17 abril 2009

COMENTÁRIOS AO "MEDO DO INSUCESSO"

Nos próximos dias irei publicar comentários e críticas dos leitores ao "Medo do Insucesso Nacional", tentando responder o melhor possível. Começo hoje com os comentários de Rolando Almeida, filósofo, professor e autor do blogue A Filosofia no Ensino Secundário:
"Como a economia não é a minha área tenho maiores dificuldades em encontrar falhas no teu livro, mas confesso que não foi para isso que o li, para encontrar falhas. Li-o sobretudo porque gostei do Mitos e da forma fresca e lúcida como aborda o nosso país. E Medo tem também essa força. Fecho o livro em cada capítulo que leio e pergunto: porque não? De resto existem ali ideias que tenho defendido, ainda que sem a visão da economia. Isto faz-me lembrar o ambiente que se instalou nas escolas aquando das primeiras directrizes para a avaliação dos professores. De repente todos os professores falavam que ia ser tramado já que todos iam fazer a vida negra a vida uns dos outros. Foram muitas as vezes que perguntei aos colegas, mesmo aos mais velhos:”mas por que razão tem de ser assim?”. É que tal atitude nem nada a ver com a avaliação em si, mas com o espírito com que as pessoas encaram as novidades e os novos desafios. O que mais observei nessas curtas conversas é o conservadorismo, e, agora posso dizê-lo, o medo do insucesso nacional. Ainda ontem disse a uma colega uma coisa e ela reagiu com choque e desaprovação completa. Disse algo tão simples como: “os principais responsáveis pelo insucesso educativo é dos professores.” Disse-o dentro da escola e por momentos ela esqueceu que eu também sou professor do ensino secundário desde os meus 21 anos (e já tenho 35). Bom, mas vamos aqui a uns comentários avulsos:
Na p. 208, apresenta uma comparação dos salários dos juízes. Só uma nota: em relação ao salário médio do país, é verdade que os juízes portugueses ganham muito mais que os seus congéneres de outros países. Acontece que o salário médio português deve ser muito mais baixo que os seus congéneres, de modo que se explica essa distância. É verdade que a disparidade existe. Mas serão os juízes que estão a auferir salários altos ou os restantes que auferem salários muito baixos? Ou seja, o problema não é o que os juízes ganham, mas o preço do salário médio. Mas posso estar a ver mal a coisa.
Fiquei também com algumas dúvidas em relação ao que diz dos políticos. Segundo lembro, defende que o privado paga melhor e os melhores preferem trabalhar para o privado do que enveredarem pela política, já que os salários são pouco competitivos. Eu não vejo isso assim. E não vejo em primeiro lugar porque ser político em Portugal significa ter um poder de influência demasiado grande e poder beneficiar empresas (em que os políticos ou familiares são sócios), para além de que, se não estou em erro, ao fim de 2 mandatos um governante tem direito a uma reforma vitalícia. Isto é, de modo pouco transparente, ser político em Portugal compensa e muito. Não se esqueça que no próprio livro defende a tese que um dos problemas de Portugal é ter Estado a mais. Já agora, por curiosidade, o filósofo inglês Stuart Mill tem uma obra importantíssima , Sobre a Liberdade, em que já defende o Estado Minímo. Mais recente, Robert Nozick defende uma ideia interessante, a do estado minímo, no seu State, Utopia and Anarchy.
Mais adiante defende duas teses que podem soar algo inconsistentes. Vamos ver: 1) Defende (e parece-me, que bem) a reorganização do espaço geográfico escolar. 2) Defende a descentralização do país de Lisboa e Porto.
Ora, do ponto de vista da economia 1) é essencial, mas do ponto de vista social 1) pode constituir o primeiro entrave a 2) No primeiro capitulo, por que razão a entrada de mais países na EU seria positiva para Portugal? Creio que isto ficou por explicar.
CONCLUSÃO: é importante que as teses que defende no livro entrem no espaço público. A publicação do livro é já a manifestação dessa vontade. Espero que as pessoas se apercebam do real impacto que algumas das suas teses podem ter para o país e que se discutam essas teses.
De resto, tenho a dar-lhe uma palavra de agradecimento profundo por ter escrito este livro. Aprendi muita, mas mesmo muita coisa com ele e, sobretudo, é um livro que me deixa a discutir os problemas e esse é talvez o desejo maior de qualquer autor e investigador."
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Obrigado Rolando pelos comentários e sugestões. Aqui vão as minhas respostas:
a) salários dos juízes. É verdade que os nossos salários médios não são dos mais altos da Europa (os nossos salários são médios na UE27, ie., baixos em relação aos país mais ricos, mas altos comparados à maioria dos países da Europa de Leste). No entanto, os salários dos nossos juízes são altos tanto em termos relativos, como absolutos. Não são tão altos como no Reino Unido e a Irlanda, mas são mais elevados do que na grande maioria dos países, França e Alemanha incluídas. Por isso, são altos.
b) salários dos juízes. É verdade que os políticos têm outras "compensações". Porém, se estas existem são, pelo menos, em parte justificadas exactamente pelos baixos salários relativos que os políticos auferem. Se os salários fossem mais elevados, muitos políticos não seriam tentados a arranjarem remunerações suplementares. Claro que nada disto justifica a corrupção que existe (e que será um dos temas do meu próximo livro). E, principalmente, claro que o combate deve ser feito por todos os meios, inclusivamente através de legislação que aumente a transparência dos cargos públicos. Também concordo que é preciso regulamentar melhor
c) concordo que a descentralização da Educação ficou por explicar. Tal será feito tanto aqui no blogue como no próximo livro
d) a minha defesa da entrada de mais países para a UE é irónica. É simplesmente uma forma de dizer que, a continuar no ritmo de crescimento dos últimos 10 anos, só nos resta esperar que mais e mais países entrem na União se não quisermos ficar na "cauda da Europa".
Obrigado.

16 abril 2009

PARTIDOS E INFLAÇÃO

Voltando à comparação do desempenho das principais variáveis macroeconómicas de acordo com o partido que está no poder, é interessante verificar o que se passa em relação às taxas de inflação. Se tivessemos uma divisão ideológica muito marcante entre os partidos do bloco central (os partidos tradicionalmente de poder em Portugal), seria tentador concluir que os governos do PS tenderiam a privilegiar o combate ao desemprego em vez da inflação. Por outro lado, se o PSD fosse um partido de direita clássico, certamente que a estabilidade macroeconómica (e, assim, uma taxa baixa de inflação) deveria ser um dos objectivos dos seus governos. Porém, quando olhamos para os números, a história da jovem democracia portuguesa não nos dizem isso. Com efeito, os governos maioritários do PS batem aos pontos os governos do PSD em relação à inflação: os períodos de governação socialista têm uma inflação média de 6,1%, enquanto que os períodos de governação social-democrata têm uma inflação média de 9,3% (ver tabela ao fundo. do texto). O que é que quer isto dizer? Que o PS se preocupa mais com a inflação do que o PSD? Não necessariamente. A verdade é que o período em que o PS governou sozinho durante mais tempo (1995-2001) e (2005-2009) foram períodos em que a economia portuguesa se preparou para entrar no euro. Ora, uma das condições para o fazer era a convergência das taxas de inflação com os países menos inflacionistas da União. Como foram os governos do PS que conduziram esse processo, é natural que os números espelhem esse facto. Isto não quer dizer que, obviamente, não haja mérito desses governos, simplesmente que não sabemos se os governos do PS (e o Banco de Portugal) teriam dado preponderância à inflação se a adesão ao euro não
Uma história ligeiramente diferente são os governos de coligação. O PS coligado tem um registo inflacionário muito superior aos governos do PSD coligado. Mais uma vez, talvez isso se deva à época em particular em que estas coligações aconteceram, mas vale a pena sublinhar este facto.
Um último ponto, eu concordo com este comentário do Portugal Azevedo que este tipo de análises são demasiado simplistas e um pouco redutoras, até porque os governos do PS dos anos 1980 têm pouco a ver com os governos actuais (e do PSD também). Porém, mesmo que seja uma mera curiosidade, penso que vale sempre a pena fazer estas comparações, nem que não seja para percebermos um pouco mais da nossa história política recente. Amanhã, falo nos défices.
Taxa de inflação média por partido ou coligação desde 1976:

PS

6.1%

PS coligado

24.1%

PSD

9.3%

PSD coligado

13.4%

15 abril 2009

PARTIDOS E CRESCIMENTO ECONÓMICO

A propósito destes comentários do Alfred the Pug e do João Bispo, decidi fazer umas pequenas contas sobre o desempenho económico associado aos períodos governados pelos diversos partidos desde 1976. Assim, dividi os anos por partido e/ou coligação e, em seguida, verifiquei o crescimento económico do PIB ou PIB per capita nesse ano. O passo final foi encontrar a média do crescimento económico das várias possibilidades (governo PS, governo PSD, governo PS coligado, governo PSD coligado). Como houve um governo PS-PSD em meados dos anos 1980, mas o PS chefiava a coligação, PS coligado inclui o governo do bloco central. Os resultados obtidos são os seguintes:
Ou seja, os governos do PSD têm uma pequena vantagem em termos de crescimento económico quando comparados aos governos do PS (3,3% para o PS, 3,6% para o PSD). Esta diferença é mais significativa quando olhamos para o crescimento do PIB per capita (3,4% para o PSD e 2,7% para o PS).
Em segundo lugar, é interessante verificar que os governos de coligação têm sido menos eficazes a estimular o crescimento económico do que os governos de um só partido. Assim, as coligações governamentais chefiadas pelo PS estão associadas a uma taxa média de crescimento do PIB de 0,9% e de 0,7% para o PIB per capita. Por seu turno, os governos do PSD tiveram taxas de crescimento médio do PIB na ordem dos 2,2% e de 1,8% do PIB por habitante.
Nos próximos dias irei verificar o que se passa com outras variáveis macroeconómicas, tais como as taxas de inflação, o crescimento dos salários e os défices orçamentais. Entretanto, se alguém conhecer algum artigo sobre este assunto, terei todo o gosto e interesse em conhecê-lo.

MAPA JUDICIAL

Ontem foi a cerimónia de lançamento da reforma do mapa judiciário. Não sou jurista e, por isso, não me considero particularmente qualificado para ajuizar se a reforma é boa, má, ou se devia ter sido feita de outra forma. No entanto, pelo que já li e ouvi, esta reforma é uma boa notícia. Como referi várias vezes no "Medo do Insucesso Nacional", a reforma do sistema judicial é simplesmente essencial para a eficiência da Justiça. Afinal, convém não esquecer que o mapa judicial actual data do sécuilo 19, quando Portugal era um país completamente distinto do actual. O sistema judicial é um factor de descompetitividade da nossa economia e, por isso, a reforma agora iniciada é um importante passo no sentido de rectificar as ineficiências gritantes do sector. Parabéns ao governo por ter tomado esta iniciativa. Esperemos que resulte.

14 abril 2009

O DECLÍNIO RELATIVO PORTUGUÊS (2)

Ainda a propósito deste post, o próximo gráfico é bastante elucidativo sobre o "desastre" dos últimos anos. (O gráfico é de um artigo que estou actualmente a escrever). Se atentarmos aos números do crescimento económico português desde 1900 e se filtrarmos as flutuações económicas, podemos ter uma ideia mais abrangente sobre o crescimento do PIB potencial português. É isso que faz o gráfico abaixo, onde se apresenta o crescimento de tendência do PIB português (a linha picotada) e do PIB per capita. Como podemos ver, os últimos 8 anos são os piores dos últimos 80 ou 90 anos. O período de ouro do crescimento económico português aconteceu durante a década de 1960, quando nos industrializámos, e o segundo melhor período aconteceu após a nossa adesão à CEE.
Pelo contrário, desde meados da década de 1990, o crescimento potencial português só tem vindo a diminuir, devido à menor competitividade da nossa economia. Mesmo assim, apesar da nossa política económica ter falhado redondamente, continuamos a insistir nas mesmas teclas: na política do betão e no crescimento do Estado. Perante factos tão elucidativos, não será chegada a hora de mudar de estratégia? Ou será que não?

O DECLÍNIO RELATIVO PORTUGUÊS

Inicio aqui uma série de posts sobre o declínio relativo português dos últimos anos. Começo com os números do crescimento do PIB (taxas reais), que nos são dados pelo Groningen Growth and Development Centre, um dos melhores e mais fiáveis grupos de recolha de dados estatísticos nacionais. Os números e as datas são deles e, por isso, não fiz qualquer manipulação contabilística. Como podemos ver na tabela, a economia portuguesa teve um excelente desempenho entre 1987 e 1995, para, em seguida, desiludir. Pelo contrário, nos últimos 8 anos, Portugal teve o pior desempenho económico de toda a UE27, com a excepção da Itália, que já está em dificuldades há mais tempo do que nós. Será que não teremos lições a tirar do sucesso do período pós-adesão? Será que as causas do insucesso dos últimos 8 anos serão estruturais ou conjunturais? Será que o insucesso dos últimos anos não terá sido motivado por falhas da nossa política económica? Por carências de competitividade da nossa economia? É isto que os próximos posts tentarão responder. Entretanto, ficam aqui os números comparativos do crescimento económico real na UE (clique na imagem para ver com mais definição).

