23 janeiro 2009

A CRISE E A DÍVIDA

O meu artigo do PUBLICO de hoje:

A CRISE E O SOBREENDIVIDAMENTO NACIONAL
Uma das tendências menos salutares da economia portuguesa tem sido a acentuada subida do endividamento nacional. Assim, enquanto, em 1990, a taxa de endividamento em relação ao rendimento disponível rondava os 18%, em 2007, este valor tinha subido para quase uns astronómicos 130%. Não restam dúvidas que o endividamento nacional foi um dos efeitos perversos da nossa adesão ao euro e da descida das taxas de juros que lhe esteve associada, que levaram muitas famílias e empresas a endividarem-se para níveis nunca dantes vistos. Para agravar a situação, no final dos anos 1990, o nosso Estado paternalista aumentou desmesuradamente as despesas públicas, o que levou a uma correspondente subida do endividamento.
Como é que financiámos este endividamento? Através do recurso a empréstimos que terão que ser pagos pelas gerações futuras, e através de um maior endividamento externo. Actualmente, o nível do endividamento externo bruto já ultrapassa os 200% do PIB nacional, um valor que nos coloca no top 20 dos países mais endividados do mundo. A situação só não é mais grave, porque já não temos o escudo e a nossa dívida externa está em euros.
^
Mesmo assim, o elevado endividamento nacional poderá ser bastante nefasto no contexto da crise internacional. Em particular, enfrentamos um dilema de difícil resolução. Por um lado, num ano que se adivinha difícil, um dos motores da retoma económica passaria por estimular a procura interna. Porém, incentivar o consumo penaliza a poupança e poderá agravar a situação de endividamento já existente. Por outro lado, apostar em projectos de investimento que necessitam de financiamento externo (como o TGV) irá exacerbar ainda mais a dívida externa. O endividamento nacional deixa-nos, por isso, um pouco de mãos atadas.
É certo que a recente descida das taxas de juros irá aliviar os encargos financeiros de muitas famílias portuguesas. Porém, se situação económica se agravar significativamente, a descida dos juros não será suficiente para travar uma possível onda de incumprimentos no pagamento das dívidas. Não adianta muito poupar na prestação da casa se o emprego faltar. Por isso, internamente, o sobreendividamento das famílias portuguesas tem uma consequência imediata: a saída da crise certamente não acontecerá impulsionada pelo consumo.
^
O endividamento nacional é ainda mais preocupante se nos lembramos de que uma das consequências da crise financeira internacional tem sido a contracção do crédito. Deste modo, é provável que os credores internacionais restrinjam o crédito às instituições financeiras nacionais e/ou exijam mais contrapartidas na concessão de novos créditos. Ou seja, nos tempos mais próximos, teremos menos crédito à nossa disposição e, ainda por cima, mais caro. Menos crédito implica menos investimento e, por consequência, menor crescimento económico. Isto é, o endividamento nacional tem efeitos concretos para a economia portuguesa.
Para além do reescalonamento das dívidas, como é que podemos minorar esta situação? Promovendo a poupança nacional e canalizando-a tanto para o investimento produtivo, como para o pagamento das dívidas. Neste sentido, em vez de pensar em gastar mais, o Estado devia dar o exemplo, ao conceder benefícios fiscais à poupança e ao investimento. Em vez de investir em projectos megalómanos, o Estado devia concentrar-se em ajudar as famílias em dificuldades, bem como em auxiliar a competitividade fiscal das empresas. Acima de tudo, o Estado devia compreender que continuar a apostar numa política de betão sem sentido é não só contraproducente, como também agravará ainda mais o grave problema do endividamento nacional.

21 janeiro 2009

AS PRIORIDADES ECONÓMICAS DE OBAMA

Acabada a festa, hoje começa o trabalho para Obama e a sua equipa. Um trabalho que não se augura nada fácil. Debati as prioridades económicas de Obama numa entrevista à edição online do Expresso e da EXAME. Aqui está um excerto:
Quais são as prioridades na área económica da administração Obama?
ASP- As prioridades serão, certamente, estancar a crise financeira e combater a recessão. Apesar dos mercados estarem mais calmos, as repercussões da crise ainda se fazem sentir, de modo que, nos próximos meses, a Reserva Federal e a nova Administração terão de continuar a dar especial atenção ao sistema financeiro. Para tal, a segunda tranche do plano de resgate será utilizada brevemente.
Porém, a partir de hoje, a prioridade das prioridades será dada ao combate à crise económica. Nos próximos meses, nada dominará as atenções dos americanos como a recuperação económica e a luta contra a crise actual (a não ser que, claro, aconteça qualquer cataclismo inesperado).
Uma terceira prioridade, de longo prazo, será a luta contra as alterações climáticas, tornando mais "verde" a economia norte-americana.
O resto da entrevista está aqui. O artigo relacionado, da autoria de Sónia Lourenço, está aqui.

