Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevista. Mostrar todas as mensagens

24 maio 2011

MUDAR DE VIDA

Aqui está um excerto da minha entrevista ao "Mundo Português" sobre o meu novo livro:
Afirma no livro que acabou de lançar, que Portugal apresenta actualmente, o pior crescimento económico médio desde a I Guerra Mundial, a maior dívida externa dos últimos 120 anos, a taxa de desemprego mais elevada dos últimos 80 anos e a maior dívida pública e a segunda maior vaga emigratória dos últimos 160 anos. Na sua opinião, a partir de quando e como chegou o país a esta situação? 
Entre finais dos anos 50 e meados dos anos 90 (do século XX), Portugal foi das economias com mais sucesso na Europa. Foi a segunda que mais cresceu, tendo sido de facto uma economia de grande sucesso. Os processos de agravamento da situação económica começaram há cerca de 15 anos atrás e deterioraram-se principalmente na última década.
Praticamente não temos crescimento económico há dez anos. Quando o crescimento económico fica abaixo de dois a dois e meio por cento, não há criação de emprego, o que faz com que muita gente não tenha oportunidades. É por isso que o desemprego atingiu níveis históricos. Não há grandes perspectivas e é por isso que as pessoas continuam a emigrar.
Como chegamos a essa situação? Há várias causas. Desde o euro, que foi um grande choque para a economia portuguesa ao qual nós no princípio não soubemos responder e que agora já estamos claramente a responder. A nível internacional, por causa da concorrência da China e dos países do Leste da Europa, que afectou muitas das nossa empresas. Por outro lado, na minha óptica, tem também a ver com uma série de políticas económicas e públicas, erradas, irresponsáveis e incompetentes que agravaram os desequilíbrios que já existiam na economia portuguesa. E fizeram com que a espiral de endividamento que começou nos anos 90, não fosse travada a tempo.

O que contribuiu para que o país apresente, como referiu, a maior dívida pública dos últimos 160 anos?

 Despesismo, falta de cuidado com a situação orçamental do país, pensar que por estarmos integradas numa união monetária poderíamos aumentar as dívidas porque mais cedo ou mais tarde, alguém nos iria ajudar. Foi uma estratégia totalmente errada. A dívida pública baixou nos anos 90 porque tivemos muitas receitas oriundas das privatizações e a economia estava a crescer, mas quando a economia para de crescer e a despesa continua a aumentar, o seu peso na economia aumenta. Chega-se a um ponto em que é totalmente insustentável.

Quais são na sua opinião, os principais riscos desse excessivo endividamento?

 A consequência limite é entrarmos em insolvência. E não estamos longe. O que mostro no meu livro é que não só temos a maior dívida externa dos últimos 120 anos, como também temos níveis de endividamento externo que são superiores a praticamente todos os países que entraram em incumprimento nos últimos 40 anos. Ou seja, se olharmos para todos os países que entraram em insolvência nas últimas quatro décadas, nós estamos no top cinco.

Onde se deve cortar? 

No Estado. Estive a ver as propostas da troika e eles falam exactamente numa reestruturação do Estado, até mesmo a redução das freguesias e dos concelhos. Isso vai claramente acontecer. O mais importante é que as medidas de austeridade sejam implementadas a nível de Estado e não das famílias e das empresas. É muito importante que consigamos diminuir a despesa do Estado e reestruturá-lo. Principalmente cortar em institutos, organismos e entidades públicas para que não tenhamos que sacrificar ainda mais as famílias, os funcionários públicos e as empresas. Porque senão, nunca mais saímos desta crise. O despesismo do Estado também é culpa nossa, mas é principalmente culpa dos nossos governantes. Quanto a mim, tem que ser o estado a pagar pela crise, a maior factura não tem que ser apresentada nem às famílias nem às empresas.

As Parcerias Público-Privadas (PPP) devem ser revistas?

 São um negócio fantástico para estes governos. O que se passa é que se consegue fazer obra, inaugurá-la, aparecer na fotografia, cortar a fita dos hospitais, dos túneis e das auto-estradas e não se pagar um cêntimo. O que se faz é «chutar» essa despesa para o futuro, para os próximos governos e para os nossos filhos, porque não se paga nos cinco ou dez anos seguintes. Não só é altamente irresponsável, como é o maior atentado inter-geracional que foi feito neste país, de que me lembro.

Defende uma política de privatizações?

