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21 abril 2008

ENTREVISTA AO DIÁRIO DO MINHO

DM – É um dos conferencistas das XX Jornadas Teológicas de Braga, subordinadas ao tema “O big bang de Deus: Criacionismo e evolucionismo”. Em sua opinião, qual é a importância do debate no contexto actual?
O debate é fundamental, tanto a nível religioso como para a sociedade civil. O crescimento do movimento criacionista é extremamente preocupante. O criacionismo é, por natureza, fundamentalista, pois só admite uma verdade absoluta e incontornável. O diálogo e a crítica informada são as melhores formas de combater este fundamentalismo.

DM – A par da sua actividade como docente de economia na Universidade de York e em Vancouver, escreveu já vários livros. Como surgiu esse gosto pela literatura?
A literatura está-me na alma, no sangue. Não sei viver sem literatura, sem ler ou sem escrever. Poucas coisas me fazem tão feliz como escrever. Quando acabo um romance é quase como ter um filho. É uma das melhores sensações do mundo.

DM – Um dos seus livros que mais celeuma deu foi “Diário de um Deus criacionista”, que nos irá apresentar. Em breves palavras, qual é a intenção do livro? Defende evolução e criação, ou exclusivamente uma?
Em parte, o livro é uma sátira ao criacionismo. Mas é muito mais que isso. O livro é uma reflexão sobre as consequências do tempo. Por exemplo, se a eternidade é infinita (com triliões e triliões de anos) e Deus é eterno, então porque é que o universo existe há somente 14 biliões de anos? Porque é que Deus levou tanto tempo a criar um universo? Ou, por outro lado, o que é que acontecerá à nossa relação com Deus daqui a mil anos, um milhão de anos, mil milhões de anos?
Por outro lado, o livro tenta abordar algumas das questões que os teólogos e cientistas muitas vezes se defrontam. Por exemplo, se Deus é omnipresente e omnisciente, se Deus conhece todo o passado e todo o futuro, então como é que permitiu a criação do Diabo, o Mal? Porque é que Deus não acaba com o Diabo? A minha resposta é que Deus o fez por escolha própria. Antes de criar o universo, Deus esteve só, demasiado só, durante demasiado tempo. Assim, quando cria o universo prefere introduzir um elemento de incerteza, de dúvida. No livro, Deus afirma que não valia a pena criar um universo em que não existissem surpresas. Se fosse assim, mais valia sonhá-lo do que criá-lo. Por isso, as surpresas acontecem. E quando as surpresas acontecem podem aparecer entidades que se rebelam contra Deus, tais como Satanás.

Em relação ao criacionismo e o evolucionismo, eu não defendo nada que, por exemplo, o Papa não advogue. A igreja católica e o Papa gostam da ideia do Big Bang, porque dá azo à criação do universo por parte de uma inteligência superior chamada Deus. Deus cria as condições da vida e a vida evolui. O livro parte da mesma hipótese, em que Deus cria o universo, mas deixa-o evoluir, excepto nalgumas circunstâncias especiais em que é forçado a intervir.

DM – O tema do evolucionismo e do criacionismo tem estado muito em debate nos EUA, sobretudo no que diz respeito ao ensino de uma ou de outra. Afinal, o que é que está em jogo? Concorda que ambas devam fazer parte do currículo escolar, ou apenas se deve dar primazia ao estudo da evolução?
O que está em jogo é a visão moderna do mundo, é saber se defendemos o fundamentalismo ou o diálogo. O criacionismo é, por natureza, fundamentalista, não-dialogante. No criacionismo só há uma verdade, a da leitura literal da Bíblia. Ora, como um grande número de teólogos também defende, a Bíblia foi escrita num determinado contexto histórico, e, por isso, contém uma linguagem e alegorias apropriadas para a época em que foi redigida. Quando se diz que Deus criou a mulher a partir de uma costela do homem, o que está em causa é uma metáfora ou uma alegoria. Ora, os criacionistas lêem esta e todas as outras passagens da Bíblia como sendo literais. E aí é que está o perigo. Aí é que está o fundamentalismo.

