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20 abril 2009

COMENTÁRIOS AO "MEDO DO INSUCESSO" (2)

Comentários de José Batalha, dirigente de uma cooperativa de habitação e estudante universítário, ao Medo do Insucesso, seguido das minhas respostas:
"Sou um "jovem" estudante universitário de 55 anos de idade, que entrou na Universidade ao abrigo do programa para maiores de 23 anos, por não ter concluído ensino secundário em devido tempo,mas espero concluir a licenciatura em Turismo este ano. Nada sei de economia embora goste muito do tema. Li o seu livro "Os mitos da economia portuguesa" e gostei muito.
Acabei agora de ler "O medo do insucesso nacional" e não resisti a fazer alguns comentários.
Genericamente concordo consigo.
Não me parece que venha grande mal ao mundo se o défice orçamental, pontualmente, exceder os 3% do PIB (este ano provavelmente será perto do dobro), principalmente se a sua origem se dever a investimentos claramente reprodutivos. Já tenho grande relutância relativamente a défices (qualquer que seja a sua dimensão) devidos a maus investimentos e a uma Administração Pública gorda e ineficaz. Por outro lado, quando esses défices se prolongam continuamente por mais de 30 anos, não vejo como os encargos com a dívida pública que originam não se tornem um fardo insuportável. Isto partindo do princípio que será possível continuar a financiá-los, pois como sabemos o dinheiro está a ficar cada vez mais escasso e mais caro.
Não tenho qualquer dúvida em que temos de apostar numa Educação a sério, mesmo que isso, no curto prazo, leve a um aumento de chumbos por falta de preparação de base e, quiçá, a um aumento do abandono escolar. Fiquei contente em saber que os seus filhos andam numa escola boa pública, mas fiquei com uma dúvida. Essa escola é em Coimbra ou em Vancouver?
Também estou contra a construção do TGV e acho que as pessoas que têm algum acesso aos Media deviam lançar uma petição na Internet contra este projecto ou até apelar a que nas próximas eleições se anule o voto escrevendo no boletim "Não ao TGV", mas temo que já seja demasiado tarde para o parar.
Também sou favorável, numa situação normal, a impostos tão baixos quanto possível, mas na actual situação tenho dúvidas que a baixa dos impostos se traduzisse por um acréscimo de consumo ou de investimento. Penso que neste momento o investimento público pode dar resultados mais rapidamente, desde que sejam investimentos criteriosos e não TGVs e auto-estradas supérfluas. Infelizmente ainda não vi por parte das oposições alternativas credíveis.
Também concordo que são precisas medidas radicais e audaciosas para combater a desertificação do interior do país (e não é a regionalização que resolverá o problema) mas estamos a entrar num círculo vicioso (não há pessoas porque não há empregos mas também não há empregos porque não há pessoas) de que será difícil sair.
Não sou um pessimista militante e sei que o país não irá fechar, mas tenho alguma dificuldade em já ver a Primavera só pelo facto de termos algumas (poucas) andorinhas. Termino desejando que em breve possa estar numa Universidade portuguesa, ajudando a mudar este país."
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Obrigado José Batalha. Antes de mais, parabéns por ter decidido voltar a estudar. Acho que tomou a decisão acertada, que certamente trará não só benefícios pessoais, mas também colectivos. Alguns dos meus melhores alunos foram os chamados "mature students" e é bom saber que há cada vez mais portugueses a seguir o caminho de uma maior escolarização. Em relação aos seus comentários, aqui vão as minhas respostas:
1) défice orçamental. Concordo plenamente. Apesar de ser contra o fundamentalismo do défice orçamental que vigorou nos últimos anos, sou plenamente a favor da introdução de legislação que obrigue os governos a atingirem o equilíbrio orçamental ao longo do ciclo político. As consequências das irresponsabilidades orçamentais estão bem à vista de todos e não é aceitável que nos últimos 35 anos não tivemos um ano sequer de equilíbrio orçamental A consequência é exactamente essa: mais impostos.
2) Sou, de facto, um adepto da escola pública, quando é possível, isto é, quando há qualidade. Porém, não sou um fundamentalista sobre o assunto. Se não houver qualidade, no ensino público, acho que os pais devem procurar outras alternativas, se de todo for possível. Acho que deve haver mais escolha e que a concorrência é boa para todos, para o ensino privado e público. Os meus filhos andam numa escola pública em Vancouver, porque é aqui que moro. Se estivesse em Coimbra (onde moro quando estou em Portugal), os meus filhos estaria na escola pública perto da minha casa.
3) TGV. Concordo consigo. E, sinceramente, espero que ainda não seja tarde de mais...
4) Pessimismo e regresso. Sei bem que é muito fácil criticar quando se está de fora. E sei que é mais fácil ser menos pessimista por não estar a viver em Portugal actualmente. Também acho que é mais que natural que os portugueses estejam descrentes. A crise já se prolonga há uma década e ainda não se vislumbra a luz ao fundo do túnel. O que fazer? O primeiro passo tem que ser mudar algumas das políticas do país. Temos que apostar numa verdadeira política de competitividade e apostar em políticas que melhorem os nossos sistemas de incentivos. Quanto ao meu possível regresso, como disse nas últimas páginas do "Mitos da Economia Portuguesa", eu tenciono voltar pois acredito no futuro do país. Se não acreditasse, não equacionaria um regresso, pois tal decisão iria afectar negativamente o futuro dos meus filhos. Por isso, quando surgir uma oportunidade concreta e realista, eu volto a Portugal. Obrigado.

17 abril 2009

COMENTÁRIOS AO "MEDO DO INSUCESSO"

