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01 março 2011

OS CUSTOS DA SAÚDE

Ainda há uns dias ouvimos o primeiro-ministro afirmar que Portugal era dos países que menos gastava por habitante com a Saúde, o que, alegadamente, seria uma prova inequívoca da eficiência do nosso sistema de saúde. É, sem dúvida, verdade. As despesas de saúde per capita em Portugal são mais baixas do que a média da OCDE.
O que o primeiro-ministro se esqueceu convenientemente de afirmar é que Portugal é dos países da OCDE que mais gasta em Saúde em percentagem do PIB. Ou seja, gastamos uma percentagem mais elevada da nossa riqueza com o sistema de Saúde que o primeiro-ministro enalteceu (e bem) do que a grande maioria dos países OCDE. Não sou eu quem o diz. São os próprios dados da OCDE. Aliás, e como podemos ver no gráfico abaixo, as nossas despesas com a Saúde em percentagem do PIB têm vindo a aumentar muito nas últimas décadas, de tal modo que já gastamos com a Saúde bem mais em percentagem do PIB do que a média da OCDE, o clube dos países mais ricos e avançados do mundo. Por que será que o nosso primeiro-ministro se esqueceu de referir este pequeno detalhe?
Gráfico _ Despesas de Saúde em percentagem do PIB, Portugal e OCDE, 1960-2007
Fonte: OCDE Health Statistics

17 fevereiro 2011

GRANDES PROGRESSOS

Às vezes estamos tão absortos com a crise e com o curto prazo que esquecemos os enormes progressos que foram alcançados pelo nosso país no último meio século. Um dos grandes avanços foi na Saúde, pois, no espaço de 2-3 décadas, os nossos indicadores passaram da média que costumam caracterizar os países em desenvolvimento para a média dos países avançados (i.e. da OCDE).
Um destes indicadores é o da esperança média de vida. Em 2007, as mulheres portuguesas tinham uma esperança média de vida de 82,3 anos, uma média superior à média da OCDE, que era de de 81,7 anos. Em comparação, em 1960, a esperança média de vida das mulheres portuguesas era de somente 66,6 anos, enquanto a média da OCDE era de então de 70,8 anos. Para os homens, os valores respectivos para Portugal eram 61 anos em 1960 e 75,5 anos em 2007. Um progresso assinalável, portanto.
Aliás, um progresso ainda mais notável se nos lembrarmos que Portugal foi o país europeu onde este indicador mais progrediu nos últimos 50 anos, e o quarto países da OCDE que registou uma melhoria mais substancial na esperança média de vida dos homens e das mulheres.
Para que possamos visualizar estes progressos, o gráfico abaixo apresenta os anos adicionais da esperança média de vida das mulheres nos países da OCDE entre 1960 e 2007:

  Fonte: OCDE

26 novembro 2009

VACINA MALDITA

Ontem fiquei a saber através da TSF que o laboratório responsável pela produção da vacina da gripe A tinha aconselhado a suspensão da vacina no Canadá, país onde resido. Ora, tendo acabado de tomar a vacina juntamente com a minha família, logo me pus a ver websites e a ouvir as notícias na rádio e na televisão canadianas para ver se sabia mais de alguma coisa sobre a alegada suspensão da vacina. Escusado será dizer que os meus esforços foram todos em vão. Tal notícia não figurou em nenhum website ou meio de comunicação canadiano. Estranho, pensei. Por que será? Será que os meios de comunicação portugueses sabem mais do Canadá que os canadianos? Será que existe uma conspiração do governo canadiano para abafar notícias tão alarmantes?
Não, nada disso. O que se passou foi que 170 mil doses da vacina enviadas para o Canadá tiveram reacções alérgicas mais severas do que o normal e, por isso, o laboratório e as autoridades de saúde canadianas decidiram prevenir e retiraram as vacinas desse lote dos diversos centros de saúde. Não houve suspensão da vacina nem da campanha de vacinação, mas somente a retirada deste lote de vacinas dos milhões de vacinas actualmente a serem administradas no país. Aliás, no Canadá, a vacinação já está aberta a toda a gente, após os grupos de risco e de as crianças terem tido prioridade. Deste modo, cerca de um quarto da população canadiana já foi vacinada. Assim, e como referi noutros posts, enquanto em Portugal a atitude em relação à vacina é de grande desconfiança (por exemplo, soube-se hoje que somente 8% das grávidas portuguesas foram vacinadas), no Canadá a atitude continua a ser de que a vacinação acarreta um risco bem menor do que a alternativa de não vacinação. Aliás, alguns estudos demonstram que a vacinação é particularmente importante para as crianças e grupos de risco. Por exemplo, no Canadá, enquanto em 2007 e em 2008 houve menos de 40 hospitalizações de crianças devido à gripe sazonal , só na segunda semana de Novembro a gripe A deu azo a cerca de 250 hospitalizações de crianças. Ou seja, a gripe A é especialmente perigosa para as crianças e grupos de risco (como as grávidas) quando comparada à gripe sasonal.
Sabendo isso, e mais uma vez, o que distingue claramente a eficácia das campanhas de vacinação nos dois países passa muito pela forma como a informação sobre a gripe e a vacina tem sido gerida. Em Portugal, o alarmismo e a desinformação que os nossos meios de comunicação (e muitos dos nossos altos responsáveis do sector da Saúde) têm dado a esta questão explica em grande parte a desconfiança que as pessoas têm em relação à vacina. No Canadá, e apesar de existirem as mesmas desconfianças, tem havido um esforço concertado para informar as pessoas de que o risco associado à vacinação é muitíssimo inferior ao risco de contrair a doença, principalmente no que diz respeito às crianças e aos grupos de risco. Numa nota pessoal, como sou pai, a mim não me foi difícil decidir.

25 novembro 2009

BONS INCENTIVOS

O governo anunciou uma importante medida no combate à desertificação do interior: os médicos que se disponham a trabalhar nos concelhos do interior do país vão receber um incentivo adicional de 750 euros mensais enquanto estiverem a ser formados na sua especialidade. Uma óptima medida que deve ser aplaudida e replicada noutros sectores e noutros departamentos estatais.

13 novembro 2009

RESPOSTAS À GRIPE E A CORRUPÇÃO

Uma das diferenças culturais com que deparei ultimamente foi a reacção dos portugueses e dos canadianos em relação à vacinação contra a gripe A. Como é sabido, em Portugal houve no início uma extrema suspeição quanto à vacinação, levando muita gente a declarar que não se iria vacinar. Assim, nos primeiros dias da campanha da vacinação havia clínicas praticamente sem ninguém para ser vacinado. Em parte, este clima de suspeição foi devido às teorias de conspiração sobre a gripe que circulam por aí, bem como à ideia de que a vacina não tinha sido devidamente testada. No Canadá, e apesar de circularem exactamente as mesmas teorias da conspiração e as mesmas alegações, a resposta da população foi drasticamente diferente. Aliás, a resposta foi diametralmente oposta. Na primeira semana de vacinação (dedicada aos grupos de risco), houve clínicas que se depararam com filas de 6 a 8 horas (sim, 6 a 8 horas, ao frio, à neve e à chuva). Havia quase um certo pânico, pois havia a percepção de que a vacina contra a gripe era fundamental para abrandar a difusão da mesma e de que quem não se vacinasse corria o risco de embarcar na roleta russa da gripe. O que explica então a reacção tão distinta da população? Provavelmente, a diferença encontra-se na resposta das autoridades de saúde. No Canadá, e apesar das desconfianças já mencionadas, as autoridades de saúde fizeram uma enorme campanha nos media a alertar para os perigos da não vacinação, informando as populações que os alegados riscos da vacina seriam muitíssimo mais reduzidos do que os perigos que a gripe acarreta (é certo que a gripe não é muito pior do que a gripe comum, mas também é certo que a gripe A tem riscos mais elevados para os mais novos e outros grupos de risco). Em Portugal, várias responsáveis da política de saúde (como o Bastonário da Ordem dos Médicos) declararam que não se iriam vacinar ou de que a gripe não seria muito pior do que uma gripe normal. E, deste modo, pensámos: e se é assim, para quê nos vacinarmos?
Moral da história: os exemplos que "vêm de cima" contam... e muito. E é por isso que se compreendeo clima de quase-histeria que existe em Portugal em relação à corrupção e às alegadas ligações perigosas de altos responsáveis governamentais em badalados casos de corrupção. Perante o acumular dos casos, perante as suspeitas constantes, perante o clima de perfeita imunidade que parece reinar, e perante a gritante incompetência da Justiça paralisada pelos inúmeros casos pendentes e pela falta de meios, não é de estranhar que a respostas das populações em relação à política e à causa pública seja cada vez mais de desconfiança e, por que não, de nojo até. Por isso, a única forma de restaurar a pouca dignidade do nosso sistema político e dos nossos responsáveis políticos passa obrigatoriamente pela aprovação de um grande pacote de medidas contra a corrupção e a favor de maior transparência. Um pacote de medidas concretas que sejam implementadas. Escrever no papel não basta, é preciso passar à prática e demonstrar que as leis existem para ser cumpridas. Já se fala num tal pacote de medidas, mas agora falta fazer. É que, como em muitas coisas na vida, o que parece pode não ser, mas muitas vezes é.