Neste sentido, sou completamente contra a introdução do criacionismo no currículo escolar. É uma perversão completa da realidade histórica e científica actual. Se queremos mesmo ensinar o criacionismo, tal não deve ser feito nas escolas públicas, mas sim nas instituições religiosas apropriadas.

DM – Acredita que o pensamento religioso e a razão científica podem estabelecer pontes de diálogo neste tema em debate e noutros? Quais os contributos de ambas para o ser humano?
Completamente. Aliás, foi por isso mesmo que quando lancei o meu livro, fiz questão de convidar um padre e um cientista, para que pudéssemos todos dialogar sobre questões que interessam a todos. As pontes de diálogo podem e devem ser estabelecidas entre a religião e a ciência, pois é através do diálogo que se diminui a intolerância e a incompreensão de parte a parte. Se não houver diálogo só resta uma alternativa, o fundamentalismo. E todos sabemos bem onde o fundamentalismo costuma levar...

DM – “O olhar da literatura sobre a criação e evolução” é o tema que o traz a estas XX Jornadas Teológicas. O assunto tem sido devidamente tratado pelas diversas áreas da literatura (romance, ciência, filosofia, teologia…), dada a proliferação de livros sobre esta temática?
Já se falou e escreveu muito sobre o assunto, mas podemos ter a certeza que continuaremos a debater apaixonadamente estas questões nos próximos anos e nas próximas décadas. Ainda há muito para falar, analisar e discutir. A única certeza que podemos ter é que, neste assunto, nunca haverá uma palavra final.

20 março 2008

VISITA A PORTUGAL


No próximo dia 21 de Abril estarei em Braga, onde participarei nas XX Jornadas de Teologia, que este ano têm por tema "O Big Bang de Deus". Irei falar sobre literatura, mais especificamente do meu livro "Diário de um Deus Criacionista". As jornadas são organizadas pelos estudantes de Teologia da Universidade do Minho e pela revista Cenáculo.

04 janeiro 2008

UM ANO DEPOIS


Há exactamente um ano, estava eu numa entrevista de emprego em Vancouver quando recebi um email do Manuel Fonseca, na altura editor da Guerra e Paz, a informar-me que tinha lido 50 páginas do Diário de um Deus Criacionista e que tinha gostado tanto do que tinha visto que me propôs a imediata publicação do livro, mesmo sem ler as restantes páginas. Escusado será dizer que fiquei tão satisfeito com as novidades que a entrevista de emprego correu muitíssimo bem e, assim, uns meses mais tarde, regressei à cidade mais bonita do Canadá.
Uns dias mais tarde encontrei-me pela primeira vez com o Manuel em Lisboa para combinar os detalhes da efectiva publicação do romance. Nessa ocasião, o Manuel perguntou-me (e desafiou-me) se não gostaria de escrever um livro de Economia num estilo mais descontraído, um desafio que aceitei uns dias mais tarde. Foi assim que surgiu o Mitos da Economia Portuguesa.
Entretanto, o Criacionista foi publicado em finais de Abril. O blog do livro encontra-se aqui.

Vale a pena recordar que este é "um diário da História de Deus e da Sua solidão infinita durante biliões e biliões e biliões e biliões de anos e da Sua magnífica e bela Obra e do BIG BANG e da incrível criação dos universos e do Tempo e da matéria e das estrelas e da expansão desmesurada do Cosmos-que-atingiu-uma-ENORMIDADE-tal-deixou-o-Divino-com-os-nervos-em-franja e do aparecimento dos Anjos e da rebelião do Diabo e do desenvolvimento da vida e dos dinossauros e do maldito asteróide que os aniquilou e do crescimento dos mamíferos e dos símios-que-desceram-das-árvores e dos símios-grunhidores-que-tanto-irritaram-o-Eterno e de Adão e de Eva e de Noé e de Abraão e de Sara e de Moisés e de todos os restantes protagonistas de todos os livros sagrados e de todos os santos e de todos os tementes do seu Criador, que é só Um, Uno, Infinito e Sagrado. Esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com a realidade poderá ou não ser coincidência. Só Deus saberá.”