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27 abril 2011

A PRIORIDADE DA EDUCAÇÃO

Um dos temas principais do  meu livro é a questão da Educação. A razão é simples: Os nossos indicadores educativos são de tal modo sofríveis, que não é difícil concluir que este é um dos principais motivos que ajuda a explicar a baixa produtividade nacional e que, deste modo, mais contribui para os nossos problemas de competitividade. Por isso, para além de uma análise dos nossos indicadores, o livro inclui um conjunto de propostas destinadas a reformar o sector educativo, as escolas e o ensino superior. O Ramiro Marques, investigador na área das Ciências da Educaçção e autor do blogue Profblog, já leu as páginas referentes à Educação e já começou a debater algumas das propostas do livro (aqui, aqui, aqui, e principalmente aqui). 

05 março 2011

A VERDADEIRA E TRISTE HISTÓRIA DAS NOSSAS DESIGUALDADES

Sabia que Portugal é o segundo país mais desigual da União Europeia (a seguir à Lituânia) e o terceiro país mais desigual da OCDE (depois do México e da Turquia)? E sabia ainda que as desigualdades sociais têm vindo a subir muito nos últimos anos, apesar de as prestações sociais terem aumentado? Pois é. Portugal é um país extremamente desigual, muito mais do que seria desejável. Por que será? Será que os nossos empresários têm taxas de lucros acima do normal? Não, não é verdade. As nossas taxas de lucros são até mais baixas do que em muitos outros países europeus. Será que os nossos trabalhadores são mais “explorados”? Não, também não. Não há qualquer prova empírica que o demonstre. 
Mas se não são esses factores, o que será? A resposta é simples e tem um nome: educação. Ou, melhor, a falta dela... Mais concretamente, o culpado chama-se abandono escolar e é simplesmente o principal causador das nossas gritantes desigualdades sociais. Todos os anos, cerca de um terço dos nossos jovens comete um erro capital, que não só tem consequências dramáticas para os seus futuros individuais, mas também para o nosso futuro colectivo. Esses jovens decidem abandonar os seus estudos, preferindo optar por dar um outro rumo às suas vidas. Ora, essa infeliz decisão individual multiplicada por mais de um terço dos nossos jovens tem enormes repercussões para o nosso país. Porquê? Porque ao abandonarem os estudos, os jovens que o fazem ficam, em média, condenados a uma vida de rendimentos bem mais baixos do que poderiam auferir se completassem um curso universitário ou uma formação técnica avançada. Para o país, esta decisão é uma tragédia, pois Portugal é o país da União Europeia com o mais alto nível de abandono escolar, com a excepção de Malta. 
Por isso, o combate ao abandono escolar é simplesmente um dos combates mais importantes que teremos de travar nos próximos anos para podermos aspirar a ter um país melhor. Por isso, se o seu filho, a sua neta, o seu sobrinho, ou até a filha do seu melhor amigo, está a ter dificuldades na escola e se está a pensar a abandonar o ensino, faça-lhe um favor e faça um favor ao país: sente-se com ela, fale com ele, e diga-lhe o que lhe espera. Informe-o(a) do erro tremendo que está a cometer. Diga-lhe que reconsidere, implore-lhe que não o faça. Peça-lhe que mude de escola, convença-a que o seu futuro, que o futuro do país também passa por ele, que Portugal precisa que ela acabe os seus estudos. Todos nós precisamos. Ao fazê-lo, ganha ele, ganha ela, e ganhamos todos nós. 

Nota: Meu artigo no Notícias Sábado da semana passada.  

02 fevereiro 2011

ATRASO EDUCATIVO

Os dados mais recentes da OCDE sobre a educação revelam que, apesar de alguns progressos, o nosso atraso em relação à educação universitária permanece bastante real. Como podemos ver no gráfico abaixo, Portugal tem a terceira mais baixa percentagem de indivíduos com formação universitária em relação à população total de toda a OCDE, somente à frente da Turquia e da Itália. Ou seja, ainda há muito para andar no que respeito à educação da nossa população. Mesmo assim, nem tudo são más notícias. Como podemos ver no gráfico, nas camadas dos trabalhadores mais jovens (com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos), é possível ver alguma evolução. Para essa faixa etária, a nossa percentagem da população com formação universitária já ultrapassou os 20%, à frente de países como a Turquia, a Itália, aq República Checa, a Eslováquia, o México e a Áustria. Porém, antes de entrarmos em euforias ou optimismos injustificados, vale a pena também reparar que ainda estamos muitíssimo longe de países como a Espanha ou da Irlanda, que têm mais de 40% das suas populações com educação universitária.

