"Significantly, the European Central Bank has been the only major buyer of Portuguese debt in recent months. However, the latest ECB figures show that the bank has not bought any government bonds in the past two weeks, which explains the drift higher in Portuguese yields. Strategists say a summit of European leaders in March will determine whether Lisbon will have to follow Greece and Ireland in seeking emergency support. One fund manager said: “We are at a key moment in the eurozone crisis and Portugal is on the frontline. We will know soon whether Lisbon will have to accept a bail-out or not. That is the next test for the eurozone.”
10 fevereiro 2011
UM PAÍS TECNOLÓGICO (3) _ TELEMÓVEIS
Mais um facto interessante da base de dados da OCDE: Portugal é um dos países com mais assinaturas de telemóveis por 100 habitantes. O mesmo é verdade para o número de telemóveis pré-pagos por 100 habitantes, onde estamos igualmente no top 5 da OCDE. Ora, aqui está o verdadeiro Plano Tecnológico sem ter sido planeado. Nós somos verdadeiramente apaixonados pelos nossos telemóveis.
Aliás, não é à toa que muitas das nossas melhores empresas inovadoras nos últimos anos estão associadas exactamente a este sector.
Assinaturas de telemóveis por 100 habitantes
Fonte: OCDE
MEA CULPA DO FMI
O FMI faz mea culpa num relatório onde se procura perceber por que é que os mecanismo de aviso do Fundo não detectaram os sinais de alarme que conduziram à crise financeira de 2008. Há muitas razões para que tal tenha acontecido, mas a mais provável é que, antes de 2007, quase toda a gente pensava que uma crise financeira nos Estados Unidos e nos países desenvolvidos era praticamente impossível, e que os mercados corrigiriam naturalmente os desequilíbrios que aparecessem. Estavamos todos (ou quase todos) enganados. É exactamente isso que nos diz o relatório do FMI. Aqui está um excerto:
"[The report] finds that the IMF provided few clear warnings about the risks and vulnerabilities associated with the impending crisis before its outbreak. The banner message was one of continued optimism after more than a decade of benign economic conditions and low macroeconomic volatility. The IMF, in its bilateral surveillance of the United States and the United Kingdom, largely endorsed policies and financial practices that were seen as fostering rapid innovation and growth. The belief that financial markets were fundamentally sound and that large financial institutions could weather any likely problem lessened the sense of urgency to address risks or to worry about possible severe adverse outcomes. Surveillance also paid insufficient attention to risks of contagion or spillovers from a crisis in advanced economies. Advanced economies were not included in the Vulnerability Exercise launched after the Asian crisis, despite internal discussions and calls to this effect from Board members and others...
The IMF’s ability to correctly identify the mounting risks was hindered by a high degree of groupthink, intellectual capture, a general mindset that a major financial crisis in large advanced economies was unlikely, and inadequate analytical approaches."
O relatório completo pode ser lido aqui.
The IMF’s ability to correctly identify the mounting risks was hindered by a high degree of groupthink, intellectual capture, a general mindset that a major financial crisis in large advanced economies was unlikely, and inadequate analytical approaches."
O relatório completo pode ser lido aqui.
ATLÂNTIDA PERDIDA
O Google Ocean anda a causar furor, não só porque tem potencialidades bastante interessantes, mas também porque há quem diga que a sua utlização pode ter permitido a descoberta da cidade mítica da Atlântida. As imagens são, sem dúvida, curiosas.
09 fevereiro 2011
UM PAÍS TECNOLÓGICO (2)
Prosseguindo a análise dos dados mais recente dos dados da OCDE sobre o sector tecnológico e das tecnologias de informação e comunicação, vale a pena olhar para a percentagem do emprego tecnológico no sector empresarial ("business sector" em inglês, e que inclui tudo que não seja Estado e particulares), que é responsável por mais de dois terços do valor acrescentado dos países da OCDE.
Neste sentido, se atentarmos para o gráfico abaixo, não é dificil verificar o enorme atraso que ainda temos nesta área. Portugal é o país da OCDE que tem a percentagem mais baixa de emprego tecnológico no sector empresarial. Assinale-se que estes dados não incluem a Islândia, o México, a Nova Zelândia, a Polónia e a Turquia e, por isso, talvez a nossa posição relativa não seja tão má. Talvez até estejamos à frente dos turcos e dos mexicanos. De qualquer maneira, e mais uma vez, é fácil de ver que da propaganda à realidade vai uma grande distância.
Percentagem de emprego tecnológico no emprego do sector empresarial
Fonte: OCDE (2010), Information Technology Outlook
| Quem desejar consultar estes dados pode fazê-lo aqui. |
EXPORTAÇÕES E BALANÇA COMERCIAL
É obviamente uma óptima notícia que as exportações cresceram 15,7% em 2010, enquanto as importações "só" subiram 10,2%. Ainda assim, é preciso perceber o que é que está em causa. Como o nosso défice externo é elevado (as exportações são apenas 64,8% das importações), esta diferença de crescimento não foi suficiente para fazer melhorar o défice comercial português. Bem pelo contrário. O défice comercial agravou-se em 2,1% em 2010, e assim a nossa posição externa continuou a deteriorar-se.