 São inevitáveis. Em relação a alguns activos, como a Caixa Geral de Depósitos, não sou a favor de o fazerem neste momento, porque acho que se formos vender, vai ser ao desbarato. Mas sou totalmente a favor, nas empresas públicas, de «tirar» de lá os partidos, para se acabar com as nomeações políticas. Nas empresas do Estado, e mesmo no próprio Estado, o principal critério de ascensão a posições de liderança deve ser o mérito, não por partidarismos ou por se ter o cartão do partido. É preciso moralizar a vida pública. Tem que haver transparência, auditorias externas regulares, mas é preciso haver - e isso é urgente - uma delimitação muito clara daquilo que são cargos políticos e o que são cargos públicos.
É obvio que têm que haver alguns cargos de confiança política no topo da hierarquia, mas deveríamos minorar esses cargos. No Canadá - onde se realizaram quatro eleições em sete anos e só agora houve uma maioria, ganha pelos Conservadores - o Estado funciona tão bem porque têm uma administração pública muito forte. Não interessa qual é o governo que lá está, estão a servir o Estado. É o que temos que fazer em Portugal: acabar com o compadrio, o favoritismo político e a partidocracia. Defendo que todos os salários das pessoas que trabalham para empresas públicas, institutos, devem ser publicados na internet, deve haver o acesso total a essa informação. Transparência total para que as pessoas tenham menos suspeição em relação ao Estado.

Portugal é um país muito voltado para o litoral?

 Andamos a negligenciar o interior há muitos anos. Pensa-se em Lisboa e no Porto e o resto não existe. Gostaria de saber quais são os políticos que, fora da época das eleições, pegam no carro e vão visitar Portugal. Porque se o fizerem vão encontrar um país que está em declínio. O interior está totalmente negligenciado. É preciso não investir em grandes auto-estradas, mas atrair as empresas para se criar emprego. É preciso que o Estado tenha uma política de descriminação positiva em relação ao interior: baixar a fiscalidade e as contribuições sociais das pessoas que trabalham no interior; dar-lhes uma bonificação salarial por estarem a trabalhar em zonas de interior. É preciso haver uma política que faça com que o despovoamento do interior seja travado e que cada vez mais casais jovens voltem a viver no interior ou pelo menos não saiam de lá.

Afirma que é preciso produzir mais para importar menos. Em que sectores? 

Nós exportamos muito pouco, em percentagem do nosso PIB. A aposta tem que ser feita nas exportações. Nós não apoiamos pouco as empresas, mas damos às empresas protegidas, as que não estão abertas à concorrência internacional. Isso tem que ser invertido. Em vez de dar incentivos às empresas que têm interesses instalados, temos que os dar às empresas que inovam e que exportam. Há empresas que o fazem e com imenso sucesso e no que os governantes podem ajudar é a dar-lhes incentivos: reduzir a Taxa Social Única, baixar os impostos que pagam se apostarem nos sectores de internacionalização em vez de olharem apenas para o mercado interno.
Mas mesmo assim, as apostas não podem ser feitas apenas nas exportações, há muita coisa a fazer internamente. Há muitas empresas que não têm que exportar e que podem ser empresas de excelência. O que interessa é que as empresas inovem, que sejam empreendedoras e, por exemplo, que produzam bens que nós importamos.


Quais são as medidas mais urgentes que o próximo governo terá que tomar, na sua opinião? E quais as que devem ser adoptadas a médio e longo prazo?

A primeira terá que ser uma política de transparência e anti-corrupção. O próximo governo não pode ser mais do mesmo, terá que ser um governo que mostre ser diferente do que os que o precederam. Gostaria que o clima de suspeição e de muita crispação que existe hoje em dia em relação aos nossos governantes, acabasse. E a única maneira de o fazer é com uma política de transparência.
Depois há duas coisas muito importantes. Uma clara política de combate, sem tréguas, ao endividamento, que deverá ser multifacetada: estimular a poupança, diminuir a importação de produtos, diminuir a dependência do exterior e claramente pagar as nossas dívidas.
Outra medida será coligar as finanças públicas a uma política de crescimento e produtividade. Ou seja, é importante perceber que nunca vamos ter contas públicas saudáveis enquanto não começarmos a crescer. Não pode ser um crescimento a todo o custo, mas tem que ser feito conjugando a austeridade com políticas de crescimento. Como se faz? Podemos aumentar o IVA em um por cento, mas baixar consideravelmente a Taxa Social Única porque assim os custos do trabalho baixam, não teremos que cortar salários, as empresas tornam-se mais competitivas e criam mais empregos e consequentemente diminui o desemprego.
 