FOI BONITA A FESTA, PÁ (2)





A festa de inauguração vista no Quénia, no Iraque, e em Moscovo. (fotos do NYT)

FOI BONITA A FESTA, PÁ






Fotos da inauguração de Obama (retiradas daqui e daqui).

20 janeiro 2009

É HOJE


O mundo será mais bonito a partir de hoje. A história de Obama é extraordinária e faz-nos acreditar num futuro melhor. Obama poderá não conseguir "mudar" o mundo, mas que o mundo está mais bonito está.

17 janeiro 2009

FERREIRA LEITE E TGV

Manuela Ferreira Leite parece finalmente mais sintonizada com a realidade nacional. Na sua mais recente entrevista à RTP, a líder do PSD revelou que irá riscar o TGV se for eleita primeira-ministra. Faz muito bem. O TGV é o nosso maior erro financeiro e estratégico das últimas décadas. Revelou ainda que não leu os estudos custo-benefício do TGV. Devia ler, pois aprenderia muito sobre o projecto. A alternativa é ler o meu próximo livro, onde estas questões são extensamente debatidas...

NOTAS DE TRILIÕES

O Zimbabwe de Mugabe introduziu mais uma originalidade: notas de triliões de dólares do Zimbabwe. Ou um milhão de milhão se preferirem. Ou 1,000,000,000,000. A partir desta semana serão emitidas notas de 10 triliões de dólares, de 50 triliões e de 100 triliões. Quanto é que valem? Neste momento, e dando o desconto de que a taxa de câmbio oficial é bastante favorável em relação ao mercado negro, 10 triliões de dólares valem cerca de 20 euros.
Vale a pena ainda lembrar que as notas de 100 biliões de dólares foram introduzidas apenas na semana passada. Como a inflação já está acima dos 250 milhões de por cento por ano, é natural que o regime de Mugabe continue a aumentar o número de zeros nas notas, para mais tarde fazer correcções monetárias cortando 6 ou 7 zeros, para ainda mais tarde voltar a introduzir ainda mais notas de biliões e de triliões, para para para...
O processo irá continuar até alguém decidir que é chegada a hora de acabar com a emissão desmesurada de moeda. É provável que Mugabe não o faça. Pelo menos tão cedo. Até lá o Zimbabwe de certo entrará para o Guiness Book por ser a nação com o maior número de bilionários à face da Terra. É pena que sejam bilionários, mas com fome...

15 janeiro 2009

MAIS CRISE NA CHINA

E ainda mais indícios que a economia chinesa começa a estar bastante afectada pela crise internacional. Ontem soube-se que o défice externo americano de Novembro foi o mais baixo dos últimos 12 anos. Porquê? Porque as importações americanas baixaram drasticamente por causa da crise. Como o consumo baixou muito, a economia importa menos e o défice externo fica mais reduzido.
Deste modo, há menos procura externa por parte dos americanos, o que tem enormes reflexos nas restantes economias, incluindo a China. Há já até quem diga que a China poderá ser uma das economias mais atingidas pela crise internacional.

ECONOMIA AMERICANA


O Fonseca manda-nos o link para este cartoon bem pertinente sobre a economia americana.

JUROS ZERO (2)

Ainda a propósito do post sobre os juros zero nos EUA, gostaria de agradecer os comentários. O DeKuip tem toda a razão. São 0,75 pontos percentuais e não 75 pontos percentuais. Obrigado, já emendei o post.
OAlfred the Pug contesta a existência da armadilha da liquide e diz:"A Fed ainda pode utilizar a política monetária através da compra e venda de Treasury Bills, papel comercial, etc. Aliás, muitas destas ferramentas foram propostas por Bernanke há uns anos atrás antes de ele ser Chairman of the Federal Reserve e muitas delas já foram utilizadas."
Sem dúvida. Ainda há margem de manobra. O problema é quehá o risco da política monetária não ser mais eficaz se a liquidez adicional oferecida aos bancos não for utilizada. É em parte o que está acontecer, pois os bancos continuam muito relutantes em conceder crédito. No fundo, o que eu queria alertar nesse post era a possibilidade debatida por Paul Krugman de que a economia americana poderá estar a chegar a um ponto em que a politica monetária já não é eficaz para estimular a economia.