Fonte: OCDE

08 dezembro 2010

BOAS NOTÍCIAS

Os resultados do PISA 2009 divulgados ontem são, sem dúvida, boas notícias. É certo que ainda é cedo para se saber todos os pormenores referentes à melhoria dos resultados dos(as) alunos(as) portugueses(as). (Pessoalmente, entre outras coisas, gostaria de saber um pouco mais sobre a amostra das 212 escolas portuguesas em que o inquérito foi feito). É igualmente verdade que ainda é cedo para se saber se os progressos agora alcançados serão mantidos no futuro (o PISA 2012 será assim fundamental para percebermos se os resultados agora divulgados foram extraodinários ou se se enquadram numa tendência de progressão assinalável). No entanto, parece-me uma questão de elementar bom senso dar os parabéns aos professores e ao Ministério da Educação por finalmente termos um indicador de qualidade educativa que revela um claro progresso em relação aos anos anteriores. Agora o que há a fazer é manter o esforço efectuado até aqui e tentar melhorar ainda mais no PISA 2012.
Porquê? Porque apesar da progressão registada, a verdade é que ainda há muito para andar para ficarmos satisfeitos com os resultados alcançados. Ainda estamos abaixo da média da OCDE em todos os indicadores de desempenho educativo, e não nos podemos esquecer que continuamos a ter a terceira taxa de abandono escolar mais alta da OCDE (à frente do México e da Turquia), e que temos ainda os mais baixos anos de escolaridade média de toda a União Europeia.
Isto não quer dizer que os resultados divulgados ontem não são de enaltecer. Bem pelo contrário. No entanto, de nada nos valem estes resultados se o esforço de melhoria dos indicadores da qualidade educativa não for continuado nos próximos anos.
Dito isto, analisemos então os rankings de desempenho nacional em relação aos restantes países da OCDE. Comecemos pela leitura. Como podemos ver no gráfico 1, nos indicadores de leitura, Portugal já se encontra bastante perto da média da OCDE, e à frente de países como a Itália, a Eslovénia, a Grécia, a Espanha, Áustria e a República Checa, e já não muito longe de países como o Reino Unido e a Dinamarca. Este é um dos nossos melhores indicadores e que já tem vindo a progredir desde o início da década.

Gráfico 1 _ Resultados do PISA 2009, leitura

Em relação à matemática, os indicadores do PISA 2009 são igualmente animadores, pois não só registámos resultados quase 5% superiores ao obtidos em 2006, mas também porque, como podemos ver no gráfico 2, a média obtida pelos alunos portugueses é praticamente igual à média da OCDE, e acima da Espanha, da Itália e da Grécia, e empatada com a Irlanda e com os Estados Unidos.

Gráfico 2 _ Resultados do PISA 2009, matemática

Finalmente, em relação à ciência, as comparações ainda não nos são tão favoráveis, mas, mesmo assim, os resultados denotaram um progresso assinalável, na ordem dos 4%, em relação a 2006. Mais concretamente, os resultados dos alunos portugueses em Ciência estão acima dos resultados alcançados pelos alunos do Luxemburgo, da Grécia, da Espanha, da Itália e da Eslováquia (gráfico 3).

Gráfico 3 _ Resultados do PISA 2009, ciência


Em suma, uma primeira análise dos resultados do PISA 2009 só nos podem deixar satisfeitos. Ainda há muito para andar, mas, pelo menos, os primeiros passos de progresso significativo já parecem ter sido dados. Veremos se estas tendências se mantêm no futuro. Esperemos que sim. Nos próximos dias continuarei a analisar os resultados do PISA 2009.