O resto da entrevista está aqui, onde se fala ainda da natalidade, da emigração, e da agricultura, entre outros temas.

13 maio 2011

IDEIAS EM ESTANTE

Aqui está a minha entrevista com a Mafalda Avelar, na Económico TV, no programa Ideias em Estante. Falámos do acordo com a troika e do meu novo livro (incluindo de desvalorizações fiscais, da taxa social única, das crises nacionais e de estratégias para o futuro):

11 maio 2011

SOCIEDADE CIVIL (2)

A minha participação no programa Sociedade Civil pode ser vista aqui. O debate começa a partir dos 7m30s. No programa estiveram ainda presentes a Helena Garrido, Bettencourt Picanço, e Francisco Ramos:

07 maio 2011

MÁS POLÍTICAS E CRISE ECONÓMICA

A primeira parte da minha entrevista desta semana ao Jornal de Negócios:

O euro não agravou os problemas?

Sim, foi um choque. Mas as empresas já se adaptaram a esse choque, já aprenderam a trabalhar com a nova moeda. Repare que as exportações portuguesas cresceram acima do PIB durante muitos anos e agora [2010] voltaram a registar um crescimento muito expressivo.

Na sua "narrativa", o problema nasceu sobretudo de más políticas e decisões económicas?

Não tenho dúvidas. Chegámos aqui porque tivemos um modelo económico errado, assente no sector menos exposto à concorrência internacional - o chamado sector não transaccionável - e porque preferimos sempre atirar dinheiro para cima dos problemas.

O tal "Fontismo" de que fala no livro [em alusão a Fontes Pereira de Melo, que no século XIX apostou na modernização das infra-estruturas]...

Exacto. Eu não sou contra obras públicas, mas nós passámos de oito para 80. Tínhamos pouco na década de 70 e desatámos a construir a partir daí. É revelador que cerca de 40% de todo o endividamento da economia seja culpa indirecta do Estado.

Como assim?

Esta é a dívida externa de empresas públicas - que não são consideradas "Estado -e a dívida de empresas que, apesar de serem privadas, fizeram obras a título de investimento público, nomeadamente em regime de parcerias público privadas.

Há quem diga que foi a crise.

Estes desequilíbrios acumularam-se durante anos e anos e era claro que teriam de rebentar um dia. A crise financeira internacional só acelerou o processo. Os nossos governantes não souberam responder aos problemas e permitiram este endividamento louco.

O endividamento não foi consentido? Os alertas não são de agora.

Claro, chegámos até aqui também porque deixámos. Os políticos enganaram-nos e a opinião pública deixou-se enganar, com a complacência dos "media" e da oposição. Aliás, eu acho que se a oposição tivesse sido mais atenta e tivesse cumprido o seu papel, muito poderia ter sido evitado. Mas, quando entrámos no euro, criou-se a ideia de que os problemas da Balança de Pagamentos deixavam de existir...

Uma opinião partilhada por muitos economistas. O próprio Vítor Constâncio a defendeu.

Sim, mas está completamente errada. O que é que acontece nas outras uniões monetárias? Nos EUA, se um Estado for irresponsável, vai à bancarrota. Até pode haver um "bailout", mas não sem um forte condicionalismo.

E agora? É necessário vender os anéis, como a Caixa Geral de Depósitos?

Eu não defendo isso...

Mas defende que pode ser inevitável.

Pode, e eu até não sou contra. A maior parte dos países não tem um banco público e, em Portugal, ele até está altamente partidarizado, o que é negativo. Apenas tenho receio de que se vendesse um activo importante a preço de saldo. O momento não é o melhor.

06 maio 2011

PENSAR DUAS VEZES

Aqui está a minha entrevista à Rádio Renascença, onde falei sobre as medidas do pacote de justamento, bem como da importância das próximas eleições:
Aqui está um excerto dessa mesma entrevista:
"Quando se insistem em políticas erradas durante anos a fio, o preço é o declínio absoluto e o empobrecimento desses países, sublinha o economista, que deixa uma solução para a mudança: 
“Quem quiser votar na bancarrota do país, quem quiser assinar e votar na maior taxa de desemprego dos últimos 90 anos, na maior dívida pública dos últimos 160 anos, no pior crescimento económico dos últimos 90 anos, na pior dívida externa dos últimos 120 anos, na pior taxa de poupança dos últimos 50 anos, na segunda pior taxa de emigração dos últimos 160 anos. Quem quiser isto tudo, no dia 5 deve votar na continuação das políticas dos últimos anos. Quem quiser uma inversão de curso, estiver interessado em ficar no país e estiver interessado em dar um futuro aos seus filhos é melhor que pense duas vezes.”"