CONTESTAÇÃO EM ISRAEL

Segundo o New York Times, alguns grupos de defesa dos direitos humanos israelitas pedem a realização de um inquérito sobre a invasão de Gaza. Estes grupos não contestam a necessidade de Israel se defender dos "rockets" palestinianos. O que contestam são os métodos utilizados pelo exército israelita. Independentemente da nossa opinião pessoal sobre este assunto tão politizado, é importante que haja o mínimo de isenção (e bom senso) quando se analisa este assunto. Isenção que quase nunca existe. De parte a parte. E é por isso que esta tomada de posições por parte deste grupos é tão significativa.
Aliás, é interessante observar que quando se fala deste conflito, nem mesmo os meios académicos escapam à tentação de politizar o assunto. Habitualmente, muitos académicos preferem manter-se alheios às ideologias reinantes. Porém, quando toca ao conflito Israel-Palestina, a isenção é quase sempre um bem muito escasso. É uma pena, porque frequentemente as informações que nos chegam (dos dois lados) são tudo menos isentas.

O LEGADO DE BUSH


Já falta menos de uma semana para os Estados Unidos e o mundo se livrarem de George Bush. Os americanos já debatem o legado de Bush. Quanto a mim, se há uma palavra que o define é: desastre. Desastre para a América. Desastre para a imagem e o estatuto dos Estados Unidos no mundo. Desastre para o Ocidente. Desastre para o Médio Oriente. Desastre com Katrina. Desastre com uma guerra iniciada à custa da mentira. Desastre com os direitos humanos. Desastre total com a economia.
Para quem não gostar da palavra desastre, então uma alternativa seria: incompetência. Incompetência pura e simples. Incompetência gritante. Incompetência descarada. Incompetência na gestão da guerra. Incompetência na gestão dos desastres naturais. Incompetência total na gestão da economia. Uma incompetência desastrosa.
Bush vai-se embora a 2 de Janeiro. Ainda bem. Só é pena já ir tarde.

13 janeiro 2009

EURO MENOS UM?

Durante a crise financeira, o euro foi várias vezes elogiado por ser uma âncora de estabilidade e como uma moeda de reserva internacional. Países como a Islândia e até a Dinamarca reiniciaram a discussão sobre uma hipotética adesão ao euro, por forma a evitar a instabilidade que as respectivas moedas sofreram durante a crise. Ou seja, boas notícias para a moeda única.
Porém, agora que as coisas estabilizaram um pouco, começaram a surgir indícios que, afinal, a saúde da Eurolândia não é assim tão recomendável. Há países, como Portugal, a Espanha, a Irlanda e a Grécia, onde a contracção do crédito tem sido bastante acentuada. Estes problemas foram ainda mais exacerbados pelo sobreendividamento do Estado e das famílias), o que tem reduzido consideravelmente a disponibilidade de crédito nestes países. Os níveis de endividamento são tais que, quando os bancos desses países se tentam financiar no estrangeiro, não conseguem ou só o alcançam com condições menos favoráveis. (No fundo, tudo se passa como quando um indivíduo acumula demasiada dívida em cartões de crédito, em prestações, etc. Se quiser obter mais crédito ou refinanciar a dívida, terá que enfrentar condições mais severas, inclusivamente juros mais elevados).
Por isso, quando os Estados respectivos se tentam financiar através da emissão de obrigações da dívida pública, vêem-se obrigados a aumentar o retorno dessas obrigações (com juros mais altos) para tentar aliciar possíveis investidores.
Conclusão? Nas últimas semanas, o diferencial entre as principais obrigações alemãs e as obrigações espanholas, as gregas, as irlandesas, e as portuguesas, já aumentou 4 vezes desde meados de 2008, um nível que ainda não tinha sido visto desde a criação do euro.
^
Qual é o problema? O diferencial entre as diversas obrigações nacionais são de tal modo elevadas que há já quem ponha em causa a coesão da moeda única, de maneira que há já quem aposte que um dos países "periféricos" irá ser forçado a abandonar o euro até 2010. Sinceramente, não acredito que tal aconteça, pois os países da Eurolândia sabem que as consequências para a estabilidade da moeda única seriam bastante negativas. Porém, vale a pena pensar sobre o assunto e perceber as razões que nos levaram a chegar a este ponto.
Se quiser saber mais, vale a pena ver este video do Financial Times.