O EXEMPLO CHINÊS

Um dos factos mais salientes dos indicadores educativos do PISA é que os rankings são liderados por dois países asiáticos, a China (na cidade de Shanghai) e a Coreia do Sul, logo seguidos pela Finlândia. Por que é que os asiáticos conseguem desempenhos tão bons? O Financial Times de hoje apresenta algumas razões. No entanto, também me parece que tal proeza se explica em parte pelas estruturas e pelas culturas educativas asiáticas, muito distintas das nossas. Mais concretamente, os alunos asiáticos trabalham, em média, bastante mais do que os alunos ocidentais. Como a literacia funcional de países como a China passa pela memorização e mecanização entre 2000 e 3000 caracteres, os alunos são forçados desde muito novos a trabalhar muito mais do que nos países ocidentais, onde é bastante menos penoso aprender a mecânica do alfabeto. É sabido que em países como a China, até os alunos da primeira classe estudam e aprendem caracteres até altas horas da noite, muitas vezes até às 22h ou 23h, trabalhando afincadamente durante horas a fio. Em claro contraste, nos países ocidentais, a cultura educativa predominante agora preconiza que o ensino deve ser "divertido" e não feito à base de mera repetição ou memorização. A enorme diferença em horas de estudo reflecte-se, em parte, nestes desempenhos educativos do PISA.
Quer isto dizer que a cultura educativa asiática é superior à ocidental? Não necessariamente. Talvez os dois sistemas só enfatizem valores diferentes. E se os estudantes asiáticos costumam trabalhar bem mais do que os ocidentais (por exemplo, nos programas de doutoramento e de mestrado) também não deixa de ser verdade que os estudantes ocidentais são, em média, mais criativos e tem mais espírito crítico do que os seus congéneres orientais. Para além do mais, sistemas educativos ocidentais como os da Finlândia ou do Canadá continuam a estar no top 5 dos rankings do PISA, apesar de as horas de estudo médias nestes países serem bastante inferiores à média asiática, e apesar destes sistemas (pelo menos o canadiano) darem uma grande ênfase à necessidade do ensino ser "divertido", isto é, sem obrigar as crianças a memorizar ou a decorar conceitos que as aborreçam.
Em suma, os dois sistemas têm vícios e virtudes. Nenhum me parece melhor ou ideal. Contudo, perante os indicadores do PISA, é muito provável que nos próximos anos apareçam ainda mais estudos comparativos entre os dois sistemas. E todos só temos a ganhar com isso.

01 dezembro 2010

GASTOS NA EDUCAÇÃO

Sabia que Portugal é um dos países do mundo que mais gasta por aluno do ensino secundário em percentagem do PIB per capita? Mais concretamente, as despesas com cada aluno do ensino secundário português corresponde a cerca de 30% do nosso PIB per capita. Entre 145 países, Portugal é o 15º país que mais gasta por aluno do ensino secundário em percentagem do PIB por habitante. E como podemos ver no gráfico abaixo, na Europa, só o Chipre e a Dinamarca gastam mais por aluno do ensino secundário (em % do PIB per capita) do que nós. A Espanha, por exemplo, gasta somente um montante equivalente a 24% do PIB per capita por aluno do secundário, 5 pontos percentuais do PIB por habitante a menos do que nós. Apesar de todo este esforço e de todas estas estas despesas, Portugal continua com os terceiros piores indicadores da OCDE em relação ao abandono escolar, o desempenho dos nossos alunos nos estudos internacionais (como o PISA) deixa muito a desejar, e continuamos a ter as percentagens mais baixas de alunos com o ensino secundário (completo) de toda a União Europeia. Por outras palavras, gastar mais não é necessariamente sinónimo de qualidade ou de melhoria do capital humano. Bem pelo contrário.
A verdade é que há muito desperdício, bem como um centralismo exagerado por parte do Ministério da Educação que impede um melhor funcionamento do nosso sistema educativo e uma maior eficiência do sector. Mas não há problema. Havemos de continuar a arranjar maneira de melhorar os nossos índices educacionais. Nem que para isso tenhamos de acabar de uma vez por todas com as reprovações e as retenções, ou que tenhamos de manipular descaradamente as estatísticas educativas, ou que tenhamos que continuar a apostar nesse bastião de qualidade educativa chamado Novas Oportunidades.

Gráfico _ Despesas por aluno do ensino secundário em % do PIB per capita, 2009
Fonte: Banco Mundial

28 maio 2010

A VERDADE DA PAIXÃO PELA EDUCAÇÃO (2)

Aqui está a tradução do meu post no Portuguese Economy sobre a nossa paixão pela Educação:

Nos últimos anos, os nossos governos têm feito uma grande aposta no investimento em Educação, por forma a melhorar o nosso capital humano e a competitividade da economia. E a aposta tem sido realmente grande. Após décadas de reduzido investimento em capital humano, Portugal gasta actualmente em Educação em percentagem do PIB do que a média da OCDE. A grande questão é assim: quão eficiente tem sido o investimento em Educação? Será que temos sido eficazes na melhoria da qualidade e da quantidade do capital humano português? A triste verdade é: não muito.
Como é que nós sabemos? Bem, só temos que olhar para os resultados dos inquéritos PISA para perceber que a qualidade da educação  em Portugal ainda deixa muito a desejar. Simplesmente ninguém na OCDE tem resultados piores ao nível da qualidade da Educação (matemática, leitura e ciência) do que os nossos alunos, com a excepção muito duvidosa do México e da Turquia.
Porém, e sabendo que a metodologia do PISA não é perfeita, haverá evidência empírica adicional em relação à eficiência do nosso sistema educativo? A resposta é positiva. A nova base de dados Barro-Lee acabou de ser publicada e os resultados são bastantes elucidativos.
Há boas notícias e más notícias quando analisamos os dados de Barro e Lee em relação à media de anos de escolaridade. As boas notícias é que, sem dúvida, e assim como podemos ver no gráfico 1, tem havido um aumento progressivo do número de anos de escolaridade desde a década de 1950 e, em particular, após a implementação da democracia. 

Gráfico 1 _ Anos médios de escolaridade em Portugal, 1950-2010 

As más notícias é que estes avanços não são assim tão impressionantes quando comparamos Portugal e outros países. Para perceber porquê, comecemos por comparar a situação actual em Portugal e outros países europeus. Mais tarde, iremos analisar o progresso (ou a falta dele) registado nas últimas décadas.
O próximo gráfico apresenta os anos de escolaridade média em vários países da Europa Ocidental e a Europa de Leste em 2010. O gráfico é bastante revelador. Apesar de todo o investimento das últimas décadas, nós ainda somos o país com a pior escolaridade média em toda União Europeia.


  Gráfico 2 _ Anos médios de escolaridade em 2010 
 
Se atentarmos agora para os anos médios de escolaridade para o ensino secundário, Portugal está ligeiramente melhor em termos relativos, mas não muito. 

08 abril 2009

MUNDO UNIVERSITÁRIO

Aqui está uma entrevista que fiz ao Mundo Universitário Online sobre o meu livro mais recente:
MU _ Logo no início do livro, começa por dizer que «o pessimismo é uma das indústrias mais bem sucedidas em Portugal». Esta é uma característica exclusivamente portuguesa?
Não, aliás nós pensamos que somos os maiores pessimistas do mundo e não somos. Há países que são bem mais pessimistas que nós. Já vivi em Inglaterra e no Canadá e acredito que, por exemplo, os ingleses são extremamente pessimistas. A diferença é que, apesar de serem pessimistas, tentam lutar contra esse pessimismo.
MU _ O insucesso escolar pode ser uma consequência do pessimismo?
Acho que não. Acho que o insucesso escolar se deve única e exclusivamente a uma má gestão do nosso sistema educativo. Fiquei chocado quando me deparei com as estatisticas. Apenas 30 a 35 por cento dos nossos jovens hoje acaba o secundário, sem chegar à universidade. O que nós podemos fazer é dar mais autonomia às universidades, flexibilizar o sistema, permitir que os alunos possam escolher um curso mais geral e a partir do segundo ano decidir o que querem fazer. Eu fiz o curso cá, mas sempre leccionei no estrangeiro e é uma atitude muito diferente. Acho que é essa atitude e essa flexibilidade que existe nesses países que se tem que incutir cá. Por exemplo, sou contra aquela ideia do ‘professor doutor’ que tem a chave do conhecimento. Esse tipo de atitude é completamente anacrónica nos dias de hoje. É importante que o estudante tenha uma voz na avaliação dos professores, principalmente no ensino universitário, e que exija mais qualidade aos professores.