ENTREVISTA À ANTENA 1

Aqui está a minha entrevista à Antena 1, onde analiso algumas das medidas do plano de ajustamento da troika:

05 maio 2011

ENTREVISTA NA RTP2

Aqui está a minha entrevista na RTP2 com Sandra Felgueiras, onde se falou sobre o plano da troika, bem como do meu novo livro. A minha intervenção começa a partir dos 17:45 minutos do programa:
http://www0.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=26919&c_id=8&dif=tv&idpod=55838

03 maio 2011

DEBATE NA SIC NOTÍCIAS

Hoje à noite, entre as 23h e as 24h, vou estar na SIC Notícias a debater o meu novo livro e a situação actual com o Francisco Assis e o Nuno Morais Sarmento.

29 abril 2011

ENTREVISTA AO DN

Aqui está a minha entrevista de ontem ao Diário de Notícias:

DN. Que conselho daria aos responsáveis da troika que estão em Portugal?  
Para além de uma auditoria exaustiva das contas públicas nacionais, é importante que a austeridade seja acompanhada por medidas que fomentem a competitividade e o crescimento económico. A razão é simples: a economia portuguesa já está em crise há cerca de uma década. E é por causa dessa crise que temos a maior taxa de desemprego dos últimos 90 anos e a segunda maior vaga emigratória dos últimos 160 anos. Por isso, a austeridade não pode ser cega e deve promover a retoma do crescimento económico. A austeridade a impor deve igualmente ser concentrada no Estado e não nas empresas e nas famílias, que já têm sido muito sacrificadas com as políticas erradas e irresponsáveis dos últimos anos.

2. No Canadá, país onde vive, também "há esqueletos no armário" do Estado?

Quando há, são logo descobertos, pois os mecanismos de fiscalização das eventuais irregularidades são muito apertados. Em Portugal só há “esqueletos no armário” porque as nossas contas públicas são pouco transparentes e os mecanismos de fiscalização não funcionam adequadamente.

3. Porque é que o seu livro se intitula "Portugal na hora da verdade»?

Porque Portugal vive actualmente a sua maior crise desde 1892, quando fomos forçados a declarar bancarrota. E porque se não invertermos rápida e radicalmente as más políticas dos últimos anos, iremos declinar nas próximas décadas. Esta é a hora da verdade, porque cabe-nos escolher entre reformar (a sério) e declinar.

4. O pedido de ajuda ao FMI e à Europa chegou tarde?
 
Claro que sim. Desde Setembro que os principais analistas internacionais consideravam que um regaste português era inevitável. Atrasar o inevitável teve custos enormes para o nosso país. A verdade é que só houve uma razão que justifica o atraso no pedido de ajuda: o governo queria manter-se no poder a todo o custo, mesmo que para isso tivesse de arrastar o país para uma situação em que alguns bancos quase faliram e em que nos vimos forçados a pagar centenas de milhões de euros de juros a mais para financiar as dívidas do Estado.

5. Qual é a primeira medida que aconselha ao próximo Primeiro-Ministro?
 
A primeira medida do próximo governo devia ser a introdução de um grande pacote de transparência e anti-corrupção. É vital que o próximo governo não seja mais do mesmo do que temos tido nos últimos anos. É preciso acabar com as suspeições de compadrio e de favoritismo político que minam a nossa democracia e a nossa vida pública. A melhor maneira de o fazer é começar o mandato com um grande pacote de medidas que mostrem inequivocamente que o próximo governo vai pôr o interesse nacional acima dos interesses partidários.

20 abril 2011

A TROIKA E A FUNÇÃO PÚBLICA

Um artigo da revista Sábado que inclui algumas perguntas de uma entrevista que fiz por telefone sobre as consequências da activação do plano de resgate (e da chegada do FMI-BCE-CE) para a Função Pública e para a economia nacional.