13 abril 2009

AS NOVAS TECNOLOGIAS E A POLÍTICA

Como este é um ano de (muitas) eleições, esta é uma boa altura para fazermos contas aos últimos anos e verificarmos o trabalho levado a cabo por aqueles(as) que nos representam. Neste sentido, uma das facetas do trabalho dos nossos eleitos deveria ser a comunicação dos seus trabalhos ao público em geral, bem como a utilização das novas tecnologias para que haja maior transparência e abertura dos diversos orgãos políticos. Para além do mais, num país onde se tenta avançar com um Plano Tecnológico, quem melhor que os mais altos responsáveis dos cargos públicos para darem o exemplo e serem os pioneiros na utilização dos novos meios de comunicação? Por isso, vale a pena dar analisar os números da adopção das novas tecnologias junto dos nossos principais orgãos políticos.
Comecemos primeiro com o E-government Survey 2008, das Nações Unidas, que compara a adopção das novas tecnologias através de um ranking de 191 países. Nesse ranking, em 2008, Portugal encontrava-se na 31ª posição, atrás de países europeus como a Suécia, a Dinamarca, a Holanda, a França, o Reino Unido, a Estónia, o Luxemburgo, a Finlândia, a Austria, a Irlanda, a Espanha, a Alemanha, a Bélgica, a República Checa, a Eslovénia, a Itália, a Lituânia, Malta, e a Hungria. Ou seja, estávamos em 20º lugar entre os 27 da União Europeia. Bem sei que estes números têm vindo a melhorar e que até a OCDE já elogiou o trabalho deste governo em relação à adopção das novas tecnologias pelo Estado português, mas, sem dúvida, ainda há muito a fazer.
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Porém, talvez os números do governo não sejam totalmente indicativos. Vejamos assim a nossa Assembleia da República, que recentemente foi remodelada por forma a que os nossos deputados tivessem algumas das mais avançadas tecnologias. É de assinalar que o site da AR dispõe de diversas informações onde os eleitores podem verificar a assiduidade e o trabalho dos diversos deputados. Por outro lado, a verdade é que as novas tecnologias ainda não são muito utilizadas pelos nossos deputados para comunicarem ao público em geral.
Quantos deputados estão online e têm páginas pessoais? 27... em 230... Em termos relativos, e por partidos, o Bloco de Esquerda é, de longe, o partido que mais faz para mostrar a adesão às novas tecnologias. O BE tem 8 deputados com páginas pessoais. O PS tem 14 deputados online, o PSD somente 5, o PCP zero, e o CDS zero. Quantos blogs existem dos nossos deputados? 9, dos quais somente 3 ou 4 estão ligeiramente activos.
Pouco. Muito pouco. Muito pouco mesmo. Principalmente para um país com um Plano Tecnológico, que serviu de bandeira eleitoral nas últimas eleições legislativas.
Ora, numa altura em que os políticos se esforçam para mostrar a sua relevância, numa altura quando os partidos tentam cativar os jovens cada vez mais desinteressados, numa altura quando os portugueses estão cada vez mais descrentes, não seria uma boa ideia que o Parlamento tentasse aumentar a sua visibilidade? Numa altura que os portugueses se preocupam crescentemente com os badalados casos de corrupção, não seria uma boa ideia aumentar a transparência do nosso principal orgão legislativo? Não seria boa ideia fomentar um diálogo maior entre os eleitos e os eleitores?

11 abril 2009

JUROS ZERO

O João Madeira do semanário SOL perguntou a alguns analistas sobre as consequências de uma taxa de juro zero na Eurolândia. O DN também me perguntou sobre os prós e contras dos juros zero. Aqui estão as minhas respostas.
SOL_ Quais seriam as consequências de atingir-se, na zona Euro, uma taxa de juro zero (ou um valor muito próximo)?
Antes de mais, penso que, se tal acontecesse, seria mau sinal, pois significaria que a situação económica se tinha agravado ainda mais. A principal consequência de uma taxa de juro zero seria uma grande perda de eficácia da política monetária. O BCE poderia ainda aumentar a liquidez na economia, mas, obviamente, não poderia mais baixar os juros para tentar ajudar a economia. Há até quem defenda a ideia que uma taxa de juro zero conduziria à chamada armadilha da liquidez, em que a política monetária se tornaria completamente ineficaz.
SOL- Que condições económicas teriam de ser observadas para que tal acontecesse?
Penso que o BCE só decidirá baixar as taxas de juros para valores próximos do zero se as condições económicas se deteriorarem ainda mais. No entanto, a descida dos juros da última semana revelou um BCE mais cauteloso do que os analistas estavam à espera. Por isso, não me parece descabido assumir que o BCE prefira manter alguma margem de manobra do que baixar os juros já para níveis próximos do zero nos tempos mais próximos.
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SOL _ Que riscos comporta esta política? Quais as vantagens?
Vantagens:
Taxas de juros mais baixas ajudam as famílias, as empresas e os investidores. Para a economia portuguesa, a contínua descida das taxas de juros é uma óptima notícia para as famílias e para as empresas, principalmente as mais endividadas. As prestações das casas ficam mais baratas (se as taxas de juros dos empréstimos forem variáveis), as prestações dos cartões de crédito e dos empréstimos ao consumo também baixam. Por isso, o rendimento disponível das famílias aumenta. O mesmo se passa com os empréstimos contraídos pelas empresas. Isto é, de certa forma, uma baixa tão pronunciada das taxas de juros (como a que temos tido nos últimos meses) tem um efeito semelhante ao de um choque fiscal. Este efeito é de saudar, principalmente numa altura em que tantas famílias e empresas passam dificuldades e em que o desemprego ameaça aumentar ainda mais.
Porém, o elevado nível de sobreendividamento pode trazer um efeito perverso não desejado pelas autoridades económicas: esta é uma altura ideal para abater o elevado nível da dívida dos particulares e das empresas, e, por isso, se estes decidirem pagar as dívidas em vez de gastarem o rendimento disponível adicional, o impacto da descida dos juros na economia será muito reduzido. Ou seja, a política monetária é pouco eficaz nestas condições (tanto na Europa como em Portugal).
Riscos:
Primeiro, se as taxas de juros nominais estiverem próximo de zero, existirá pouca margem de manobra por parte da política monetária para estimular a economia. Isto é, se a situação económica se deteriorar ainda mais ou se o PIB permanecer estagnado durante demasiado tempo, as autoridades monetárias pouco poderão fazer para auxiliar a economia. Se as taxas tiverem perto de zero, poderemos cair na chamada armadilha da liquidez, uma situação onde a política monetária é completamente ineficaz. Isto é, as autoridades monetárias podem tentar aumentar a quantidade de moeda na economia, mas os agentes económicos preferem guardar ou poupar a maior quantidade de moeda disponível em vez de a gastar. Alguns economistas, como Paul Krugman, defendem que foi isso que aconteceu no Japão nos anos 90 e que está a acontecer actualmente nos Estados Unidos. Outro grande contra das taxas de juro estarem próximas de zero é que não há incentivos à poupança. Em Portugal, as taxas de poupança têm baixado muito nos últimos anos, o que nos tem feito fazer recorrer ao estrangeiro para financiar as nossas necessidades de financiamento. Taxas de juros ainda mais baixas certamente que não fornecem os incentivos necessários para que esta situação se inverta.
SOL- Nas condições actuais, faz sentido ou não adoptá-la na Europa? Porquê?
Penso que ainda não faz sentido. Baixar os juros um pouco mais talvez ainda se justifique, mas juros zero provavelmente não. As taxas já estão historicamente baixas e não me parece que baixá-las para zero seja uma receita mágica para os problemas da economia europeia. Talvez seja melhor manter alguma margem de manobra na política monetária, que poderá ser importante se a situação económica se agravar. Não digo que, no futuro, não possa fazer sentido adoptar juros zero, mas, por enquanto, não faz.

09 abril 2009

SUGESTÕES PARA A PÁSCOA

Duas sugestões de leitura para as breves férias da Páscoa:


A primeira sugestão é "O Mundo" de Juan José Millás, editado pela Planeta, uma autobiografia ficcionada de um dos escritores espanhóis mais badalados da actualidade. Confesso que nunca tinha lido nada do Millas. No entanto, fiquei rendido à sua escrita praticamente desde a primeira página. Um pouco como acontece com as obras de José Eduardo Agualusa, neste livro Millas mistura constantemente ficção com a realidade e o resultado final é fascinante. Um livro que vale a pena ler, nem que não seja pela descrição de uma Espanha dos anos 50 e 60 bem mais pobre e conservadora do que a actual.

