável episódio da licenciatura que o envolveu.
Segundo, ninguém ganhará com todo este imbróglio. Se José Sócrates for considerado culpado, Portugal perde, pois nenhum país ganha quando o seu primeiro-ministro é acusado de corrupção. O PS perderá, certamente, mas também é difícil pensar que o PSD será o grande beneficiário. Sinceramente não sei se o principal partido da oposição estará preparado para que o poder lhe caia de bandeja nas mãos. Posso estar enganado, mas penso que não está. Além do mais, num cenário semelhante, um governo do PSD seria sempre acossado pela ideia que o poder não foi ganho pelo mérito, mas por sorte. Que força teria tal governo para reformar perante estas condições?
Acima de tudo, seria verdadeiramente lamentável se este caso resolvesse os destinos da governação, que devem ser resolvidos nas urnas e não nos tribunais. Sinceramente não sei o que pensar sobre o caso, pois não temos a informação completa sobre o que se passou. O que sei é que esta tremenda distracção não nos serve de muito. Numa altura em que devíamos estar a efectuar um debate sobre as medidas mais adequadas de combate à crise, permanecemos imobilizados por este folhetim político que nos ameaça arrastar para um mal-estar ainda maior do que o actual.

O AGRAVAMENTO DA CRISE

A crise económica internacional continua a agravar-se. Na última sexta-feira ficámos a saber que a economia americana contraiu-se 3,8% no último trimestre de 2008. Parece muito e é. De facto, é a maior contracção da economia americana nos últimos 27 anos. Mesmo assim, e por mais paradoxal que possa parecer, muitos economistas congratularam-se com as notícias. É que os mercados estavam à espera de, no mínimo, uma contracção de 5,5%. É caso para dizer: do mal, o menos. Ainda assim, é por demais evidente que a luz ao fundo do túnel não se vislumbra. As coisas vão certamente piorar antes de melhorar.

A SUPERBOWL DA COMIDA

Ontem realizou-se o maior espectáculo desportivo do ano na América do Norte, a chamada Superbowl, ou o jogo final do campeonato de futebol americano. A Superbowl é um enorme espectáculo mediático, que movimenta somas astronómicas de dinheiro e de recursos.
Estima-se que, durante o jogo, os americanos consumiram cerca de 15 milhões de quilos de "snacks", incluindo cerca de 6 milhões de quilos de batatas fritas, 4 milhões de quilos de tiras de milho, 2 milhões de quilos de salgadinhos e mais de 1,5 milhões de kg de nozes. A juntar a isso, estima-se que mais de 5 milhões de quilos de guacamole foram deglutidos pelos adeptos. A cerveja terá sido igualmente em abundância. Uma festa em cheio, sim senhor.
Ah, já agora, quem ganhou o título foram os Pittsburgh Steelers, com uma jogada alcançada no último minuto (a foto, retirada daqui, é do lance que ganhou o encontro).

A VERTIGEM DO EURO

Um artigo de opinião no Financial Times sobre o euro que vale a pena ler. O artigo é da autoria de Edward Chancellor e descreve algumas das principais conclusões de um livro sobre os 10 anos do euro. Aqui estão alguns excertos:
"In 1973 Derek Mitchell, a British Treasury official, observed that the loss of exchange rate flexibility would remove a simple method for rectifying imbalances between Europe’s economies. Without the option of exchange rate depreciation, once imbalances appeared “equilibrium could only then be restored”, declared Mr Mitchell, “by inflation in the ‘high performance’ countries and unemployment and stagnation in the ‘low performance’ countries, unless central provision is made for the imbalances to be offset by massive and speedy resource transfers”...
"Europeans are paying the price for the oversights of their former political masters. Since the euro came into existence a decade ago, consumer prices in Portugal, Ireland, Italy, Greece and Spain have risen by an average of about 20 percentage points more than in Germany. They have also experienced lower productivity growth. In addition, they have run large current account deficits and, with the exception of Italy, have experienced tremendous housing bubbles and credit booms. The ECB inadvertently contributed to the credit booms by setting an excessively low interest rate for fast-growing economies, such as Ireland.
In the past, the weaker European economies faced with the current crisis would have simply devalued their currencies. With that option closed by monetary union, their economic outlook appears dire..."
As former German Chancellor Helmut Schmidt says “the great strength of the euro [is] that nobody can leave it without damaging his own country and his own economy in a very severe way”.
"However, the alternatives aren’t pleasant. Germany might be forced to make reluctantly huge fiscal transfers to eurozone countries with large current account deficits, such as Spain. But this wouldn’t make them more competitive. As former Bundesbank president Karl-Otto Poehl says: “The other European countries have no choice [but] to . . . embark on a course of cost-cutting.”