Para que tal não aconteça, é preciso que as exportações continuem a crescer bem mais rapidamente do que as importações nos próximos anos. De acordo com os cálculos de Francesco Franco, se as exportações e as importações continuassem a expandir-se a este ritmo, somente em 2012 é que o valor absoluto do défice comercial parava de aumentar, e só em 2019 é que as exportações se tornariam mais elevadas do que as importações, ajudando finalmente a colmatar o défice da balança corrente. Por outras palavras, a este ritmo, precisamos de quase uma década para que o défice comercial se torne num excedente comercial. Ou seja, o caminho a percorrer para atingirmos o equilíbrio externo é longo, muito longo mesmo. E, ainda por isso, temos contra nós o peso da história, pois o último excedente comercial aconteceu há cerca de 70 anos, em plena Segunda Guerra Mundial.
Por isso, e apesar de devermos saudar o bom comportamento das nossas exportações (em linha, aliás, do que aconteceu na Europa e recuperando parte da descida abrupta do comércio internacional em 2009), é bom que mantenhamos os pés bem assentes na terra e percebamos de uma vez por todas que vão ser precisos muitos anos como 2010 para que o défice externo seja finalmente debelado.
AINDA O PACTO DA "COMPETITIVIDADE"
O editorial de hoje do Financial Times faz um bom sumário do Pacto de "Competitividade" proposto pelo governo alemão:
"The pact for competitivenes is Germany’s price for displaying a readiness to be the eurozone’s financial guarantor. But it smacks too much of a German attempt to recast the eurozone in its image."
08 fevereiro 2011
DESEMPREGO RECORDE
Como aqui já mencionei várias vezes, se há algo que nos devia preocupar verdadeiramente é o rápido e sustentado crescimento do desemprego. E como não há nada como pôr as coisas em perspectiva, aqui vai mais um gráfico do meu novo livro. É visível que a taxa de desemprego actual é a mais alta desde, pelo menos, 1930. Ou seja, temos hoje a taxa de desemprego mais elevada dos últimos 80 anos. É igualmente visível que a subida do desemprego precede em vários anos a crise internacional. A verdade é que a taxa de desemprego tem vindo a subir desde o ano 2000. Isto apesar da nova vaga de emigração que tem caracterizado os últimos anos. Se não fosse a emigração, o desemprego seria certamente bem mais dramático.
Taxa de desemprego em Portugal, 1932-2010
Fonte: Santos Pereira (2011)
FMI OU NÃO, EIS A QUESTÃO
No dia em que o jornal Expresso fazia manchete que, afinal, já não vinha aí o FMI (logo veremos), saiu um artigo meu onde explico o que é que poderia acontecer se chegarmos exactamente a esta situação, isto é, se nos virmos forçados a recorrer ao FEEF e ao FMI. Aqui está o artigo:
"O que acontecerá se Portugal for forçado a recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e ao FMI? Quais serão as mudanças no nosso dia-a-dia? Para podermos responder a estas questões, vale a pena perguntar: será inevitável a vinda do FMI? Sim, é quase certo que tenhamos de recorrer ao FEEF e ao FMI ainda este ano. Porquê? Porque os nossos desequilíbrios financeiros e orçamentais são de tal modo graves e elevados, e o ataque especulativo aos países europeus endividados tem sido tão cerrado, que nos será muito difícil evitar o recurso ao FEEF e a subsequente vinda do FMI. A grande dúvida que ainda permanece não é “se” tal irá acontecer, mas sim “quando” é que isso irá ocorrer?
Aliás, a única razão que poderá adiar a activação do FEEF e a entrada do FMI no nosso país é de natureza política: o governo sabe que será responsabilizado politicamente e pela própria História se o país tiver de se socorrer do FEEF e do FMI. Por isso, o governo fará todos os possíveis e os impossíveis para evitar cair nessa situação. Mesmo que, para isso, tenhamos de pagar juros insustentáveis ou que o financiamento do Estado Social fique numa situação muito difícil por causa do serviço da nossa dívida pública explosiva. Todavia, e apesar da previsível resistência por parte do governo, é muito natural que, mais cedo ou mais tarde, nos vejamos mesmo forçados a valermo-nos do FEEF e do FMI. Por isso, interessa questionar: o que é que acontecerá se o FMI cá vier? Será mesmo o fim do nosso mundo? O descalabro económico? Não, claro que não. Bem longe disso. Certamente que, com o FMI, teremos mais austeridade, o que tornará uma recessão em 2011 ainda mais certa. No entanto, isso não é propriamente uma novidade, visto que as projecções mais recentes do Banco de Portugal já prevêem uma recessão para o nosso país. Com ou sem FMI. Ou seja, não é pela austeridade ou pela falta dela que o FMI virá cá ou não.
Mas, será verdade que o FMI nos obrigaria a fazer novas reduções salariais? Provavelmente não. É possível que as reformas acima dos 2500 ou 3000 euros fossem afectadas, mas não é crível que o FMI optasse por um novo corte salarial. Porquê? Porque não só não existiria vontade política para o fazer, mas também porque os riscos de uma convulsão social seriam bastante elevados. Por isso, os custos de um novo corte de salários seriam bastante mais altos do que os benefícios, diminuindo a eficácia de tal medida.
Dito isto, parece-me evidente que há toda uma série de factores que estariam associadas a um recurso ao FEEF e ao FMI. Em primeiro lugar, decerto que o FMI insistiria numa nova reforma laboral e uma maior flexibilização do nosso mercado de trabalho. Porquê? Porque todas as organizações internacionais apontam a rigidez do nosso mercado de trabalho como uma das razões para a fraca competitividade da economia nacional. Deste modo, é mais do que natural que o FMI (e os nossos parceiros europeus) desse uma grande ênfase à reforma do mercado de trabalho para ajudar a melhorar a competitividade das nossas exportações.
