19 março 2010

OS ALEMÃES VÃO À LUTA

Como era esperado, os alemães vão à luta. Depois de, nos últimos dias, vários analistas terem pedido aos alemães para subirem os seus salários para reduzirem a sua competitividade (pois os salários subiriam em relação aos outros países europeus), chega agora a altura de os alemães recusarem esta possibilidade. A ideia é simples: por que é que haveriam de ser os alemães a pagar pelos erros e as irresponsabilidades cometidas pelos outros? Por que é que os alemães haveriam de afectar a competitividade da economia voluntariamente, se quem aumentou os custos laborais acima do que devia foram os outros (isto é, nós, os gregos, os espanhóis, etc)?
E agora pergunto: não terão os alemães razão nesta área? Por que razão haveriam eles(as) de se auto-mutilarem se eles(as) se comportaram de uma forma (quase) exemplar desde o início do euro?
Obviamente, os alemães têm razão. Não faz sentido fazê-lo. Só há um senão. É que, numa altura de crise, o bem-comum da União deveria sobrepôr-se aos interesses individuais e nacionais. Pelo menos seria assim numa união monetária "normal" (como nos Estados Unidos ou no Canadá). Porém, a união monetária europeia é tudo menos normal, pois não há união política. Numa união monetária normal, os ajustamentos seriam feitos não através de um aumento voluntário de salários nas regiões menos afectadas pela crise (como os alemães recusam), mas sim através da transferência de fundos das regiões mais ricas para as mais pobres e, claro, através da emigração. Como a UE não prevê essa solidariedade fiscal de transferências de fundos, resta-nos ajustar a economia com mais desemprego, mais desinflação e mais... emigração. E, claro, procurar outras soluções milagrosas e bem menos penosas, que ainda ninguém descobriu. (E quem sabe se não é o TGV????).

3 comentários:

antonio disse...

Caro Álvaro

Parabens por este seu comentário. É claro que os alemães não têm que pagar as ineficiências dos outros.

Porque razão alguem que trabalha de uma forma organizada e eficiente tem de sustentar quem mais não quer de viver de fundos estruturais?

Como cada vez se torna mais claro, esta febre de países a quererem aderir à comunidade europeia não tem como pano de fundo um sentimento nacional europeu, mas unicamente o desejo de benificiar dos fundos estruturais.

Como aconteceu connosco em que vivemos encantados com os milhões que iam entrando para construir pontes e autoestradas. E na verdade esta foi a facil visivel no nosso país no que respeita à nossa adesão à comunidade. De resto a nossa baixa produtividade, a nossa baixa competitividade em nada melhoraram. Bem como a nossa mentalidade de querermos ter direitos sem querermos ter que os merecer e conquistar. Bem pelo contrários, porque estes muitos milhões que entraram criaram-nos a ilusão durante largos anos que afinal podiamos viver indefinidamente à custa dos outros.

Eu tive essa experiência pessoal na minha vida pois tive uns papás que sempre me eram o que eu qeria e isso causou-me grandes dificuldades para me adaptar à vida real de adulto. Hoje sei que tenhomque conquistar apulso tudo o que tenho e que isso me exige um grande esforço.

E uma coisa que eu não sabia e suspeito que muito pouca gente saberia, é que uma união monetária só faz sentido quando há o desejo efectivo de obter uma união politica. Ou melhor, quando existe um sentimento de solidariedade nacional. Porque uma união monetária cria como que o mesmo sangue para todo um corpo. Ora o que acontece como ja disse é que
a grande atracção da Europa são os fundos estrurais.

Suspeito pois, que a união monetária vai implodir mais cedo ou mais tarde, já que as contradições são evidentes.

Recordo-me a esse propósito que já houve países na América do Sul que quiseram que a sua moeda se indexasse ao Dolar. Só que essa indexação não durou mais do que uma semana.Porque faltava todo o resto.

Tal como na Europa a Merecedes continua a ser alemã e não Europeia.

Antonio

Sócrates disse...

Só há um pequeno senão: se os outros não tivessem aumentado os seus ordenados, parte do excedente comercial alemão certamente não encontraria dono ao longo destes últimos 20 anos.

Que dizer das siderugias perfeitamente competitivas e lucrativas que Portugal teve que fechar quando se juntou à União Europeia? Que dizer da frota pesqueira abatida? Sim vieram muitos milhões, senão milhares de milhões de euros, para o nosso país e muito foi mal aproveitado por pessoas que hoje em dia deviam estar atrás das grades.

Agora a Alemanha tem que entender que a política que tem só é sustentável enquanto os outros puderem comprar produtos alemães. A partir que do momento que o consumo estrangeiro decresce, a Alemanha não conseguirá cumprir com a sua disciplina orçamental, ou então começa a cortar no essencial e no que define uma corrente social democrata europeia (a social democracia verdadeira, não a comédia e mentira que é o PSD português).

É caso para dizer que quando há dinheiro, é fácil exigir aos outros que se contenham (algo que infelizmente acontece muito por Portugal e outros países, onde vemos gestores e políticos a ganharem 4, 5 ou dezenas de milhares de euros por mês a exigirem contenção aos que muitas vezes nem 1 milhar ganham, apesar de trabalharem todos os dias o melhor que podem, sabem e lhes ensinaram.

Lead by example.

Alfred the Pug disse...

A Alemanha também tem culpas no cartório. O problema não foram os outros aumentarem os salários. O problema é que a Alemanha congelou os salários alemães para tentar manter a competitividade das suas exportações. Esta estratégia funciona a curto prazo, se bem que quem pague sejam os trabalhadores alemães que basicamente subsidiam o baixo custo dos bens alemães, mas a longo prazo prejudica os parceiros comerciais da Alemanha que não conseguem financiar as suas importações de bens alemães.

Ora, quando o crédito é barato e disponível estes problemas são disfarçados; mas quando não há crédito, tudo isto começa a cheirar muito mal. Tal como a China desvalorizou o remnimbi para manter a competitividade também a Alemanha cozinhou a sua competitividade. Agora não querem ajudar os irresponsáveis. Não faz mal, o mercado corrigirá estes problemas à força. Esta devia ser a lição básica desta crise!

Rita