O MAGALHÃES INDIANO

Já se sabia que o Magalhães não era tão original como o tínhamos pintado. Afinal, tanto o MIT como os taiwaneses têm computadores semelhantes com um custo a rondar os 100 dólares. Porém, agora a competição ficou ainda mais acérrima. A Índia, a braços com uma "explosão" do sector informático e com uma oferta quase ilimitada de engenheiros informáticos de qualidade a baixo preço, vem agora informar que pretende introduzir um computador portátil para crianças que irá custar a módica quantia de 20 dólares. Se o projecto resultar (em grande se...), a concorrência irá ter que se adaptar a preços tão competitivos. Quando souber das notícias, vamos lá ver se Hugo Chavez não cancela a sua encomenda de Magalhães e vai comprá-los à Índia... Esperemos que não.

23 janeiro 2009

A CRISE E A DÍVIDA

O meu artigo do PUBLICO de hoje:

A CRISE E O SOBREENDIVIDAMENTO NACIONAL
Uma das tendências menos salutares da economia portuguesa tem sido a acentuada subida do endividamento nacional. Assim, enquanto, em 1990, a taxa de endividamento em relação ao rendimento disponível rondava os 18%, em 2007, este valor tinha subido para quase uns astronómicos 130%. Não restam dúvidas que o endividamento nacional foi um dos efeitos perversos da nossa adesão ao euro e da descida das taxas de juros que lhe esteve associada, que levaram muitas famílias e empresas a endividarem-se para níveis nunca dantes vistos. Para agravar a situação, no final dos anos 1990, o nosso Estado paternalista aumentou desmesuradamente as despesas públicas, o que levou a uma correspondente subida do endividamento.
Como é que financiámos este endividamento? Através do recurso a empréstimos que terão que ser pagos pelas gerações futuras, e através de um maior endividamento externo. Actualmente, o nível do endividamento externo bruto já ultrapassa os 200% do PIB nacional, um valor que nos coloca no top 20 dos países mais endividados do mundo. A situação só não é mais grave, porque já não temos o escudo e a nossa dívida externa está em euros.
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Mesmo assim, o elevado endividamento nacional poderá ser bastante nefasto no contexto da crise internacional. Em particular, enfrentamos um dilema de difícil resolução. Por um lado, num ano que se adivinha difícil, um dos motores da retoma económica passaria por estimular a procura interna. Porém, incentivar o consumo penaliza a poupança e poderá agravar a situação de endividamento já existente. Por outro lado, apostar em projectos de investimento que necessitam de financiamento externo (como o TGV) irá exacerbar ainda mais a dívida externa. O endividamento nacional deixa-nos, por isso, um pouco de mãos atadas.
É certo que a recente descida das taxas de juros irá aliviar os encargos financeiros de muitas famílias portuguesas. Porém, se situação económica se agravar significativamente, a descida dos juros não será suficiente para travar uma possível onda de incumprimentos no pagamento das dívidas. Não adianta muito poupar na prestação da casa se o emprego faltar. Por isso, internamente, o sobreendividamento das famílias portuguesas tem uma consequência imediata: a saída da crise certamente não acontecerá impulsionada pelo consumo.
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O endividamento nacional é ainda mais preocupante se nos lembramos de que uma das consequências da crise financeira internacional tem sido a contracção do crédito. Deste modo, é provável que os credores internacionais restrinjam o crédito às instituições financeiras nacionais e/ou exijam mais contrapartidas na concessão de novos créditos. Ou seja, nos tempos mais próximos, teremos menos crédito à nossa disposição e, ainda por cima, mais caro. Menos crédito implica menos investimento e, por consequência, menor crescimento económico. Isto é, o endividamento nacional tem efeitos concretos para a economia portuguesa.
Para além do reescalonamento das dívidas, como é que podemos minorar esta situação? Promovendo a poupança nacional e canalizando-a tanto para o investimento produtivo, como para o pagamento das dívidas. Neste sentido, em vez de pensar em gastar mais, o Estado devia dar o exemplo, ao conceder benefícios fiscais à poupança e ao investimento. Em vez de investir em projectos megalómanos, o Estado devia concentrar-se em ajudar as famílias em dificuldades, bem como em auxiliar a competitividade fiscal das empresas. Acima de tudo, o Estado devia compreender que continuar a apostar numa política de betão sem sentido é não só contraproducente, como também agravará ainda mais o grave problema do endividamento nacional.

