07 dezembro 2010

CUSTOS DA INSOLVÊNCIA

Às vezes ouvimos dizer que as dívidas dos países são como as dívidas das famílias, pois as consequências de um endividamento excessivo são parecidas. Será verdade? Não existirão diferenças? Claro que sim: existem semelhanças e também diferenças. Comecemos pelas semelhanças.
Quando o nível de endividamento é baixo, conseguir crédito a taxas pouco penalizadoras é relativamente simples, desde que existam rendimentos e/ou activos que possam servir de garantia. Porém, quando as famílias ou os Estados ficam demasiado endividados, a única forma de alcançar mais crédito é estar disposto a pagar juros mais altos ou taxas mais onerosas. É exactamente isto que nos está acontecer actualmente.
Porém, se chegarmos a um ponto em que as dívidas crescem mais rapidamente do que os rendimentos familiares ou do que o PIB nacional, a dívida torna-se insustentável e o incumprimento torna-se mais ou menos inevitável. E é aqui que começam as diferenças entre o endividamento familiar e nacional. Neste cenário, para as famílias pouco mais restará do que vender os seus bens e activos e declarar a insolvência. É provável então que os credores tentem recuperar os seus créditos nos tribunais ou por outros meios, a dívida terá que ser reestruturada, e as famílias ver-se-ão sem acesso aos mercados de crédito por uns anos. Os países também podem entrar em insolvência, mas, habitualmente, os credores não vêm atrás de nós, invadindo-nos o país para poderem cobrar as nossas dívidas.

E o que é que acontece quando os países não conseguem pagar as suas dívidas? Esta é uma questão que nos interessa, visto que as dificuldades actuais foram em parte provocadas pela nossa explosiva dívida externa, que já ultrapassou os 405,6 mil milhões de euros (quase 3 vezes o nosso PIB).
Ora, há quatro grandes custos relacionados com o incumprimento da dívida de um país. Primeiro, os países incumpridores perdem credibilidade e reputação junto da comunidade internacional. Segundo, as exportações e as importações dos países incumpridores tendem a diminuir após uma insolvência. Terceiro, o incumprimento é associado a um período de menor crescimento económico. Quarto, os governos responsáveis pelo incumprimento quase sempre perdem as eleições seguintes.
Por incrível que pareça, e contrariamente ao que costuma acontecer com as famílias e com as empresas, todos estes custos são essencialmente de curto prazo, tendo uma duração média de 2 a 3 anos. Passado a turbulência do incumprimento, quase sempre o crescimento económico reaparece, as exportações renascem e a perda de reputação é invertida. Ou seja, os custos económicos rapidamente se dissipam nos anos seguintes. Por isso, os grandes custos do incumprimento são políticos. Isto é, os governos são os que pagam a principal factura do incumprimento. É que os eleitores não costumam perdoar aos governos que conduziram o país para a humilhação de um incumprimento ou para uma situação em que o FMI é chamado a intervir. E é por isso que os governos costumam fazer o que podem para evitar este maldito cenário. 

Nota: dois artigos meus publicados no Notícias Magazine, mas combinados neste post.

5 comentários:

Anónimo disse...

Mal por mal, como já não vamos crescer tão cedo por causa do orçamento restritivo, se o governo fosse verdadeiramente patriótico (e conseguisse pensar claro) deveríamos entrar já em default...

Mas isso seria hara-kiri para o governo, portanto não acontecerá, que o interesse nacional não passa à frente do interesse partidário.

Estamos lixados.

SNG

Guillaume Tell disse...

Tudo isto é muito esclarecedor, mas bom, se nós declaramos insolvência é de apostar que Espanha também terá do fazer, depois a Itália, a seguir o Reino Unido etc.
Será assim tão pouco desagrádavel de declaramos todos falência, mostrar que somos fracos (para o orgulho nacional isto nâo é nada bom)? E o riscos
de caos social não é maior se declaramos falência?

Anónimo disse...

Há uma diferença entre a minha decisão de pedir emprestado hoje 150.000,00 euros para comprar uma habitação, e a decisão do Governo Central de pedir emprestado hoje 1.500.000.000,00 euros através de instrumentos do Tesouro Nacional para construir uma ponte.

Não é uma diferença conceptual. Não há diferença no conceito. A diferença principal é o montante.

É a diferença entre 150.000 euros e 1.500.000.000 euros.

Um empréstimo do Estado não se distingue pois de 10.000 créditos à habitação. Porque não há razões para que o Estado seja melhor pagador do que 10.000 cidadãos. Não há razões para além da razão pouco económica do Estado ter o poder legal para confiscar em contribuição, tributo ou imposto todo o dinheiro que entenda até àquele montante que dá origem à rebelião popular. Que eu me lembre, Maggie Thatcher é a única chefe de governo cos dias de hoje que conhece bem o valor deste montante.

Por isso, o incumprimento dum Estado não é diferente do incumprimento duma Família em linguagem financeira. É diferente em linguagem dita «política». Porque uma Família não é uma «polis», é uma «oikos». Na Família não há política. Há ordens para cumprir que são ditadas pelo chefe, o «despotes».

Obrigado.

F

Miguel Loureiro disse...

Eu costumo dizer que, nunca vi nenhum país ir à falência e agora percebi por que digo isto, que constato historicamente.
Daí que a Irlanda, por esse motivo, sempre retardou as ameaças do BCE/FMI e percebo agora que, só por razões políticas aceitou a "pena suspensa".
Esta explicação vem convencer-me de que pior não podemos estar e se rejeitarmos a ajuda (e o euro) ainda (ou só assim) temos hipóteses de melhorar.
Estou certo, ou estou errado?

Anónimo disse...

Será que alguma vez um país entrou em incomprimento dentro de uma união monetária? Será que vamos ser os primeiros na história?