23 março 2009

AINDA O DÉFICE

Ainda a entrevista ao DN:
DN. Andaram anos a atirar-nos com o papão do défice e no seu livro diz, literalmente que lhe devíamos dar com os pés. Como e porquê?
Antes de mais, é importante sublinhar que sou totalmente a favor da aprovação de legislação que obrigue os governos a alcançarem o equilíbrio orçamental ao longo do ciclo político. Como a grande maioria dos economistas, não gosto de défices e acho inaceitável que, nos últimos 35 anos, nenhum governo tenha tentado verdadeiramente alcançar o equilíbrio orçamental. Porém, obcecarmo-nos com o défice orçamental numa altura que temos o maior abrandamento económico das últimas 8 décadas é perfeitamente descabido e de um fundamentalismo totalmente contraproducente.
Ora, se já não temos política cambial (e, assim, não podemos desvalorizar a moeda para estimular as exportações), nem uma política monetária independente, por que não utilizar a pouca margem de manobra que temos numa política fiscal que tente melhorar a competitividade das nossas empresas? Por que não ajudar mais as empresas que inovam e tentam singrar nos mercados internacionais? Por que não auxiliar os nossos empreendedores?
Não faz sentido nenhum andarmos a discutir as centésimas do défice e fazer tudo para agradar a Bruxelas, quando Bruxelas não parece preocupada com a nossa economia real, nem com o bem-estar dos portugueses. Sou um europeísta convicto, mas um tal fundamentalismo do défice é completamente contraproducente e ridículo.
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DN. O défice provavelmente não seria tão importante se tudo o resto funcionasse, nomeadamente a nossa produtividade, as poupanças dos portugueses... Mas como não funciona...
Repare, se tudo funcionasse bem, se a produtividade fosse elevada e crescesse a um ritmo saudável, se a economia fosse competitiva, então o crescimento económico seria elevado e, provavelmente, não teríamos que nos preocupar com o défice. Um maior crescimento económico faria aumentar automaticamente os impostos colectados, pois os rendimentos subiriam e o consumo cresceria. Desse modo, as receitas com o IRS, o IRC e o IVA também aumentariam. Ou seja, o défice orçamental é também função do bom funcionamento e da competitividade da economia.

21 março 2009

ENTREVISTA AO DN (2)

DN. Passando a assuntos mais sérios: uma grande fatia do seu livro é dedicada ao estudo da Justiça portuguesa. Porque é que fez esta escolha, num livro de economia?
Porque a Justiça é um grande factor de descompetitividade da economia portuguesa. Quando olhamos para os índices internacionais, facilmente damos conta que Portugal é dos países onde a burocracia ainda impera (apesar das melhorias dos últimos anos) e onde a Justiça é mais ineficiente. Por exemplo, Portugal tem um número de casos pendentes nos tribunais quase tão grande como a França e a Alemanha, países muito maiores do que o nosso, e o dobro da Espanha. É inadmissível e uma autêntica vergonha que tal aconteça.
Por isso, alguns economistas portugueses, como Nuno Garoupa, e várias organizações internacionais têm sistematicamente chamado a atenção para este problema. O que eu fiz foi simplesmente olhar com atenção para os números da Justiça e tentar perceber o que está por detrás de um sector tão ineficiente. E o que está por detrás é uma grande falta de organização e uma máquina judicial que penaliza a eficiência económica.
DN. Os juízes e procuradores portugueses são, em relação ao resto da população, os mais bem pagos da Europa e nós temos a pior justiça da Europa (pelo menos com mais processos atrasados per capita, só atrás de Itália). E não querem formação, nem, por falar nisso, avaliação. No entanto não é possível fazer uma reforma da Justiça sem eles, como questionou a Dra. Manuela Ferreira Leite na célebre gafe irónica da pausa democrática... Ou é?
Claro que não. Nenhuma reforma pode ser feita sem os actores dos sectores em causa. Para além do mais, nós tivemos uma pausa democrática de quase 50 anos e não me parece que a Justiça se tenha reformado e se tenha tornado muito eficiente... Bem pelo contrário.
No entanto, é preciso é dar a entender aos vários magistrados judiciais que a ausência de uma reforma estrutural é contraproducente para o sector e para a própria economia nacional. Que uma Justiça tão ineficiente e clientelista prejudica todos e só beneficia uma pequena minoria. Que a própria Justiça se encontra crescentemente paralisada e que são os magistrados que sofrem as consequências deste mal-estar.
Repare, a reforma da Justiça, assim como foi preconizada pelo célebre Pacto da Justiça ainda por implementar e pelo projecto de reorganização judicial, interessa grandemente aos próprios magistrados. A organização do sistema judicial data do século 19, quando Portugal era ainda um país rural e Lisboa e Porto não eram tão dominantes como são actualmente. É um contra-senso. Uma reorganização da Justiça faz sentido porque irá beneficiar os próprios magistrados, facilitando-lhes da vida e tornando o sector mais eficiente. E se tal acontecer, quem tem a ganhar somos todos nós, pois não só a Justiça será mais célere, mas também porque iremos melhorar a competitividade e a eficiência da economia nacional.