MU _ Como é que se pode lutar contra o pessimismo?
Primeiro, pensar e darmo-nos conta que temos um percurso histórico que é extremamente rico e com muito sucesso. Há 40 anos anos atrás era normal ver pessoas na rua com o pé descalço mesmo em Lisboa. Portugal é hoje um país transformado. Temos empresários e pessoas com muitíssimo sucesso e pensar que estamos condenados ao fracasso não nos leva a lado nenhum. Depois, é preciso aplicar as políticas necessárias para levar à recondução económica do país. Mas também criando incentivos fiscais e ao empreendedorismo, que façam com que as pessoas tenham menos medo de arriscar e que constituam as suas empresas.
MU _ Enquanto professor nota que esse pessimismo também atinge os estudantes?
Acho que o grande medo da maior parte dos estudantes universitários é o de não conseguir arranjar emprego. E com boa razão. Neste momento, há duas hipóteses se não conseguirmos arranjar emprego: uma delas é pensar em mais estudos, apostar num mestrado ou num doutoramento. A outra possibilidade é sermos um bocadinho mais móveis e tentar arranjar emprego fora de Portugal. Pode ser uma estratégia que resulte e ganham-se conhecimentos importantes para quando se regresse a Portugal. É natural que haja algum receio entre os jovens, mas não acho que os jovens sejam pessimistas como os mais velhos são. O melhor é não ficar parado à espera que as oportunidades nos caiam nas mãos e actuar. Isso também é ser jovem.
MU _ Apostar no empreendedorismo criando um plano de negócio pode ser uma solução?
Sem dúvida. Aliás, um dos exemplos que dou no livro que acho um caso admirável, é a história de Carlos Oliveira, um empreendedor bracarense, que aos 22 anos quando estava a acabar o seu curso decidiu juntar-se com um professor e com dois empresários e formaram uma empresa na área das telecomunicações e tornou-se um dos maiores casos de sucesso nacional nos últimos anos. Acho que são os jovens universitários que nos fazem acreditar que Portugal poderá ter futuro. Acredito mesmo que eles são uma das peças-chave de Portugal.

31 março 2009

MELHORES ESCOLAS

Ora, aí está uma boa medida. Ontem, o primeiro-ministro anunciou a requalificação de 5o escolas muito degradadas, nas quais haverá um investimento público e comunitário no valor de 175 milhões de euros. Acho muito bem. Se achamos mesmo que a solução para a crise passa pelo investimento público (o que não é certamente linear), é exactamente com pequenos (mas muitos) investimentos que conseguiremos ajudar a retoma da economia, e não através de sonhos megalómanos com obras faraónicas. Apesar de soar bastante a uma medida eleitoralista (o que é normal num ano com 3 eleições), esta é uma notícia que merece o nosso aplauso.Pelo menos no papel. Veremos na prática.

17 fevereiro 2009

OS CURSOS DA CRISE

Uma das previsões mais certas sobre os impactos da crise está realmente a materializar-se. Com o aumento do desemprego era de esperar que muita gente decidisse não entrar já no mercado de trabalho ou, então, melhorar os seus conhecimentos enquanto a crise não passa. A lógica é simples: se não arranjamos emprego, ao menos estudamos. Assim, era previsível que se registasse um número recorde de candidaturas a mestrados e doutoramentos um pouco por todo o mundo. É exactamente o que se está a passar. No Canadá tem havido um enorme influxo de novos candidatos e no Reino Unido o mesmo se está a passar. Ou seja, um dos efeitos potenciais (e interessantes) da crise actual é levar a uma melhoria das habilitações dos trabalhadores. Isto é, por incrível que pareça, a crise vai levar a uma melhoria do capital humano médio de muitos países.