Nos próximos dias irei publicar comentários e críticas dos leitores ao "Medo do Insucesso Nacional", tentando responder o melhor possível. Começo hoje com os comentários de Rolando Almeida, filósofo, professor e autor do blogue A Filosofia no Ensino Secundário:
"Como a economia não é a minha área tenho maiores dificuldades em encontrar falhas no teu livro, mas confesso que não foi para isso que o li, para encontrar falhas. Li-o sobretudo porque gostei do Mitos e da forma fresca e lúcida como aborda o nosso país. E Medo tem também essa força. Fecho o livro em cada capítulo que leio e pergunto: porque não? De resto existem ali ideias que tenho defendido, ainda que sem a visão da economia. Isto faz-me lembrar o ambiente que se instalou nas escolas aquando das primeiras directrizes para a avaliação dos professores. De repente todos os professores falavam que ia ser tramado já que todos iam fazer a vida negra a vida uns dos outros. Foram muitas as vezes que perguntei aos colegas, mesmo aos mais velhos:”mas por que razão tem de ser assim?”. É que tal atitude nem nada a ver com a avaliação em si, mas com o espírito com que as pessoas encaram as novidades e os novos desafios. O que mais observei nessas curtas conversas é o conservadorismo, e, agora posso dizê-lo, o medo do insucesso nacional. Ainda ontem disse a uma colega uma coisa e ela reagiu com choque e desaprovação completa. Disse algo tão simples como: “os principais responsáveis pelo insucesso educativo é dos professores.” Disse-o dentro da escola e por momentos ela esqueceu que eu também sou professor do ensino secundário desde os meus 21 anos (e já tenho 35). Bom, mas vamos aqui a uns comentários avulsos:
Na p. 208, apresenta uma comparação dos salários dos juízes. Só uma nota: em relação ao salário médio do país, é verdade que os juízes portugueses ganham muito mais que os seus congéneres de outros países. Acontece que o salário médio português deve ser muito mais baixo que os seus congéneres, de modo que se explica essa distância. É verdade que a disparidade existe. Mas serão os juízes que estão a auferir salários altos ou os restantes que auferem salários muito baixos? Ou seja, o problema não é o que os juízes ganham, mas o preço do salário médio. Mas posso estar a ver mal a coisa.
Fiquei também com algumas dúvidas em relação ao que diz dos políticos. Segundo lembro, defende que o privado paga melhor e os melhores preferem trabalhar para o privado do que enveredarem pela política, já que os salários são pouco competitivos. Eu não vejo isso assim. E não vejo em primeiro lugar porque ser político em Portugal significa ter um poder de influência demasiado grande e poder beneficiar empresas (em que os políticos ou familiares são sócios), para além de que, se não estou em erro, ao fim de 2 mandatos um governante tem direito a uma reforma vitalícia. Isto é, de modo pouco transparente, ser político em Portugal compensa e muito. Não se esqueça que no próprio livro defende a tese que um dos problemas de Portugal é ter Estado a mais. Já agora, por curiosidade, o filósofo inglês Stuart Mill tem uma obra importantíssima , Sobre a Liberdade, em que já defende o Estado Minímo. Mais recente, Robert Nozick defende uma ideia interessante, a do estado minímo, no seu State, Utopia and Anarchy.
Mais adiante defende duas teses que podem soar algo inconsistentes. Vamos ver: 1) Defende (e parece-me, que bem) a reorganização do espaço geográfico escolar. 2) Defende a descentralização do país de Lisboa e Porto.
Ora, do ponto de vista da economia 1) é essencial, mas do ponto de vista social 1) pode constituir o primeiro entrave a 2) No primeiro capitulo, por que razão a entrada de mais países na EU seria positiva para Portugal? Creio que isto ficou por explicar.
CONCLUSÃO: é importante que as teses que defende no livro entrem no espaço público. A publicação do livro é já a manifestação dessa vontade. Espero que as pessoas se apercebam do real impacto que algumas das suas teses podem ter para o país e que se discutam essas teses.
De resto, tenho a dar-lhe uma palavra de agradecimento profundo por ter escrito este livro. Aprendi muita, mas mesmo muita coisa com ele e, sobretudo, é um livro que me deixa a discutir os problemas e esse é talvez o desejo maior de qualquer autor e investigador."
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Obrigado Rolando pelos comentários e sugestões. Aqui vão as minhas respostas:
a) salários dos juízes. É verdade que os nossos salários médios não são dos mais altos da Europa (os nossos salários são médios na UE27, ie., baixos em relação aos país mais ricos, mas altos comparados à maioria dos países da Europa de Leste). No entanto, os salários dos nossos juízes são altos tanto em termos relativos, como absolutos. Não são tão altos como no Reino Unido e a Irlanda, mas são mais elevados do que na grande maioria dos países, França e Alemanha incluídas. Por isso, são altos.
b) salários dos juízes. É verdade que os políticos têm outras "compensações". Porém, se estas existem são, pelo menos, em parte justificadas exactamente pelos baixos salários relativos que os políticos auferem. Se os salários fossem mais elevados, muitos políticos não seriam tentados a arranjarem remunerações suplementares. Claro que nada disto justifica a corrupção que existe (e que será um dos temas do meu próximo livro). E, principalmente, claro que o combate deve ser feito por todos os meios, inclusivamente através de legislação que aumente a transparência dos cargos públicos. Também concordo que é preciso regulamentar melhor
c) concordo que a descentralização da Educação ficou por explicar. Tal será feito tanto aqui no blogue como no próximo livro
d) a minha defesa da entrada de mais países para a UE é irónica. É simplesmente uma forma de dizer que, a continuar no ritmo de crescimento dos últimos 10 anos, só nos resta esperar que mais e mais países entrem na União se não quisermos ficar na "cauda da Europa".
Obrigado.

27 outubro 2008

PORTUGAL, PAÍS MODELO (2)

O Jorge Oliveira tem este comentário ao artigo sobre as energias renováveis nacionais. Penso que levanta pontos muito pertinentes, principalmente no que diz respeito ao facto do financiamento das renovaveis estar a ser suportado por todos os portugueses. Não é por acaso que continuamos a ter uma electricidade demasiado cara. Resta especular o que é que aconteceria se abandonássemos os projectos das renováveis. Será que o preço da electricidade diminuiria? Provavelmente não. Afinal, durante vários anos não investimos nada no sector, mas, mesmo assim, a nossa factura da electricidade não era baixa. O que falta em Portugal neste sector é concorrência e transparência. Se o conseguirmos, certamente que começaremos a pagar menos.
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Vale a pena realçar outro aspecto. Como independente, o que me interessa é apontar aquilo que vai mal quando está mal, e enaltecer o que está bem quando está bem. O que é importante é tentar manter a isenção e a imparcialidade com sentido crítico.
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Já agora, o link do video da peça da CBC sobre as energias renováveis portuguesas está aqui:
http://www.cbc.ca/mrl3/8752/news/features/durham-portugal081020.wmv
ps. Obrigado ao Sócrates pelo link

28 maio 2008

QUE FAZER? _ Voz aos leitores (2)

