20 fevereiro 2009

A CRISE QUE MAIS NOS INTERESSA

O meu artigo de hoje do PUBLICO:
"Numa altura em que a palavra crise anda na ordem do dia, é importante não esquecer que a crise da economia portuguesa não surgiu nem acabará necessariamente com a resolução da crise internacional. A economia nacional já estava em crise desde 2001 e os últimos anos foram os piores das últimas 8 décadas em termos de desempenho económico. Por que é que tal aconteceu? Porque a nossa adesão ao euro e a globalização vieram pôr em causa a competitividade de muitas das nossas empresas de menor valor acrescentado e com práticas concorrenciais baseadas em salários baixos. Neste sentido, o que a crise internacional veio fazer é agravar ainda mais a crise interna dos últimos anos e deitar por terra a tímida recuperação económica registada em 2007. É neste contexto que o combate à crise internacional não deve ser feito sem tomar em linha de conta os problemas de competitividade que muitos dos nossos sectores produtivos têm demonstrado.
E, por isso, temos duas possibilidades: ou aproveitamos a crise para tentar combater as nossas deficiências de competitividade ou continuamos a fazer aquilo que temos vindo a fazer. Se optarmos por fazer aquilo que temos feito nos últimos anos, é simples. Só temos de pedir ao Estado para aumentar ainda mais as despesas públicas, mesmo que estas sejam feitas sem critérios de avaliação económica rigorosos ou sem olhar para as reais possibilidades financeiras do orçamento estatal. A tentação para o fazer será grande, até porque as regras do moribundo Pacto de Estabilidade não se aplicam quando as economias se contraem mais de 0,75% ao ano. No entanto, se o fizermos, iremos certamente agravar a situação orçamental sem retirar os proveitos económicos que urge alcançar.
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É certo que o fundamentalismo do défice dos últimos anos não nos tem ajudado. Numa altura em que a política fiscal oferecia a única possibilidade de estimular a economia por parte do Estado, preferimos embarcar num excessivo e dogmático conservadorismo fiscal, que penalizou o crescimento económico e penhorou a retoma económica. Porém, agora que seremos “autorizados” por Bruxelas a aumentar o défice orçamental, será um erro tremendo embarcar numa estratégica de aumento desmesurado das despesas públicas. A verdade é que gastar por gastar não tem levado a lado nenhum e não é crível que seja agora que tal estratégia nos irá conduzir à terra prometida do desenvolvimento económico.
É óbvio que temos de tentar minorar o impacto da recessão, principalmente em relação ao emprego. Todavia, não é realista pensar que a cura para as recessões passa necessariamente pela engorda do Estado. Não passa. Pelo menos em Portugal, onde a dimensão do Estado já é considerável em relação aos nossos congéneres europeus. Com efeito, se o fizermos, corremos o risco de hipotecar ainda mais a competitividade da economia portuguesa com o combate à crise actual, pois iremos, por certo, pagar impostos mais elevados no futuro.
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O que é que podemos então fazer? A alternativa é aproveitar a maior flexibilidade que a crise nos irá proporcionar em relação ao Pacto de Estabilidade para melhorar a competitividade fiscal das empresas e, por consequente, as suas próprias capacidades concorrenciais. Um futuro mais risonho para a economia portuguesa não passa por um Estado ainda maior e mais gastador. Um futuro melhor passa por mais empresas inovadoras e produtivas. Para o alcançarmos, nada melhor que aumentar a competitividade fiscal das empresas e oferecer os incentivos necessários para que a inovação não seja uma palavra vã no nosso dicionário."

5 comentários:

Cajó disse...

Creio q o jornalista deve ter lido o teu livro "Os Mitos da Economia Portuguesa"....

Cajo

Anónimo disse...

Tomei conhecimento deste blog há pouco tempo, desde então, tenho sido um leitor silencioso, aprecio muito os textos do Álvaro, bem como dos comentadores, como o tema é deveras sério e polémico resolvi também eu fazer um comentário.

Concordo quando diz que “Um futuro melhor passa por mais empresas inovadoras e produtivas”, isso é verdade, mas vamos ver quem são a maioria dos empresários que temos. A maior parte dos empresários portugueses são pessoas que entendiam de uma arte ou então porque viram o vizinho montar um negócio que lhe estava a correr bem e resolveram também arrancar com o seu. Surge o primeiro problema, o empresário pode saber trabalhar numa arte mas não tem formação para gerir, então julga que para ter preços competitivos deve manter os salários baixos, este foi, sem dúvida, um erro, até porque se mantemos os salários baixos não estamos a fomentar o poder de compra, logo a procura é menor. Julgo que o problema de Portugal reside fundamentalmente numa má gestão das empresas, aqui os governos têm muita responsabilidade, não se pode só querer cobrar impostos, tem que se formar e educar toda a sociedade empresarial.

Carlos

Rolando Almeida disse...

Olá Álvaro,
O seu último livro ainda não aterrou na Fnac do Funchal, cidade onde vivo, mas estou ansioso para lê-lo. Em relação a este texto no post: Um país para poder sair da crise tem de aumentar as suas exportações, para aumentar as suas exportações tem de ter produto competitivo. Para ter produto competitivo tem de ter conhecimento, ciência, para o fazer. E é precisamente isso que nós não temos. Agora, o que há a fazer? Parece uma ideia errada ficar agarrados à ideia de que não temos ciência. Uma solução é a que o Álvaro aponta: baixar impostos para incentivar as empresas. Mas essa postura terá de ser acompanhada com um investimento sério em educação e ciência. Sem isso não adianta, por si só, baixar a carga fiscal das empresas.
abraço e obrigado

Anónimo disse...

Ai Alvaro! Tudo o que tens para dizer é "flexibilidade" e " competitividade"? Mais valia falares da banha da cobra.

Antonio disse...

Eu sei que não se pode ser derrotista. Mas se os ultimos 8 anos foram porque estamos a aproximar-nos das eleições as inaugurações começam a reaparecer. E todos os dias o Governo faz promessas de enormes investimentos. Ficaemos endividados até ao tutano.

E flexibilidade em Portugal? Olhe-se o novo código do trabalho. Tem pequenissimas alterações.

E a mentalidade não muda. Vai ser preciso haver fome para que as pessoas entendam que os direitos só funcionam se se gerar riqueza e não apenas porque estão escritos.

Eu não quero ser pessimista mas é perfeitamente evidente que vamos de mal a pior.

Caro Álvaro, seja realista e não cone com melhoras.

Antonio