07 dezembro 2008

AINDA A EDUCAÇÃO

Nos últimos dias a tensão na Educação começou finalmente a diminuir, ainda que ligeiramente. Os sindicatos dos professores pediram ao governo "espaço para uma solução negociada" e o governo já concordou com a inevitabilidade de ter que alterar o regime de avaliação. Acho bem. Bom senso é o que se pede numa altura em que as coisas ameaçam ficar um pouco fora de controlo. No meio de todo este jogo de forças, é importante ter em vista dois princípios:
Primeiro, o princípio da avaliação dos professores deve ser inegociável. O modelo pode (e deve) ser alterado e os professores devem ter uma palavra sobre o próprio modelo. No entanto, é importante que a avaliação dos professores seja feita e que tenha dentes. Isto é, não vale a pena criar um modelo de avaliação que não tenha consequências para a qualidade do ensino e para a própria carreira docente. Não vale a pena criar a avaliação dos professores se for somente figurativa e sem consequências práticas para os professores e alunos.
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Segundo, é urgente acabar com a espiral de confrontação entre os professores e o governo, sob pena do sector ficar num estado ainda mais lastimável do que aquele que se encontra actualmente (o que é obra). Ninguém ganha com os professores constantemente na rua e com um governo intransigente. No fundo, os professores e o governo estão a jogar uma versão do famoso jogo do dilema do prisioneiro. Toda a gente ganha se houver cooperação entre as partes. No entanto, todos também sabem que se uma das partes ceder às pretensões da outra, a que não cede fica numa melhor situação do que aquela que poderia ficar com uma situação de cooperação. Por um lado, se o primeiro-ministro ceder à tentação eleitoralista e substituir a ministra (tirando ainda os dentes ao modelo de avaliação), os professores ficam a saber que a pressão das ruas dá frutos. Consequentemente, nunca mais será possível introduzir qualquer tipo de modelo de avaliação eficaz. Os professores manteriam o status quo, que manifestamente não tem sido benéfico para a qualidade educativa. Por outro lado, se os sindicatos cedessem a aceitassem o actual modelo de avaliação (o que é, obviamente, impensável, actualmente), o governo ficaria numa situação negocial quase sem precedentes.
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Ou seja, as partes ganham mais numa situação em que a outra parte cede do que num cenário de cooperação. No entanto, se ninguém cooperar existe um risco real do sector ficar numa situação de conflito latente ou permanente, e quem perde são todos, os alunos, os professores, o governo e o próprio país.
É, por isso, que haja bom senso nos próximos dias e na reunião do dia 15. Continuar nesta espiral de confrontação não serve a ninguém, a não ser alguns interesses políticos e grupos de interesses. Deste modo, se os professores e o governo se preocupam realmente com o ensino e com os alunos, se os actores do sector da Educação se interessam realmente pela novas gerações, então deixem de lado a retórica e os joguinhos de interesse, e iniciem uma política de cooperação estratégica num sector que é vergonhosamente sofrível, um sector que, todos os anos, continua a hipotecar o futuro de milhares de alunos e, por consequência, o próprio futuro do país (e a competitividade da economia nacional). Haja bom senso.

12 setembro 2008

O MILAGRE DA EDUCAÇÃO NACIONAL

O meu artigo no PUBLICO de hoje:
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Nos últimos anos, Portugal está a viver um autêntico milagre no sector da Educação. Segundo os dados mais recentes do Ministério da Educação, os progressos registados no sector educativo têm sido simplesmente notáveis, até mesmo prodigiosos. Em dois anos apenas (entre 2005 e 2007) as taxas de retenção escolares desceram mais de 30% no ensino secundário. Trinta por cento! Em dois anos! A melhoria dos indicadores nas taxas de retenção é generalizada no ensino secundário, apesar de ser mais pronunciada nos cursos tecnológicos. Em apenas dois anos, a taxa de retenção dos cursos tecnológicos do 10º ao 12º ano baixou 15 pontos percentuais, de 43,7% para 28,7% (um decréscimo de 34%). As taxas de retenção do 12º ano do ensino geral desceram 23% e dos cursos tecnológicos 34%. Ainda mais impressionante, as taxas de insucesso dos cursos tecnológicos do 11º ano decresceram quase 40%! A este ritmo, Portugal vai erradicar o insucesso escolar em menos de meia década e vai-se tornar num caso paradigmático de sucesso internacional.
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Porém, o milagre da Educação nacional não se restringe ao abandono escolar. Nas disciplinas em que tradicionalmente somos mais fracos, os nossos alunos descobriram recentemente fontes de inspiração e de conhecimento previamente inexploradas. Só no último ano, na Matemática do 12º ano as notas aumentaram mais de 30% e as reprovações baixaram para metade. Nos exames de Física as notas aumentaram quase 30% e em Biologia cerca de 15%.
Sinceramente não sei o que é que andamos a dar aos nossos alunos para terem tanto sucesso. Talvez sejam os efeitos da internet ou talvez a inspiração do Plano Tecnológico da Educação. No entanto, com estas melhorias, certamente que no próximo estudo comparativo dos sistemas educativos realizado pela OCDE (o chamado PISA) iremos passar de penúltimos (à frente do México) para primeiros (ou perto disso) a nível do desempenho dos nossos alunos. Não mais sofreremos a ignomínia de termos os piores rankings europeus da Educação, nem mais sofreremos a humilhação dos nossos atrasos estruturais no sector persistirem há décadas.
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De facto, com um progresso assim, não vale a pena angustiarmo-nos com o estado lastimável do nosso sector educativo. Não vale a pena preocuparmo-nos com as nossas taxas de abandono escolar terceiro-mundistas, que têm condenado gerações de jovens a trabalhos pouco qualificados e salários baixos. Não vale a pena deambularmos com o facto de gastarmos na Educação tanto como a média da OCDE em percentagem do PIB, mas continuarmos a ter o pior desempenho educativo da União Europeia. Não vale a pena analisar as razões porque é que, entre 57 sistemas de ensino nacionais, os alunos portugueses têm desempenhos medíocres nas áreas da Matemática, das Ciências e da Leitura.
Os avanços são tão extraordinários que nem vale a pena questionar se tudo não será um mero truque estatístico. Afinal, é sabido que os governos em Portugal têm por vezes a tendência em camuflar as nossas dificuldades estruturais na Educação com melhorias artificiais nos indicadores do sector, para que o país pareça melhor nos rankings internacionais. O milagre registado nos últimos anos não só é demonstrativo que acabámos de vez com esta lamentável tendência, como também nos dá garantia de uma inequívoca melhoria na qualidade da Educação nacional.
Ao ritmo do progresso alcançado nos últimos 3 anos, Portugal será dentro em breve a sociedade do conhecimento por excelência. Para quê preocuparmo-nos?
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PS. Este artigo foi escrito antes do Ministério da Educação ter publicado os dados referentes a 2007-08, os quais mostraram uma descida ainda mais impressionante das taxas de insucesso escolar. Deste modo, os novos dados só vêm reforçar ainda mais a ideia deste artigo.