12 janeiro 2009

OS PREÇOS DE MUGABE

Algumas imagens da inflação no Zimbabwe (imagens retiradas daqui). Em Dezembro, a inflação no país de Mugabe já ultrapassava 231 milhões de por cento ao ano...







A DIMENSÃO DOS EUA

Um mapa que mostra a equivalência do PIB dos estados americanos com o PIB de outros países. A produção total de Portugal equivale à do pobre estado da Lousiana.
Mapa retirado daqui.

A CRISE E A CHINA

Há cada vez mais indícios que a China não está incólume à crise internacional. Como a procura externa diminuiu significativamente, milhares de fábricas chinesas já fecharam as portas, lançando dezenas de milhares de trabalhadores para o desemprego ou de volta para as suas aldeias e vilas. Agora, surgem cada vez mais notícias que os investidores estrangeiros estão a vender bens e activos na China por forma a aumentarem a sua liqudez nos seus países de origem.

DE VOLTA

Após um longo interregno, motivado pelo período festivo e pela revisão do novo livro, o Desmitos está de volta. Peço desculpa pelo silêncio, mas não me foi possível escrever anteri.ormente. Foi por um bom motivo (assim espero...). Nos próximos dias o Desmitos regressa à sua frequência diária e os comentários enviados serão respondidos devidamente.
Gostaria de agradecer todos os votos de bom Natal e de Ano Novo. Gostaria igualmente de desejar um óptimo 2009 a todos. Curiosamente, a mensagem que recebi mais frequência de amigos economistas foi "esperemos que os economistas estejam enganados sobre 2009". Esperemos que sim. É provável que não, mas esperemos que sim.

19 dezembro 2008

O FUNDAMENTALISMO DO DÉFICE

O meu artigo de hoje no PUBLICO:
Numa altura em que a recessão nos bate à porta, devem-se saudar os recentes pacotes de estímulo económico anunciados pela Comissão Europeia e pelo Governo português. Com efeito, após um período inicial de hesitação, estes são os primeiros passos de combate à crise, numa caminhada que promete ser bem mais longa e penosa do que gostaríamos de admitir.
Ainda assim, no seio da União Europeia continua a imperar um conservadorismo fiscal que não faz o mínimo sentido nos tempos que correm. Apesar de existirem indícios de uma maior flexibilidade, as autoridades económicas europeias continuam inexplicavelmente obstinadas com o cumprimento das metas do Pacto de Estabilidade. O próprio governo português teve o cuidado de apontar que a meta dos três por cento do PIB seria cumprida apesar da introdução do pacote de medidas de estímulo económico. No entanto, insistir no fundamentalismo do défice quando podemos estar à beira da maior recessão das últimas décadas faz tanto sentido como usar a embraiagem para travar um carro descontrolado à beira de uma ravina.
>
É neste contexto que o fundamentalismo orçamental que nos vem de Bruxelas (e de Berlim) não só é irracional, como mesmo contraproducente. É irracional, porque não há lei económica que mostre que um défice orçamental de três por cento é o limite máximo a partir do qual se segue o descalabro económico. Não é. Nem em Portugal nem em lado nenhum. E é contraproducente, porque ao teimar no fundamentalismo do défice, Bruxelas presta um mau serviço aos europeus, pois dá prioridade a um instrumento macroeconómico (o controlo do défice) e não àquele que devia ser o principal objectivo económico (o crescimento económico e a subida dos níveis de vida europeus).
Ora, ao compactuarem com o excessivo conservadorismo fiscal de Bruxelas, as autoridades portuguesas são igualmente responsáveis por terem deixado que a situação económica do país se deteriorasse para um nível inimaginável há apenas uma década, quando Portugal ainda era considerado um exemplo a seguir por outros países. Uma crise que só se agravou mais nos últimos meses por causa da emergente recessão internacional. Após uma década de falhanços, após uma década de fundamentalismo orçamental, será que não é chegada a hora de pensar num combate mais eficaz à crise económica? Não é chegada a hora de apostar no aumento da competitividade das nossas empresas em vez de cismar num dogmatismo orçamental sem sentido? Num dogmatismo orçamental que só tem aumentado a carga fiscal e penalizado a competitividade das nossas empresas?
>
Pessoalmente, até sou a favor da aprovação de legislação que obrigue os governos a atingir o equilíbrio das contas públicas ao longo dos ciclos políticos ou económicos. Porém, falar em equilíbrio orçamental só faz sentido quando um país se encontra numa posição económica saudável ou, pelo menos, não esteja no meio da sua maior crise económica das últimas décadas. Para além do mais, teimar no conservadorismo fiscal no cenário económico actual poderá equivaler a uma crise económica desnecessariamente prolongada.
Quando ultrapassarmos esta crise, e quando deixarmos para trás a estagnação económica dos últimos anos, podem ter a certeza que serei um dos primeiros a defender um maior rigor e responsabilidade orçamental. Porém, este não é o momento para o fazer. Esta não é a altura de indecisões ou de ter excessivas preocupações fiscais. Esta é a altura de agir. E agir significa esquecer temporariamente o défice orçamental e apoiar ainda mais as empresas e os particulares nacionais.