Numa série de comentários, o António faz o seu diagnóstico da economia portuguesa e sugere as seguintes medidas para a crise:
"Infelizmente na nossa economia tem-se assistido a injecções maciças da pressão fiscal, repressão e regulamentação (o estado português não resiste a tudo regulamentar) que destroem e desmotivam muitas das células saudáveis do nosso tecido social e económico. No caso do nosso país foi diagnosticado um cancro na função publica. Era necessário, dizia-se, extrair 100.000 funcionários publicos. Ao fim de três anos de cirugia acho que não chegam a 300. Acontece que os portugueses encontram-se empobrecidos e sobretudo descrédulos. Deprimidos e descrédulos. E os estimulos de que o Álvero tanto é adepto não podem ser apenas estímulos com caracteristicas económicas...
Que estamos a fazer de errado? Total irresponsabilidade na despesa pública. Total incapacidade de fazer reformas que atinjam interesses corporativos. Redução do deficit quase só pela pressão fiscal debilitando ainda mais uma economia já por si só frágil com completa insensibilidade pelo tecido social e económico e salvaguardando apenas os interesses dos grandes grupos e respectivos lobies...
É absolutamente mentira a teoria de que se todos pagarmos os impostos que devemos pagar, todos nós pagaremos menos impostos. Apercebi-me ao longo destes anos que os impostos são como a cocaína. Quanto mais se tem mais se gasta.
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Irresponsabilidade na despesa publica. Procure cortar-se onde se deve, não onde dá jeito.
Nada de choques fiscais. Nem para cima nem para baixo. Tomem-se medidas a pensar no médio e longo prazo. A economia tem de se tornar competitiva e tem de haver um objectivo muito claro de lhe dar competitividade fiscal. Para que por exemplo não continue a haver uma brutal quebra do investimento directo estrangeiro.
Congelamento de salários. Mas honestamente julgo ser muito pouco provável que alguem se atreva a congelar salários por meia duzia de anos pelo menos...
Tem sido impossivel realizar reformas em Portugal por causa da resistência das corporações."
Obrigado pela sua opinião António. Está mais uma vez lançado o debate

23 maio 2008

QUE FAZER? (2)

O António e Alfred the Pug têm comentários e sugestão muito pertinentes sobre o que fazer. Os comentários podem ser lidos aqui.

19 maio 2008

INFLAÇÃO E O PETRÓLEO _ Comentários dos Leitores (14)

O Luís Aguiar Santos comenta a propósito deste post sobre a inflação e os preços do petróleo:
"Esta diferença do preço do petróleo em dólares e em euros quer dizer, acima de tudo, que a Reserva Federal tem seguido uma política de desvalorização do dólar mais acentuada do que o BCE com o euro. Daí que o preço do petróleo expresso em cada uma das duas moedas acuse esta diferença.Por outro lado, em geral, a relação é a inversa da sugerida pela Gambozina: a desvalorização das moedas, com o aumento da massa monetária em circulação (promovida pelos bancos centrais) é que leva à subida dos preços expressos nessas moedas. As excepções ocorrem quando existem, sectorialmente, desequilíbrios notórios entre a oferta e a procura - o que não parece ser o caso do petróleo agora. Mas, em geral, a subida dos preços ao consumidor (vg. inflação) é um fenómeno puramente monetário."
Caro Luís Aguiar Santos,
Obrigado pelo pertinente comentário. A Fed (ou o BCE) não têm directamente políticas de desvalorização ou valorização das suas moedas. Fazem-no, como menciona, quer controlando a quantidade de moeda existente, como através do diferencial das taxas de juro. É verdade que a inflação é quase sempre um fenómeno monetário, mas o valor das moedas pode influenciar a evolução dos preços. Isto é ainda é mais verdade no caso de choques de oferta (como os choques petrolíferos).

02 abril 2008

A FACE HUMANA (3) _ Comentários dos Leitores

Depois dos comentários ao post da face humana, cheguei à conclusão que não expliquei bem o que queria dizer. Parece que sou um desalmado sem coração que não quer saber da face humana das políticas de um governo. Por exemplo, o António diz com a sua habitual perspicácia: "Não posso concordar consigo. Tem de ser possivel tomar decisões politicas e económicas sem nunca esquecer a face humana. A politica e a economia devem estar ao serviço das pessoas. E se a face humana estiver sempre presente, isso ajuda-nos a tomar muitas vezes as melhores decisões e aquelas que apresentam melhor sustentabilidade.Ser mais humano ajuda-nos a ser mais ponderado... Ser humano é também não cairmos na tentação de fazermos do crescimento económico uma obsessão. Porque o excesso de ambição pode trazer resultados excelentes a curto prazo mas normalmente cria bolhas e gera fortes desequilibrios a médio e longo prazo.Ser humano é ter convicções profundas.Agora o que não é "ser humano"é mudar o discurso antes das eleições.Isso é ter uma péssima formação e uma enorme falta de respeito pelos outros."
~
Eu acho que a face humana é importante (mas não fundamental) para o sucesso de um governo. Se estudei e me interesso por Economia é só por uma razão: o desenvolvimento económico. Isto é, aprender e entender os factores que conduzem à pobreza e o que fazer para reduzir a sua incidência. Neste sentido, as políticas sociais são fundamentais para atenuar as desigualdades inerentes ao desenvolvimento económico. O que eu critico (e critiquei) é aproveitarmos o discurso da igualdade e da face humana só para ganhar as eleições. Aliás, acho que politicamente esta estratégia possa ser contraproducente. Se o governo ainda é popular é graças ao seu alegado espírito reformistas. Em 2009, o governo será julgado pelas reformas (ou falta delas) que fez, não pela sua face humana.

31 março 2008

A FACE HUMANA (2) _ COMENTÁRIOS DOS LEITORES (11)

A propósito da nova face humana do primeiro-ministro, o joshua (a face parece-me familiar..., onde é que eu já o vi?), do Palavrossavrvs Rex (entre muitos outros) tem o seguinte comentário (entre outros):
"E por que diabo não pode a face reformeira ser uma face humana, ó Álvaro Santos Pereira? Parece que estavas a adorar a face desalmada, desumana, hostilizante, crispante, jamézizante, OTA-Otitante."

Concordo, Joshua, que uma face reformista pode ser e ter uma face humana. No entanto, nos três anos de governação o primeiro-ministro nunca se preocupou com o seu "lado humano" (aliás, como ele próprio admitiu). A alteração deste estado de espírito ocorreu não porque o combate ao défice já acabou (porque isso ainda não aconteceu), mas sim porque as eleições estão à porta. Considero que a protecção social é fundamental para a coesão social. No entanto, neste momento, a prioridade tem que ser só uma: o crescimento económico. Com ou sem face humana, com alma ou sem alma, com hostilidades ou sem elas, com crispação ou não, com a Ota ou sem Alcochete, o que interessa é que a economia saia do marasmo.
^
Mais crescimento económico significa maior criação de mais empregos, maiores rendimentos. Mais crescimento económico significa maior colecta de impostos (a nível total ou asboluto) e menos obsessão com o défice. Mais crescimento económico significa maior protecção social, nem que não seja porque teremos mais recursos para o fazer. Os(as) portugueses(as) não querem esmolas, querem empregos. Os(as) portugueses(as) não querem as faces risonhas do primeiro-ministro, querem reformas que lhes facultem um aumento do nível médio de vida.