ENTREVISTA AO DN (1)

Aqui estão alguns excertos da minha entrevista a Catarina Carvalho do Diário de Notícias:

DN. Porque é que devíamos ser todos do Sporting e o que é que isso tem a ver com economia?

Cada um de nós tem o seu clube de eleição. Porém, há uma característica comum a todos nós: mesmo quando o nosso clube perde ou quando fica anos e anos sem ganhar o campeonato (como aconteceu com o Sporting durante 18 anos), nós não perdemos a fé e não alteramos as nossas preferências clubísticas. E se é assim com os nossos clubes, por que é que procedemos de forma distinta com o nosso país? Por que é que deixamos de acreditar na nossa economia e em Portugal quando temos 7 ou 8 anos de menor sucesso? Por que é que teimamos em esquecer o extraordinário sucesso que alcançámos nas últimas 4 décadas?

Isto tem tudo a ver com a Economia, porque o nosso estado de descrença actual tem um impacto muito significativo nas expectativas dos agentes económicos. E é sabido que as expectativas são uma das variáveis fundamentais na Macroeconomia. Quando as expectativas são baixas, quando a confiança anda pelas ruas da amargura, como acontece actualmente, o consumo retrai-se, o investimento diminui, e o desempenho económico é afectado. Ora, se queremos inverter a estagnação dos últimos anos, uma das coisas que temos de fazer é alterar as expectativas dos portugueses, tornando-os mais confiantes sobre o futuro do país e da economia.

DN. O seu livro chama-se O Medo do Insucesso Nacional. É um título pela negativa. Mas depois de lê-lo não podemos se não ficar mesmo com medo – somos pequenos, desorganizados, não empreendedores, pouco corajosos e cultos e ainda por cima chegamos sempre atrasados... Não é deprimente?

Acho que não. A minha intenção era exactamente a oposta. A principal mensagem do livro é que apesar de todos estes nossos problemas, apesar de todas as nossas insuficiências, as últimas décadas demonstram inequivocamente que Portugal é um país de sucesso e que certamente teremos um futuro promissor à nossa frente. Porém, para que tal aconteça, para que retomemos a senda do progresso, teremos que efectuar uma série de reformas que atenuem as nossas insuficiências organizativas, educacionais, entre outras.

DN. O que é que chegar atrasado tem a ver com a economia?

Os nossos atrasos são um sintoma da nossa falta de organização. Chegar atrasado é uma prática que penaliza a eficiência económica e afecta a produtividade. Por isso, tem tudo a ver com a Economia. Para além do mais, para quem lida com clientes ou fornecedores estrangeiros ou até com turistas, chegar atrasado é um péssimo cartão-de-visita. Por isso, se ambicionamos reformar a economia nacional e tornarmo-nos mais produtivos temos de acabar ou, pelo menos, de atenuar este nosso terrível hábito, bem como outros tais como fazer tudo em cima do joelho e não planear adequadamente.

