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15 maio 2008

OS ETs DO VATICANO

Num extraordinário espírito de abertura, um dos mais influentes sacerdotes do Vaticano afirmou que é possível que Deus tenha criado extra-terrestres inteligentes fora do nosso planeta solar. A afirmação tem lógica, principalmente quando pensamos nas imensissimas dimensões do cosmos, cuja infinitude é difícil de entender e conceber. Mesmo assim, se o padre Gabriel Funes (este é o nome do senhor) tiver razão e existirem mesmo ETs por esse universo fora, muitas das nossas religiões terão que enfrentar uma série perguntas incómodas cuja respostas não são de fácil resolução. Por exemplo, se os ETs existem mesmo e forem distintos de nós (o que é extremamente provável, devido às diferentes condições geofísicas dos seus planetas), e se Deus nos criou à Sua imagem (assim nos dizem os livros sagrados), então os ETs não foram criados à imagem de Deus? E se eles foram e nós não??? Ou, se Deus criou tudo em 6 dias e no sexto dia criou os humanos, em que dia é que criou os ETs? E se eles forem mais inteligentes do que nós, como é que perdoaremos Deus por nos pôr numa posição subalterna em relação a estes ETs? E e e?
Não pretendo com este post dar resposta a estas questões, que são demasiado complexas. O que interessa perceber é que, ao admitir a existência de ETs, este sacerdote do Vaticano abre uma autêntica caixa de Pandora sobre os textos sagrados que poderá não ser favorável para algumas das nossas religiões.

01 maio 2008

CIÊNCIA E RELIGIÃO


O New York Times tem hoje um artigo muito interessante sobre o trabalho do cientista espanhol (naturalizado americano) Francisco Ayala, que defende o diálogo entre a ciência e a religião. Sendo um ataque ao fundamentalismo do criacionismo, Ayala advoga que a religião não deve renegar a teoria da evolução. Muito pelo contrário. Segundo ele, a teoria da evolução deve fazer parte da base da própria teologia.
Ainda assim, Ayala acha (e bem, digo eu) que é um disparate ensinar o criacionismo juntamente com a teoria da evolução. Neste sentido ele afirma: "We don’t teach alchemy along with chemistry. We don’t teach witchcraft along with medicine. We don’t teach astrology with astronomy.” Por isso, porquê ensinar o dogmatismo do criacionismo lado a lado com os preceitos da ciência?
Por outro lado, Ayala não considera que haja necessariamente um conflito entre a ciência e a religião. Segundo ele, “Science and religion concern nonoverlapping realms of knowledge... It is only when assertions are made beyond their legitimate boundaries that evolutionary theory and religious belief appear to be antithetical.” Sem dúvida, um livro a comprar.