15 setembro 2009

A SAÚDE DOS PORTUGUESES

Estava a ler o relatório da OCDE sobre a Saúde em Portugal e alguns dados saltaram-me à vista. Apesar de reclamarmos muito sobre o que está mal (e ainda bem que o fazemos) na saúde nacional, a verdade é que é fácil esquecermos o grande progresso registado nas últimas décadas. Deste modo, vale a pena relembrar o que já alcançámos:
  • A esperança de vida em Portugal é de 78.9 anos, igual à média da OCDE.
  • A taxa de mortalidade infantil portuguesa foi de 3,3 mortes por 1000 nascimentos de nados vivos, substancialmente menor do que 24,2 por 1000 em 1980. Portugal tem uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil na OCDE.
  • A maior surpresa que tive foi constatar que Portugal tem uma das taxas de fumadores diários mais baixas da OCDE! Pensei que seríamos dos piores, mas, afinal, não. Cerca de 19,6% dos(as) portugueses(as) declaram-se fumadores diários, bem menos do que a taxa média da OCDE (23,3%).
  • A generalidade dos índices de saúde pública melhoraram consideravelmente nas últimas décadas
  • Uma nota mais negativa regista-se em relação às taxas de obesidade, que aumentaram de 11.5% em 1996 para 15.4% em 2006. O efeito do crescimento da fast food nos últimos anos (e os poucos incentivos à promoção de vidas mais activas) está à vista.

30 abril 2009

GRIPE SUÍNA

O DN fez-me umas perguntas sobre o impacto económico da gripe suína. Aqui estão as minhas respostas:

DN_ O Banco Mundial estimava que uma epidemia de gripe da aves teria um impacto de 3 mil milhões de dólares na economia global. É possível prever os impactos desta nova gripe?

Certamente que, brevemente, quando tivermos uma noção mais concreta do impacto e da extensão do problema, irão surgir estimativas do impacto da gripe suína. O que sabemos é que o impacto final irá depender da extensão e difusão desta nova gripe. Tudo vai depender se vai haver realmente uma pandemia, quantos países serão afectados, etc.

DN- O fecho das fronteiras é a principal ameaça? Que efeitos pode ter?

Sim, o encerramento das fronteiras é uma das ameaças mais sérias. Se tal acontecesse, os efeitos económicos seriam bastante consideráveis, pois esta gripe surge num momento em que a economia mundial já está bastante debilitada. O encerramento das fronteiras irá lesar principalmente os países mais dependentes do comércio externo.

DN- Os mercados, depois de um impacto negativo nos primeiros dias, parecem agora estar a reagir bem... é de esperar que continuem a reagir bem?

Tudo vai depender da evolução da doença. Se a febre suína se tornar mesmo numa pandemia, o comércio internacional será muito atingido, o que seguramente irá afectar negativamente os resultados das empresas. Num tal cenário, certamente que os mercados irão reagir de forma negativa.

DN- Há empresas que podem sair a ganhar?