21 janeiro 2009

AS PRIORIDADES ECONÓMICAS DE OBAMA

Acabada a festa, hoje começa o trabalho para Obama e a sua equipa. Um trabalho que não se augura nada fácil. Debati as prioridades económicas de Obama numa entrevista à edição online do Expresso e da EXAME. Aqui está um excerto:
Quais são as prioridades na área económica da administração Obama?
ASP- As prioridades serão, certamente, estancar a crise financeira e combater a recessão. Apesar dos mercados estarem mais calmos, as repercussões da crise ainda se fazem sentir, de modo que, nos próximos meses, a Reserva Federal e a nova Administração terão de continuar a dar especial atenção ao sistema financeiro. Para tal, a segunda tranche do plano de resgate será utilizada brevemente.
Porém, a partir de hoje, a prioridade das prioridades será dada ao combate à crise económica. Nos próximos meses, nada dominará as atenções dos americanos como a recuperação económica e a luta contra a crise actual (a não ser que, claro, aconteça qualquer cataclismo inesperado).
Uma terceira prioridade, de longo prazo, será a luta contra as alterações climáticas, tornando mais "verde" a economia norte-americana.
O resto da entrevista está aqui. O artigo relacionado, da autoria de Sónia Lourenço, está aqui.

FOI BONITA A FESTA, PÁ (2)





A festa de inauguração vista no Quénia, no Iraque, e em Moscovo. (fotos do NYT)

FOI BONITA A FESTA, PÁ






Fotos da inauguração de Obama (retiradas daqui e daqui).

20 janeiro 2009

É HOJE


O mundo será mais bonito a partir de hoje. A história de Obama é extraordinária e faz-nos acreditar num futuro melhor. Obama poderá não conseguir "mudar" o mundo, mas que o mundo está mais bonito está.

17 janeiro 2009

FERREIRA LEITE E TGV

Manuela Ferreira Leite parece finalmente mais sintonizada com a realidade nacional. Na sua mais recente entrevista à RTP, a líder do PSD revelou que irá riscar o TGV se for eleita primeira-ministra. Faz muito bem. O TGV é o nosso maior erro financeiro e estratégico das últimas décadas. Revelou ainda que não leu os estudos custo-benefício do TGV. Devia ler, pois aprenderia muito sobre o projecto. A alternativa é ler o meu próximo livro, onde estas questões são extensamente debatidas...

NOTAS DE TRILIÕES

O Zimbabwe de Mugabe introduziu mais uma originalidade: notas de triliões de dólares do Zimbabwe. Ou um milhão de milhão se preferirem. Ou 1,000,000,000,000. A partir desta semana serão emitidas notas de 10 triliões de dólares, de 50 triliões e de 100 triliões. Quanto é que valem? Neste momento, e dando o desconto de que a taxa de câmbio oficial é bastante favorável em relação ao mercado negro, 10 triliões de dólares valem cerca de 20 euros.
Vale a pena ainda lembrar que as notas de 100 biliões de dólares foram introduzidas apenas na semana passada. Como a inflação já está acima dos 250 milhões de por cento por ano, é natural que o regime de Mugabe continue a aumentar o número de zeros nas notas, para mais tarde fazer correcções monetárias cortando 6 ou 7 zeros, para ainda mais tarde voltar a introduzir ainda mais notas de biliões e de triliões, para para para...
O processo irá continuar até alguém decidir que é chegada a hora de acabar com a emissão desmesurada de moeda. É provável que Mugabe não o faça. Pelo menos tão cedo. Até lá o Zimbabwe de certo entrará para o Guiness Book por ser a nação com o maior número de bilionários à face da Terra. É pena que sejam bilionários, mas com fome...