17 dezembro 2008

JUROS ZERO

A Fed surpreendeu os mercados e baixou a taxa de juro directora para 0,25% (um corte de 0,75 pontos percentuais). Ou seja, uma taxa (quase) zero. Os mercados subiram com as notícias. No entanto, não é crível que tal descida seja motivo para celebrações. Primeiro, tal descida significa que os riscos de termos uma recessão considerável e até mesmo deflação são reais. Segundo, com tal medida, não há mais margem de manobra para a Fed. No fundo, a política monetária torna-se quase ineficaz e entramos no reino da infame "armadilha da liquidez", que caracterizou a economia americana nos anos 1930 e a japonesa nos anos 1990. A partir de agora, se as autoridades económicas americanas quiserem ajudar a economia, só resta uma opção: a política fiscal, quer através do aumento das despesas públicas, quer através de cortes de impostos. De qualquer maneira, a decisão da Fed não augura nada de bom para o futuro mais próximo.

O PACOTE

Estando em plena época de correcção de exames e trabalhos (entretanto já acabados), ainda não tinha tido oportunidade para comentar o plano de estímulo apresentado pelo governo. Apesar de discordar com algumas opções, penso que o plano é um bom primeiro passo para ajudar a economia. Claro que muitos dos projectos de investimento já estavam planeados, claro que a aposta no emprego é um pouco ambígua, claro que um corte de impostos também fazia sentido. No entanto, o plano é mais ou menos consensual entre economistas e cientistas políticos. Mesmo assim, uma coisa que achei interessante foi a ressalva feita pelo governo que o défice orçamental se iria situar nos 3% do PIB. Numa altura em que a França, entre outros, já anunciaram que o seu défice iria ser de, pelo menos, 4%, não percebo a preocupação excessiva do nosso governo com o limite dos 3% do Pacto de Estabilidade. A minha suspeita é que tal é feito por motivos eleitorais. Afinal, José Sócrates foi eleito com o propósito de fazer retomar a economia e trazer o equilíbrio para as contas públicas. Como o primeiro objectivo não foi alcançado (nem de longe nem de perto), o primeiro-ministro não quer correr o risco de ser acusado de, em 4 anos, não ter conseguido sequer controlar o défice orçamental. E, por isso, a obsessão com o défice permanece em Portugal.

12 dezembro 2008

A CRISE DOS DEPUTADOS

A crise continua, mas não para o parlamento nacional. Hoje a importante Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças devia reunir-se para discutir o combate à crise e uma audição parlamentar a Vítor Constâncio (sobre o apoio do Estado ao Banco Privado). O que é que os nossos deputados da comissão fizeram? Faltaram à reunião. Por isso, a reunião da comissão teve que ser adiada por falta de quorum. De quem é a culpa? De quase todos os partidos (faltaram 6 deputados do PS, 3 do PSD e 1 do Bloco de Esquerda).
Coitados, é compreensível. Era cedo, às 9:30 da manhã e ainda por cima a uma sexta-feira. Uma chatice. O combate à crise que espere, a fiscalização ao governo que aguente, pois os nossos deputados têm coisas mais importantes a fazer.