Há sempre empresas que podem sair a ganhar. Obviamente, muitas empresas do sector da saúde irão beneficiar, não só os produtores de medicamentos como o Tamiflu, mas também as empresas que vendem máscaras, produtos desinfectantes e sanitários, etc. Mas há muitos outros potenciais vencedores. Imaginemos um cenário em que se dá mesmo uma pandemia mundial e que o comércio internacional é seriamente afectado. Haverá produtores nacionais que poderão sair beneficiados se os seus concorrentes externos forem atingidos. Obviamente, se os preços dos produtores nacionais forem mais elevados do que os preços dos seus concorrentes internacionais, quem pagará a diferença serão os consumidores.

DN- Quais as que podem perder mais?

As empresas que podem perder mais são exportadores e importadoras, bem como aquelas que dependem de matérias-primas e bens intermédias para as suas produções. Ou seja, as empresas que podem perder mais são aquelas que mais dependem do comércio internacional para as suas actividades.

DN- É importante para as empresas estabelecerem planos de contingência?

Sim, claro que sim. Aliás, é muito provável que muitas empresas já o estejam a fazer, principalmente se dependerem de mercados externos para as suas produções

22 abril 2009

SATISFAÇÃO NACIONAL E SUICÍDIOS

Que os(as) portugueses(as) andam bastante desencantados com a economia nacional é bem sabido. Também é sabido que há bastante descrença em relação às potencialidades do país e à eficácias das políticas a aplicar perante a crise. Por isso, não é de estranhar que os portugueses estejam pouco satisfeitos quanto às suas vidas. Numa sondagem mundial realizada pela Gallup, podemos ver que actualmente os portugueses são dos povos mais desencantados com as suas vidas (ver gráfico abaixo). Num índice de satisfação de vida, na OCDE os portugueses só ficam à frente dos húngaros e eslovacos. Os povos mais satisfeitos são os escandinavos, os holandeses, os irlandeses e o Canadá. Os nossos vizinhos espanhois estão bem mais satisfeitos do que nós (pelo menos até à crise se ter instalado...) e até os gregos e os italianos estão mais felizes do que os portugueses.


Ainda assim, o desespero não é total, pelo menos quando nos comparamos com outros países. Se olharmos para a taxa de suicídios, Portugal é dos países que regista menores taxas de suicídios na OCDE (ver tabela abaixo e gráfico). É verdade que a nossa taxa de suicídio é maior do que a da Espanha, da Grécia, do México e da Itália, mas é bem menor do que a grande generalidade dos países. É interessante observar que, de um modo geral, os povos latinos suicidam-se bem menos do que todos os outros, inclusivamente os países bem mais abastados do que nós. Será o sol? A nossa disposição perante a vida? A nossa tendência para viver bem a vida mesmo quando as coisas não correm bem? É igualmente interessante também observar que os húngaros não só andam desencantados com a vida, mas também se suicidam a uma taxa bem mais elevada do que todos os outros na OCDE...
Taxa de suicídio vs. PIB por habitante
Finalmente, vale também chamar a atenção para um último facto. As mulheres suicidam-se muitíssimo menos do que os homens. A taxa de suicídio nacional para os homens é de 14.6 por 100 mil habitantes, enquanto a das mulheres é somente de 3,8 (ver tabela abaixo). Por que será? Qual será o segredo?


Total

Homens

Mulheres

Greece

2.9

4.7

1.1

Mexico

3.8

7

1

Italy

5.6

9.3

2.4

United Kingdom

6.3

10

2.8

Spain

6.7

10.7

3.1

Netherlands

7.9

11.1

4.9

Iceland

8.7

13.2

4.2

Portugal

8.7

14.6

3.8

United States

10.2

17

3.9

Germany

10.3

16.3

4.8

Norway

10.5

15.8

5.3

Canada

10.6

16.7

4.6

Australia

11.1

17.6

4.7

Ireland

11.1

18.2

4

Denmark

11.3

16.8

6.3

Sweden

11.4

17

6

OECD average

11.88

19.0

5.4

Slovak Republic

11.90

22

3.1

New Zealand

12

20.2

4.2

Luxembourg

12.5

20.2

5.5

Czech Republic

13

22.6

4.4

Poland

13.6

24.2

3.9

Austria

14.5

24

6.4

France

15.1

23.4

7.8

Switzerland

16.3

23.9

9.6

Belgium

18.4

28

9.8

Finland

18.4

28.9

8.5

Korea

18.7

28.1

11.1

Japan

20.3

30.5

10.4

Hungary

22.6

39

8.9