15 janeiro 2009

MAIS CRISE NA CHINA

E ainda mais indícios que a economia chinesa começa a estar bastante afectada pela crise internacional. Ontem soube-se que o défice externo americano de Novembro foi o mais baixo dos últimos 12 anos. Porquê? Porque as importações americanas baixaram drasticamente por causa da crise. Como o consumo baixou muito, a economia importa menos e o défice externo fica mais reduzido.
Deste modo, há menos procura externa por parte dos americanos, o que tem enormes reflexos nas restantes economias, incluindo a China. Há já até quem diga que a China poderá ser uma das economias mais atingidas pela crise internacional.

ECONOMIA AMERICANA


O Fonseca manda-nos o link para este cartoon bem pertinente sobre a economia americana.

JUROS ZERO (2)

Ainda a propósito do post sobre os juros zero nos EUA, gostaria de agradecer os comentários. O DeKuip tem toda a razão. São 0,75 pontos percentuais e não 75 pontos percentuais. Obrigado, já emendei o post.
OAlfred the Pug contesta a existência da armadilha da liquide e diz:"A Fed ainda pode utilizar a política monetária através da compra e venda de Treasury Bills, papel comercial, etc. Aliás, muitas destas ferramentas foram propostas por Bernanke há uns anos atrás antes de ele ser Chairman of the Federal Reserve e muitas delas já foram utilizadas."
Sem dúvida. Ainda há margem de manobra. O problema é quehá o risco da política monetária não ser mais eficaz se a liquidez adicional oferecida aos bancos não for utilizada. É em parte o que está acontecer, pois os bancos continuam muito relutantes em conceder crédito. No fundo, o que eu queria alertar nesse post era a possibilidade debatida por Paul Krugman de que a economia americana poderá estar a chegar a um ponto em que a politica monetária já não é eficaz para estimular a economia.

CONTESTAÇÃO EM ISRAEL

Segundo o New York Times, alguns grupos de defesa dos direitos humanos israelitas pedem a realização de um inquérito sobre a invasão de Gaza. Estes grupos não contestam a necessidade de Israel se defender dos "rockets" palestinianos. O que contestam são os métodos utilizados pelo exército israelita. Independentemente da nossa opinião pessoal sobre este assunto tão politizado, é importante que haja o mínimo de isenção (e bom senso) quando se analisa este assunto. Isenção que quase nunca existe. De parte a parte. E é por isso que esta tomada de posições por parte deste grupos é tão significativa.
Aliás, é interessante observar que quando se fala deste conflito, nem mesmo os meios académicos escapam à tentação de politizar o assunto. Habitualmente, muitos académicos preferem manter-se alheios às ideologias reinantes. Porém, quando toca ao conflito Israel-Palestina, a isenção é quase sempre um bem muito escasso. É uma pena, porque frequentemente as informações que nos chegam (dos dois lados) são tudo menos isentas.

O LEGADO DE BUSH


Já falta menos de uma semana para os Estados Unidos e o mundo se livrarem de George Bush. Os americanos já debatem o legado de Bush. Quanto a mim, se há uma palavra que o define é: desastre. Desastre para a América. Desastre para a imagem e o estatuto dos Estados Unidos no mundo. Desastre para o Ocidente. Desastre para o Médio Oriente. Desastre com Katrina. Desastre com uma guerra iniciada à custa da mentira. Desastre com os direitos humanos. Desastre total com a economia.
Para quem não gostar da palavra desastre, então uma alternativa seria: incompetência. Incompetência pura e simples. Incompetência gritante. Incompetência descarada. Incompetência na gestão da guerra. Incompetência na gestão dos desastres naturais. Incompetência total na gestão da economia. Uma incompetência desastrosa.
Bush vai-se embora a 2 de Janeiro. Ainda bem. Só é pena já ir tarde.