Em segundo lugar, a chegada do FMI certamente significaria uma actualização dos preços praticados pelas empresas públicas de transportes e uma redução de custos das restantes empresas do Estado. Para bem ou para mal, muitas das nossas empresas públicas são cronicamente deficitárias, muitas das quais pertencem ao sector dos transportes. Estão nestas circunstâncias empresas como a Carris, a Refer, e os Metros de Lisboa e do Porto. Estes défices crónicos têm contribuído para um crescente endividamento das empresas públicas, que tem rondado os 3 mil milhões de euros ao ano. Como é evidente, mais cedo ou mais tarde, este endividamento terá de ser pago. Como? Com os nossos impostos ou com os impostos dos nossos filhos (isto é, com a emissão de mais dívida pública).
Estes défices crónicos das empresas públicas são em parte explicados pelos preços praticados por estas empresas, bem abaixo do que seria aconselhável para garantir a saúde financeira destas empresas. Por isso, e para garantir a sustentabilidade destas empresas e das contas públicas nacionais, é muito natural que o FMI sugerisse ao nosso governo uma actualização significativa dos preços praticados por estas empresas.
Em terceiro lugar, é natural que o FMI recomendasse uma redução de algumas prestações sociais, de forma a garantir uma maior sustentabilidade das nossas contas públicas. Por último, certamente que o FMI iria exigir auditorias abrangentes às nossas contas públicas, bem como uma maior transparência das mesmas finanças do Estado.
Tudo somado, ficamos a saber que o FMI não é nenhum papão nem nos vai conduzir ao abismo. Muitas destas medidas teriam de ser implementadas, agora ou mais tarde. A diferença é que, de uma vez por todas, o FMI nos vai obrigar a fazer aquilo que continuamos a fingir que andamos a fazer. Ou seja, limitar os défices orçamentais e a dívida pública. Uma diferença que, decerto, fará toda a diferença e que, ironicamente, poderá contribuir para que o nosso país regresse finalmente à senda do crescimento económico."
Notícias Sábado, 5 de Fevereiro
CRISES GÉMEAS
O Pedro Lains fala aqui das "crises gémeas" de 1891-1892 e de 2009-2011. Dentro de uns meses teremos mais novidades sobre esta investigação.
07 fevereiro 2011
O PACTO DA "COMPETITIVIDADE"
Ainda não se conhecem todos os contornos do "pacto de competitividade" que os governos alemães e franceses querem tentar impor aos países europeus em dificuldades para que estes vejam garantidas as suas necessidades de financiamento para os próximos anos. Ainda assim, vão-se conhecendo alguns pormenores que não nos podem deixar de ficar inquietos sobre o que está a ser planeado em contrapartida a uma eventual ajuda financeira.
Como era de esperar, o nosso governo já reagiu, defendendo o pacto e uma maior harmonização de políticas económicas dos vários estados membros. É natural que assim seja, pois esta é porventura a última réstia de esperança que o governo tem para evitar a "chegada" do FMI e o recurso ao Fundo de Estabilização. Ora, sabendo que o Presidente da República afirmou na campanha eleitoral que um hipotético recurso ao FMI e ao FEEF seria um sinal de que o governo tinha falhado, o pacto alemão e francês (se for aprovado) é uma autêntica lufada de ar fresco nas esperanças do governo de permanecer no poder por mais uns tempos.
No meio de isto tudo, e como é óbvio, o que importa para o governo não é o interesse nacional, mas sim a sua mera sobrevivência a todo o custo. Por mais que isso prejudique o país ou por mais que tenhamos de hipotecar a soberania económica que nos resta. Tudo, como é evidente, em nome do projecto europeu e da estabilidade do euro. Enfim...
Sinceramente, acho que antes de tomarmos uma decisão final, é importante ponderar muito bem o que está em causa e quais são as condições que nos vão ser impostas. A verdade é que, assim como refere Wolfgang Münchau num importante artigo de opinião no Financial Times de hoje, não há nada do que foi agora proposto pelos governos alemães que resolva de forma definitiva a necessidade de haver uma recapitalização dos bancos europeus e uma eventual reestruturação da dívida da Grécia, da Irlanda, e, sim, de Portugal (digo eu).
Como Münchau afirma, e bem: "The idea that Greece and Ireland can pay back their debt in full, and on time, is a triumph of hope over everything we know from the history of financial crises." Mais: os custos deste pacto da "competitividade" poderão ser totalmente irrazoáveis em termos do que poderemos de ter de dar em troca para podermos desfrutar desta generosa solidariedade europeia. Ainda nas palavras de Münchau "A rise in southern European competitiveness is not something you can agree on over dinner. It will require a massive loss of national sovereignty and deep incisions in national wage bargaining systems."
Nem mais. Por isso, interessa perguntar: estaremos mesmo dispostos a fazê-lo só para garantir que o governo se mantenha em funções por mais uns meses? Temos mesmo a certeza de que vale a pena hipotecar a pouca soberania que nos resta para que possamos evitar a "chegada do FMI" e o recurso ao FEEF? Que solidariedade europeia é esta em que os governos dos países periféricos se vêem (por culpa própria, admito) obrigados a ceder soberania nas políticas fiscais e económicas para o eixo franco-alemão? E, ainda mais significativamente, quem é que nos garante que esta transferência de soberania não será em vão? Quem é que nos garante que, mesmo se cedermos às pretensões dos governo alemães e franceses, dentro de um ou de dois anos não nos veremos obrigados a reestruturar as nossas dívidas e a recapitalizar os nossos bancos? Ninguém, como é evidente.
O problema é que, nessa altura, a soberania económica que nos restava já poderá estar irremediavelmente perdida, mas poderemos, mesmo assim, vermo-nos forçados a fazer os ajustamentos que devíamos fazer agora.