13 abril 2011

NEGOCIAÇÕES E REESTRUTURAÇÕES

O Expresso convidou 3 economistas para debater as negociações com o FMI-BCE-CE e para analisar as probabilidades de uma eventual reestruturação da dívida portuguesa. Aqui estão as minhas respostas. O artigo completo, que inclui as respostas de Nuno Garoupa e de Luís Aguiar Santos, está aqui.
1- A solução seguida em 1892 de default parcial e negociação com os credores seniores inclusive teria condições de vingar nos tempos atuais ou o pedido de resgate atual foi a solução mais adequada?  
Mesmo que cheguemos a uma situação de incumprimento ou de reestruturação da dívida pública, espero bem que não tenhamos de cair nos mesmos moldes que caracterizaram a bancarrota parcial do país em 1892. É que há reestruturações de dívida mais e menos civilizadas e a de 1892 não foi muito abonatória para o nosso país, pois nós declarámos o default parcial sem antes termos tentado negociar com os nossos credores (a negociação só foi acordada em 1902). O processo foi muito tumultuoso e fez com que ficássemos fora dos mercados da dívida durante várias décadas. Por isso, o modelo de 1892 não é muito bom para solucionar os nossos problemas actuais. 
Isto não quer dizer que não vai haver reestruturação ou renegociação das nossas dívidas. Sinceramente, acho que há uma grande probabilidade que tal venha a acontecer. Aliás, essa é uma das conclusões do meu novo livro (“Portugal na Hora da Verdade”, que será publicado pela Gradiva no final deste mês), onde analisei com grande profundidade a questão do endividamento nacional. Entre outras coisas, o livro mostra que as dívidas da economia nacional são de tal modo elevadas que será muito difícil evitar uma reestruturação a curto ou médio prazo. Porém, tal reestruturação tem de ser devidamente negociada com os nossos credores e com os nosso parceiros europeus e não deve ser feita de forma “menos civilizada”, como aconteceu em 1892.

2- As opiniões que se começam a ouvir mesmo no Ecofin sobre a probabilidade de se ter de admitir uma reestruturação da dívida grega poderão ter impacto nas questões relativas à Irlanda e Portugal?

Certamente que sim. Penso mesmo que se houver uma reestruturação da dívida grega, é provável que faça todo o sentido que se discuta uma reestruturação das dívidas irlandesas e portuguesas. A haver uma reestruturação da dívida nacional, teríamos bastante a ganhar se o fizéssemos ao mesmo tempo que a Grécia e a Irlanda, pois poderíamos então negociar condições mais vantajosas com os credores.

3- O segundo voto “não” na Islândia este fim de semana sobre a questão da resolução do assunto pendente do Icesave pode ter implicações na zona euro em termos de atitude dos eleitorados e de posição de outros países, como os finlandeses que vão a votos proximamente?

Talvez. Mas mais do que a Islândia, será extremamente importante o que irá acontecer à Grécia e à Irlanda (e, como é óbvio, Portugal) nos próximos meses.

4- Qual o principal conselho que daria aos negociadores em Lisboa com a troika do pacote de resgate para Portugal?

Apesar de partirmos para as negociações numa situação muito delicada, penso que ainda há margem de manobra para conseguirmos condições melhores do que as que foram alcançadas pela Irlanda. Aliás, a porta para que tal aconteça já foi aberta por Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, que já defendeu a necessidade de o resgate português ter juros mais baixos do que os que foram oferecidos à Irlanda, bem como prazos de pagamento mais dilatados. Esperemos assim que o FMI leve a sua avante. O problema é que, paradoxalmente, e tal como ocorreu com a Grécia, os nossos parceiros europeus parecem estar mais dispostos a castigarem-nos pelas irresponsabilidades dos últimos anos do que o próprio FMI. É a solidariedade europeia no seu melhor. Esperemos que tal não aconteça, pois ninguém beneficiaria com essa situação. Em todo o caso, é importante que os nossos negociadores não cedam em demasia ou que não aceitem todas e quaisquer condições que nos forem propostas, principalmente se tivermos a “compreensão” do FMI. Esperemos que os nossos negociadores sejam firmes, e que saibam negociar uma pacote que não seja ruinoso para Portugal. Acima de tudo, é preciso conseguir que a austeridade seja principalmente feita para o Estado (com um programa de grande emagrecimento estatal nos próximos anos) e não contra as famílias e contra as empresas. O programa de austeridade também não devia impedir o estabelecimento de uma nova política de competitividade, nem comprometer irremediavelmente uma retoma económica. 