A outra sugestão é "O Fundamentalista Relutante" de Mohsin Hamid (Civilização Editora), um paquistanês que vive em Londres.


Esta é a história de um estudante paquistanês que vai para a América estudar, frequentando a Universidade de Princeton, para mais tarde trabalhar numa das melhores consultorias de Nova Iorque. Apesar de tudo correr bem ao início, tudo se complica e altera quando acontecem os ataques terroristas de 11 de Setembro. A escrita é de fácil leitura e a história é interessante. Um autor a conhecer.

08 abril 2009

SALÁRIOS DOS GESTORES

Um post de Augusto Küttner de Magalhães sobre os salários dos gestores:
"Trata-se de um tema recorrente, e que tem sido um pouco "tabú" no mesmo falar. Primeiro, dado que os próprios gestores - sentem-se muito confortáveis com "tudo" o que auferem, logo não vão querer "nisso mexer" e por outro lado, por parte de "todos os outros" tem havido quase uma obrigatoriedade de sobre o "tema" manterem silêncio, podem receber represálias!. Antes de mais convém frizar que se está a falar do gestor como tal que pode não ser o detentor do capital, sendo que este último tem todo o direito em receber o valor devido pelo investimento ou capital investido, além da remuneração de gestar se for o caso. Quanto ao gestor, sendo uso e costume para além do vencimento base, ter mais uma série de regalias e mordomias, algumas nem sequer devidamente tributadas em sede de IRS e até Segurança Social, como viatura permanente para uso e utilização própria, teêm seguros de saúde e de vida que abrangem o próprio e até a familia, para além de cartão de credito e mais benesses. Sendo que se estamos a falar numa empresa sólida e sobretudo se o gestor - não detentor do capital - é capaz, competente, tem educação - mais que só instrução - formação e faz a empresa crescer deve ser bem retribuído, sem dúvida. Porém ser gestor e só por o ser, ter que receber todas as mordomias e regalias inerentes "à função" mesmo que a não cumpra com a máxima competência, no minimo é estranho. Como é evidente neste caso, o próprio não vai diminuir nada do que aufere, mas depressa o fará - evidentemente - aquele que é capaz, que é competente por isto mesmo. Também não é do interesse da empresa , nem público, mesmo que seja uma empresa com muita visibilidade que as regalias dos gestores sejam discutidas na praça pública, de forma alguma, bem pelo contrário. Mas o lugar não faz a pessoa e o contrário é verdadeiro, e por aqui é que se devem corrigir possiveis erros, possiveis discrepâncias, e não virem depois "uns quantos" reclamar, que se recebe demais, e mesmo assim a empresa não se aguentou. Os merecidamente donos do capital, sejam accionistas maioritários ou minoritários, devem ter o poder de decidir sobre o que cada Gestor aufere, e hoje sem medo de que "algum" possa "fugir" para outra empresa, dado que andam muitos à procura de lugar, e por vezes tantos tão mais competentes, dos que estão em funções, e o não encontram - lugar. Sendo sempre, ontem, hoje e amanhã indispensável a existência de hierarquias, de diferenças salariais e até de regalias, está chegada a altura de tudo ser cada vez "mais" conquistado em função do mérito pessoal, da competência e até da concorrência leal e justa entre orgãos de topo e quem os ocupa. Não sendo possivel continuar a haver que tenha tremendas regalias unicamente pelo posto, e não pela forma capaz como o cumpre. Por outro lado os próprios se competentes e capazes devem conseguir saber discernir até que ponto é justo receberem o que recebem e se a empresa em determinada altura pode suportar esses "seus" custos. Por outro lado haver gestores que recebem mais 10 vezes que quadros intermédios, e mais 18 vezes que quadros mais baixos, é pouco louvável. Neste momento, democraticamente e internamente cada empresa, cada gestor, cada accionistas tem que olhar com muito cuidado para este assunto, e dar-lhe um cariz mais justo, mais realista, mais transparente em função do que estamos a viver e do que virá - ou não!!- a seguir! A competência, capacidade, rectidão, conhecimenntos, liderança, deve ser compensadas, justamente, não o resto.....olhos azuis, os castanhos, jogar ténis, ou vestir bem, etc..."

MUNDO UNIVERSITÁRIO

Aqui está uma entrevista que fiz ao Mundo Universitário Online sobre o meu livro mais recente:
MU _ Logo no início do livro, começa por dizer que «o pessimismo é uma das indústrias mais bem sucedidas em Portugal». Esta é uma característica exclusivamente portuguesa?
Não, aliás nós pensamos que somos os maiores pessimistas do mundo e não somos. Há países que são bem mais pessimistas que nós. Já vivi em Inglaterra e no Canadá e acredito que, por exemplo, os ingleses são extremamente pessimistas. A diferença é que, apesar de serem pessimistas, tentam lutar contra esse pessimismo.
MU _ O insucesso escolar pode ser uma consequência do pessimismo?
Acho que não. Acho que o insucesso escolar se deve única e exclusivamente a uma má gestão do nosso sistema educativo. Fiquei chocado quando me deparei com as estatisticas. Apenas 30 a 35 por cento dos nossos jovens hoje acaba o secundário, sem chegar à universidade. O que nós podemos fazer é dar mais autonomia às universidades, flexibilizar o sistema, permitir que os alunos possam escolher um curso mais geral e a partir do segundo ano decidir o que querem fazer. Eu fiz o curso cá, mas sempre leccionei no estrangeiro e é uma atitude muito diferente. Acho que é essa atitude e essa flexibilidade que existe nesses países que se tem que incutir cá. Por exemplo, sou contra aquela ideia do ‘professor doutor’ que tem a chave do conhecimento. Esse tipo de atitude é completamente anacrónica nos dias de hoje. É importante que o estudante tenha uma voz na avaliação dos professores, principalmente no ensino universitário, e que exija mais qualidade aos professores.

MU _ Como é que se pode lutar contra o pessimismo?
Primeiro, pensar e darmo-nos conta que temos um percurso histórico que é extremamente rico e com muito sucesso. Há 40 anos anos atrás era normal ver pessoas na rua com o pé descalço mesmo em Lisboa. Portugal é hoje um país transformado. Temos empresários e pessoas com muitíssimo sucesso e pensar que estamos condenados ao fracasso não nos leva a lado nenhum. Depois, é preciso aplicar as políticas necessárias para levar à recondução económica do país. Mas também criando incentivos fiscais e ao empreendedorismo, que façam com que as pessoas tenham menos medo de arriscar e que constituam as suas empresas.
MU _ Enquanto professor nota que esse pessimismo também atinge os estudantes?
Acho que o grande medo da maior parte dos estudantes universitários é o de não conseguir arranjar emprego. E com boa razão. Neste momento, há duas hipóteses se não conseguirmos arranjar emprego: uma delas é pensar em mais estudos, apostar num mestrado ou num doutoramento. A outra possibilidade é sermos um bocadinho mais móveis e tentar arranjar emprego fora de Portugal. Pode ser uma estratégia que resulte e ganham-se conhecimentos importantes para quando se regresse a Portugal. É natural que haja algum receio entre os jovens, mas não acho que os jovens sejam pessimistas como os mais velhos são. O melhor é não ficar parado à espera que as oportunidades nos caiam nas mãos e actuar. Isso também é ser jovem.
MU _ Apostar no empreendedorismo criando um plano de negócio pode ser uma solução?
Sem dúvida. Aliás, um dos exemplos que dou no livro que acho um caso admirável, é a história de Carlos Oliveira, um empreendedor bracarense, que aos 22 anos quando estava a acabar o seu curso decidiu juntar-se com um professor e com dois empresários e formaram uma empresa na área das telecomunicações e tornou-se um dos maiores casos de sucesso nacional nos últimos anos. Acho que são os jovens universitários que nos fazem acreditar que Portugal poderá ter futuro. Acredito mesmo que eles são uma das peças-chave de Portugal.