27 fevereiro 2008

ECONOMIA VERDE _ COMENTÁRIO DOS LEITORES (10)

Martim Ayres, estudante de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem o seguinte comentário e pergunta:
"Foi me oferecido o livro "Os mitos da economia portuguesa" e gostei imenso. Os meus conhecimentos de economia são muito poucos e resumem-se ao que aprendi dentro da história e geografia e das ciências sociais e humanas. Sempre gostei de Economia, mas a minha escola secundária não a ofereceu como opção dentro da área de ciências sociais e humanas, embora a tivesse para os alunos de economia. Espero que perdoe qualquer incoerência no meu discurso. Dentro do que eu consegui entender de economia sempre gostei do conceito do estado providência. Fazia-me sentido uma economia virada para o poder de compra e o consumo. Com este livro entendo que o estado providência provoca um crescimento económico sustentado num modo de vida e não na competitividade, qualidade e inovação dos actores dessa economia.
^
No entanto restaram-me algumas dúvidas. Entendo que as economias ocidentais estão totalmente baseadas no consumo de petróleo. Deve se a três planos, o da produção de energia eléctrica, o dos combustíveis para transporte e o plano da matéria prima plástica. Estes três planos sustentam a economia e é nos impossível de pensar uma economia sem a interligação entre os três. Sei que o abrandamento das economias europeias está ligado e este facto, cada vez que o preço do petróleo aumenta, estes três planos tornam-se mais dispendiosos, e a economia menos competitiva. A pergunta que faço é se será um hipotético plano de reforma total da economia, focado na substituição da produção de energia em derivados de petróleo, na substituição dos combustíveis fosseis para os transportes e na substituição do plástico como matéria prima (ou uma lei que o obrigasse a ser totalmente reciclado); ao diminuir o peso do consumo do petróleo (e logo o preço também), e ao mesmo tempo ajudando definitivamente para a redução de emissões (um plano dois em um!) não seria potencializador das economias ocidentais? Ou seja, até que ponto é que uma economia "verde", não seria mais competitiva? E em relação aos países de 3º mundo e em desenvolvimento, os novos "grandes consumidores de petróleo" com quem nos competimos agora, essa economia verde não seria uma mais valia para nós (ou a sua ausência um "handicap")? E uma essa hipotética diferenciação entre o ocidente "verde" e o resto do mundo seria positiva? Seria uma economia "verde" capaz de manter o modelo social europeu e o estado providência? É uma economia "verde" o "pesadelo" do neoliberalismo?"
Caro Martim,
Obrigado pelas suas palavras e pela sua mensagem. Será de facto a economia antagonista da economia de mercado? Será uma "economia verde" incompatível com o modelo social europeu? A resposta a estas duas perguntas é, cada vez mais, negativa. Há algumas décadas era, sem dúvida, verdade que a Economia era vista como inimiga da preservação do ambiente. Em certo sentido, isso ainda é verdade, principalmente nos países em desenvolvimento, onde as estratégias de industrialização são frequentemente penalizadoras do ambiente. Só para dar um exemplo e se estiver interessado, o New York Times tem uma série de artigos sobre o incrível crescimento da economia chinesa e as repercussões que este crescimento desenfreado tem tido sobre o meio ambiente na China (a série chama-se "Choking on growth").
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Dito isto, é cada vez mais claro que um número crescente de economistas e de empresas vêem o ambiente (a sua "economia verde") como um mercado como um potencial tremendo. Há cada vez mais empresas a investir em carros híbridos. Há cada vez mais companhias a investir em energias alternativas. Há cada vez mais empresas a fazer o marketing dos produtos "verdes". Mesmo na América do Norte (o supra-sumo das sociedades consumistas), ser-se verde é cada vez mais "cool". Ou seja, mais que um desafio, a apetência dos consumidores por produtos menos nefastos ao ambiente tem levado à introdução de novos produtos e novas tecnologias mais "verdes".
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O mesmo se passa com a procura de novas fontes de energia e com tecnologias menos nocivas e mais eficientes energeticamente. O que falta saber é se esta alteração dos hábitos de consumo e de investimento terá um impacto real sobre a sustentatibidade do meio ambiente. Em relação às alterações climáticas, a resposta é provavelmente negativa. É por isso que ainda existe espaço para o Estado intervir, quer a nível legislativo, quer a nível da introdução de incentivos que facilitem a transição para uma economia mais "verde". E é por isso que ainda existe espaço para o debate (que será aqui continuado em posts futuros).

15 fevereiro 2008

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES (3) _ COMENTÁRIOS DOS LEITORES

O Rolando Almeida, filósofo e professor no ensino secundário, tem a seguinte opinião sobre as avaliações:
"Aproveito para deixar uma dica: o mesmo Ministério que pretende avaliar os professores, é também aquele que promove um sistema de ensino com o minímo de exames para os alunos. Ora, o exame nacional para os alunos é simultaneamente um dos melhores instrumentos para avaliar simultaneamente o aluno e o trabalho do professor e de uma forma muito simples: vamos supor que eu tenho 4 turmas que vão a exame final. Se nas 4 turmas tiver um desnivelamento de notas de frequencia e de exmame numa percentagem considerável, há ou não matéria para inquirir o professor sobre o que se passou com o seu trabalho?? O sistema de avaliação proposto pelo Ministério é um poço sem fundo. Não existe nele qualquer factor motivador para a profissão e , mais grave que tudo, é um sistema que desconsidera de forma escandalosa a qualidade do ensino. Porque não propôs o Ministério um sistema de avaliação a ser implementado gradualmente? É que como o pretende fazer só é de esperar um resultado possível: fugas permanentes à lei e trabalho em cima do joelho. De sistema de avaliação de professores, o novo ECD só tem mesmo o nome. Está muito na moda em falar de sistemas de avaliação até para as formigas, mas estou muito céptico da justiça da maior parte dos sistemas de avaliação implementados pelas empresas. E existe ainda um aspecto muito subtil neste ECD imposto pelo Ministério - é que ele pretende, mesmo que falsamente - colmatar as falhas de formação do sistema de ensino superior português, mas não premiando os bons, apenas considerando os mediocres."