Mas, isso não interessa. Isso são problemas para outros resolverem. Nessa altura o inenarrável governo actual já não estará cá para ter de lidar com os problemas que criou. Entretanto, o que importa é que a perda da pouca soberania económica nacional que nos resta é um mal menor quando o que está em causa é a solidariedade europeia, a estabilidade do euro, e, claro, a manutenção do nosso benemérito governo.
UM PAÍS TECNOLÓGICO
Por de trás de toda a retórica que rodeia as reformas "modernizadoras" dos últimos anos, há estatísticas que não mentem. Esta é uma delas: a percentagem de famílias portuguesas com acesso à internet ainda está bem abaixo da média europeia e ainda mais abaixo da média da OCDE.
Gráfico_ Percentagem de famílias com acesso à internet
Fonte: OCDE (2010)
06 fevereiro 2011
AHLUWALIA
Para quem gosta de World Music, aqui fica a sugestão do novo álbum da indo-canadiana Kiran Ahluwalia, que conta com a participação das bandas Tuareg do Mali, os conhecidos Tinariwen e os Terakaft. O álbum é uma interessante fusão dos ritmos indianos e dos sons do deserto do Saara. Vale a pena descobrir.
05 fevereiro 2011
UMA NOVA RECEITA MÁGICA
Para quem pensa que uma eventual união política da Europa ou que uma maior coordenação fiscal entre os Estados membros da União resolverá todos os nossos problemas e fará com que o nosso futuro seja caracterizado pelo crescimento e pela convergência económica, vale a pena lembrar alguns exemplos de algumas regiões em importantes uniões políticas: Alabama e Louisiana nos Estados Unidos. Mezzogiorno italiano. Trás-os-Montes em Portugal. Terra Nova no Canada. Chiapas no México. Cornwall no Reino Unido. Não seria difícil encontrar dezenas de outros exemplos, se quisesse ser mais exaustivo.
Por outras palavras, lá por existirem redistribuições fiscais das regiões mais ricas para as mais pobres nas uniões políticas, não quer dizer que as regiões mais pobres vão crescer e desenvolverem-se. Nada é assim tão automático ou tão simples.
Ou seja, é uma ilusão pensar que uma união política europeia é uma receita mágica para o desenvolvimento nacional. Não é. Nem hoje, nem nunca.
04 fevereiro 2011
LEGADOS DESTE GOVERNO _ TAXA DE POUPANÇA
Um dos legados mais dramáticos, mas infelizmente pouco falados, dos últimos anos tem sido uma diminuição muito acentuada da taxa de poupança nacional. Actualmente, a taxa de poupança bruta é a mais baixa dos últimos 50 anos. Isto porque não temos dados anteriores a 1960. Se tivessemos, certamente que não seria difícil verificar que a taxa de poupança actual é a mais baixa desde os conturbados anos 1920. Esta descida da poupança nacional é ainda mais significativa se nos lembrarmos que, durante quase todo o século 20, Portugal era dos países europeus que registava taxas de poupança bastante altas. Ou seja, já fomos um povo bastante aforrador, mas agora já não o somos. E este facto está no centro de muitas das nossas dificuldades actuais.
A descida da poupança nacional tem várias explicações, mas certamente que algumas das principais razões para que tal tenha acontecido incluem:
1) a acentuada descida taxa de juros associada à nossa adesão à moeda única, bem como as maiores facilidades de crédito que a Zona Euro nos proporcionou. (Relembre-se que os juros baixos penalizam a poupança e estimulam o consumo)
2) os vários incentivos ao consumo e a retirada dos incentivos à poupança que caracterizaram os últimos 10-15 anos
3) o comportamento pouco regrado e o excessivo despesismo do nosso Estado, que penalizaram grandemente a "poupança" pública e que, assim, fizeram baixar a poupança nacional.
4) a descida pronunciada das remessas dos emigrantes, que foi durante bastante tempo uma importante fonte de financiamento da economia nacional
O resultado de tudo isto foi que, entre o final dos anos 1970 e 2010, a poupança bruta baixou de 30% do PIB para 8,4% do PIB. Uma descida de mais de 20 pontos percentuais.
A baixíssima taxa de poupança nacional é visível no gráfico abaixo, que apresenta a poupança bruta em percentagem do PIB para os países da UE-27. Como podemos ver, Portugal tem a segunda mais baixa taxa de poupança de toda a União Europeia. Pior que nós só a Grécia. Em claro contraste, países como a Espanha e a República Checa têm taxas de poupança que são o dobro das nossas.
Poupança bruta em % do PIB na UE-27, 2010
Fonte: AMECO
Qual é o problema? O problema é que, sem poupança, o investimento não pode prosperar e aumentar de forma sustentada. E é exactamente isto que tem acontecido. Na última década, o investimento privado tem andado pelas ruas da amargura, penalizando o próprio crescimento económico e, assim, limitando as possibilidades de a economia ter uma retoma sustentada.
Mais: a baixa taxa de poupança tem sido altamente responsável pelo crescimento do endividamento externo nacional. Como não poupamos o que devemos, temos de pedir ao exterior os fundos que precisamos para satisfazer as nossas necessidades. O problema é que, como em tudo, não é possível manter um crescimento elevado da dívida externa por muito tempo sem que existam consequências muito danosas para a economia nacional. E é nesse ponto que nos encontramos actualmente.