04 abril 2009

CRISE INTERNA (2)

Mais perguntas da Visão sobre a crise interna:

Visão. O que devia ter sido feito e agora podia funcionar como amortecedor atenuando os efeitos da actual crise?

Em primeiro lugar, devíamos ter negociado uma taxa de câmbio mais favorável quando entrámos no euro, para que muitas das nossas exportações se tivessem tornado mais competitivas. Em segundo lugar, devíamos ter exigido melhores contrapartidas quando os países da Europa de Leste aderiram à UE. Vários estudos tinham sugerido que Portugal seria o país que mais sofreria com a adesão desses países. Por que é que não actuámos mais decisivamente para sermos melhor compensados? Não estou a falar de mais fundos comunitários, mas sim mais margem de manobra para a política económica.

Em terceiro lugar, aumentar a despesa pública a ritmos terceiro-mundistas numa altura que estávamos prestes a entrar no euro foi um enorme disparate, pois diminuiu margem de manobra à política económica.

Finalmente, andarmos obcecados com o défice orçamental numa altura em que a economia nacional estagnou foi totalmente contraproducente, pois atou as mãos à política económica, fazendo deteriorar ainda mais a situação económica.

Visão. Portugal estava preparado para o Euro? Além dos famosos critérios de Maastricht deveria ter havido outros?

Os critérios de Maastricht foram mais políticos do que económicos. Foi o governo da Alemanha que os impôs para tentar evitar que países como a Itália, a Grécia e Portugal entrassem no Euro. Claramente que muitas das nossas empresas não estavam preparadas para o euro ou para uma moeda forte. Ainda por cima, como não negociámos devidamente a entrada na moeda única, como os nossos salários continuaram a crescer e como a produtividade desacelerou, sofremos uma enorme perda de competitividade.

Neste sentido, não é que deviam ter havido mais critérios de Maastricht. O que devia ter havido era ou uma entrada mais tardia para o Euro, ou, em alternativa, devíamos ter entrado com uma taxa de câmbio mais favorável.

Visão. O que é que nesta crise é estrutural e o que é conjuntural?

A crise de competitividade relacionada com o Euro é conjuntural. Ou seja, mais cedo ou mais tarde, todas as nossas empresas vão habituar-se a viver com uma moeda forte e vão conseguir competir através de ganhos de produtividade e de uma maior inovação (e não mais através das desvalorizações da moeda). Isto é, uma moeda forte como o Euro forçará as nossas empresas a serem mais competitivas e produtivas, pois não há alternativa. Aliás, há indícios que tal já estava a acontecer antes da crise internacional nos ter batido à porta, pois, entre 2005 e 2007, os sectores de tecnologia média e média-alta foram os que mais cresceram no total das exportações.

A crise internacional também é conjuntural, apesar dos impactos negativos serem bastante significativos.

Os factores estruturais prendem-se mais com a globalização e com a crescente concorrência do Leste europeu e de países asiáticos como a China e a Índia. Mais uma vez, somente quando conseguirmos melhorar a produtividade dos nossos factores produtivos e aumentar a nossa capacidade inovativa, é que nos iremos tornar mais competitivos na economia internacional.

02 abril 2009

CRISE INTERNA (1)

A Visão de hoje apresenta um trabalho de Francisco Galope, no qual se debate a crise interna de Portugal. Aqui estão as minhas respostas às questões que me foram colocadas pela Visão:
Visão. Na sua opinião, quais os factores internos que estão a contribuir para a actual situação económica do país?
Não tenho dúvidas que a crise que o país vive há quase uma década é essencialmente interna e de falta de competitividade de muitas de nossas empresas. O que a crise económica mundial veio fazer foi agravar ainda mais o estado de crise que já existia no país. Nos últimos 8 anos, a economia portuguesa teve o seu pior desempenho em termos de crescimento económico dos últimos 80 anos. Os factores que contribuíram para este mau desempenho económico incluem o euro, a concorrência externa, e uma condução irrealista, e até mesmo irresponsável, da política económica. O euro foi responsável pela crise da última década, porque entrámos na moeda única com uma taxa de câmbio demasiado alta, o que tornou mais caras as nossas exportações, que, assim, ficaram menos competitivas. Por outro lado, a crescente globalização da economia mundial e o alargamento da UE ao Leste europeu aumentaram a concorrência das empresas nacionais nos mercados internacionais, o que fez com que muitas não aguentassem esse choque. Finalmente, quando a política económica devia servir de apoio às nossas empresas, os nossos governos inebriaram-se com a “vitória” da entrada no euro e aumentaram desmesuradamente as despesas públicas, e hipotecaram a pouca margem de manobra que nos restava na política económica. Em seguida, obcecámo-nos em demasia com o défice orçamental e, por isso, deixámos que os nossos problemas de competitividade se agravassem, sem que a política económica tentasse ajudar.
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Visão. Portugal está a pagar alguma factura pela displicência de sucessivos governos a seguir ao 25 de Abril?
Sem dúvida. Acima de tudo, os nossos governos têm demonstrado uma gritante ausência de orientação estratégica para algumas das grandes questões nacionais, tais como a Educação, a Justiça e a condução da política económica. Continuamos a registar atrasos estruturais na Educação, a Justiça é demasiado ineficiente, e os governos continuam a pensar que gastar mais é a receita mágica para os nossos problemas.
Visão. Quais os erros de palmatória cometidos nas últimas décadas?
O nosso maior erro foi pensar que todos os nossos problemas se resolvem só porque o Estado decide gastar mais. Não se resolvem. Muito pelo contrário. O Estado é um actor económico fundamental, mas não pode tentar substituir-se ao sector privado na criação de emprego e na dinamização da economia. Por isso, é pena que a reforma do Estado tenha sido uma palavra vã até recentemente. Mesmo assim, há muito por fazer na reforma do Estado.
Os outros grandes erros cometidos foram nas áreas da Educação e da Justiça. Os nossos atrasos educativos têm décadas, mas não os conseguimos solucionar. Continuamos a ser o país da OCDE com o pior desempenho educativo (com a excepção da Turquia e do México), tanto ao nível do abandono escolar, como da qualidade educativa. Será que isso não quer dizer nada, após décadas em que injectámos centenas de milhões de euros no sector? Não será hora de repensar a nossa estratégia?
A Justiça é outro dos nossos grandes equívocos e um verdadeiro factor de descompetitividade económica. Temos a Justiça mais ineficiente e mais cara de toda a Europa, mas, mesmo assim, ainda só tivemos coragem para fazer reformas no papel e não as implementámos devidamente.
Finalmente, outro erro de palmatória foi claramente a nossa entrada no euro a uma taxa de câmbio demasiado elevada. Tal decisão é o principal factor pela crise da última década e, em retrospectiva, foi obviamente errada. Ainda por cima, desbaratámos a pouca margem de manobra que tínhamos na política económica quando aumentámos desmesuradamente das despesas públicas.