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES (2) _ COMENTÁRIO DOS LEITORES

Um leitor anónimo deixou os seguintes comentários pertinentes sobre a avaliação dos professores:
"Relativamente à avaliação dos professores, todo o processo é um perfeito disparate, tanto o seu conteúdo como a forma desordenada e atabalhoada e apressada como está a ser implementado.Em primeiro lugar, sou a favor da avaliação dos professores, mas desde que seja feita de uma forma simples, objectiva e justa. Por isso estar-se a avaliar os professores em função de 2 ou 3 aulas assistidas, das notas dos alunos em todas as disciplinas, do abandono escolar e de uma pilha de impressos que se preenchem, é estar a criar um sistema burocrático, injusto e que não produz quaisquer resultados práticos...
Outro dos parâmetros de avaliação, é feita pelo coordenador do grupo disciplinar, que assiste a 2 ou 3 aulas ao longo do ano. É claro que nessas aulas dificilmente um professor terá má nota, pois irá dar a aula da melhor forma, não atenderá o telemóvel na aula, não deixará os alunos fazerem o que querem, etc. Para além disso, como a avaliação será em princípio da responsabilidade do Coordenador de Departamento, este pode não ser do mesmo grupo disciplinar do professor avaliado, o que dificultará a vida ao avaliador, pois não estará identificado com a área disciplinar do avaliado. Este tipo de avaliação não vai premiar os bons professores, os professores cumpridores, mas antes permitir que os maus professores, aqueles que chegam atrasados, aqueles que pouco ou nada ensinam, aqueles com os quais os alunos não aprendem nada, tenham boas classificações e possam eventualmente progredir na carreira. Para além disso, estar a limitar-se a progressão na carreira de docentes, mesmo que estes tenham a classificação de "Excelente", por causa do número limitado de vagas ...
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Um processo de avaliação justo, correcto e com resultados práticos seria, quanto a mim, dividido em 4 parâmetros essenciais:As aulas seriam avaliadas no final de cada período pelos .... alunos, sim os alunos pois eles são os "clientes" e só eles sabem o que se passa dentro da sala de aula... Desde o meu 1º ano como professor, sempre solicitei no final do ano que os meus alunos me avaliassem e os resultados obtidos têm-me permitido melhorar em muitos aspectos; O Coordenador de Grupo seria responsável por avaliar as planificações e o seu cumprimento, a realização de articulações e verificar a forma como é feita a avaliação dos alunos; Ao Conselho Executivo caberia a função de avaliar os docentes quanto à sua assiduidade e pontualidade e na realização de actividades nos tempos não lectivos, pois é justo que aqueles que trabalham na biblioteca, gerem os clubes, desenvolvem sites e aplicações, tenham o seu trabalho reconhecido e valorizado (o que o sistema de avaliação agora introduzido não prevê); O Coordenador de Directores de Turma teria de avaliar os DT quanto ao cumprimento das tarefas propostas, nomeadamente o registo regular de faltas, a elaboração e actualização do Projecto Curricular de Turma, entre outros. Neste particular, poderia eventualmente considerar-se a opinião dos Encarregados de Educação sobre o modo de actuação do Director de Turma, embora esta fosse discutível. Para além disso, as acções de formação teriam também um peso na avaliação. Após a implementação deste sistema de avaliação e se fosse permitida a progressão de todos os docentes que obtivessem boas classificações, a qualidade do ensino iria melhorar concerteza." (o post completo encontra-se aqui)

13 fevereiro 2008

O EURO E A COMPETITIVIDADE _ PERGUNTAS DOS LEITORES (5)

O António levanta novamente questões muito interessantes neste post. Irei responder à questão das reformas dentro em breve (o mesmo se passa com a pergunta sobre os impostos). Entretanto, o António pergunta:
"Gostava que você comentasse esta cegueira do BCE que parece achar que a economia europeia respira saúde e que está imune à recessão vinda dos USA. Não era sequer preciso a recessão americana para nos preocupar. Basta o elevado valor do Euro para permitir antever a curto prazo enormes dificuldades à economia europeia por perca de competitividade. Será que pode haver tanta miopia? Não se esqueça. Eu, pobre António declaro que vamos levar com uma valentíssima crise. Pode vir ao retardador. Mais vai ser do tipo pegajoso. Tipo alcatrão."
Como expliquei em parte neste post, o problema da inacção do BCE (Banco Central Europeu) resulta em parte do seu próprio mandato. Segundo os seus estatutos, o BCE tem só uma obrigação: a estabilidade dos preços. Nada mais. Contrariamente, a Fed tem dois mandatos, a estabilidade dos preços e obom funcionamento da economia. Quando existe uma crise na economia americana, a Fed pode e deve intervir. Quando existe uma crise na Eurolândia, o BCE não tem obrigação de o fazer. Principalmente quando a inflação não está completamente sob controlo, como acontece actualmente.
Ora, ao manter as taxas de juro inalteradas, o BCE claramente sabe perfeitamente que o euro vai-se valorizar ainda mais contra o dólar, afectando a competitividade das nossas empresas exportadoras (pois as exportações ficam mais caras). Porque é que o BCE não se interessa? Porque um euro forte significa importações menos caras, e assim as economias europeias importam o petróleo mais barato. Como o preço ouro negro tem estado muito elevado e como os preços dos produtos petrolíferos têm um grande impacto sobre a inflação de qualquer economia, um euro mais caro implica petróleo não tão caro e... menores pressões inflacionistas. E é só isso que o BCE se preocupa. Para bem e para mal.

04 fevereiro 2008

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (8)