CRISE NA ÍNDIA?

A crise continua a afectar várias economias em todas as partes do mundo. Hoje surje a notícia que a Índia registou o seu primeiro mês de contracção económica em 13 anos. Em Outubro a produção indiana caiu cerca de 1,1%. A economia indiana ainda deve crescer acima dos 6% este ano, mas a quebra de produção em Outubro é um sinal que nem mesmo os tigres asiáticos escapam à crise global.

O PETRÓLEO E A GASOLINA

Mais uma previsão sobre o preço do petróleo para 2009, desta vez feita pela Goldman Sachs (GS). Em 2008, em plena crise petrolífera (lembram-se?) a GS tinha chegado a prever petróleo a 200 dólares. Agora a previsão do preço médio para 2009 é de $49, um pouco mais do que o valor actual (que ronda os $40-$45). Isto apesar da tentação dos países da OPEC (como a Arábia Saudita) de cortar a produção do crude para manter o preço elevado. Uma loucura que tenta manter a todo o custo as receitas petrolíferas para os países exportadores do crude, inclusivamente correndo o risco de agravar a crise mundial e, assim, de fazer diminuir a procura do petróleo. Enfim. (É claro que a OPEC não está interessada no bem-estar da economia mundial, mas sim simplesmente manter a verdadeira bonança que a subida do preço do crude tem sido tantos e tantos regimes e países de governos menos transparentes no mundo).
Um outro facto interessante é verificar que em Portugal os preços da gasolina sobem com a subida dos preços do crude, mas descem bem menos quando os preços do petróleo baixam. Assim, enquanto em Espanha há 3 semanas o preço da gasolina já se situava em menos de 1 euro por litro, em Portugal ainda estamos bem longe. Será que é a desvalorização do euro que previne a descida mais rápida do preço da gasolina em Portugal? Não. Só para dar um exemplo, o dólar canadiano tem-se desvalorizado substancialmente nos últimos meses, a um ritmo ainda mais rápido do que o euro. Mesmo assim, o preço da gasolina já baixou mais de 50% desde Agosto. No pico do choque petrolífero o preço da gasolina chegou aos $1.50 dólares e agora já está a $0.75 cêntimos. Hmmmm...
Por ourtro lado, em Portugal, por uma qualquer razão insondável, os preços sobem com as variações do mercado, mas nunca descem tanto como deviam descer nos períodos de baixa do preço do crude. Porque será?

10 dezembro 2008

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL?

As previsões da crise sucedem-se umas às outras e, até agora, ainda não tinha visto uma única previsão de retoma económica. Hoje, o principal economista de um dos maiores bancos canadianos fez a previsão que as coisas vão piorar no primeiro semestre de 2009, mas também que a recuperação da economia norte-americana pode não estar assim tão longe. Segundo esse economista a retoma poderá acontecer no segundo semestre de 2009. Ainda é cedo para sabermos se estas previsões optimistas se irão concretizar. No entanto, pelo menos é um sinal que muitos já começam a ver a luz ao fundo do túnel. Esperemos que o túnel não seja mais comprido do que parece.

NOVO LIVRO

Gabriel Garcia Marquez, uma das lendas da literatura mundial (e um autor verdadeiramente fantástico) está a escrever um livro novo. Uma óptima notícia, principalmente porque ele já tinha anunciado que não iria escrever mais. Cá ficamos à espera.

BURACO NEGRO

Um estudo britânico confirmou aquilo que se suspeitava há muito, que a nossa galáxia tem no seu centro um buraco negro super-maciço, um super-hiper monstro que engole tudo à sua volta. Um apetite de tal modo voraz que nem mesmo a luz escapa. Apesar disso, não devemos estar preocupados. É que o super-hiper monstro está a 27,000 anos-luz de distância ou 158 mil milhões, milhões, milhões de quilómetros da Terra. Para além do mais, pelo que parece, até devemos estar a agradecidos a esse monstro, pois a sua constituição foi fundamental para a criação da nossa galáxia. Ou seja, nem todos os monstros são monstros. Principalmente se os monstros se chamam buracos negros super-maciços.