20 março 2009

A NOSSA SÍNDROME ALEMÃ

Nos últimos anos, analisámos e dissecámos até à exaustão os milagres irlandeses e finlandeses, por forma a contrapor o recente insucesso da economia portuguesa com a alegada superioridade destes modelos económicos. Porém, e independentemente da justeza e da relevância destas comparações, mais do que a Irlanda ou a Finlândia, é cada vez mais evidente que o exemplo mais pertinente para a estagnação que a economia nacional se encontra na última década é-nos dado pelo Leste alemão. O meu artigo de hoje no Público debruça-se exactamente sobre isso:
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"Há 20 anos atrás, inebriado pela histórica reunificação política, o governo alemão decidiu converter as moedas das duas Alemanhas numa relação paritária (muito favorável aos alemães de Leste), concedendo níveis salariais ao Leste alemão muito superiores à produtividade média dos seus trabalhadores. No início, as coisas ainda correram bem, pois, embalados por um grande incremento do investimento público, o Leste alemão cresceu consideravelmente. Porém, a partir dos meados dos anos 90, a economia estagnou e a receita mágica do investimento público perdeu lustre e eficácia. Deste modo, e apesar de se registarem transferências anuais na ordem dos 100 mil milhões de euros, a economia da antiga Alemanha de Leste permaneceu pouco dinâmica e o desemprego subiu para patamares acima dos 15%.
Por que é que a experiência do Leste alemão tem sido tão má? Porque a sobrevalorização da moeda e os salários demasiados elevados para o nível de produtividade da Alemanha de Leste asfixiaram a competitividade das empresas e hipotecaram toda e qualquer possibilidade de alcançar um crescimento baseado em indústrias competitivas nos mercados internacionais. É exactamente neste contexto que vale a pena comparar a crise nacional dos últimos anos com o Leste alemão. Tal como a Alemanha de Leste, também nós adoptámos uma moeda forte sem que as empresas estivessem preparadas para um tal choque. Tal como o Leste alemão, também nós preferimos construir infra-estruturas em vez de apostar na melhoria do capital humano ou numa maior competitividade fiscal (como os irlandeses). Tal como a Alemanha oriental, também nós nos iludimos ao pensar que todos os nossos males seriam resolvidos com abundantes subsídios externos. Tal como o Leste alemão, a falta de competitividade é o nosso principal desafio e deveria ser a nossa maior preocupação.

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Porém, há outra lição alemã que interessa reter. Após quase duas décadas de declínio relativo, o Leste alemão começou finalmente a dar mostras de uma maior competitividade. Como é que tal foi alcançado? Através do crescimento da produtividade e da moderação salarial. Como os alemães não podem desvalorizar a moeda para estimular as suas exportações e como perceberam que o investimento público, por si só, não origina ganhos de competitividade, as empresas e os trabalhadores do Leste alemão chegaram à conclusão que a única maneira de resolver a crise é apostar na concertação social, na inovação e na melhoria da produtividade. Assim, nos últimos 5 anos, a produtividade relativa do Leste alemão aumentou e os salários relativos decresceram em comparação aos restantes parceiros europeus.

E em Portugal? Após 8 anos de estagnação e de crise, estaremos nós a seguir os passos dos alemães? Não. Muito pelo contrário. Nos últimos anos, a produtividade relativa decresceu e os salários médios aumentaram em relação à média europeia. Exactamente o contrário do que devia estar a acontecer numa altura de crise. E o problema é que a crise internacional e, principalmente, as eleições que se avizinham vieram agravar ainda mais esta situação. Infelizmente, em Portugal, os aumentos de produtividade continuam a iludir-nos, e a moderação social é consistentemente hipotecada por interesses políticos, sindicais e patronais. Ou seja, continuamos a ser demasiado bairristas na nossa política de competitividade e pouco inovadores na aposta por uma maior produtividade. E esta é uma das coisas que temos de alterar urgentemente se não queremos que a crise nacional dos últimos anos se prolongue por muitos e longos anos, tal como aconteceu durante tanto tempo na Alemanha de Leste.
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19 março 2009

TECNOLOGIA ANIMAL

Muitas vezes pensamos que aquilo que nos distingue dos animais é a utilização da tecnologia. Afinal, não foi através da tecnologia que nos tornámos tão poderosos? Não foi através da invenção de novas tecnologias que ambicionámos conquistar a Natureza? À primeira vista, estas afirmações parecem inquestionáveis. Mas, não. Nos últimos anos, os cientistas têm vindo a descobrir mais e mais animais que utilizam instrumentos e tecnologias para alcançarem os seus objectivos. Por exemplo, os corvos lançam nozes sobre rochedos ou até sobre as estradas para que estas quebrem e se tornem mais fáceis de comer, os chimpanzés utilizam palhas e paus para tirar térmitas das suas tocas, etc, etc, etc. Agora, uma equipa de cientistas no Congo filmaram pela primeira vez primatas a partirem ramos das árvores e a utilizarem-nos para chegar a colmeias de abelhas, por forma a conseguirem deliciar-se com o nutritivo e doce mel. As imagens (que podem ser vistas aqui) são impressionantes e dão que pensar.