Quem tem culpa por tudo isto? Todos nós. Todos nós (famílias e empresas) consumimos acima das nossas possibilidades. Os governos dos últimos 15 anos foram igualmente responsáveis não só porque gastaram bem mais do que era aconselhável, mas também, e principalmente, porque não actuaram face aos crescentes e graves desequilíbrios da economia nacional, incluindo o crescimento do endividamento da economia nacional e a dramática descida da poupança nacional.
Moral da história: é imperioso alterar este estado de coisas o quanto antes. Há poucas dúvidas que uma das coisas a fazer nos próximos anos é exactamente fazer crescer novamente a poupança nacional. Só assim podemos combater o nosso elevadíssimo endividamento externo e diminuir a exposição da economia nacional ao financiamento do exterior. O crescimento da poupança é igualmente fundamental para a recuperação do investimento nacional.
Por todos estes motivos, a poupança tem de se tornar num autêntico imperativo nacional, uma paixão, se quiserem. O desígnio da poupança pode não tão atractivo como, por exemplo, a Educação, mas é, no mínimo, tão importante como essa mesma Educação. Seria bom que, nos próximos meses, os diversos partidos portugueses apresentassem ideias e estratégias para que possamos todos poupar mais. O país certamente agradecerá.
03 fevereiro 2011
MORTOS OU A PAGAR DÍVIDAS
“No longo prazo estamos todos mortos” é uma das frases mais famosas da Economia. A frase foi proferida em 1936 por John Maynard Keynes, porventura o economista mais influente do século passado, e foi essencialmente uma crítica ao pensamento económico dominante na época.
A ideologia então prevalecente defendia que as crises são consequências do desenvolvimento económico e que no longo prazo tudo está de volta ao normal. Em contraste, Keynes achava que os governos não deviam esperar para actuar em situações de grave recessão ou de elevado desemprego. Por isso, nessas situações, os governos deviam aumentar as despesas públicas para estimular a procura de bens e serviços, o que, por sua vez, fomentaria a produção e o emprego.
E foi assim que, em 2008 e 2009, sob a inspiração de Keynes, os governos gastaram o que tinham e o que não tinham para evitar uma recessão. Só que, nalguns países europeus (como o nosso), tudo foi feito esquecendo um pequeno pormenor: é que as ideias de Keynes foram defendidas para um cenário onde as dívidas públicas eram bastante modestas. Uma situação muito diferente da encontrada em 2008. Foi assim que o endividamento originado pelo combate à crise internacional se juntou às elevadas dívidas já existentes e deu origem à crise da dívida europeia que nos sobressalta actualmente.
Quem pagará tudo isto? Os nossos filhos, obviamente. É que no longo prazo poderemos estar todos mortos, mas os nossos filhos cá estarão a lidar e a pagar as nossas imensas dívidas. Um legado, no mínimo, pouco simpático.
A ideologia então prevalecente defendia que as crises são consequências do desenvolvimento económico e que no longo prazo tudo está de volta ao normal. Em contraste, Keynes achava que os governos não deviam esperar para actuar em situações de grave recessão ou de elevado desemprego. Por isso, nessas situações, os governos deviam aumentar as despesas públicas para estimular a procura de bens e serviços, o que, por sua vez, fomentaria a produção e o emprego.
E foi assim que, em 2008 e 2009, sob a inspiração de Keynes, os governos gastaram o que tinham e o que não tinham para evitar uma recessão. Só que, nalguns países europeus (como o nosso), tudo foi feito esquecendo um pequeno pormenor: é que as ideias de Keynes foram defendidas para um cenário onde as dívidas públicas eram bastante modestas. Uma situação muito diferente da encontrada em 2008. Foi assim que o endividamento originado pelo combate à crise internacional se juntou às elevadas dívidas já existentes e deu origem à crise da dívida europeia que nos sobressalta actualmente.
Quem pagará tudo isto? Os nossos filhos, obviamente. É que no longo prazo poderemos estar todos mortos, mas os nossos filhos cá estarão a lidar e a pagar as nossas imensas dívidas. Um legado, no mínimo, pouco simpático.
O RELÓGIO DA DÍVIDA PORTUGUESA
Mais um artigo do Financial Times sobre a crise portuguesa, agora com o sugestivo título "Clock is ticking on debt-laden Portugal".
02 fevereiro 2011
ATRASO EDUCATIVO
Os dados mais recentes da OCDE sobre a educação revelam que, apesar de alguns progressos, o nosso atraso em relação à educação universitária permanece bastante real. Como podemos ver no gráfico abaixo, Portugal tem a terceira mais baixa percentagem de indivíduos com formação universitária em relação à população total de toda a OCDE, somente à frente da Turquia e da Itália. Ou seja, ainda há muito para andar no que respeito à educação da nossa população. Mesmo assim, nem tudo são más notícias. Como podemos ver no gráfico, nas camadas dos trabalhadores mais jovens (com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos), é possível ver alguma evolução. Para essa faixa etária, a nossa percentagem da população com formação universitária já ultrapassou os 20%, à frente de países como a Turquia, a Itália, aq República Checa, a Eslováquia, o México e a Áustria. Porém, antes de entrarmos em euforias ou optimismos injustificados, vale a pena também reparar que ainda estamos muitíssimo longe de países como a Espanha ou da Irlanda, que têm mais de 40% das suas populações com educação universitária.
Fonte: OCDE
A REVOLUÇÃO EM CURSO (1)
Há uns dias no debate do Diário de Notícias afirmei que estava convicto de que estávamos à beira de uma revolução em Portugal, uma revolução que não se fará nas ruas e que não será sangrenta. Uma revolução silenciosa que irá alterar radicalmente a forma como encaramos o Estado e como o próprio Estado actua.
