18 fevereiro 2011

A DESCOLAGEM ESPANHOLA E O FMI EM PORTUGAL

A Espanha parece ter descolado definitivamente de Portugal na percepção de risco que os mercados têm dos países europeus em dificuldades. E é exactamente por isso que enquanto as nossas taxas de juros nos mercados secundários da dívida pública continuam a subir vertiginosamente, as taxas de juros das obrigações espanholas estabilizaram. Porquê? Porque como afirma um analista no Financial Times:
“Spain seemed to have grasped the seriousness of the eurozone crisis quite early on and have been doing and, just as importantly, saying the right things.”
Por outras palavras, as autoridades espanholas diagnosticaram e perceberam desde cedo (na Primavera de 2010) a gravidade da situação e actuaram em hesitação, cortando salários, extinguindo e fundindo entidades e organismos públicos, liberalizando as leis laborais e recapitalizando os seus bancos. Por isso, nos meses seguintes, a Espanha conseguiu estabilizar o seu défice orçamental e o défice da balança corrente desceu de forma significativa.
Em contrapartida, o nosso governo fez tudo para adiar a implementação das medidas de austeridade mais gravosas e, quando o fez (em Setembro de 2010) foi devido a uma execução orçamental verdadeiramente desastrosa e inexplicavelmente má. Ainda por cima, e apesar de termos reduzido os salários, fingimos levar a cabo uma reforma administrativa de 50 institutos e entidades públicas (muitas das quais já tinham sido extintas ou sujeitas a fusão), as reformas laborais foram demasiado modestas, e o objectivo do défice orçamental para 2010 só foi "alcançado" através de uma claro malabarismo contabilístico (com o fundo de pensões da PT) que não enganou ninguém (vale a pena lembrar que até o próprio Financial Times denunciou esta situação).
Ou seja, enquanto os espanhóis tentaram logo apagar o fogo da agitação financeira com reformas estruturais profundas e uma austeridade credível, nós andámos primeiro a proclamar ao mundo que o fogo não era nosso, optando  então por aplicar uma espécie de austeridade a conta gotas que começa a agora a ter reflexos muito negativos na economia nacional. E foi assim que, quando demos conta (em Setembro) que afinal o fogo também era nosso, já era demasiado tarde. Porquê? Porque, ao adiar uma pilula mais amarga da austeridade, ao fingir que tudo estava bem, e ao permitir uma derrapagem indesculpável das contas públicas no primeiro semestre de 2010, o governo acabou com toda e qualquer réstia de credibilidade que nos sobrava. Ou seja, a partir desse momento os mercados e os nossos parceiros europeus não mais acreditaram em nós. Os governantes dos outros países podem afirmar o contrário em grandes declarações de solidariedade europeia, mas a verdade é que já não crêem que nós (isto é, os nossos governantes) sejamos capazes de dar a volta à situação sem ajuda externa.
Durante uns meses, ainda tivemos o apoio do BCE na compra da nossa dívida pública, mas, pelo que parece, os nossos parceiros europeus e o banco central já chegaram à conclusão de que talvez não valha a pena fazê-lo. E, por isso, nas últimas semanas o BCE tem evitado a compra da nossa dívida soberana. Porquê? Por vários motivos. Primeiro, porque a melhoria da situação orçamental e financeira espanhola significa que, se Portugal tiver de aceder ao FEEF e ao FMI, o risco de contágio à Espanha é manifestamente menor. E se é assim, o BCE já não tem de ser tão interventivo nos mercados da dívida, pois, se a Espanha estiver segura, a estabilidade do euro está garantida (pelo menos por enquanto). Segundo, se o risco de contágio for realmente baixo, não faz grande diferença à Europa que Portugal seja forçado a recorrer ao FEEF e ao FMI. Portugal é demasiado pequeno para ameaçar a Zona Euro (a Espanha não é). Terceiro, como as autoridades portuguesas perderam toda e qualquer credibilidade devido aos descalabros orçamentais em 2009 e em 2010 e ao manifesto irrealismo das suas políticas económicas, é bem possível que uma "vinda" do FMI a Portugal seja até bem vista na Europa, pois, pelo menos, os nossos parceiros europeus (principalmente os alemães) terão finalmente a garantia de que as reformas que precisamos de fazer serão realmente efectuadas. 
Por isso, esta descolagem da Espanha parece ser o factor que nos irá levar conduzir ao cada vez mais inevitável recurso ao FEEF e ao FMI. A não ser que a Europa resolva mesmo reforçar e flexibilizar o FEEF e que uma "vinda" do FMI seja disfarçada de ajuda europeia, sem que o FMI esteja envolvido. O que não parece ser possível neste momento. No entanto, e, pelas declarações dos das autoridades portuguesas, este parece ser o cenário que o governo espera fervosamente que aconteça para que possa garantir a sua sobrevivência por mais uns meses. Ou seja, para o governo não interessa se a ajuda europeia seja feita com condições altamente exigentes ou até em contrapartida de uma maior perda de soberania económica do nosso país. Para o governo, o que interessa é que essa ajuda não se esteja associada ao FMI. É tão simples como isso. Não falta muito para sabermos quem é terá razão.

