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14 outubro 2010

DÍVIDAS DAS AUTARQUIAS (2)


Como já aqui mencionei, a dívida das autarquias tem crescido a ritmos "saudáveis" nos últimos anos. Só em 2009, o endividamento líquido dos municípios portugueses totalizou 5012 milhões de euros. E repare-se que este é o endividamento líquido, isto é, as dívidas das autarquias menos as dívidas de terceiros às mesmas autarquias. O endividamento total das Administrações Locais já ultrapassa os 7 mil milhões de euros.
No entanto, estes números não dizem tudo. Há muitas formas de encapuçar e disfarçar os números do endividamento autárquico (não é só o governo que tem a receita mágica para manipular os números dos orçamentos...). Uma destas formas é fazer aumentar o prazo médio de pagamentos a fornecedores. E aqui os números não são nada bonitos. Com efeito, para além do crescimento do endividamento autárquico, o número de dias de pagamentos a fornecedores tem vindo a aumentar significativamente nos municípios mais endividados. Só para termos uma ideia do quão sério é este problema, cerca de 200 dos 308 municípios portugueses têm prazos médios de pagamentos a fornecedores acima dos 90 dias. Os casos mais graves incluem o município de Castanheira de Pêra, que tem um prazo médio de pagamentos aos fornecedores que já está perto dos 3 anos (!), Povoação (713 dias), Mondim de Basto (654 dias), Celorico da Beira (531 dias) e Alfândega da Fé (504 dias). Dos grandes, o município com maiores atrasos nos pagamentos aos seus fornecedores é Aveiro, com 453 dias. Quase um ano e meio.
Refira-se que a nova Lei das Finanças Locais já leva em linha de conta estas situações. Nomeadamente, quanto maior for a dívida a fornecedores menor é a capacidade dos municípios em contrair empréstimos de médio e longo prazos. Porém, que eu saiba (por favor corrijam-me se isto não for verdade), nada impede que a dívida de curto prazo aumente (desde que não passe os limites de 125% da dívida líquida) em contrapartida à dívida a fornecedores.
Para todos os efeitos, aqui está o top 30 dos municípios com os maiores prazos médio de pagamento. Os dados são da Direcção-Geral das Autarquias Locais e a lista completa dos municípios com prazos médios de pagamento acima dos 90 dias pode ser vista aqui.

Quadro: Prazo médio de pagamento a fornecedores

31-12-2008
31-12-2009
30-06-2010
CASTANHEIRA DE PÊRA
233
385
901
POVOAÇÃO
470
495
713
MONDIM DE BASTO
396
452
654
CELORICO DA BEIRA
273
471
531
ALFÂNDEGA DA FÉ
357
740
504
ALANDROAL
443
324
471
AVEIRO
45
469
453
CÂMARA DE LOBOS
101
329
405
CHAMUSCA
215
294
370
CARTAXO
362
309
366
LAJES DO PICO
103
238
361
VILA NOVA DE POIARES
360
372
351
FIGUEIRÓ DOS VINHOS
134
249
331
CASTELO DE PAIVA
512
510
328
PORTO MONIZ
130
165
321
MESÃO FRIO
198
307
313
MACHICO
370
245
311
PORTO SANTO
3
151
303
TAROUCA
274
247
293
MIRANDELA
229
238
285
TORRE DE MONCORVO
220
266
284
RIBEIRA BRAVA
67
326
282
VALPAÇOS
234
305
281
VILA DO CONDE
251
336
280
OLHÃO
59
196
274
VALENÇA
45
138
274
PORTIMÃO
97
189
272
VILA DE REI
106
202
259
VILA FRANCA DO CAMPO
375
99
246
VILA NOVA DE GAIA
203
222
244



DÍVIDAS DAS AUTARQUIAS

O endividamento das autarquias aumentou significativamente em 2009, um ano de eleições. Uma grande surpresa, sem dúvida... Já agora, quem se interessa por estas matérias devia ler o excelente Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses, onde se revevam os detalhes do endividamento autárquico, município por município. Um documento que devia ser leitura obrigatória para todos nós antes da votação em eleições autárquicas.

11 junho 2010

EMPREGO NAS CÂMARAS

Um dos dados mais interessantes que encontrei ultimamente foi sobre o número de funcionários das câmaras municipais. Como podemos ver no quadro abaixo, cerca de 1,1% da população nacional trabalha para as câmaras municipais. Um valor que não é extremamente elevado se nos compararmos com outros países europeus. Por isso, e apesar de poder haver algum desperdício nalgumas câmaras, não é por aqui que os cortes estruturais nas despesas públicas terão que ser feitos. Disto isto, uma das constatações que podemos retirar dos números de trabalhadores das câmaras municipais é que uma dispersão regional enorme no emprego municipal. Pensa que a maior concentração de trabalhadores se encontra em Lisboa e no Porto? Sim, é verdade em termos absolutos. Mas não em termos relativos. Tanto o Grande Porto como a Grande Lisboa têm um número de funcionários municipais inferior à média do país.
Acha que o despesismo e o favoritismo se passa na Madeira ou nos Açores? Será que é aí que se encontram mais trabalhadores municipais por 1000 residentes? Não, também não é, pois as regiões autónomas têm um número de funcionários municipais semelhante à média nacional.
E se não é aí, onde é que há uma maior percentagem de funcionários muncipais? Sim, exactamente. É no Alentejo, onde o alegado efeito da interioridade é mais forte do que em regiões como Bragança e em Trás-os-Montes. Afinal, não é toa que o Partido Comunista consegue manter o seu irredutível bastião naquela região do país...


NUTS II e III Emprego em CM por 1000 residentes
Portugal 11.2
Norte 9.3
Minho-Lima 9.9
Cávado 7.2
Ave 7.1
Grande Porto 8.7
Tâmega 10.2
Entre Douro e Vouga 7.7
Douro 14.9
Alto Trás-os-Montes 15.1
Centro 10.8
Baixo Vouga 8.0
Baixo Mondego 10.6
Pinhal Litoral 7.1
Pinhal Interior Norte 17.0
Dão-Lafões 12.2
Pinhal Interior Sul 19.6
Serra da Estrela 12.2
Beira Interior Norte 14.9
Beira Interior Sul 10.7
Cova da Beira 7.9
Oeste 10.9
Médio Tejo 11.6
Lisboa 10.5
Grande Lisboa 9.9
Península de Setúbal 11.9
Alentejo 19.9
Alentejo Litoral 24.6
Alto Alentejo 23.7
Alentejo Central 20.5
Baixo Alentejo 24.5
Lezíria do Tejo 13.6
Algarve 18.7


Região Autónoma dos Açores 11.4
Região Autónoma da Madeira 13.7