Há inúmeras razões que irão tornar esta revolução inevitável, mas o principal motivo para que tal aconteça é simples de explicar: não temos alternativa. Se não levarmos a cabo uma verdadeira reforma do Estado arriscamo-nos a pôr em risco o próprio Estado Social e a causar uma deterioração ainda maior da nossa situação económica. Isto já para nem falar na possibilidade de cairmos numa situação de incumprimento das nossas obrigações financeiras. Por isso, tenho confiança que a revolução vai ser feita e até acho que acabará por ser bem feita. Não por este governo, como é evidente, mas pelo próximo.
Ainda assim, não deixa de ser interessante verificar que alguns sectores deste governo já se deram conta que têm muito a ganhar se, entretanto, também introduzirem iniciativas que possam reduzir alguma da despesa estrutural do Estado. Assim, ficámos ontem a saber que o Ministro dos Assuntos Parlamentares defendeu uma redução do número de deputados (depois do seu partido ter recusado esta mesma ideia em 2008), enquanto o Secretário de Estado da Administração Local advogou uma diminuição do número de autarquias. Estão de parabéns. São boas iniciativas, sim senhor. Agora, é arregaçar as mangas, negociar e planear devidamente como e quando é que as coisas poderão ser feitas.
O ANO DO COELHO
Hoje é o dia do Ano Novo chinês, um dia em que centenas de milhões de chineses espalhados um pouco por todo o mundo celebram a passagem para o novo ano. Estima-se que mais de 40 milhões de chineses se deslocam nesta época do ano às suas terras de origem para passarem o ano com as suas famílias, naquela que é porventura a maior migração anual de pessoas em todo o mundo.
Já agora, para quem estiver interessado(a), o calendário chinês diz-nos que este é o ano do Coelho.
01 fevereiro 2011
REESTRUTURAÇÃO OU NÃO, EIS A QUESTÃO (5)
Há cada vez menos dúvidas que a Grécia deve acabar por reestruturar a sua dívida, provavelmente mais cedo do que mais tarde. Agora surgem informações de que se começa a delinear um plano europeu em que os empréstimos concedidos à Grécia em 2010 poderiam ser alargados por um período de 30 anos e a dívida grega seria reestruturada. Mais concretamente, a Grécia usaria o fundo europeu para comprar obrigações gregas ao BCE e aos detentores privados da dívida helénica a 75% do valor nominal, e, em seguida, as maturidades das obrigações gregas seria alargadas para 15 e 20 anos.
Veremos se este plano vai mesmo para a frente. De uma coisa podemos certos, se a Grécia (e a Europa) avançar, certamente que a Irlanda não ficará para atrás.
E, como é evidente, nesse cenário, não seria surpreendente se houvesse uma pressão enorme para que nós o fizessemos também. Resta saber se o governo português estaria disposto a fazê-lo. É que, como aqui já referi várias vezes, os custos políticos seriam certamente insuportáveis, de modo que não seria de todo surpreendente se o governo fizesse os possíveis e os impossíveis para evitar chegar a essa situação.
BANQUEIROS CONTRA BAILOUT
O Financial Times dá hoje grande destaque ao facto de os banqueiros portugueses estarem contra um eventual recurso ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira e ao FMI. Porquê? Porque, de acordo com os banqueiros nacionais, se chegássemos a essa situação, poderia haver uma fuga de capitais e um decréscimo dos depósitos bancários. Preocupações que se compreendem, sem dúvida.
Resta saber se financiarmo-nos a taxas de juros elevadas é uma melhor opção.
A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR ALI (2)
Enquanto a liberdade se passeia pelas ruas de Cairo e das outras cidades egípcias, a economia do país está a ficar praticamente paralisada. As consequências poderão ser dramáticas.
31 janeiro 2011
REPTO AO GOVERNO _ AUDITORIA EXTERNA DAS CONTAS PÚBLICAS
Se o FMI acha mesmo que existe um problema de imagem das nossas contas públicas, o governo tem a obrigação de mostrar inequivocamente que as mesmas finanças públicas estão acima de qualquer suspeita ou de interpretações menos cuidadas. Por isso, nada melhor do que, de uma vez por todas, desfazer as dúvidas que podem subsistir sobre esta matéria por parte dos nossos parceiros europeus, dos mercados financeiros e das instituições internacionais. Como? Sendo transparente e não tendo receio de abrir as contas do Estado aos olhos do mundo. Neste sentido, e face à desconfiança internacional (e dos inúmeros avisos do Tribunal de Contas e da UTAO ao longo dos últimos anos), vale a pena fazer um repto ao governo: se as contas públicas são mesmo de confiar e não ocultam nenhum buraco orçamental, então por que não deixar que uma entidade idónea e independente, como o FMI ou a OCDE, faça uma auditoria exaustiva das nossas contas públicas? Se as contas públicas nacionais são mesmo credíveis e exemplares, por que não mostrar de uma vez por todas que todas as desconfianças e a "má imagem" das finanças do nosso Estado são completamente despropositadas?
É que quem não deve não teme. Assim, se uma auditoria externa confirmar que tudo está bem (isto é, que não existem dívidas ocultas ou buracos orçamentais desconhecidos), todos ganharemos, pois a credibilidade do país aumentará, os mercados financeiros ficarão mais serenos, e o governo fica com um argumento de peso para se poder manter em exercício até final do seu mandato. Por isso, não temos nada a perder com a dita auditoria externa das contas públicas. Bem pelo contrário. Muito menos o governo, que só tem a ganhar com a maior transparência e maior credibilidade que essa mesma auditoria externa proporcionaria às nossas finanças públicas.