SANTA IGNORÂNCIA (2)

Ora, aí está uma óptima iniciativa. O Jorge Andrez Malveiro, da Universidade do Algarve, comenta o post sobre os Pápa e os preservativos e informa-nos do seguinte:
"O actual Santo Padre tem razão num aspecto: o uso do preservativo não resolve o problema do VIH e neste ponto termina a infalibilidade do Papa sobre este assunto. O uso do preservativo é uma medida de Prevenção e de redução de riscos absolutamente necessária para evitar a propagação espiral da pandemia. Aqui na Universidade do Algarve, orgulho-me de ter desenvolvido desde 2002 um Programa de Prevenção de Comportamentos de Risco que envolve a distribuição semanal (e gratuita) de preservativos com informação anexa a todos os alunos das residências universitárias e aos que frequentam os bares, cantinas e serviços médicos da universidade; um rastreio de VIH efectuado todas as semanas, alternadamente em cada pólo da UAlg; sessões de formação ao longo do ano e uma intervenção anual - chamada de TU DECIDES - durante toda a semana das festividades da Queima das Fitas (que aqui se chama "Semana académica"). Distribuímos ao longo destes anos que decorre o Programa de Prevenção mais de 500 mil preservativos e efectuámos mais de 200 rastreios. Resultado? Agora, ao contrário de quando iniciámos, fala-se abertamente sobre a prevenção das DST, os homens aderem cada vez mais ao programa (no início eram mais as mulheres), o feedback é positivo em 96% dos casos (dados do último inquérito interno) e somos solicitados regularmente pelos alunos para intervir em sessões de esclarecimento sobre o tema.O Santo padre não sabe ou não quer saber, mas a a verdade - Divina - é que a Ignorância Mata!".
Nem mais.

18 março 2009

A PASSIVIDADE DA EUROPA

Paul Krugman escreveu ontem um artigo muito crítico sobre a passividade da Europa no combate à crise económica. No fundo, o que ele critica é o fundamentalismo do défice que já aqui falámos tantas vezes. Aqui vai um cheirinho de um artigo que vale a pena ler na íntegra:

"The clear and present danger to Europe right now comes from a different direction — the continent’s failure to respond effectively to the financial crisis. Europe has fallen short in terms of both fiscal and monetary policy: it’s facing at least as severe a slump as the United States, yet it’s doing far less to combat the downturn. On the fiscal side, the comparison with the United States is striking. Many economists, myself included, have argued that the Obama administration’s stimulus plan is too small, given the depth of the crisis. But America’s actions dwarf anything the Europeans are doing.

The difference in monetary policy is equally striking. The European Central Bank has been far less proactive than the Federal Reserve; it has been slow to cut interest rates (it actually raised rates last July), and it has shied away from any strong measures to unfreeze credit markets. The only thing working in Europe’s favor is the very thing for which it takes the most criticism — the size and generosity of its welfare states, which are cushioning the impact of the economic slump"

SANTA IGNORÂNCIA

Na sua primeira visita a África, o Pápa afirmou que os preservativos não são a resposta para a epidemia de HIV-SIDA que grassa nesse continente. Bento XVI declarou ainda que os preservativos, em vez de ajudar, agravam o problema. Moral da história: não será difícil para muitas pessoas e prelados argumentarem que usar preservativos é um pecado e que quem contrai o vírus HIV merece ser castigado. Enfim...
Qual é a solução apresentada pelo Pápa? Abstinência. Muito bem. O que eu gostaria de saber é se alguém já se deu ao trabalho de explicar a Bento XVI a eficácia das campanhas de abstinência no combate ao vírus HIV. É que nos últimos anos foram gastos centenas de milhões de dólares gastas em campanhas de abstinência (quase todas patrocinadas pela administração Bush) e o resultado foi... nulo, ou perto disso. E se é assim, por que razão haveríamos pensar que essas campanhas iriam começar a dar resultado?
É verdade que o combate contra a SIDA passa pela informação e pela mudança de comportamentos. Porém, qualquer estratégia de combate a esta doença tem que forçosamente incluir os preservativos como um instrumento essencial para estancar a epidemia. Argumentar que os preservativos agravam o problema não só é redondamente falso, mas também poderá condenar à morte milhares de pessoas que poderão optar por não os usar com medo de estarem a cometer este ou aquele pecado mortal.