O FALHANÇO DA EUROPA

A sempre acutilante Teresa de Sousa assinou ontem um texto no Publico que se debruça sobre a fraqueza da Europa neste momento de crise. Aqui vai um cheirinho:
"A Europa começou por negar a crise, apontando o dedo à América, dizendo que não era nada com ela. Reagiu em ordem dispersa até conseguir entender-se sobre um mínimo de coordenação entre as diferentes estratégias nacionais para enfrentar os efeitos devastadores da recessão. Falhou na solidariedade em relação aos novos Estados-membros do Leste. Afastou qualquer hipótese de igualar os Estados Unidos (ou sequer aproximar-se) no esforço de estimular a procura interna e mundial, embora a sua economia seja equivalente à economia americana. Ainda não encontrou uma visão estratégica para sair de uma crise que não deixará nada como dantes - nem em termos económicos nem geopolíticos. Continua a acreditar que, se ficar quieta, a tempestade lhe passará por cima. Berlim foi o centro desta estratégia defensiva. Paris e Londres tiveram de se posicionar em função das decisões alemãs. O Leste não teve outro remédio senão recorrer ao FMI. Bruxelas faz o que pode."
Obrigado ao Portugal Azevedo por me ter alertado para o texto.

MORTE CRUEL

Entre 200 e 300 emigrantes africanos perderam a vida ontem a tentar atravessar o Mediterrâneo em embarcações pouco seguras e estáveis. Nada de novo? Todos os meses, dezenas de emigrantes perdem as suas vidas em busca da ilusão de uma vida melhor na Europa. E, mesmo assim, o mundo e a Europa continuam praticamente alheados ao problema. Perante mais esta tragédia infelizmente tão comum, é mais fácil encolher os ombros e virarmos a cara para o lado do que tentarmos fazer algo para acabar com esta mortandade.
Foto retirada daqui.

MAIS 742,000 (DES)EMPREGOS

A mais recente estimativa dos empregos perdidos no mês de Março nos Estados Unidos ainda é pior do que a do mês de Fevereiro. Nomeadamente, 742 mil empregos foram "destruídos" no últimos mês, um valor ainda pior do que os analistas estavam à espera. Apesar de algumas empresas começarem a dar indicações que as coisas já começam a estabilizar e, quiçá, até mesmo melhorar, a verdade é que os números do desemprego ainda não o demonstram. Veremos o que nos dirá o mês de Abril.

31 março 2009

MELHORES ESCOLAS

Ora, aí está uma boa medida. Ontem, o primeiro-ministro anunciou a requalificação de 5o escolas muito degradadas, nas quais haverá um investimento público e comunitário no valor de 175 milhões de euros. Acho muito bem. Se achamos mesmo que a solução para a crise passa pelo investimento público (o que não é certamente linear), é exactamente com pequenos (mas muitos) investimentos que conseguiremos ajudar a retoma da economia, e não através de sonhos megalómanos com obras faraónicas. Apesar de soar bastante a uma medida eleitoralista (o que é normal num ano com 3 eleições), esta é uma notícia que merece o nosso aplauso.Pelo menos no papel. Veremos na prática.

A GRANDE CRISE AMERICANA

Aqui está um documentário muito interessante sobre algumas das consequências que a crise está a ter em muitas cidades americanas. Esta reportagem da televisão pública canadiana, a CBC, vai até algumas das zonas mais afectadas, como Detroit e a Flórida, e analisa o impacto da crise nessas regiões. Só para termos uma ideia, em Detroit, o coração da indústria automóvel americana, e que já se encontra numa tendência decrescente há décadas, a crise do subprime arrasou partes da cidade. Há tanta gente que não consegue pagar as suas casas e há tantas casas no mercado que os preços têm caído vertiginosamente. Por incrível que pareça, o preço médio de uma casa em Detroit que foi transaccionada no último ano ronda os ... 6 mil dólares. Sim, 6000 dólares. E a oferta de casas em "foreclosure" (devolvidas aos bancos) é de tal ordem que há casas que vendem por meia dúzia de patacas ou centenas de dólares. Deste modo, não é de surpreender que o êxodo de Detroit continue. Só nas últimas 2 ou 3 décadas, a cidade perdeu mais de um milhão de habitantes. A crise do subprime e agora a crise da indústria automóvel só irão certamente agravar a tendência.

FALÊNCIA DE DETROIT

Ontem, o presidente americano avisou a General Motors e a Chrysler que a paciência do governo federal se está a esgotar e que as duas companhias têm entre um e dois meses para apresentarem planos de viabilidade económica se quiserem evitar a insolvência e, quiçá, a falência. Alarmados com a possibilidade de estes colossos da indústria automóvel americana desaparecerem, os mercados financeiros reagiram muito negativamente. A insolvência das suas empresas não significará necessariamete o desaparecimento total das duas empresas. No entanto, parece cada vez mais certo que a indústria autómóvel norte-americana nunca mais será a mesma. Aqui está uma perspectiva americana sobre o assunto, e aqui está uma visão canadiana.

CITAÇÕES

Paul Krugman fala sobre a falta de cooperação entre os governos dos vários países do mundo:
"Like many other economists, I’ve been revisiting the Great Depression, looking for lessons that might help us avoid a repeat performance. And one thing that stands out from the history of the early 1930s is the extent to which the world’s response to crisis was crippled by the inability of the world’s major economies to cooperate. The details of our current crisis are very different, but the need for cooperation is no less."

30 março 2009

G20

Esta é a semana da reunião do G20, onde se irá discutir a crise internacional, bem como possíveis medidas e políticas para a combater. Penso que não será descabido pensar que nos próximos meses o G20 avance com uma proposta de reforma do sistema financeira internacional. Entretanto, esperemos que a reunião de Londres sirva para convencer alguns dos governos mais renitentes que é preciso actuar decisivamente face à crise económica internacional. Entre estes, esperemos que os líderes europeus acordem da letargia e comecem a introduzir medidas mais agressivas de combate à crise económica.

SEGUNDA EDIÇÃO DO "MEDO DO INSUCESSO"

Na última semana ficámos a saber que a segunda edição do "Medo do Insucesso Nacional" vai sair brevemente para as livrarias. Obrigados a todos.
Vários leitores do Desmitos têm-me contactado com comentários e perguntas sobre o livro. Vários blogues têm igualmente falado sobre o "Medo do insucesso". Nos próximos dias irei publicar as vossas opiniões no blogue, bem como as devidas referências aos blogues. Fá-lo-ei independentemente se as críticas forem boas ou más.

LIZ WRIGHT

Liz Wright é uma das novas musas dos Blues, uma voz que tem dado muito que falar no mundo musical. "The Orchard" é o seu albúm mais recente e, porventura, o melhor. Músicas como "I idolize you" e "Coming Home" têm excelentes arranjos e demonstram bem as virtudes e potencialidades de Liz Wright. Vale a pena conhecer.