09 dezembro 2008

RECESSÃO EM PORTUGAL

Hoje ficámos a saber que a economia portuguesa contraiu-se 0,1% no terceiro trimestre de 2008 . Como é de esperar que as coisas sejam ainda piores no quarto trimestre, é provável que a economia nacional entre em recessão técnica (ou seja, o PIB contrai-se dois trimestres seguidos) ainda este ano. Por isso, não são de estranhar as declarações do governador do Banco de Portugal que a economia nacional pode entrar em recessão ainda este ano.
É claro que os números do INE ainda podem ser revistos daqui a uma semanas e percebermos então que a taxa de crescimento do PIB para o terceiro trimestre seja, afinal, de 0%. Independentemente das questões de semântica, independentemente da palavra "técnica", a verdade é que a economia portuguesa está em recessão pela segunda vez em menos de 5 anos (a última foi em 2003) e que a recessão actual será certamente maior e mais profunda do que as recessões mais recentes.
Quão grande vai ser a recessão? Ninguém sabe. Ainda é cedo para previsões. Nisto concordo com o Ministro da Finanças, que acabou de declarar que mais do que fazer e disputar previsões sobre a gravidade da recessão é saber o que fazer para a combater. Nem mais. O que é disputável é pensar que serão as grandes obras públicas (como o TGV) a resgatar-nos do mal-estar actual. Sinceramente não me parece.

VACINA CONTRA A MALÁRIA

Um artigo no New England Journal of Medicine apresenta resultados muito promissores sobre o desenvolvimento de uma vacina contra a malária. Apesar de estar erradicada nos países mais desenvolvidos, a malária anda infecta milhões de pessoas todos os anos e é a causa de morte de centenas de milhares de pessoas todos os anos, inclusivamente dezenas de milhares de crianças. Uma vacina eficaz seria uma das melhores notícias que muitos países tropicais poderiam ter.

PS: Obrigado ao Tiago Villanueva por me ter chamado a atenção para esta notícia.

TIGRE SEM DENTES?

Um artigo interessante sobre aquele que devia ser o novo tigre asiático. Após uma década de crescimento, o Vietname continua a ter enormes problemas estruturais.

07 dezembro 2008

AINDA A EDUCAÇÃO

Nos últimos dias a tensão na Educação começou finalmente a diminuir, ainda que ligeiramente. Os sindicatos dos professores pediram ao governo "espaço para uma solução negociada" e o governo já concordou com a inevitabilidade de ter que alterar o regime de avaliação. Acho bem. Bom senso é o que se pede numa altura em que as coisas ameaçam ficar um pouco fora de controlo. No meio de todo este jogo de forças, é importante ter em vista dois princípios:
Primeiro, o princípio da avaliação dos professores deve ser inegociável. O modelo pode (e deve) ser alterado e os professores devem ter uma palavra sobre o próprio modelo. No entanto, é importante que a avaliação dos professores seja feita e que tenha dentes. Isto é, não vale a pena criar um modelo de avaliação que não tenha consequências para a qualidade do ensino e para a própria carreira docente. Não vale a pena criar a avaliação dos professores se for somente figurativa e sem consequências práticas para os professores e alunos.
^
Segundo, é urgente acabar com a espiral de confrontação entre os professores e o governo, sob pena do sector ficar num estado ainda mais lastimável do que aquele que se encontra actualmente (o que é obra). Ninguém ganha com os professores constantemente na rua e com um governo intransigente. No fundo, os professores e o governo estão a jogar uma versão do famoso jogo do dilema do prisioneiro. Toda a gente ganha se houver cooperação entre as partes. No entanto, todos também sabem que se uma das partes ceder às pretensões da outra, a que não cede fica numa melhor situação do que aquela que poderia ficar com uma situação de cooperação. Por um lado, se o primeiro-ministro ceder à tentação eleitoralista e substituir a ministra (tirando ainda os dentes ao modelo de avaliação), os professores ficam a saber que a pressão das ruas dá frutos. Consequentemente, nunca mais será possível introduzir qualquer tipo de modelo de avaliação eficaz. Os professores manteriam o status quo, que manifestamente não tem sido benéfico para a qualidade educativa. Por outro lado, se os sindicatos cedessem a aceitassem o actual modelo de avaliação (o que é, obviamente, impensável, actualmente), o governo ficaria numa situação negocial quase sem precedentes.
_
Ou seja, as partes ganham mais numa situação em que a outra parte cede do que num cenário de cooperação. No entanto, se ninguém cooperar existe um risco real do sector ficar numa situação de conflito latente ou permanente, e quem perde são todos, os alunos, os professores, o governo e o próprio país.
É, por isso, que haja bom senso nos próximos dias e na reunião do dia 15. Continuar nesta espiral de confrontação não serve a ninguém, a não ser alguns interesses políticos e grupos de interesses. Deste modo, se os professores e o governo se preocupam realmente com o ensino e com os alunos, se os actores do sector da Educação se interessam realmente pela novas gerações, então deixem de lado a retórica e os joguinhos de interesse, e iniciem uma política de cooperação estratégica num sector que é vergonhosamente sofrível, um sector que, todos os anos, continua a hipotecar o futuro de milhares de alunos e, por consequência, o próprio futuro do país (e a competitividade da economia nacional). Haja bom senso.