Continuação dos comentários do Antonio:
"Imigração. Está em voga dizer que é uma mais valia. É politicamente incorrecto dizer o contrário. Não me considero nem conservador nem tenho nada contra os imigrantes. Mas tenho muitas duvidas sobre os benificios da imigração e penso que o assunto foi tratado com muita ligeireza.De que imigração se está a falar? De cérebros, tipo indianos barras em informática? Ou de ucranianos médicos e engenheiros que andam a trabalhar nas obras? Há que entender que o modelo de desenvolvimento europeu que vigorou ate aos anos setenta assentou na emigração, mas que o boom da economia europeia que o justificou, foi-se. E o que temos agora? Larguissimos milhões de europeus a viver de subsidios sociais, pondo em causa a sobrevivência do estado social enquanto se importam os novos escravos assalariados que executam as tarefas que os tais subsidiodependentes rejeitam. Não acha você, que claramente defende uma politica de incentivos correctos, que esta imigração só existe porque os europeus andam a receber incentivos errados para ficarem em casa e deixarem para os imigrantes as tarefas mais "aviltantes"? Mas isso não vai resolver o problema porque os filhos desses imigrantes não vão querer desempenhar essas tarefas originando assim um circulo vicioso. Por isso eu chamo a esses imigrantes algo politicamente incorrecto: escravos assalariados.Mas sejamos claros, nenhuma sociedade equlibrada pode viver sem o Sr.Isidro que nos serve de manhã a bica e o croissant, sem a Dona Quitéria que nos vende o jornal no quiosque, sem a loira que nos corta o cabelo mensalmente,sem o taxista, o camionista, o carteiro, o empregado de mesa, a caixa do supermercado, o padeiro, o pasteleiro, o sr. José do talho e a D.Maria da peixaria. E que dizer da imprescindivel da D.Bia que vai lá a casa às 3as feiras e me deixa tudo a brilhar e as camisas impecáveis? Será que de futuro queremos que estas profissões "vergonhosas" sejam só desempenhadas por imigrantes enquanto andamos a descontar para que muitos dos nossos compatriotas andem confortávelmente encostados ao subsidio de desemprego? Será isto uma politica sustentável? Será que os incentivos que o Estado Social Europeu criou com tantos subsidios não estrá profundamente errado? E isto prende-se com a política de educação. Quer-se à viva força que toda a rapaziada chegue pelo menos ao 12º ano. Mesmo aqueles que manifestamente não o querem e que não se esforçam. Isso custa muito a um país. Faz-se um esforço enorme para que todos cheguem ao 12º ano. E o que irá acontecer de futuro? Teremos falta de pedreiros, de empregados de mesa, de taxistas e de padeiros e teremos de continuar a importar imigrantes para essas tarefas "menos dignas". Mas o que ´será ainda mais grave é que para que todos completem o 12º ano torna-se necessário baixar os patamares de exigência nas escolas. Isto é, abre-se as portas à mediocridade. E isso obviamente não é um factor de estimulo para os mais aptos e interessados. Por isso as nossas faculdades estão a abarrotar de alunos que deviam ter ficado pelo caminho e que irão ser futuros desempregados. Mas que talvez pudessem ser excelentes empregados de mesa. Ou pintores, carpinteiros etc. Por isso salvo raras excepções a excelência está ausente do nosso ensino. E consequentemente da nossa investigação. Talvez por isso a própria Alemanha esteja a importar em tão grande quantidade cerebros da India. Porque está tão preocupada em criar futuros desempregados no seu próprio país que acaba também por ter necessidade de importar elites. E também turcos para varrerem as ruas. Eu não tenho certezas de nada excepto que não tem havido coragem para olhar para estes assuntos de frente. Da mesma forma que durante décadas, quando´era já visivel que as seguranças sociais dos países europeus estavam insustentáveis se continuaram a conceder benesses perfeitamente impossiveis de cobrir num futuro próximo. E só há muito pouco tempo esse assunto deixou de ser tabu. Levantei estas questões porque foi você a levantá-las no seu livro. E porque acho que pessoas como você têm obrigação de levantar questões incómodas."
O que nos dizem os estudos económicos e sociais sobre a questão da imigração é que, habitualmente, a mesma é complementar aos trabalhadores nacionais. Isto é, os imigrantes não vêm para substituir o Sr.Isidro, a Dona Quitéria, ou a loira-que-nos-corta-o-cabelo-mensalmente. Pelo contrário, quase sempre, a imigração acontece em conjugação com esses mesmos trabalhadores. Neste sentido, o Sr. Isidro contrata um brasileiro para trabalhar consigo, a loira-que-nos-corta-o-cabelo-mensalmente arranja uma ucraniana para a ajudar, etc, etc. O problema é que a Europa tem quase sempre tratado os imigrantes como trabalho temporário e não como uma das soluções para os seus problemas produtividade e de fertilidade. E assim criam-se mais problemas sociais e os imigrantes não se integram nas nossas sociedades.
"Lembro-me também da questão de Espanha. É claro que Espanha não é um papão. Por mim nuestros hermanos são muito benvindos. Mas não sejamos ingénuos. Quando a Ford Volkswagen investe em Portugal, tem por base critérios puramente económicos. Previsões de rentabilidade, dado o custo da mão de obra, custo de infraestruturas, benesses concedidas pelo governo português etc. Já o investimento espanhol tem um caracter diferente.Muito mais estratégico.A Espanha, muito naturalmente, tende ser a potência hegemónica da Peninsula.E com toda a justeza e mérito. A Espanha tem tido uma evolução invejável. Já passou a Itália. E quer passar a França. E nós somos o páteo das traseiras. Uma especie de saguão. Basta ler o El País e verificar que se passam semanas sem que haja uma referência a Portugal. Basta lembrar-nos que Espanha só terminou as suas ligações para Portugal por autoestrada muitos anos depois de ter ficado ligada à Europa. Mas que não se culpe a Espanha. Quando muito deve-se ao nosso demérito.Por isso a Prisa, a EDP, a Banca, as herdades no Alentejo e os prédios na Avenida da Liberdade.Para finalizar este namoro e já que ainda estamos longe de aterrar na Portela onde muito provavelmente nos espera um passeio de autocarro à boa maneira portuguesa, (mesmo com as mangas do aeroporto vazias), lembro-me de você ter falado na questão da produtividade. Parece-me que na generalidade em Portugal muito poucos ainda assimilaram as três vertentes do aumento de produtividade. Produzir mais quantidade e melhor qualidade a melhor preço e sobretudo com melhor imagem. Lembremo-nos apenas que para aumentar o valor acrescentado dos nossos sapatos basta carimbá-los com "made in Italy". E parece-me que Portugal não tem associada a si qualquer imagem de qualidade. Nem sequer no sector que tem tido enorme dinamismo nos ultimos anos entre nós. Os vinhos portugueses escasseiam nos escaparates das lojas por esse mundo fora e muitas vezes encontram-se nas zonas sombrias dessas lojas. E vale a pena comprar bons vinhos portugueses em Toronto ou no Luxemburgo, pois dada a falta de imagem de qualidade são vendidos bem mais baratos nesses países do que em Portugal.E digaq-se de passagem que fiquei um pouco assustado pois acabeu de beber excelentes tintos austriacos.Até na Austria se estão a produzir excelentes tintos. Estamos a começar a descer e os meus ouvidos já começam na zumbir. Mas acho que ainda vou ter tempo de lhe falar no Algarve. Por errada opção da minha vida encontro-me a viver no Algarve e vejo com enorme desgosto que insistimos numa polílica de contrução desmesurada destinada a trazer o inglês de tatuagens e Tshirt sem alças que põe as patas na cadeira da frente quado se senta. Será impossivel nesse sector tão importante aumentar a produtividade porque cada vez mais as unidades irão vender-se a preços de saldo para ocupar as camas vazias. Claro que há excepções. Honrosas excepções. Mas a regra é investir nos carroceiros. Ignora-se ainda um aspecto. É que o bom não se gosta de misturar com os carroceiros. Enfim."
Caro António, mais uma vez o meu obrigado por levantar questões tão pertinentes e importantes. Quanto à Espanha, o que eu queria alertar é que a invasão espanhola não se tem concretizado. Muito pelo contrário. Os números hoje aqui revelados só confirmam esse facto mais uma vez. Não podia concordar mais consigo no que diz respeito à produtividade. Nomeadamente, é sem dúvida vital "Produzir mais quantidade e melhor qualidade a melhor preço e sobretudo com melhor imagem". Em relação ao Algarve, penso que tem toda a razão. O potencial do Algarve continua a ser desperdiçado por esta política de construção turística desenfreada. O Algarve teria tudo a ganhar se tentasse atrair outros sectores para desenvolver a sua economia. Aliás, como foi referido no Mitos. Estes temas continuarão a ser debatidos no blog.