27 agosto 2008

A REPROVAÇÃO DOS PORTUGUESES


Estas são as taxas de reprovação e desistência escolar em Portugal (clique no quadro para ver melhor), segundo o Ministério da Educação. Se reparar com atenção, verá que, nos últimos 2 anos, houve uma redução de 30 por cento na taxa de insucesso e desistência escolar, sem que haja razão aparente. Hmmmm.... Mistérios... Apesar deste milagre estatístico, os nossos indicadores de retenção dos alunos continuam dos mais altos de toda a OCDE. E uma das nossas vergonhas, sem dúvida alguma.

OBSTÁCULO AO CRESCIMENTO

O que a OCDE pensa do nosso sistema educativo. Andamos há décadas a apaixonarmo-nos pela Educação, mas as nossas insuficiências persistem:
"The lack of human capital in Portugal has become a key obstacle to higher growth... Despite progress in the past decades, Portuguese children spend comparatively few years in formal education, and they do not perform as well as children from other OECD countries. Adults, especially the least educated, do not participate enough in lifelong learning and training programmes. This situation does not stem from a lack of resources devoted to education and training but from inefficiencies and misallocation of spending, and weaknesses in the quality of the services that compound the low starting point of Portugal regarding education. Modernizing the Portuguese economy therefore requires a broad reform which increases human capital at all levels."

25 agosto 2008

MAIS UMA APOSTA NA EDUCAÇÃO

O governo anunciou hoje que o próximo orçamento de Estado irá, mais uma vez, dar prioridade à Educação e à Ciência. Aí vem mais dinheiro para essas áreas. Não sou contra, mas vale sempre a pena lembrar que já não gastamos pouco com a Educação. Em percentagem do PIB, gastamos tanto como a média da OCDE, o clube dos países ricos e mais do que a Coreia do Sul, a Alemanha ou a Espanha. Fundos adicionais podem ajudar, mas não é o que mais precisamos. No ensino superior, vale a pena recordar que há gente a mais em muitas universidades, não a menos. O problema é que uma parte dos professores e investigadores não faz nada ou muito pouco.
Se queremos mesmo tornar Portugal num país com qualidade educativa, num país que recompensa a investigação, o mais importante é mudar as regras dentro das instituições, não necessariamente contratar mais gente ou arranjar mais fundos. Entre as medidas que fariam muito mais pela qualidade de ensino do que uns milhões de euros adicionais incluem-se:
  • Acabar com os numerus clausus dos diversos graus da carreira docente
  • promover a concorrência entre as universidades,
  • acabar com o compadrio escandaloso nos concursos de recrutamento de docentes, promover a meritocracia (em que os professores são recompensados pela investigação e pela qualidade da docência que fazem),
  • acabar com alguns dos privilégios medievais dos professores,
  • acabar com a excessiva permissividade das épocas de exames
  • avaliação dos professores

Ou seja, para alcançarmos a tão almejada qualidade na Educação é mais importante alterar os incentivos da docência dos alunos e dos professores do que injectar centenas de milhares de euros adicionais para o sector.

