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30 maio 2011

BALANÇA COMERCIAL, 1910-2010

Aqui está a série da balança comercial portuguesa em percentagem do PIB. É ainda visível no gráfico abaixo que o défice comercial português é crónico, sendo bastante pronunciado há já bastantes anos. No "Portugal na Hora da Verdade" explico com bastante mais detalhe a evolução da balança comercial portuguesa nos últimos 100 anos.

Balança comercial portuguesa em percentagem do PIB, 1910-2010

Fonte: Neves (1994), Banco de Portugal

21 abril 2011

O MITO DA CRISE INTERNACIONAL (2)

E aqui está mais um gráfico que mostra inequivocamente que a crise nacional não teve, nem de perto nem de longe, origem na crise internacional de 2008. Mais concretamente, o gráfico abaixo apresenta a evolução da balança de transacções correntes em percentagem do PIB, que é um dos principais indicadores do nosso défice externo. Como é visível, e mais uma vez, os desequilíbrios da economia nacional iniciaram-se na segunda metade da década de 90.  Desde então, nenhum governo foi capaz (ou teve vontade) de conseguir contrariar os crescentes desequilíbrios externos da economia nacional. E foi assim que, na última década, os défices externos cresceram para níveis muito pouco saudáveis, contribuindo de sobremaneira para o endividamento externo de Portugal. É igualmente notório que a crise internacional nada teve a ver com esta nefasta tendência. Quem afirma o contrário não está interessado na verdade dos factos.

Balança de Transacções correntes em percentagem do PIB, 1990-2010

Fonte: Banco de Portugal

09 fevereiro 2011

EXPORTAÇÕES E BALANÇA COMERCIAL

É obviamente uma óptima notícia que as exportações cresceram 15,7% em 2010, enquanto as importações "só" subiram 10,2%. Ainda assim, é preciso perceber o que é que está em causa. Como o nosso défice externo é elevado (as exportações são apenas 64,8% das importações), esta diferença de crescimento não foi suficiente para fazer melhorar o défice comercial português. Bem pelo contrário. O défice comercial agravou-se em 2,1% em 2010, e assim a nossa posição externa continuou a deteriorar-se.
Para que tal não aconteça, é preciso que as exportações continuem a crescer bem mais rapidamente do que as importações nos próximos anos. De acordo com os cálculos de Francesco Franco, se as exportações e as importações continuassem a expandir-se a este ritmo, somente em 2012 é que o valor absoluto do défice comercial parava de aumentar, e só em 2019 é que as exportações se tornariam mais elevadas do que as importações, ajudando finalmente a colmatar o défice da balança corrente. Por outras palavras, a este ritmo, precisamos de quase uma década para que o défice comercial se torne num excedente comercial. Ou seja, o caminho a percorrer para atingirmos o equilíbrio externo é longo, muito longo mesmo. E, ainda por isso, temos contra nós o peso da história, pois o último excedente comercial aconteceu há cerca de 70 anos, em plena Segunda Guerra Mundial. 
Por isso, e apesar de devermos saudar o bom comportamento das nossas exportações (em linha, aliás, do que aconteceu na Europa e recuperando parte da descida abrupta do comércio internacional em 2009), é bom que mantenhamos os pés bem assentes na terra e percebamos de uma vez por todas que vão ser precisos muitos anos como 2010 para que o défice externo seja finalmente debelado.

27 janeiro 2011

EXPORTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO

Nos últimos tempos tem-se falado muito de exportações e da necessidade de apostar em bens e serviços transaccionáveis (isto é, bens e serviços que concorram nos mercados internacionais). A razão é simples: como Portugal tem um défice comercial crónico (ou seja, todos os anos exportamos menos do que aquilo que importamos), e como as transferências do exterior estão a diminuir (i.e., há menos remessas dos emigrantes do que nos anos 1980, as transferências da UE estão a decrescer, e há menos entrada de capitais estrangeiros no nosso país), o nosso défice externo acumulado agravou-se muito nos últimos 15 anos. Qual é o problema? O problema é que um défice externo elevado contribui decisivamente para o endividamento da economia nacional (isto é, para a nossa dívida ao exterior), um endividamento que é cada vez mais excessivo e cada vez menos sustentável.
Por isso, se conseguíssemos inverter ou, pelo menos, atenuar o défice comercial, poderíamos baixar o défice externo, bem como o endividamento externo. E é aqui que entra a nossa recente (e bem aconselhada) obsessão com as exportações ou os "transaccionáveis".
Mas, será que esta obsessão se justifica? Sim, pelo menos em parte. Porquê? Porque Portugal ainda exporta uma percentagem bastante modesta do seu PIB. Actualmente, o rácio das exportações no PIB nacional ronda os 30%, uma percentagem relativamente baixa para um país de dimensões reduzidas como o nosso (os países pequenos tendem a exportar e a importar mais). Uma percentagem que, ainda por cima, tem-se mantido relativamente estável nos últimos 30 anos, assim como podemos ver no gráfico abaixo.
Entre 2005 e 2008, ainda se registou uma melhoria deste indicador (visto que as exportações revelaram um bom dinamismo, enquanto o PIB estagnou), mas, em 2009, as exportações em percentagem do PIB voltaram a baixar, recuperando um pouco no ano seguinte.

Exportações portuguesas em percentagem do PIB, 1960-2010
Fonte: Banco Mundial, Santos Pereira (2011) "Como Retomar o Sucesso"

O comportamento menos bom das exportações (com a excepção dos últimos anos) é ainda mais aparente se compararmos a evolução das exportações nacionais com as da Zona Euro. Como podemos observar no próximo gráfico, até ao início da década de 1990, as exportações portuguesas em percentagem do PIB tinham valores muito semelhantes aos da Zona Euro. Porém, a partir dessa altura, as exportações em percentagem do PIB europeias aumentaram, enquanto as nossas praticamente estagnaram. Coincidência ou não (não é), foi mais ou menos nessa altura que nos apaixonámos com a construção de estradas e auto-esttradas, e com a chamada política do betão.
E mesmo quando as exportações nacionais registaram um crescimento acima do crescimento do PIB a partir de 2005, as exportações europeias em percentagem do PIB subiram ainda mais. Por outras palavras, apesar das recentes melhorias, é perfeitamente legítimo esperar e argumentar que as exportações nacionais deviam ter uma importância maior na economia nacional. Isto é, o rácio entre as exportações e o PIB devia ser bem maior do que o actual. Há, por isso, bastante margem de manobra para melhorar nesta área.
E este é exactamente um dos motivos que justifica a nossa recente obsessão com as exportações e com os (já) famosos "transaccionáveis". A verdade é que faz todo o sentido apostar nas exportações. Resta saber se a política económica vai mesmo apoiar de forma adequada os nossos exportadores, assim como outros sectores foram apoiados nas últimoas décadas. Esperemos que sim.

Exportações em percentagem do PIB, Portugal e Zona Euro, 1960-2010
 Fonte: Banco Mundial, Santos Pereira (2011) "Como Retomar o Sucesso"