27 março 2009

BAIXAR SALÁRIOS

A jornalista Cesaltina Pinto da revista Visão escreveu esta semana um artigo sobre uma hipotética redução dos salários, onde vários economistas empresários e sindicalistas expressam as suas opiniões sobre este assunto. Aqui estão as minhas respostas às questões da Visão.
Visão_ Face aos tempos de crise que vivemos há vários economistas que defendem uma redução generalizada dos salários. Concorda com esta medida?
Penso que depende da empresa e do contexto específico que se insere. Algumas empresas poderão beneficiar com uma descida salarial, outras não, pois poderão optar por despedir trabalhadores. O que não faz sentido é centralizar uma descida salarial. Deve ser o mercado e as empresas que devem decidir o que será melhor para eles. Há empresas que beneficiarão com a crise, enquanto outras vão claramente perder. Por isso, ninguém melhor que as empresas para decidir o que fazer.
Dito isto, é verdade que a moderação salarial é absolutamente crucial para a melhoria da competitividade da economia portuguesa. Desde os meados da década de 90, Portugal tem vindo sempre a perder competitividade, pois os salários têm aumentado e a produtividade tem diminuído relativamente aos nossos parceiros europeus. Por isso, faz todo o sentido promover a moderação salarial, bem como implementar medidas que fomentem a produtividade.
Independentemente disto, acho que o Primeiro-Ministro e até o Presidente da República só tinham a ganhar em dar o exemplo. Isto é, se pedem sacrifícios aos portugueses, se consideram que a moderação salarial é necessária, por que é que não se voluntariam e reduzem os seus próprios salários durante dois ou três anos? Seria uma medida bem vista num ano eleitoral e mostraria aos portugueses que os nossos líderes são os primeiros a dar o exemplo em alturas de dificuldades.
Visão. Porquê?
A moderação salarial é necessária para fazer aumentar a competitividade da economia e para evitar um aumento desmesurado dos despedimentos. Para tal, seria bom que houvesse mais concertação social entre o governo, as entidades patronais e os sindicatos, e que nos deixássemos de quezílias bairristas e de interesses mesquinhos numa altura de grave crise.
Visão. Se não concorda, que alternativas sugere?
A moderação salarial tem de ser inserida numa estratégia global de melhoria da nossa competitividade. Temos de nos tornar mais atractivos a nível fiscal, ajudar as empresas em tempos de crise, e implementar medidas que auxiliem as empresas inovadoras. A nível salarial, precisamos de perceber de uma vez por todas que se optarmos por aumentar os salários numa altura de crise, o que estaremos a fomentar é o aumento do desemprego. A verdade é que o populismo é inimigo da competitividade e da criação do emprego.

26 março 2009

O AUTISMO DOS DIRIGENTES EUROPEUS

O autismo e o imobilismo dos dirigentes europeus face a crise internacional começa a ter consequências. Em vários países, começam a haver reacções populistas contra banqueiros e empresários. Em França, o presidente de uma multinacional foi aprisionado no seu escritório por funcionários da empresa. Na Escócia, a casa e o carro do antigo CEO do Royal Bank of Scotland foram vandalizados. Entretanto, o que é que os políticos europeus fazem? Nada. Ou quase nada. No máximo, criticam os Estados Unidos por tentarem fazer alguma coisa. Ontem, o primeiro-ministro demissionário da República Checa, o actual presidente da União Europeia, não fez por menos e disse que o plano de recuperação económica da administração Obama era uma estrada para o Inferno, pois ia conduzir-nos à inflação e ao aumento da dívida pública. Até pode ser. Sem dúvida, que a dívida pública dos EUA é uma fonte de preocupação. No entanto, ficar parado, não fazer nada perante a maior crise económica das últimas décadas é uma atitude suicida. Equivale condenar milhões de trabalhadores ao desemprego, com todas as graves consequências sociais que isso acarreta. Ora, o problema actual não é a ameaça da inflação, é a deflação, devido à queda pronunciada da procura global. Quando a economia recuperar, será então a altura de nos preocuparmos com a inflação.
Neste sentido, o que os líderes europeus ainda não perceberam é que o excessivo conservadorismo fiscal dos últimos anos é totalmente contraproducente na crise actual (tal como tem sido na crise nacional dos últimos 8 anos). É suicida. É completamente disparatado. Não será chegada a hora de os líderes europeus demonstrarem alguma liderança, alguma visão, e atacarem decisivamente a crise económica? Não será chegada a hora de perceber que a Europa continua refém de demasiadas prima domas, de demasiados interesses nacionais, e não há uma voz europeia perante a crise? Não será chegada a hora da Europa perceber que não actuar ou não fazê-lo decisivamente poderá trazer para o nosso seio conflitos sociais e, quiçá, nacionalismos exacerbados que não interessam a (quase) ninguém? Não será a hora dos políticos europeus perceberem da irrelevância que a Europa se auto-condena quando os seus líderes insistem numa estratégia errada e autista?

ELEIÇÕES E TGV

Benditas eleições. Finalmente, vemos os partidos da oposição fazerem aquilo que há muito deviam estar a fazer, questionando o projecto do TGV. O presidente da Associação Empresarial de Portugal também já veio a público criticar o traçado da alta velocidade com palavras muito veementes. Finalmente, parece que começa a emergir entre nós um debate a sério sobre o TGV. Já era hora. Antes que seja demasiado tarde.

25 março 2009

OVOS DE COLOMBO

A última parte da entrevista ao DN:
DN. Em suma, o que nos aconteceu desde que demos novos mundo ao mundo para chegarmos ao cenário que temos hoje? Foram os nossos genes que mudaram, ou acabaram em meia dúzia de eleitos como Belmiro de Azevedo?
Não, foi o perdermos competitividade nos últimos 10-15 anos e termos levado a cabo um conjunto de políticas que nos endividou tremendamente e nos hipotecou margem de manobra na política económica.
Contudo, é preciso não esquecer que nos últimos 40 anos a economia portuguesa foi uma das que mais cresceu em toda a Europa. Nós somos um enorme caso de sucesso, um verdadeiro milagre económico de causar inveja à grande maioria dos países do mundo. Hoje somos um país transformado. O Portugal de hoje tem pouco a ver com o Portugal provinciano do tempo da ditadura salazarista.
A grande excepção desse enorme sucesso foram os últimos 10 anos. Porque é que tal aconteceu? Porque entrámos no euro com uma taxa de câmbio demasiado elevada (o que penalizou as nossas exportações), porque sofremos a concorrência do Leste europeu e de países como a China, e porque temos vindo a perder competitividade. Como é que podemos alterar este estado de coisas? Temos abandonar a aposta nas receitas mágicas do TGV ou das grandes obras públicas, temos de reformar o que há a reformar (principalmente a Justiça e a Educação) e, principalmente, temos de apoiar e investir no empreendedorismo nacional. Só assim é que teremos mais Belmiros de Azevedo, mais Jerónimos Martins, mais Gonçalos Quadros, mais Paulos Pereiras da Silva, e mais Carlos Oliveiras.
DN. Algumas - muitas - das ideias do seu livro, melhor educação, melhor justiça, mais produtividade e organização, são ovos de Colombo, ou seja, há muito que toda a gente sabe que o caminho é por aí. Porque é que ainda não fizemos nada, ou fizemos pouco nesse sentido?
Primeiro, porque, obviamente, estes temas são complexos e há opiniões muito diversas sobre como combater estes problemas. Segundo, porque pensamos que tudo se resolve com mais e mais dinheiro. E isso não é verdade. Se melhorarmos os nossos sistemas de incentivos poderemos alcançar resultados muito melhores do que se optarmos por apenas gastar mais. Terceiro, porque há grupos de interesse instalados que beneficiam com o status quo e são avessos a mudanças. Quarto, porque temos a tendência para pensar que estes sectores só melhoram se centralizarmos tudo no Estado, o que não é verdade. E finalmente, porque não tem havido uma orientação estratégica na condução das nossas políticas. Nos últimos anos, temos sido demasiado egoístas, temos andado preocupados em demasia com os nossos próprios botões e com os botões dos nossos próprios grupos de interesse, e temos deixado de lado o interesse nacional, o interesse do país. Ora, temos de alterar este estado de coisas. Temos de apostar mais na concertação social e numa maior orientação estratégica para o país. Acima de tudo, temos de perceber que a crise actual ameaça o bem-estar colectivo e que todos perdemos com lutas sociais, com a defesa intransigente dos nossos interesses pessoais, e com politiquices que servem os partidos, mas não servem os portugueses.