01 fevereiro 2008

JUROS BAIXOS (2) _ PERGUNTAS DOS LEITORES

O Sérgio Leal pergunta o seguinte em relação aos "JUROS BAIXOS": Que acontece depois, num caso destes? Quais as consequências para União Europeia agora que existe 1% de diferença entre a taxa de juros europeia e a norte-americana? Qual o impacto no inflacionado mercado imobiliário?
O dólar vai continuar a cair, vai continuar a desvalorizar-se face ao euro. Consequência: as nossas empresas que exportam para mercados fora da União Europeia vão continuar a perder competitividade em relação às suas congéneres internacionais. Claro que 70 por cento das nossas exportações vão para a UE, mas, mesmo assim, os custos mais elevados associados a um euro ainda mais forte continuarão a ter um impacto negativo junto das nossas empresas exportadoras.
Em relação ao mercado imobiliário, nos Estados Unidos a pronunciada descida das taxa de juro (que continuarão certamente a descer) irá ajudar o mercado a recuperar. No último ano, as declarações de não pagamento dos empréstimos bancários relativos à compra de casa cresceu 75 por cento nos Estados Unidos. Há assim muita gente que simplesmente não tem conseguido aguentar as prestações mensais e o mercado imobiliário tem-se ressentido grandemente, com as vendas de casas com as quedas mais pronunciadas dos últimos 25 anos. Uma descida das taxas de juro irá diminuir os pagamentos mensais dos empréstimos bancários (com taxa variável), o que aliviará os rendimentos das famílias que se encontram em dificuldade. Veremos se tal descida é suficiente para travar a espiral de descida do mercado imobiliário americano, o qual, como disse, se encontra demasiado inflacionado (e que, por isso, necessita de uma correcção).

29 janeiro 2008

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (7)

O Antonio disse:
"Caro Álvaro, Como há uns dias lhe disse, gostei imenso do seu livro. Embora, como dificilmente poderia deixar de ser, tenha opiniões algo diferentes das suas. Disse-lhe anteriormente que considero esta crise um dos maiores desafios, senão o maior da nossa história... Depois de um terramoto torna-se óbvio a necessidade da reconstrução. É mais fácil unir esforços e ideais. Transformarmo-nos a nós próprios e superarmo-nos não é assim tão evidente. E há sempre quem não esteja de acordo. E no nosso país há quem por inépcia não esteja interessado em mudanças. Mas há quem também não esteja interessado porque essas reformas irão pôr em causa os sagrados direitos conquistados a seguir ao 25 de Abril. Existe muita gente a remar em sentido contrário. Não sei se chegaremos a bom porto. Para já o tal bom porto não está no horizonte. Continuamos a divergir. Passemos à frente. Estou a escrever-lhe no avião de regresso a Portugal depois de um fim de semana alargado passado entre Viena e Budapeste. Fiquei impressionado com Budapeste que não conhecia. Minha mulher diz-me que há 30 anos tudo estava esburacado e sujo. Mas hoje vejo Buda recuperada e Peste em franca recuperação com as sua enormes avenidas de imponentes edificios fim de imperio, arte nova e art deco e os sintomáticos Louis Vuitton e Cartier já instalados. Lembro-me da nossa Lisboa que deixa deitar a baixo alguns dos seus mais belos edificios e que por falta de coragem política e pura demagogia de alguns nunca até hoje resolveu o problema da legislação do arrendamento o que origina uma cada vez maior degradação urbana e que muitos edificios estejam tijolados e destinados cruelmente à demolição. Com a perca de uma enorme mais valia para a cidade. Não é assim que se dá a volta a um país.Invejo o seu optimismo."
Caro António, Mais uma vez obrigado pelos seus pertinentes e acutilantes comentários. Como já disse, ainda bem que discorda comigo. Aliás, o que é salutar é discordarmos uns dos outros. É essencial confrontar as nossas opiniões. Dialogar. Debater os problemas e as potenciais soluções. Só assim é que conseguimos avançar. É assim que o conhecimento progride. Por isso, discorde. Discorde muito, pois assim continuamos o diálogo. Vou responder às sua questões em dois ou três posts para poder fazer justiça aos seus comentários.
Sem dúvida que os países de Leste estão a fazer tremendos progressos. E ainda bem. Quando mais progredirem, menos gente há a sofrer as consequências da pobreza. Ainda assim, vale a pena relembrar que se Buda e Peste têm evoluído muito, também é preciso não esquecer que Portugal (Lisboa incluída) antes de 1986 era um país e hoje é outro. Em 1986, não havia sequer uma autoestrada a ligar as duas principais cidades do país. Em 1986, grande parte da economia estava na mão do Estado. Em 1986, os nossos níveis educacionais eram ainda piores do que são actualmente. Etc, etc, etc. Isto é, o progresso foi e continua a ser imenso. Nós já passámos pela primeira fase de adesão à União Europeia. Agora é importante (crucial mesmo) conseguirmos ser bem sucedidos na segunda fase, onde uma economia mais saudável e dinâmica tem que emergir dos escombros desta crise que vivemos. Amanhã respondo às suas questões da imigração e de Espanha.

22 janeiro 2008

COMENTÁRIO DOS LEITORES (6)

O João Vieira Costa, arquitecto a residir em Oslo, tem os seguintes comentários:
"Acabei recentemente de ler o seu livro “Os Mitos da Economia Portuguesa” e gostaria de lhe dar os meus parabéns. Realmente é extraordinário que ainda existe gente optimista com tanto valor nas suas observações e consequentes conclusões. Tenho uma história similar á sua numa mas numa outra área. Sou arquitecto formado no Porto e tenho estado a trabalhar na Dinamarca, na Holanda e agora na Noruega. Gosto imenso de Portugal, sou um apaixonado Portuense mas infelizmente a posição do arquitecto no nosso país ainda não é devidamente credenciada. Paralelamente a situação económica não é das mais favoráveis e como tal o investimento na arquitectura é muito escasso. Curiosamente estou a desenvolver um manifesto intitulado “Porque é que as pessoas não querem morar no centro do Porto”. Ainda se encontra numa fase embrionária, mas penso que tem potencial, com o objectivo de transmitir uma realidade que não se resuma somente a arquitectos. Não pretendo uma análise politica, mas sim gráfica, não pretendo uma análise intelectual mas sim factual. Tenciono ajudar a encontrar soluções para a questão do elevado índice de desertificação da cidade do Porto. Espero sensibilizar/alertar os Portuenses das oportunidades que estão a desperdiçar, e do potencial de que a cidade tem para oferecer. Pelo facto de me encontrar fora de Portugal tenho uma visão mais abrangente de possíveis soluções que só á distancia são possíveis de ser descodificadas. Desejo-lhe as maiores felicidades, e espero num futuro próximo encontrar outro livro seu."
Caro João,
Muito obrigado pelos comentários e pelas simpáticas palavras. Acho que o seu projecto é muito interessante e estimulante. Por isso, vá-nos dando notícias dos seus desenvolvimentos, que serão divulgados aqui no Desmitos.

