12 setembro 2008

O MILAGRE DA EDUCAÇÃO NACIONAL

O meu artigo no PUBLICO de hoje:
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Nos últimos anos, Portugal está a viver um autêntico milagre no sector da Educação. Segundo os dados mais recentes do Ministério da Educação, os progressos registados no sector educativo têm sido simplesmente notáveis, até mesmo prodigiosos. Em dois anos apenas (entre 2005 e 2007) as taxas de retenção escolares desceram mais de 30% no ensino secundário. Trinta por cento! Em dois anos! A melhoria dos indicadores nas taxas de retenção é generalizada no ensino secundário, apesar de ser mais pronunciada nos cursos tecnológicos. Em apenas dois anos, a taxa de retenção dos cursos tecnológicos do 10º ao 12º ano baixou 15 pontos percentuais, de 43,7% para 28,7% (um decréscimo de 34%). As taxas de retenção do 12º ano do ensino geral desceram 23% e dos cursos tecnológicos 34%. Ainda mais impressionante, as taxas de insucesso dos cursos tecnológicos do 11º ano decresceram quase 40%! A este ritmo, Portugal vai erradicar o insucesso escolar em menos de meia década e vai-se tornar num caso paradigmático de sucesso internacional.
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Porém, o milagre da Educação nacional não se restringe ao abandono escolar. Nas disciplinas em que tradicionalmente somos mais fracos, os nossos alunos descobriram recentemente fontes de inspiração e de conhecimento previamente inexploradas. Só no último ano, na Matemática do 12º ano as notas aumentaram mais de 30% e as reprovações baixaram para metade. Nos exames de Física as notas aumentaram quase 30% e em Biologia cerca de 15%.
Sinceramente não sei o que é que andamos a dar aos nossos alunos para terem tanto sucesso. Talvez sejam os efeitos da internet ou talvez a inspiração do Plano Tecnológico da Educação. No entanto, com estas melhorias, certamente que no próximo estudo comparativo dos sistemas educativos realizado pela OCDE (o chamado PISA) iremos passar de penúltimos (à frente do México) para primeiros (ou perto disso) a nível do desempenho dos nossos alunos. Não mais sofreremos a ignomínia de termos os piores rankings europeus da Educação, nem mais sofreremos a humilhação dos nossos atrasos estruturais no sector persistirem há décadas.
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De facto, com um progresso assim, não vale a pena angustiarmo-nos com o estado lastimável do nosso sector educativo. Não vale a pena preocuparmo-nos com as nossas taxas de abandono escolar terceiro-mundistas, que têm condenado gerações de jovens a trabalhos pouco qualificados e salários baixos. Não vale a pena deambularmos com o facto de gastarmos na Educação tanto como a média da OCDE em percentagem do PIB, mas continuarmos a ter o pior desempenho educativo da União Europeia. Não vale a pena analisar as razões porque é que, entre 57 sistemas de ensino nacionais, os alunos portugueses têm desempenhos medíocres nas áreas da Matemática, das Ciências e da Leitura.
Os avanços são tão extraordinários que nem vale a pena questionar se tudo não será um mero truque estatístico. Afinal, é sabido que os governos em Portugal têm por vezes a tendência em camuflar as nossas dificuldades estruturais na Educação com melhorias artificiais nos indicadores do sector, para que o país pareça melhor nos rankings internacionais. O milagre registado nos últimos anos não só é demonstrativo que acabámos de vez com esta lamentável tendência, como também nos dá garantia de uma inequívoca melhoria na qualidade da Educação nacional.
Ao ritmo do progresso alcançado nos últimos 3 anos, Portugal será dentro em breve a sociedade do conhecimento por excelência. Para quê preocuparmo-nos?
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PS. Este artigo foi escrito antes do Ministério da Educação ter publicado os dados referentes a 2007-08, os quais mostraram uma descida ainda mais impressionante das taxas de insucesso escolar. Deste modo, os novos dados só vêm reforçar ainda mais a ideia deste artigo.

4 comentários:

Drumster disse...

Caro Álvaro,
concordo consigo sobre a questão de valorizar o capital humano. Penso que qualquer medida nesta matéria carece de um estudo sério e detalhado de como poderíamos qualificar o capital humano do nosso país. Por outro lado, esse capital humano deve também ser incentivado para se qualificar. Como vamos incentivar um pai de família com 2 filhos que teria de estudar à noite numa formação adicional? A isenção de propinas poderia ser uma hipótese.
Cumprimentos/Fernando

J. Malveiro disse...

Saborosa ironia a sua, parabéns. Faltou referir também o milagre das aprovações de alunos com 3, 4, 5 e 6 negativas, mas esses dados não estão disponíveis na manipulação ilusória das estatísticas.

Bom trabalho na continuação da escrita do seu próximo livro, que aguardo com expectativa.

Cumprimentos.

Anónimo disse...

O "estudo comparativo dos sistemas educativos realizado pela OCDE (o chamado PISA)" é feito com base em exames iguais realizados pelos alunos em todos os países. Aí, sim, a máscara vai cair.

Rui disse...

Acabei de tomar conhecimento de um seu artigo, através de transcrição feita no blogue "De Rerum Natura" de que sou colaborador habitual, essencialmente, em assuntos sobre educação.

Não poderia estar mais de acordo. Trata-se de uma verdadeira pedrada no charco de águas chocas do que se passa no sistema educativo português.

O "PISA" bem tem alertado para os fracos resultados alcançados neste contexto em terra lusitana. Chegará a altura em que os portugueses, que desejam o progresso da sua terra, assumirão publicamente, e em voz audível, o queixume de Pessoa quando escreveu não ter tido culpa de nascer neste país (cito de memória).

E o que dizer de um país actual em que, em matéria de ensino (e não só), se cultiva a mediocridade e se persegue o alcance da meritocracia como coisa má e ruim?

Passarei a ser um leitor atento e habitual do seu blogue.

Cordialmente,
Rui Baptista