TO LIVE



Acabei de ler um dos livros que mais me surpreendeu recentemente. O livro chama-se "To Live" e é da autoria do consagrado escritor chinês Yu Hua. Sim, consagrado. Apesar de ser um desconhecido entre nós, Hua já vendeu milhões de livros no seu país natal e cada livro que publica torna-se num enorme êxito editorial, um feito assinalável num país onde a pirataria ainda assume proporções muito grandes. "To Live" é um retrato brutal da China do século 20, através dos olhos e das vidas de uma família que passa pelas atribulações da Segunda Guerra Mundial, a tomada do poder pelos comunistas, a reforma agrária, as várias campanhas e loucuras do regime de Mao Tse Tung, e a revolução cultural.
O livro é tão real sobre as condições de vida na China comunista que foi inicialmente proibido pelo regime chinês. Mais tarde, serviu de base para um filme com o mesmo nome do conhecido realizador chinês Zhang Yimou.
Esta é uma história fascinante que nos transporta para uma realidade que poucos de nós conhecem, num país com tradições e com uma cultura muito diferente da nossa. Simplesmente, um livro a não perder. Um livro que, espero, seja traduzido o mais brevemente possível entre nós. Yu Hua é um autor a descobrir. Por mim, vou comprar rapidamente as suas outras obras as ler com o maior interesse.

23 março 2009

CONSELHOS E TGV

DN. Que conselhos daria neste momento a José Sócrates para lidar com a crise em Portugal? Mais investimento, menos impostos...
Em primeiro lugar, deixarmo-nos de loucuras. Não podemos pensar em comprar um Jaguar (ainda por cima importado) quando só estamos em condições para manter o nosso carro ou então comprar um de baixa cilindrada. Se achamos mesmo que o investimento público é a solução para a crise (o que não é certamente linear...), então devemos concentrarmo-nos em muitos mas pequenos projectos, incluindo a melhoria das nossas escolas, dos hospitais, e até das estações de comboios.
Em segundo lugar, devemos utilizar a pouca margem de manobra que temos para apostar na competitividade da economia portuguesa. Entre a Alta Velocidade e a Alta Competitividade temos que claramente apostar na última, pois só uma maior produtividade e competitividade poderá criar emprego de forma sustentada. Actualmente, na União Europeia a 27, temos uma carga fiscal média. Porém, a nossa carga fiscal é mais elevada do que no Leste europeu e em muitos dos países do Sul da Europa. Ou seja, temos impostos mais elevados do que os nossos principais concorrentes. E se é assim, como é que ambicionamos ser competitivos? Como é que podemos atrair mais investidores, e como é que podemos tentar estimular as nossas exportações se penalizamos quem cá investe e sobrecarregamos os nossos exportadores?
Em terceiro lugar, em vez de pensarmos em gastar mais e mais, devíamos fazer tudo para melhorar os sistemas de incentivos económicos, principalmente ao nível da criação de empresas e do empreendedorismo. Finalmente, a crise não pode ser desculpa para não prosseguir com as reformas dos últimos anos, principalmente no que diz respeito à reforma do Estado. É fundamental que a modernização do Estado continue e que o processo de emagrecimento da Administração Pública persista. Em suma, o combate à crise deve utilizar uma combinação de mais investimento, de impostos mais baixos e melhores incentivos à inovação e ao empreendedorismo.
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DN. Mas não construir o TGV. Porquê?
Por dois motivos. Primeiro, por causa dos custos que tal projecto acarreta. Só a linha Lisboa-Porto vai custar 4,6 mil milhões de euros, o que é correspondente ao volume de negócios anual de todo o grupo Sonae, um dos maiores do país. Vamos gastar uma Sonae para ganharmos 20 a 30 minutos de viagem. Por isso, interessa perguntar: valerá a pena? Não poderíamos utilizar os fundos em projectos menos dispendiosos? Não poderíamos usar esse dinheiro na requalificação dos nossos recursos humanos? Na melhoria das nossas escolas e hospitais? Numa menor carga fiscal para as famílias e para as empresas? Num combate à pobreza e à exclusão social?
Segundo, porque todos os estudos custo-benefício sobre a viabilidade do TGV só registam impactos positivos líquidos quando assumimos impactos externos extremamente dúbios e dificilmente quantificáveis, tais como a diminuição do ruído. Porém, em nenhum país que introduziu o TGV registou estes impactos externos. Por que razão haveremos de pensar que nós seremos a excepção? Terceiro, e independentemente da idoneidade dos responsáveis por estes estudos (que não está em causa), a verdade é que estes estudos encomendados pela RAVE utilizam valores e estimativas de procura e de custos fornecidos pela própria RAVE. Ou seja, estimam-se benefícios para o projecto tendo em conta valores fornecidos pela entidade que tem todo o interesse que o projecto vá avante. Todavia, nem assim, os benefícios directos do projecto são mais elevados do que os custos!
Por todos estes motivos, o mais certo é que o TGV se tornará no maior fiasco económico e financeiro dos últimos 50 anos. A verdade é que dentro de 10 ou 20 anos, vamos olhar para trás e vamos perceber que a construção do TGV foi só mais uma quimera, mais uma receita mágica que não resultou e que nos irá sair extraordinariamente cara. Vamos aumentar o endividamento externo, vamos ser forçados a aumentar ainda mais os impostos e vamos continuar a não investir na competitividade da economia. Só nessa altura é que nos aperceberemos do erro tremendo que cometemos. E só então é que perceberemos que a construção do TGV foi o maior erro das últimas gerações. O que eu espero é que nessa altura sejam apuradas responsabilidades políticas e inclusive judiciais para aqueles que nos meteram na maior loucura financeira desde o tempo de D. Manuel I quando um dos nossos antepassados andou pelas ruas de Roma montado num elefante a distribuir moedas de ouro pelos espantados habitantes daquela cidade.
A alternativa é parar já com esta loucura e deixar a compra do Jaguar para o futuro, se assim o desejarmos.