SOUSA MENDES


Um dos heróis portugueses do século 20 foi Aristides de Sousa Mendes, que salvou dezenas de milhares de judeus da perseguição nazi à revelia do regime português. Acaba de ser publicado um livro sobre Sousa Mendes que ainda não li, mas que irei certamente fazê-lo assim que possa. O livro chama-se "Ariistides de Sousa Mendes - Um Justo Contra a Corrente", foi escrito por Miriam Assor e editado pela Guerra e Paz. Tem ainda prefácio de José Miguel Júdice e o resumo da obra informa-nos:
"Esta é uma obra de cariz fotobiográfico e documental sobre a figura ímpar de Aristides de Sousa Mendes, a sua vida e o sublime acto de humanismo que protagonizou em 1940 salvando mais de 30 000 pessoas da perseguição nazi. Exibir imagens que ilustram a caminhada pessoal de um homem íntegro e que também comprovam a carreira de um diplomata exemplar, repor a legítima verdade com o auxílio rigoroso de documentos oficiais provenientes do Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros são os elementos que constituíram o propósito da elaboração do livro."

16 março 2009

UMA MEDIDA INSOSSA

A aprovação por parte da Assembleia da República do projecto de lei que regula o teor do sal no nosso pão é um exemplo crasso de como uma boa ideia se tenta implementar por meios totalmente errados. A diminuição do nível do sal nos alimentos é uma boa ideia, pois é sabido que os portugueses consomem, em média, o dobro do sal recomendado pela Organização Mundial de Saúde, com todos efeitos nefastos que tal consumo acarreta para a saúde.
Porém, em vez de tentar informar os portugueses sobre os malefícios do sal, em vez de exigir uma rotulagem eficaz que nos informasse sobre o teor do sal no pão que consumimos, e em vez de respeitar os nossos gostos pessoais, os nossos deputados optaram por introduzir uma medida na melhor tradição soviética: ditam-se limites para toda a gente, independentemente das nossas preferências. Ou seja, em vez de nos considerar como pessoas adultas, em vez de nos deixar optar pelo pão que bem entendemos consumir, em vez de exigir aos produtores que nos informem sobre o teor de sal do seu pão e, depois, esperar que cada um de nós decida que pão prefere comer, o Estado vai-nos impôr a sua infinita sapiência e os seus sábios gostos. É o paternalismo levado ao extremo num país onde o paternalismo do Estado já é excessivo.
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Há quem argumente que a legislação sobre teor do sal no pão assemelha-se à lei do tabaco. Porém, isso não é verdade. A Lei do Tabaco tem uma preocupação principal: proteger o fumador passivo. O tabaco tem consequências negativas não só para os consumidores, mas também para quem não fuma. Em economês, há externalidades negativas relacionadas com o consumo do tabaco. Nada disso se passa com o sal. Se eu optar por consumir sal em demasia (ou açúcar), estou a fazer mal a mim mesmo, e não a mais ninguém. E, se é assim, por que razão haverá o Estado de regulamentar as minhas decisões e preferências pessoais?
Quando muito, os defensores desta medida poderão argumentar que as despesas com a Saúde aumentam por causa do meu excessivo consumo de sal. Mas, se é assim, por que não regulamentar o açúcar ou o vinho em excesso? Por que não proibir as pessoas de beberem mais do que um copo de vinho por refeição? Por que não proibir desde já os nossos doces regionais com quantidades generosas de ovos e açúcar? Por que não tentar impôr uma dieta saudável a todos os portugueses? Por que não conceder o subsídio de desemprego só àqueles que comprovem que fazem ginástica todos os dias?
Enfim, o que este projecto de lei demonstra exemplarmente é que o nosso Estado nos continua a tratar como autênticas crianças, tentando proteger-nos a todo custo das nossas preferências e dos nossos gostos pessoais. Um disparate. Um perfeito disparate.

