01 novembro 2010

A VERDADE SOBRE O PLANO TECNOLÓGICO

Uma das políticas mais propagadas nos últimos anos foi o chamado Plano Tecnológico, que visava combater as insuficiências estruturais do país na área das tecnologias. À partida, a aposta nas novas tecnologias parece-me incontroversa, pois todos teríamos a ganhar com a melhoria das nossas competências tecnológicas, ainda que seja disputável se a melhor forma de atingir tal objectivo é mesmo um "Plano" delineado por um governo. Independentemente dos seus méritos e deméritos, um dos principais objectivos da política do governo nesta área passava por melhorar a intensidade tecnológica das nossas exportações, que assim se tornariam mais atractivas e mais competitivas nos mercados internacionais. 
Por isso, vale a pena olharmos com atenção os números da intensidade tecnológica das nossas exportações, para ver se conseguimos descortinar alguma alteração de tendência ocorrida nos últimos anos. Ora, se atentarmos para as estatísticas mais recentes do Ministério da Economia, podemos, sem dúvida, observar uma quebra de tendência em relação à intensidade tecnológica das exportações nacionais. O problema é que esta alteração de tendência não tem o sentido "certo" ou esperado pelos defensores do Plano Tecnológico. Porquê? Porque se o Plano Tecnológico tivesse dado os frutos desejados, então seria de esperar que a percentagem das exportações de alta tecnologia e de tecnologia média-alta tivesse aumentado nas exportações totais. No entanto, o inverso tem acontecido. Como podemos ver no gráfico abaixo, a percentagem de exportações de alta tecnologia tem vindo a decrescer na última década, com especial preponderância desde 2008, quando estas exportações baixaram de 10% das exportações industriais totais em 2008 para 7,6% em 2010. Por sua vez, o peso relativo das exportações de tecnologia média-alta tem-se mantido bastante estável, apesar de se ter registado uma pequena diminuição da sua importância em 2009. 

Em contrapartida, não só a tecnologia média-baixa tem vindo a aumentar a sua importância relativa nas exportações portuguesas (e esta é uma das tendências mais significativas da economia nacional dos últimos anos), como também as exportações de baixa tecnologia registaram uma evolução surpreendente nos últimos 2 anos. Assim, enquanto em 2008, as exportações de baixa tecnologia correspondiam a cerca de 35,7% das nossas exportações industriais, em 2009, este valor tinha subido para uns extraordinários 39,1% do total.

Gráfico _ Intensidade Tecnológica das Exportações industriais portuguesas, 2002-Agosto 2010
Fonte: Ministério da Economia

Por outras palavras, se o propagado Plano Tecnológico teve algum efeito nas exportações portuguesas, certamente que este impacto não foi positivo. No mínimo, se formos (demasiado) optimistas, os efeitos do Plano Tecnológico não foram suficientes para contrariar o impacto que a crise internacional teve na estrutura das exportações portuguesas. O mais certo é que o Plano Tecnológico foi um fracasso com muito alarido, mas sem resultados palpáveis.
A verdade é que, apesar de toda a propaganda, o Plano Tecnológico foi somente mais um sonho "modernizador" deste governo  que se esvaneceu sob o peso da realidade económica.

6 comentários:

Guillaume Tell disse...

Mas ao fundo, como é que estava organizado o Plano Tecnológico? Baseiava-se em diminuições de impostos sobre os gastos em I&D? Linhas de créditos para as empresas inovadoras?
???

Eduardo F. disse...

O Prof. Álvaro Santos Pereira, fazendo jus ao nome do seu blog, tem sido implacável na desmontagem de todo um conjunto de ideias feitas quando não mesmo de mistificações cuidadosamente planeadas em certos gabinetes propangandísticos.

Depois deste post fico com a sensação que partilhará da opinião de Manuel Maria Carrilho quando este afirma que «a tecnologia, quando se torna numa ideologia, transforma-se num dispositivo propagandístico».

Permita-me, por último, que lhe endereçe uma questão. Sabem os seus eleitores, onde recentemente também me incluí com entusiasmo diário, que o Prof. é um aderente às teses daqueles que defendem que se está a verificar um "aquecimento global" e que este é de origem antropogénica (cf. seus posts sob a etiqueta "Alterações climáticas"). Apesar disso, será que Prof. Álvaro Santos Pereira, enquanto economista, não partilha da opinião do Prof. Campos e Cunha, expendida na passada 6ª feira, no Público, segundo a qual, e cito, «[a] aposta nas energias alternativas - vento e sol - saíu caríssima às famílias e às empresas, que já estão a pagar a factura, com perdas acrescidas de bem-estar e competitividade» (artigo completo transcrito aqui) para com a economia portuguesa?

Austeriana disse...

Já do ponto de vista da aplicação das Novas Tecnologias, no sentido de facilitar/agilizar/melhorar a realidade em que nos movemos, verificamos que, em Portugal, as coisas correm muito mal.
Basta pensarmos em casos mais mediáticos como os do Acórdão Casa Pia, ou da entrega da primeira versão do Orçamento de Estado, com atrasos sucessivos. Na verdade, pôs-se "a carroça à frente dos bois", ou seja, houve a informatização dos recursos mas os intervenientes não dominam as novas tecnologias e o resultado é o de que é pior a emenda que o soneto - com morosidade e gastos acrescidos na uniformização de programas informáticos (no caso do Acórdão) e na disponibilização em formatos duplos (informático e em papel).
Acresce que, nas Escolas, o que parece estar a acontecer é que os estudantes lidam muito bem com os novos "gadgets", mas muitos não sabem escrever...

Alvaro Santos Pereira disse...

Obrigado a todos. Respondo às vossas questões e sugestões nos próximos dias no blogue.

Abraço

Alvaro

Anónimo disse...

Como professor, nada disto me supreende.
Sei os milhões de euros gastos em apaetrechar as escolas em material tecnológico. Mas agora ninguém quer aquilo ou até usa. Todos nós (professores) chegamos à conclusão que o quadro e o giz é mais eficiente e mais barato. Os alunos apenas querem o PC para ir consultar as mansagens e ir às redes sociais, tornando a aula dificil de gerir.

Pedro disse...

Este artigo é um bocado questionável. É claro que quando uma componente grande das tuas exportações são produtos refinados de petróleo (que não param de aumentar de preço), a % da componente "não tecnológica" aumenta de peso. Devia-se olhar para o valor absoluto, para ver se não estão todas a aumentar, o que seria a situação ideal.
Um bom exemplo de como análises parciais da realidade podem eventualmente levar a conclusões erradas.

Quer se queira quer não, a componente da tecnologia está aí para ficar, e é uma das poucas fontes de vantagens competitivas. Em tudo o resto, estamos a competir com o (estilo de vida) da India ou China. É isso que queremos?