O artigo do Expresso está aqui.

12 abril 2011

FEEF-FMI EM PORTUGAL



O Diário Económico perguntou a minha opinião sobre algumas consequências do recurso ao FEEF-FMI para a nossa economia. Aqui estão as minhas respostas:  

DIÁRIO ECONÓMICO: Apesar de ainda se saber pouco sobre os detalhes do pacote de ajuda do FEEF a Portugal, o que podem os portugueses esperar em termos de impostos, salários e pensões?
Penso que tudo vai depender da auditoria que irá ser feita e que nos vai dizer qual é o verdadeiro buraco das contas públicas portuguesas, bem como de todas as outras responsabilidades do sector estatal, incluindo as empresas públicas. No entanto, e mesmo tendo em linha de conta esta incerteza, é muito natural que alguns impostos sejam agravados e que as pensões acima de 1000-1500 euros sejam afectadas. Espero que não seja necessário um novo corte salarial, mas tudo vai depender do verdadeiro estado das finanças estatais.

DIÁRIO ECONÓMICO: E ao nível do investimento e da poupança, há o risco de os certificados de Aforro e do Tesouro serem congelados ou sujeitos a novas uma alteração de regras?
É possível. Essa é uma decisão que terá de ser tomada pelo novo governo. No entanto, parece-me evidente que, nos próximos tempos, iremos assistir a um aumento dos incentivos ao aforro das família e das empresas, visto que a subida da poupança é essencial para diminuir as necessidades de financiamento da economia portuguesa.

DIÁRIO ECONÓMICO: Quais as vantagens que o país poderá vir a retirar desta decisão? E quais as consequências mais severas de recorrer ao FEEF e ao FMI?
A principal vantagem de um recurso ao FEEF e ao FMI é ter a garantia de que algumas reformas que estão a ser adiadas há muitos anos (se não mesmo décadas) irão mesmo para a frente. A reforma laboral vai mesmo avançar e as empresas públicas tornar-se-ão mais eficientes e mais conscientes das suas dívidas e défices. Penso ainda que uma “vinda” do FMI poderá acabar por ser útil ao próximo governo, pois algumas medidas impopulares podem ser tomadas com a desculpa de que foi o FMI que nos obrigou a tomá-las. As consequências mais severas têm a ver com os custos reputacionais (que, de qualquer maneira, já eram muito altos), bem como com alguma perda de autonomia da política económica e da política fiscal. Mais precisamente, há medidas que deveriam ser implementadas para estimular a competitividade das nossas exportações e que agora não sei se será possível fazê-lo.

DIÁRIO ECONÓMICO: Qual será o impacto que a solicitação de ajuda externo terá no sector financeiro? Pode dizer-se que o FEEF foi a salvação dos bancos portugueses?

O recurso ao FEEF vai ser importante para ajudar a recapitalizar os bancos nacionais, e, deste modo, vai ser igualmente fundamental para conseguirmos melhorar o financiamento da economia nacional. As restrições de crédito estão a fazer-se sentir em muitos sectores da nossa economia, e se não tivéssemos recorrido ao FEEF, provavelmente as coisas só tenderiam a agravar-se. Por isso, faz todo o sentido que o tivéssemos feito. Foi só pena que não o fizemos há mais tempo, pois poderíamos ter evitado o desnecessário agravamento do financiamento da economia nacional que ocorreu nos últimos meses.

24 março 2011

CRISE POLÍTICA VISTO DE FORA

A Rádio Renascença entrevistou-me, bem como ao Luís Cabral, sobre a actual crise política e sobre as eventuais implicações económicas que esta poderá ter. A entrevista feita por Skype pode ser vista aqui:
http://www.rr.pt/multimedia_video.aspx?fid=167&fileID=278429

19 janeiro 2011

DEBATE SOBRE O ESTADO DO ESTADO (2)

Os videos do debate do Diário de Notícias sobre o estado do Estado podem ser vistos aqui. Na parte 3, a minha intervenção começa aos 7m 30s:





14 janeiro 2011

DEBATE E ENTREVISTA

O debate de hoje sobre o estado do Estado pode ser seguido aqui às 10h da manhã. 
Mais tarde, estarei ainda na Sic Notícias para uma entrevista no Jornal das 22.