PREOCUPAÇÕES CHINESAS

O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, mostrou-se preocupado com as finanças públicas americanas e com a estabilidade do dólar. A razão é simples: os chineses detêm cerca de 1 bilião de dólares (ou um 1 seguido de 12 zeros, ou um trilião de dólares se seguirmos a denominação inglesa) da dívida pública americana. Por outras palavras, os chineses têm financiado os excessos orçamentais dos americanos nos últimos anos, inclusivé o enorme défice externo e até as próprias guerras que os EUA se têm envolvido. O fenómeno não é novo e, por isso, provavelmente as declarações deste responsável chinês são somente um alerta à nova administração americana que cair na tentação do proteccionismo é, obviamente, inaceitável para a China. E se os EUA o fizerem, os chineses poderão pedir aos americanos para que estes lhe paguem o que devem. O que seria, no mínimo, complicado, tendo em conta os montantes em causa.

VENENOS DE DEUS

Aproveitei a ida a Portugal para ler o último romance de Mia Couto, que tem por título "Venenos de Deus, Remédios do Diabo". O livro conta a história de um jovem médico português que decide ir trabalhar para Moçambique à procura de uma mulher, Deolinda, que conhece em Lisboa e por quem se apaixona. Quando chega a África, o português não encontra Deolinda, mas fica a conhecer a família dela, bem como uma realidade muito distinta à que está habituado.
O livro é um Mia Couto clássico. Uma história na fronteira entre a realidade e o sonho, entre a verdade e a mentira, que vale a pena ler.