15 janeiro 2008

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (5)

O Antonio tem o seguinte comentário:
"Licenciado em G.E. em 1980 pelo ISE, confesso que por razões de deformação profissional, nunca mais tinha lido um livro sobre economia e que foi com enorme prazer que li o seu. Simples e de fácil entendimento e que toca em muitas das fragilidades da nossa economia. Diverti-me a lê-lo e a tirar notas, sobretudo das questões em que estou em profundo desacordo consigo. Não lhe direi nada de novo mas acredito que não deixará de me dar alguma razão.Talvez porque Portugal nunca foi sujeito a grandes crises é hoje um dos Estados mais antigos do mundo.Quando muito teremos sido sempre um país em crise. Pobre, atrasado e melancólico e voltado de costas para a Europa. Mesmos na época aurea dos descobrimentos não foi visivel um salto qualitativo no país. E para o bem e para o mal, a meseta ibérica poupou-nos às grandes crises europeias. A guerra dos trinta anos, a guerra dos cem anos e até as duas guerras mundiais passaram-nos ao lado. E as nossas pequenas crises foram sempre bem delimitadas e tiveram sempre um rosto. Foi fácil pois identificar o inimigo e conjugar esforços para o combater. A actual crise não tem rosto. A actual crise somos nós próprios. São os nossos vicios, os nossos maus hábitos. É a nossa incapacidade de ter uma estratégia e de traçarmos um caminho. E como você disse já não temos aspirinas para disfarçar a crise. É a primeira vez que não temos aspirinas. Sem aspirinas e sem estratégia esta crise pode-se tornar facilmente numa doença crónica muito grave. Que o seu optimismo esfusiante não o impeça de ser um bom estratega. Nunca substime o inimigo.Parta do principio que estamos de facto metidos numa grande alhada. E que infelizmente, pelo clima de pessimismo criado e pelos números que indicam que continuamos claramente a divergir da média europeia e mais ainda daqueles que fazem parte do nosso pelotão não é aconselhavel estarmos particularmente optimistas. Os recentes péssimos resultados ao nivel do emprego, do investimento e crescimento económico não acontecem por acaso. São fruto de uma politica concertada de péssimas opções,de falta de coragem em fazer e falar claro. E claro, de péssimos exemplos que descredibizam qualquer tentativa de criar uma estratégia concertada de desenvolvimento."
Caro António,
Muito obrigado pelo seu comentário. Fico contente que tenha gostado do livro e que, principalmente, tenha discordado comigo nalguns pontos. Mal seria se assim não fosse. O Mitos serve também como uma reflexão, como um ponto de partida para levarmos a cabo um debate sério sobre a economia nacional. Um debate sem preconceitos, sem ideias feitas, sem agendas políticas. Apesar de concordar consigo que estivemos isolados de muitas das grandes crises europeias e mundiais, a verdade é que houve momentos na nossa História em que tivemos grandes dificuldades para seguir em frente. Por exemplo, em 1755 sofremos o maior desastre natural alguma vez registado no continente europeu, que destruiu grande parte da nossa capital e levou a uma perda de cerca de 50 por cento do produto nacional. Ao contrário do que seria de esperar, a crise do grande terramoto foi aproveitada pelos portugueses (e pelo governo de Pombal) para reformar a economia e a sociedade portuguesas. E a crise tornou-se numa oportunidade.
Mesmo assim, concordo inteiramente consigo quando afirma que a crise não tem rosto, que somos nós mesmos. Aliás, este é um dos nossos dilemas. Os economistas chamam isto "expectativas" ou "confiança". Uma retoma económica nunca poderá ser sustentada enquanto a confiança de todos nós na nossa economia não aumentar, enquanto as expectativas sobre as nossas capacidades não melhorarem. E este é um dos maiores desafios que enfrentamos actualmente. Os resultados do investimento, do crescimento económico e do emprego não se irão inverter enquanto as expectativas não se alterarem também.

08 janeiro 2008

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (4) _ Produtividade pós 25 de Abril

Fernando Santos e Silva tem os seguintes comentários:
"Em primeiro lugar desejo agradecer o ter publicado o seu livro "Mitos". Permita-me apenas um comentário sobre os indicadores de produtividade assentarem basicamante no factor de produção população. Assim se compreende (e assim refere) o abaixamento de produtividade logo a seguir ao 25ABR74. Ora, a balança de pagamentos no fim de 1973 já estava completamente desequilibrada e a diminuição da produtividade industrial (que de facto é dificil de quantificar) não terá sido tão grande como isso. Por isso penso que a apresentação dos indicadores de produtividade de 1974 em diante tal como o faz poderão levar alguns leitores a dizer cobras e lagartos do 25 de Abril. Gostaria de saber a sua opinião."
Caro Fernando,
Muito obrigado pelos seus comentários. Tem toda a razão sobre a produtividade no período pós 25 de Abril. Segundo alguns estudos, a descida da produtividade explica-se principalmente pelo aumento populacional devido à chegada dos portugueses das ex-colónias. No entanto, o que estes estudos não referem é que as elevadas taxas de produtividade nos anos 60 foram positivamente influenciadas pelo grande êxodo populacional para as colónias e para outros países. Também interessa sublinhar que tanto a produtividade industrial como a agrícola melhoraram após 1980. Mesmo nos anos 90 a produtividade destes sectores teve bons desempenhos. A grande excepção são os serviços. E é isso que é preciso resolver.

A propósito das eleições americanas, o Fernando Santos e Silva tem o seguinte artigo sobre as regras eleitorais.

COMENTÁRIOS DOS LEITORES (3)

Rolando Almeida, filósofo e autor do blog A Filosofia no Ensino Secundário, tem os seguintes comentários sobre o Mitos:
"Vi a informação sobre o livro no Rerum Natura e, hoje mesmo, comprei o livro que acabei agora de ler, de uma assentada só. Sou da filosofia e reclamo muito este género de livros para a minha área, que existem às centenas em língua inglesa e nenhum em língua portuguesa (apesar dos esforços do colega Desidério Murcho). Este trabalho de divulgação de um saber é fundamental porque é capaz de recrutar muitos interessados para as diferentes áreas do saber que, de outro modo, não teriam qualquer informação. Carl Sagan foi, para mim, um verdadeiro mestre. E é um pouco esse o trabalho que procuro desenvolver no meu blog. Mais uma vez lhe agradeço. Realmente confesso que nunca tinha lido um livro de economia com tal interesse! Devo-o a si e ao seu trabalho."