24 novembro 2010

A FICÇÃO DO INE

Num dia em que o Público faz capa com os temas da greve geral, o desemprego e o retorno da emigração, é interessante verificar que o Instituto Nacional de Estatística continua a fingir que nada ou pouco se passa em relação aos fluxos emigratórios dos portugueses. Assim, o INE publicou ontem a edição de 2010 das Estatísticas Demográficas, onde se demonstra que a população portuguesa continua a crescer, apesar de o saldo demográfico natural (nascimentos menos mortes) permanecer negativo. Como é possível? Porque o INE estima que o saldo migratório nos continua a ser favorável. Mais concretamente, de acordo com o INE, em 2009 entraram 32 mil novos imigrantes em Portugal (tinham sido 29 mil em 2008), e saíram somente 16899 portugueses em 2009 e 20357 em 2008. Ou seja, números radicalmente distintos dos meus, que apontam para uma emigração a rondar os 100 mil portugueses nesses anos. 
Como é possível esta diferença tão abismal? Muito simples. O INE utiliza métodos indirectos de avaliação da emigração, fazendo inquéritos telefónicos aos agregados familiares onde se pergunta se há alguém nesse agregado que emigrou no último ano. Ora, vários estudos internacionais demonstram que este método subavalia enormemente os fluxos emigratórios, pois as pessoas costumam omitir informação relevante sobre os fluxos de saída. Por outro lado, os meus números foram obtidos olhando para os países de origem dos emigrantes, através dos dados dos centros de emprego e da Segurança Social desses países, onde se distinguem os novos trabalhadores por país de origem. Isto é, um método que nos permite observar directamente o número de portugueses no estrangeiros.
Mas esqueçamos por um momento a questão dos métodos de obtenção dos dados e concentremo-nos nos números agora divulgados. Eu sei que sou suspeito, mas será que os números do INE fazem algum sentido? É claro que não. Se fossem reais, o que estes números nos dizem é que em 2009 registámos os menores fluxos de saída de portugueses das últimas décadas. Mais concretamente, desde 1948 que os fluxos de saída dos portugueses não era tão baixo! Isto numa altura que o desemprego já rondava os 9,5% e a crise económica nacional já dura há uma década. Ou seja, estes números são, no mínimo, inverosímeis, para já não dizer ridículos. E se não acreditem em mim, vejam os números apresentados pelo Observatório da Emigração, que é ligado ao governo, e que ainda há pouco tempo falou em saídas  anuais de 70 mil portugueses nesta década. 
Enfim, só não vê quem quer. E o INE, que faz um trabalho tão meritório e tão importante noutras áreas, infelizmente não quer ver.

Já agora, aqui ficam os dados do INE publicados ontem.


Fluxos emigratórios de Portugal em 2008 e 2009, segundo o INE

 Nacionalidade 2008 2009
HM H M
HM H M
Total  20 357  11 642  8 715
 16 899  9 665  7 234
Portugal  18 462 x x
 14 138 x x
Outros Estados-Membros da UE   161 x x
  254 x x
Países terceiros  1 734 x x  2 507 x x

4 comentários:

Anónimo disse...

Um mero esclarecimento. Escreve: "[...]pois as pessoas não costumam omitir informação relevante sobre os fluxos de saída."
Não costumam ou costumam??? Se as pessoas não costumam omitir, a informação prestada seria certa.
Francamente não percebi.

Alvaro Santos Pereira disse...

Caro anónimo

Tem razão. Devia ler-se "costumam". Vou já emendar. Obrigado

Alvaro

democracia participativa disse...

O INE devia-se ocupar era de apresentar soluções para o desenvolvimento do PAÍS.Sobre o resto nós já sabemos que está ao serviço do governo apresentando as estatísticas mais favoravéis para a manutenção do poder.
A defenição deste PAÍS é simples: idosos e serviços o resto é paisagem.

Anónimo disse...

Sou o anónimo lá de cima. Apenas para agradecer. :)