16 abril 2008

O MERCADO DAS ALMAS

A propósito da propagada visita do papa aos Estados Unidos, vale a pena tecer as seguintes considerações sobre aquilo que podemos baptizar do mercado das almas.
Actualmente, a igreja católica enfrenta três grandes problemas. O primeiro é a competição das outras denominações cristãs. Este problema não é novo, pois já existe (pelo menos) desde a Reforma Protestante levada a cabo por Lutero e outros. Mesmo assim, é evidente que em países anteriormente extremamente católicos (como, por exemplo, o Brasil), a influência da igreja católica tem vindo a diminuir significativamente, muito devido à crescente concorrência de outras igrejas cristãs e de outras doutrinas. Para um(a) economista, a competição é sempre de saudar, pois os preços diminuem e os consumidores beneficiam. Para os crentes, a competição entre igrejas e entre fés é igualmente boa, pois os consumidores da religião (os crentes) têm mais escolha e o “preço” da salvação diminui (por exemplo, se antigamente não ir à missa era considerado um pecado mortal que levava à ostracização dos fiéis, hoje em dia tal omissão é bem menos grave e bem menos punível). Mas, para a igreja católica, maior concorrência significa o fim do seu tradicional monopólio no mercado das almas. A igreja já não é a única a determinar o “preço” da salvação.
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Em segundo lugar, a igreja católica sofre actualmente de uma crise de vocações. Isto é, há cada vez menos jovens dispostos a tornarem-se padres, o que tem diminuído o número de sacerdotes e tem envelhecido a igreja. O envelhecimento da igreja católica é preocupante, pois quanto maior for a idade média dos sacerdotes, mais conservadora tenderá a ser a igreja, diminuindo ainda mais a sua influência nas sociedades modernas. Qual é a causa da crise de vocações? É simples: o preço do sacerdócio é demasiado elevado, pelo menos para muitos jovens ocidentais. Ser-se padre na igreja católica implica uma série de sacrifícios, incluindo um celibato que não é exigido por outras igrejas cristãs. Quando a igreja tinha o monopólio do mercado das almas cristãs, não havia problema: o preço do sacerdócio podia ser elevado, mas a quantidade de padres podia ser mantida, pois não havia concorrência. A competição com outras igrejas cristãs acabou com isso: um jovem pode tornar-se num padre cristão mas casar-se na mesma. Para tal, basta optar sair da igreja católica. Isto é, uma maior escolha pode ser boa para os crentes, mas é claramente má para uma instituição que costumava deter o monopólio do mercado das almas. Por outro lado, a diminuição do preço do sacerdócio poderá igualmente acontecer através do aumento da oferta de potenciais sacerdotes. Como? Abrindo a vocação sacerdotal às mulheres, assim como já é prática noutras igrejas cristãs.
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Finalmente, existe o problema do menor número de almas disponíveis. Isto é, a frequência dos fiéis nas igrejas tem vindo a diminuir substancialmente nos últimos anos. Por um lado, a redução do número de fiéis deve-se à crescente concorrência de outras igrejas e fés. Mais oferta no mercado das almas significa menos almas disponíveis para a igreja católica. Ainda assim, é de assinalar que este problema não ocorre noutras igrejas em ascensão ou noutras fés (como a muçulmana). Porquê? Porque um dos grandes dilemas da igreja católica é a sua crescente falta de competitividade.
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Ora, o que é que se aconselha às economias com problemas de competitividade? Cortar os custos, aumentar a atractividade dos bens e serviços produzidos e reestruturar. É exactamente isso que deve fazer a igreja católica se quiser recuperar a sua tradicional influência no mercado das almas cristãs:
  • diminuir o preço do sacerdócio (i.e., acabar com o celibato e com o monopólio masculino),
  • melhorar o marketing das vocações (algumas igrejas já o fazem, tais como http://www.nypriest.com/), e
  • reestruturar a hierarquia da igreja, tornando-a mais atractiva.
Por mais que estas verdades custem ouvir a alguns sectores desta instituição, a verdade é que, se quiser aumentar a sua influência no mundo, a igreja católica tem que ser mais sexy, mais atraente e mais aprazível quer para os fiéis quer para os próprios potenciais sacerdotes. Só assim é que a igreja católica poderá tornar-se mais competitiva. Só assim é que a igreja católica irá novamente restabelecer o seu domínio no mercado das almas.

O MERCADO DAS ALMAS (2)

Está tão bem feito que parece um video dos apoiantes de Barack Obama. Mas não é. É um video sobre os padres de Nova Iorque. Sobre ser-se sacerdote na Big Apple. Chama-se "Deus nas ruas de Nova Iorque". O marketing da internet já chegou ao mercado das almas americanas. Vale a pena ver.

31 março 2008

MAIS MUÇULMANOS QUE CATÓLICOS



A tendência já existia há algum tempo. No entanto, só agora é que se confirmou o que era inevitável (devido às diferenças do crescimento populacional): já há mais muçulmanos do que católicos no mundo. Os católicos são cerca de 17.4% da população mundial, enquanto os muçulmanos constituem mais de 19% do tol mundial. Segundo o Monsenhor Vittorio Formenti, "For the first time in history we are no longer at the top: the Muslims have overtaken us". O que seria interessante era que a igreja católica se perguntasse o porquê do declínio relativo (e absoluto?) da sua religião (para além dos factores populacionais). O que é que a igreja católica estará a fazer mal para ver os números dos seus fieis decrescer de uma forma consistente? O que é que os muçulmanos fazem para verem os seus fieis a aumentar crescentemente?
PS. Os cristãos (católicos, protestantes e ortodoxos) ainda são o grupo religioso maior. Cerca de um terço da população mundial considera-se católico. Desconheço se os números agora apresentados contêm ateus e agnósticos.

24 março 2008

MEDO DE MORRER

Segundo o cardeal-patriarca de Lisboa, o medo da morte deve-se à noção de pecado. Hmmm. Quererá isto dizer que uma das intenções da igreja católica ao introduzir uma série de novos "pecados mortais" (p.e. não poluir o ambiente) é contribuir para aumentar o medo da morte? Ou será que não?
Aqui está o extracto da notícia do PUBLICO:
"O cardeal-patriarca de Lisboa defendeu ontem que a noção de pecado incutiu no homem "o medo de morrer", alterando "a própria compreensão" da existência, com a morte a aparecer "como a negação da vida". "A morte é um processo biológico normal e inevitável, que atinge toda a criação. As consequências do pecado fizeram-se sentir na dimensão psicológica e espiritual da morte, ou seja, na maneira de viver a morte", disse D. José Policarpo na homilia da Ressurreição do Senhor, na Sé Patriarcal de Lisboa. Entre as consequências do pecado surge "antes de mais, o medo de morrer". É necessário, assim, que se recupere "o verdadeiro sentido da vida", dado que será dessa forma que "se resgata a morte e se lhe restitui o sentido de passagem para a vida definitiva", prosseguiu D. José Policarpo"