05 julho 2008

ILUSIONISMO À PORTUGUESA _ citação

Citação do post de Carlos Fiolhais no De Rerum Natura sobre os resultados dos exames de matemática:
"Surpresa: os alunos já são bons a Matemática". É este o grande título de primeira página do "Público" de hoje. Seria bom se fosse verdadeiro. Infelizmente, não é. O título é irónico, porque os números por cima do título não mentem. É verdadeiramente impossível que, em escassos três anos (de 2005 a 2008), a média dos alunos internos no final do secundário tenha passado de medíocre (8,1 valores) para bom (14 valores) porque os sistemas educativos não mudam assim facil e rapidamente. São precisas mudanças bem feitas, que não tem havido, e muitos anos de esforço conjunto e coordenado, que também não tem havido, para haver uma subida, que nunca poderia ser de seis valores (cerca de 75 por cento!) em tão pouco tempo.Não se pode comparar o incomparável e os exames deste ano não podem ser comparados com os exames de anos anteriores. Eles foram manipulados para dar esta subida anómala, que é, portanto, puramente virtual: é a ilusão de uma subida. O ilusionismo está pois instalado ao mais alto nível do Estado, à semelhança do que acontece nos estados totalitários. A verdade sobre a educação está a ser ocultada num estado democrático. Espero que a democracia resista.

23 junho 2008

NIVELAR PELA MEDIOCRIDADE

As reacções aos exames nacionais deste ano têm sido quase unânimes num aspecto: são demasiado fáceis. São os próprios alunos e professores que o dizem. E se é verdade, interessa perguntar: porquê? Qual é a intenção? Que os alunos tenham boas notas? Que as estatísticas portuguesas no sector da educação melhorem? Para mostrar obra feita? Para demonstrar que a "paixão pela educação" começa finalmente a dar frutos? Mas, se é assim, não nos estaremos a enganar a nós próprios? O que é que ganhamos em inflacionar os resultados dos exames?
Diga-se de passagem que sou contra aquela noção antiga de chumbar por chumbar, ou a ideia que a competência de um(a) professor(a) é directamente proporcional ao número de reprovações. Esta tradição vigora ainda em muitos estabelecimentos de ensino (principalmente nas universidades) e é simplesmente errada. Um bom professor não se mede pelo número de chumbos, mas sim pela qualidade das suas aulas e pelo nível de preparação dos alunos.
No entanto, convém não cair no outro extremo. Nivelar por baixo nunca é uma boa medida nem dá resultados duradouros. É sempre preciso manter um nível de exigência mínimo, tanto no ensino como nos exames nacionais. Se não, estaremos a criar uma geração de impreparados e de quase-ignorantes-técnicos. Ou seja, de indivíduos que têm os diplomas e as credenciais mas não têm o devido conhecimento.
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Este é o risco que acarreta a decisão (tácita ou não) de baixar o nível de exigência dos exames nacionais. E é isto que devemos estar cientes quando nos congratulamos com os "excelentes" resultados dos nossos alunos e filhos nos exames nacionais.
PS. Dito isto, se formos um pouco mais optimistas, também é provavelmente verdade que as algumas das percepções dos alunos que os exames são fáceis se devem ao maior investimento que muitos pais têm feito na preparação dos seus filhos para os exames. A palavra exame (nacional) acarreta consigo toda uma conotação e todo um estigma que levou muitos pais a increverem os seus filhos em toda a espécie de explicadores e outros auxílios suplementares, de forma a permitir um melhor desempenho dos seus filhos nos exames. Neste sentido, a "facilidade" dos exames pode ser somente um sintoma que os nossos filhos estão melhor preparados que nunca. Esperemos que sim. Infelizmente, é improvável que assim seja, pelo menos na totalidade dos casos. Como os professores também argumentam que os exames estão mais fáceis este ano, o mais certo é que estejamos a nivelar por baixo o grau de exigência.

22 junho 2008

GASTOS DAS FAMÍLIAS

Estes são os dados mais recentes do Eurostat (referentes a 2005) sobre os gastos das famílias portuguesas (nota: estes são gastos médios das famílias e, assim, não incluem as despesas que o Estado faz). Em média, gastamos um terço do nosso rendimento com as nossas casas e um quinto em alimentação. Os transportes e os gastos com restaurantes e hoteis são ainda bastante significativos. À primeira vista, parece que não gastamos muito com a Educação e a Saúde. No entanto, como veremos no próximo post, em termos comparativos, a tendência é exactamente a oposta. Na Europas, as famílias portuguesas são verdadeiras campeãs de gastos na Educação e na Saúde.