09 março 2009

PRIMEIRAS PÁGINAS

Aqui está um cheirinho das primeiras páginas do "Medo do Insucesso Nacional":
Nos últimos tempos não param de surgir obras dedicadas ao fracasso nacional. Entre outros, o filósofo José Gil escreveu Portugal, hoje: o medo de existir, um best-seller crítico da situação social portuguesa. Miguel Real, historiador e escritor, publicou um livro com o sugestivo título A morte de Portugal. O fiscalista Medina Carreira debateu o triste desígnio nacional no seu O dever da verdade e redigiu recentemente um artigo de opinião em que previa “O inequívoco declínio português”. O advogado José Miguel Júdice, um auto-proclamado optimista moderado, conjecturou sobre se a crise actual não seria a maior da nossa história. Não interessa quão verídicos estes livros são, quão densas e eruditas são as suas escritas, ou quão mais ou menos truculentas são estas análises. A verdade é que o pessimismo tem-se tornado numa das indústrias mais bem-sucedidas do nosso país. Bendita a crise, dizem-nos (ou, pelo menos, pensam). Aliás, se a nossa economia crescesse ao mesmo ritmo do pessimismo nacional, seríamos por certo a economia mais dinâmica da União Europeia e estaríamos a viver um milagre económico de dimensões irlandesas.
Talvez o nosso pessimismo seja, em parte, justificado pelo nosso carácter, pela tal alma portuguesa . É o nosso triste fado, queixam-se uns. É a nossa sina maldita, lamentam-se outros. Porém, nem mesmo o nosso inato pessimismo consegue justificar o derrotismo dos últimos anos. O pessimismo profissional grassa entre nós como uma verdadeira epidemia e chega a ter ramificações económicas não negligenciáveis, ao impactar as expectativas dos agentes económicos e a confiança económica em geral. As expectativas dos consumidores e dos investidores são verdadeiros barómetros do bem-estar de uma economia. Quando as coisas correm bem, quando a economia cresce e prospera, as expectativas dos agentes económicos (isto é, de todos nós) são positivas, e os consumidores e os investidores têm mais confiança para aumentar o consumo e o investimento. Se, por outro lado, as expectativas baixam, regista-se menos investimento, menos consumo e, consequentemente, menos produção, menos emprego, menos crescimento económico. O mesmo se tem passado nos últimos tempos. A crise actual é não só uma crise económica real, mas também uma crise de expectativas. Uma verdadeira crise de confiança. Aos níveis pessoal e nacional. Neste sentido, se queremos realmente acabar com a crise, se ambicionamos alcançar a retoma económica, temos que fazer tudo por tudo para acabar com a crise de confiança que lavra entre nós.
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Claro que melhorar a confiança dos portugueses não será fácil. A vida não está fácil. E se as coisas já iam mal, se a economia nacional estava em quase estagnação há bastante tempo (desde 2001), a crise financeira internacional e o recente choque petrolífero agravaram ainda mais a situação. Se as expectativas estavam mal, pior ficaram. Não é assim de espantar que os indicadores de confiança tenham baixado significativamente desde o início de 2008, atingindo valores que já não se verificavam desde 2003, um ano em que a economia nacional entrou em recessão. De quem é a culpa? Da crise internacional? Do euro? Da Europa? Das nossas incapacidades? Do nosso insucesso inato? Do governo? Talvez. Talvez todos estes factores tenham contribuído para o mal-estar actual. Porém, se quisermos realmente acabar com a crise, se desejarmos retomar o caminho do progresso, de nada nos serve ficar sentados de braços cruzados ou acreditar nas previsões catastróficas dos habituais pessimistas profissionais que só criticam por criticar. É igualmente um erro colossal pensar que está tudo mal, que somos o mesmo país pobre e provinciano do século 19 (quando éramos o país mais pobre da Europa), que não temos remédio ou que não há cura para a nossa miséria intrínseca. E também de nada nos vale insistir na ideia (predominante nos últimos anos) de que todos os nossos males económicos advêm do défice orçamental do Estado e que, consequentemente, a solução para a crise passa por seguirmos à letra o fundamentalismo orçamental que nos vem de Bruxelas.
Não acredito nem na sensatez da inacção advogada pelos pessimistas profissionais, nem no dogmatismo fundamentalista do rigor orçamental a todo o custo. Neste sentido, os próximos capítulos tentam explicar por que é que, apesar da crise dos últimos anos, devemos manter um optimismo realista, um optimismo com pés assentes no chão, um optimismo informado e crítico. Sinceramente, não acredito que Portugal se venha a tornar numa Califórnia da Europa. Era bom que sim, mas acho difícil. No entanto, acredito que Portugal tem futuro. Acredito que o Portugal dos meus filhos será mais próspero e (ainda) melhor do que o Portugal de hoje, e muito mais rico e muito mais agradável do que o Portugal dos nossos pais e avós. Acredito que temos em nós as raízes do sucesso, que temos em nós a origem da nossa própria felicidade. Acredito que a melhor maneira de combater os nossos problemas e o mal-estar actual é ter uma atitude proactiva e informada. Acredito que não fazer nada perante a crise actual não é uma estratégia razoável. Acredito que resignarmo-nos ou ficarmos de braços cruzados no meio da maior estagnação económica das últimas décadas, por causa de um fundamentalismo orçamental irracional, não é solução para nada. Não agir é ser irresponsável.
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Porém, também não acredito em pedir ao Estado para resolver todos os nossos problemas. Não acredito que a crise se resolve se continuarmos a aumentar desmesuradamente as despesas públicas. Aliás, já o tentámos nos últimos anos e não resultou. Também não acredito que a melhor forma de alcançarmos a retoma económica seja levar a cabo projectos faraónicos de utilidade duvidosa e de rentabilidade questionável. Nem acredito que a lentidão da Justiça ou falta de qualidade da nossa Educação se resolvam milagrosamente com uma mera injecção de fundos públicos. Ou que a crise se resolve somente com o emagrecimento do Estado ou com a instauração de uma maior meritocracia na Administração Pública. De facto, a crise terá de ser combatida com uma estratégia mais abrangente.

VISITA A PORTUGAL

Aqui estão algumas das entrevistas e eventos em que participarei em directo nos próximos dias:
9 de Março
_ 22h30 – Prós e Contras – RTP
10 de Março
_ 10h00 _ Rádio Best Rock
_ 18h00 – Apresentação do "Medo do Insucesso Nacional" na Escola de Gestão do Porto
11 de Março
_ 12h00 _ TVI 24
12 de Março
_ 19h00 - Prova Oral _ Antena 3

05 março 2009

700 MIL EMPREGOS

As notícias que nos vêm dos Estados Unidos continuam pouco animadoras. Em Fevereiro a economia americana perdeu quase 700 mil empregos. Ainda não se vislumbra luz ao fundo do túnel.