Está assim nas mãos do governo mostrar que os críticos estão errados e que todas as suspeitas e desconfianças em relação às nossas contas públicas são inteiramente injustificadas.
Está assim nas mãos do governo mostrar que os críticos estão errados e que todas as suspeitas e desconfianças em relação às nossas contas públicas são inteiramente injustificadas.
BANCOS NACIONAIS
Os nossos bancos continuam a merecer a atenção dos media internacionais. Agora foi a vez do Financial Times.
PAÍS DOURADO
Sabia que Portugal está no top 15 dos países do mundo com as maiores reservas de ouro? Pois, é verdade. Segundo o World Gold Council, em 2010, Portugal era o 12º país do mundo com as maiores reservas de ouro. Nada mais, nada menos do que 382,5 toneladas nos cofres do Banco de Portugal. Um dos legados do Estado Novo que um dia ainda nos pode vir a ser muito útil.
FORECLOSURES
A bolha imobiliária americana continua a provocar estragos consideráveis. Só no último ano registou-se um aumento de 72% do crédito imobiliário malparado nas maiores cidades do país. Em Las Vegas, 1 em cada 9 casas está em "foreclosure" (isto é, os seus donos não conseguem pagar as casas e "entregam-nas" ao banco), em Miami e em Phoenix 1 em 14 casas está na mesma situação. Para quem está interessado(a), agora é possível visualizar as casas em "foreclosure" por zona metropolitana através do Google.
Aqui estão alguns exemplos (as casas a vermelho são as foreclosures):
Miami
Las Vegas
30 janeiro 2011
LaVETTE
Uma interpretação magistral de Bettye LaVette de "Love Reign O'er Me", um original dos The Who. Um tema incluído no álbum "Interpretations: The British Rock Songbook".
A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR ALI
Ao ver o que se está a passar na Tunísia e no Egipto, em que as populações se insurgem contra os autocratas que os governam, não consigo de sentir uma espécie de deja vu. Um bonito deja vu. Há 20 anos atrás, foram as ditaduras da Europa de Leste que caíram uma a uma como num baralho de cartas. Será que estamos a assistir um movimento semelhante no mundo árabe? Esperemos que sim.
28 janeiro 2011
A CRISE DE 2008 E A DÍVIDA EXTERNA
É frequente ouvirmos os membros do governo afirmar que as dificuldades actuais foram causadas pela crise financeira internacional de 2008, a crise internacional mais grave dos últimos 80 anos. É óbvio que este argumento tem um fundo de verdade, como já aqui vimos variadíssimas vezes. No entanto, também é verdade que este argumento constitui só parte da história. A outra parte é que os desequilíbrios (internos e externos) da economia nacional já se vinham a fazer sentir há algum tempo. Mais concretamente, há pelo menos uma década.
O sintoma mais evidente destes crescentes desequilíbrios é-nos dado pela evolução da nossa dívida externa, que cresceu a ritmos pouco sustentáveis desde os meados dos anos 1990 e não somente a partir de 2008. Para percebermos porquê, vale a pena olharmos com um pouco de mais atenção para o rácio entre a dívida externa bruta e o PIB (recorde-se que os valores totais da dívida externa bruta já aqui foram analisados). Neste sentido, o gráfico 1 utiliza dados trimestrais para podermos observar a evolução deste rácio desde Janeiro de 1999 até o final de Setembro de 2010 (a que correspondem os dados mais recentes). É perfeitamente visível que a dívida externa bruta portuguesa em percentagem do PIB já tinha vindo a crescer desde os anos 1990, bem antes de 2008, portanto da crise internacional.
Gráfico 1 _Rácio dívida externa bruta/PIB, 1999-Setembro 2010, por trimestre
Fonte: calculado dos dados do Banco de Portugal, Santos Pereira (2011)
No entanto, se persistirem ainda dúvidas, vale a pena calcular o aumento do rácio entre a dívida externa bruta e o PIB antes e depois da crise financeira internacional ter eclodido (isto é, entre 1999 e o terceiro trimestre de 2008, e entre o último trimestre de 2008 e 2010). É isso que é feito no gráfico 2, que mostra muito claramente que o grande crescimento do rácio dívida externa bruta-PIB antecedeu a crise de 2008 e não depois.
Gráfico 2 _ Dívida externa bruta-PIB antes e depois da crise de 2008
E mesmo se tomarmos em linha de conta a média de crescimento por trimestre da dívida externa bruta ponderada pelo PIB, chegamos também à mesma conclusão: a dívida externa bruta já estava em franca expansão bem antes de 2008. Aliás, o rácio da dívida externa bruta e o PIB até cresceu mais rapidamente antes de 2008 do que no período posterior. Mais concretamente, entre 1999 e o terceiro trimestre de 2008, o rácio entre a dívida externa bruta e o PIB cresceu à módica taxa de 2,9% por trimestre. Porém, depois de 2008, este crescimento foi "somente" de 1,8% por trimeste. Ou seja, mais uma vez, não foi a crise internacional que deu azo aos nossos desequilíbrios externos. Estes estavam bem presentes e a crescer a um ritmo elevado bem antes de 2008. O que a crise fez foi agravar estes desequilíbrios e expor as nossas dificuldades perante os nossos parceiros europeus e os mercados internacionais.