PREVISÃO DE OBAMA

Na sua primeira entrevista como presidente-eleito ao histórico programa televisivo "Meet the Press", Barack Obama afirmou categoricamente que as coisas vão piorar economicamente antes de começarem a melhorar. Não é de espantar. Só em Novembro mais de 500 mil pessoas perderam os seus empregos. Obama também reiterou a intenção de lançar um agressivo e ambicioso programa de obra públicas e de reforço dos incentivos à iniciativa empresarial. Para Obama o que interessa é combater a crise da forma mais agressiva possível. Um contraste enorme com o que a Europa planeia fazer. Um resumo da entrevista pode ser lido aqui.

04 dezembro 2008

BCE RADICAL

Como era esperado, o Banco Central Europeu baixou a sua taxa directora para 2,5%. O corte de 0,75 pontos percentuais foi o maior da breve história do BCE, indiciando que o banco central está realmente preocupado com a recessão da economia. A grande dúvida é saber se este corte é suficiente ou se não seria preferível ser ainda mais agressivo, tal como fizeram o Banco de Inglaterra (que cortou a taxa directora em 1 ponto percentual) e o Banco da Suécia (que baixou os juros em 1,75 pontos percentuais). É de assinalar que, provavelmente, a decisão do BCE faz sentido por dois motivos. Primeiro, a Fed quase nunca baixa os juros mais do que o,5 ou 0,75 pontos percentuais de uma só vez. Neste sentido, o BCE só está a copiar o que a Fed faz. Segundo, e mais importante, é preciso não esquecer que o BCE é uma coligação de 15 bancos centrais, cujas economias têm necessidades muito distintas. Por isso e neste contexto, baixar os juros em 0,75 pontos percentuais é bastante radical. Dito isto, urge perguntar: será que chega? Provavelmente não. Assim, não será de espantar que o BCE continue a baixar os juros nos próximos tempos. Entretanto, e como a política fiscal é fundamental nas recessões, também é preciso que os estados sejam ainda mais agressivos no combate à crise. E que esqueçam o fundamentalismo do défice pelo menos a curto prazo (o que Bruxelas ainda não conseguiu, pelo menos totalmente).

A CONFUSÃO CANADIANA

A governadora-geral (representante da rainha britânica no Canadá) acabou de aceder aos pedidos do primeiro-ministro e suspendeu o parlamento nacional até ao dia 27 de Janeiro, data em que o governo apresentará um novo orçamento de estado. Como o Canadá não é uma república, a embrulhada dos últimos dias acabou por ser (temporariamente) decidida por alguém que não é eleito para o cargo mais alto da nação (O(a) governador(a)-geral é escolhido pelo primeiro-ministro e aprovado(a) pela rainha). Claro que a oposição não vai gostar e a instabilidade vai continuar. Finalmente a política canadiana dá sinais de vida (apesar das razões não serem as ideais).

A TORTURA DE UM OBAMA

Soube-se agora que o avô queniano de Barack Obama foi feito prisioneiro e foi torturado pelos britânicos durante a luta pela independência por esse país africano. Segundo o jornal The Times, Hussein Onyango Obama foi brutalmente torturado pelas tropas britânicas após ter sido aprisionado por suspeita de ligação à rebelião Mau Mau. Entre outras torturas, conta-se que o avô de Obama foi chicoteado todas as manhãs para confessar as suas ligações com o movimento independentista. Barack Obama menciona num dos seus livros a prisão do seu avô, mas, pelo que parece, até agora desconhecia a tortura a que o seu avô foi sujeito.