APRESENTAÇÃO DO NOVO LIVRO


Aqui está o convite da apresentação do novo livro. Será na Escola de Gestão do Porto no próximo dia 10 às 18h. Estão todos convidados. Chego no sábado e estarei em Portugal até ao dia 14.

03 março 2009

A CRISE FINANCEIRA AINDA NÃO ACABOU

A propósito deste comentário do António sobre os gigantescos prejuízos revelados ontem pela AIG (na ordem dos 61 mil milhões de dólares), vale a pena as tecer as seguintes considerações:
1. Apesar de mais controlada, a crise financeira ainda não acabou. Após os terríveis meses no final de 2008, as institutições financeiras começam agora a apresentar os resultados trimestrais mais recentes e o panorama não será, de certo, animador. É exactamente por isso que a bolsas têm caído um pouco por todo o mundo e, provavelmente, continuarão instáveis nos tempos mais próximos.
2. Há algumas dúvidas entre os economistas sobre os montantes dos planos de resgate, mas quase todos concordam que a intervenção dos governos dos países mais afectados tem de ter uma magnitude pouco habitual. É exactamente isso que a Administração americana está a fazer, apesar de haver alguma incerteza sobre a eficácia das medidas já tomadas (p. ex., alguns economistas preferiam ver a nacionalização temporária dos bancos). Aliás, alguns economistas, como Paul Krugman consideram que o problema dos planos de resgate não é serem demasiado grandes, mas sim demasiado pequenos. Porquê? Não haverá o risco de as principais economias mundiais se estarem a endividar em demasia? Não haverá o risco de estarmos a gastar de tal modo que abriremos portas à inflação? Até pode ser que tal aconteça, mas não é provável. Pelo menos por enquanto. É que o risco principal actualmente é o de deflação, não de inflação. O problema é que as pessoas não estão a gastar o suficiente, os investidores e as empresas não investem e os bancos e os mercados financeiros não concedem crédito como habitualmente. Por isso, a procura total tem vindo a diminuir substancialmente um pouco por todo o mundo, afectando as exportações e as produções dos vários países (p. ex. só no Japão, no último trimestre, o PIB decresceu a uma taxa anualizada superior a 12%!). É por isso que os governos têm embarcado em intervenções que seriam consideradas uma verdadeira loucura em tempos normais. O primeiro orçamento da administração Obama é a prova mais fiel disso mesmo, projectando um défice de 12% do PIB (sim, 12%), o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Os Republicanos têm bradado aos céus, mas o povo americano aprova as medidas, assim como a popularidade estratósférica de Obama o demonstra.
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Quais serão então as repercussões dos planos de resgate? Primeiro, o importante é parar com a instabilidade do sistema financeiro. Se é inacreditável que o governo americano tenha gasto quase 200 mil milhões de dólares para resgatar a AIG, a verdade é que agora já é demasiado tarde para voltar atrás. É por isso que o governo continua a injectar dinheiro na empresa. Certamente que o mesmo se passará com outras instituições financeiras e outros bancos. Segundo, a prioridade tem de ser dada à crise económica, cujas consequências poderão ser ainda mais graves do que o desastre do sistema financeiro.
De uma coisa podemos estar certos: a era dos governos pequenos, a era da liberalização económica mundial, acabou, ou pelo menos abrandou. Nos próximos tempos, veremos os governos intervirem mais e mais nas suas economias. Para bem e para mal.

01 março 2009

NA PRAIA DE CHESIL

"On Chesil Beach" (publicado em Portugal pela Gradiva em 2008) é o romance mais recente do consagrado escritor britânico Ian McEwan. Este é um livro típico de McEwan, onde vívidas descrições nos transportam para os ambientes e cenários narrados pelo autor. Esta é a história de um jovem casal, Edward e Florence, e as dificuldades que eles sentem na noite de núpcias, numa época quando a libertação sexual dos anos 1960 ainda não tinha acontecido.
Tal como acontece em "Expiação", um momento marcante na vida do casal irá determinar para sempre a relação entre Edward e Florence. McEwan é um mestre em nos fazer pensar sobre o peso que determinadas decisões têm nas nossas vidas e o impacto que certas palavras e certos diálogos na nossa felicidade. Este é um livro que vale a pena ler, se possível numa praia, ao som do mar (não. eu não o fiz...). Um McEwan clássico.