Já agora, vale a pena olhar para um último gráfico, que nos dá uma média móvel (de 4 trimestres) do crescimento trimestral da dívida externa bruta/PIB desde 1999. Como podemos ver, o período quando a dívida externa bruta mais cresceu em relação ao PIB foi no final dos anos 1990 e nos primeiros anos do novo século, e não após 2008. Afirmar o contrário é simplesmente falso. A verdade é que os desequilíbrios externos da economia nacional não são recentes e não foram originados pela crise de 2008. Bem longe disso. E se é assim, por que é que os nossos governantes insistem em afirmar o contrário? Porque a verdade é que não houve nem vontade nem capacidade política para resolver este grave problema. Um problema que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser atacado, de uma maneira ou de outra.
Gráfico 3 _ Taxa de crescimento trimestral do rácio dívida externa bruta-PIB, 1999-2010
| Fonte:SantosPereira(2011) |
UM SÓ COMPRADOR
Mais um artigo do Financial Times sobre a dívida soberana portuguesa a alertar para as dificuldades que iremos enfrentar nas próximas semanas. Como afirma um analista:
“There is only one serious buyer of Portuguese debt in the secondary markets and that is the ECB. This could pose problems when Lisbon comes back to the market.”
PALAVRAS SENSATAS (3)
Três posts excelentes de Vítor Bento sobre a subida dos juros da dívida soberana, os especuladores e os mercados, e o "FMI".
REESTRUTURAÇÃO OU NÃO, EIS A QUESTÃO (4)
Roubini também defende a reestruturação da dívida dos países europeus em dificuldades.
27 janeiro 2011
EXPORTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO
Nos últimos tempos tem-se falado muito de exportações e da necessidade de apostar em bens e serviços transaccionáveis (isto é, bens e serviços que concorram nos mercados internacionais). A razão é simples: como Portugal tem um défice comercial crónico (ou seja, todos os anos exportamos menos do que aquilo que importamos), e como as transferências do exterior estão a diminuir (i.e., há menos remessas dos emigrantes do que nos anos 1980, as transferências da UE estão a decrescer, e há menos entrada de capitais estrangeiros no nosso país), o nosso défice externo acumulado agravou-se muito nos últimos 15 anos. Qual é o problema? O problema é que um défice externo elevado contribui decisivamente para o endividamento da economia nacional (isto é, para a nossa dívida ao exterior), um endividamento que é cada vez mais excessivo e cada vez menos sustentável.
Por isso, se conseguíssemos inverter ou, pelo menos, atenuar o défice comercial, poderíamos baixar o défice externo, bem como o endividamento externo. E é aqui que entra a nossa recente (e bem aconselhada) obsessão com as exportações ou os "transaccionáveis".
Mas, será que esta obsessão se justifica? Sim, pelo menos em parte. Porquê? Porque Portugal ainda exporta uma percentagem bastante modesta do seu PIB. Actualmente, o rácio das exportações no PIB nacional ronda os 30%, uma percentagem relativamente baixa para um país de dimensões reduzidas como o nosso (os países pequenos tendem a exportar e a importar mais). Uma percentagem que, ainda por cima, tem-se mantido relativamente estável nos últimos 30 anos, assim como podemos ver no gráfico abaixo.
Entre 2005 e 2008, ainda se registou uma melhoria deste indicador (visto que as exportações revelaram um bom dinamismo, enquanto o PIB estagnou), mas, em 2009, as exportações em percentagem do PIB voltaram a baixar, recuperando um pouco no ano seguinte.
Exportações portuguesas em percentagem do PIB, 1960-2010
Fonte: Banco Mundial, Santos Pereira (2011) "Como Retomar o Sucesso"
O comportamento menos bom das exportações (com a excepção dos últimos anos) é ainda mais aparente se compararmos a evolução das exportações nacionais com as da Zona Euro. Como podemos observar no próximo gráfico, até ao início da década de 1990, as exportações portuguesas em percentagem do PIB tinham valores muito semelhantes aos da Zona Euro. Porém, a partir dessa altura, as exportações em percentagem do PIB europeias aumentaram, enquanto as nossas praticamente estagnaram. Coincidência ou não (não é), foi mais ou menos nessa altura que nos apaixonámos com a construção de estradas e auto-esttradas, e com a chamada política do betão.
E mesmo quando as exportações nacionais registaram um crescimento acima do crescimento do PIB a partir de 2005, as exportações europeias em percentagem do PIB subiram ainda mais. Por outras palavras, apesar das recentes melhorias, é perfeitamente legítimo esperar e argumentar que as exportações nacionais deviam ter uma importância maior na economia nacional. Isto é, o rácio entre as exportações e o PIB devia ser bem maior do que o actual. Há, por isso, bastante margem de manobra para melhorar nesta área.
E mesmo quando as exportações nacionais registaram um crescimento acima do crescimento do PIB a partir de 2005, as exportações europeias em percentagem do PIB subiram ainda mais. Por outras palavras, apesar das recentes melhorias, é perfeitamente legítimo esperar e argumentar que as exportações nacionais deviam ter uma importância maior na economia nacional. Isto é, o rácio entre as exportações e o PIB devia ser bem maior do que o actual. Há, por isso, bastante margem de manobra para melhorar nesta área.
E este é exactamente um dos motivos que justifica a nossa recente obsessão com as exportações e com os (já) famosos "transaccionáveis". A verdade é que faz todo o sentido apostar nas exportações. Resta saber se a política económica vai mesmo apoiar de forma adequada os nossos exportadores, assim como outros sectores foram apoiados nas últimoas décadas. Esperemos que sim.
Exportações em percentagem do PIB, Portugal e Zona Euro, 1960-2010
Fonte: Banco Mundial, Santos Pereira (2011) "Como Retomar o Sucesso"
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