13 janeiro 2009

EURO MENOS UM?

Durante a crise financeira, o euro foi várias vezes elogiado por ser uma âncora de estabilidade e como uma moeda de reserva internacional. Países como a Islândia e até a Dinamarca reiniciaram a discussão sobre uma hipotética adesão ao euro, por forma a evitar a instabilidade que as respectivas moedas sofreram durante a crise. Ou seja, boas notícias para a moeda única.
Porém, agora que as coisas estabilizaram um pouco, começaram a surgir indícios que, afinal, a saúde da Eurolândia não é assim tão recomendável. Há países, como Portugal, a Espanha, a Irlanda e a Grécia, onde a contracção do crédito tem sido bastante acentuada. Estes problemas foram ainda mais exacerbados pelo sobreendividamento do Estado e das famílias), o que tem reduzido consideravelmente a disponibilidade de crédito nestes países. Os níveis de endividamento são tais que, quando os bancos desses países se tentam financiar no estrangeiro, não conseguem ou só o alcançam com condições menos favoráveis. (No fundo, tudo se passa como quando um indivíduo acumula demasiada dívida em cartões de crédito, em prestações, etc. Se quiser obter mais crédito ou refinanciar a dívida, terá que enfrentar condições mais severas, inclusivamente juros mais elevados).
Por isso, quando os Estados respectivos se tentam financiar através da emissão de obrigações da dívida pública, vêem-se obrigados a aumentar o retorno dessas obrigações (com juros mais altos) para tentar aliciar possíveis investidores.
Conclusão? Nas últimas semanas, o diferencial entre as principais obrigações alemãs e as obrigações espanholas, as gregas, as irlandesas, e as portuguesas, já aumentou 4 vezes desde meados de 2008, um nível que ainda não tinha sido visto desde a criação do euro.
^
Qual é o problema? O diferencial entre as diversas obrigações nacionais são de tal modo elevadas que há já quem ponha em causa a coesão da moeda única, de maneira que há já quem aposte que um dos países "periféricos" irá ser forçado a abandonar o euro até 2010. Sinceramente, não acredito que tal aconteça, pois os países da Eurolândia sabem que as consequências para a estabilidade da moeda única seriam bastante negativas. Porém, vale a pena pensar sobre o assunto e perceber as razões que nos levaram a chegar a este ponto.
Se quiser saber mais, vale a pena ver este video do Financial Times.

12 janeiro 2009

OS PREÇOS DE MUGABE

Algumas imagens da inflação no Zimbabwe (imagens retiradas daqui). Em Dezembro, a inflação no país de Mugabe já ultrapassava 231 milhões de por cento ao ano...







A DIMENSÃO DOS EUA

Um mapa que mostra a equivalência do PIB dos estados americanos com o PIB de outros países. A produção total de Portugal equivale à do pobre estado da Lousiana.
Mapa retirado daqui.

A CRISE E A CHINA

Há cada vez mais indícios que a China não está incólume à crise internacional. Como a procura externa diminuiu significativamente, milhares de fábricas chinesas já fecharam as portas, lançando dezenas de milhares de trabalhadores para o desemprego ou de volta para as suas aldeias e vilas. Agora, surgem cada vez mais notícias que os investidores estrangeiros estão a vender bens e activos na China por forma a aumentarem a sua liqudez nos seus países de origem.

DE VOLTA

Após um longo interregno, motivado pelo período festivo e pela revisão do novo livro, o Desmitos está de volta. Peço desculpa pelo silêncio, mas não me foi possível escrever anteri.ormente. Foi por um bom motivo (assim espero...). Nos próximos dias o Desmitos regressa à sua frequência diária e os comentários enviados serão respondidos devidamente.
Gostaria de agradecer todos os votos de bom Natal e de Ano Novo. Gostaria igualmente de desejar um óptimo 2009 a todos. Curiosamente, a mensagem que recebi mais frequência de amigos economistas foi "esperemos que os economistas estejam enganados sobre 2009". Esperemos que sim. É provável que não, mas esperemos que sim.