MATERNIDADES PLANETÁRIAS

Pela primeira vez, cientistas conseguiram observar os chamados discos proto-planetários, onde os planetas dos diversos sistemas solares se formam. A imagem acima é exactamente desta maternidade de planetas e a notícia sobre esta descoberta pode ser vista aqui e aqui.

17 fevereiro 2011

GRANDES PROGRESSOS

Às vezes estamos tão absortos com a crise e com o curto prazo que esquecemos os enormes progressos que foram alcançados pelo nosso país no último meio século. Um dos grandes avanços foi na Saúde, pois, no espaço de 2-3 décadas, os nossos indicadores passaram da média que costumam caracterizar os países em desenvolvimento para a média dos países avançados (i.e. da OCDE).
Um destes indicadores é o da esperança média de vida. Em 2007, as mulheres portuguesas tinham uma esperança média de vida de 82,3 anos, uma média superior à média da OCDE, que era de de 81,7 anos. Em comparação, em 1960, a esperança média de vida das mulheres portuguesas era de somente 66,6 anos, enquanto a média da OCDE era de então de 70,8 anos. Para os homens, os valores respectivos para Portugal eram 61 anos em 1960 e 75,5 anos em 2007. Um progresso assinalável, portanto.
Aliás, um progresso ainda mais notável se nos lembrarmos que Portugal foi o país europeu onde este indicador mais progrediu nos últimos 50 anos, e o quarto países da OCDE que registou uma melhoria mais substancial na esperança média de vida dos homens e das mulheres.
Para que possamos visualizar estes progressos, o gráfico abaixo apresenta os anos adicionais da esperança média de vida das mulheres nos países da OCDE entre 1960 e 2007:

  Fonte: OCDE

PERGUNTAS INQUIETANTES

Perguntas que gostaria de ver respondidas: 
i) Quanto é que nos está realmente a custar o financiamento da dívida pública a estas taxas de juros em relação ao que nos poderia custar esse mesmo financiamento se recorressemos ao FEEF e ao FMI? Valerá a pena resistir a um financiamento mais barato (se for bem negociado) só para manter o governo em funções?
ii) Sabendo que financiamento da dívida a estas taxas de juros irá dar azo a centenas de milhões de euros adicionais em pagamentos de juros, onde é que o governo vai cortar ou que impostos vai subir para conseguirmos cumprir as metas do défice orçamental? Ou será que vamos absorver mais alguns Fundos de Pensões para fingirmos que está tudo sobre controlo?

MEIO BAILOUT

O Wall Street Journal fez uns cálculos a partir de um relatório da Comissão Europeia e chegou à conclusão de que os montantes do FEEF e do FMI não são suficientes para garantir as necessidades de financiamento da economia irlandesa até 2013. Aliás, tal como tinha acontecido com a Grécia. Mais concretamente, o WSJ estima que os fundos do bailout não chegam para a necessária recapitalização dos bancos irlandeses. Talvez só dêem para garantir metade do financiamento necessário. Deste modo, a Irlanda ainda terá de se financiar junto dos mercados financeiros, bem como dos aforradores irlandeses. De acordo com os cálculos do WSJ, as necessidades de financiamento irlandesas entre 2010 e 2013 são as seguintes:

€ billions Dec. 2010 + 2011 2012 2013 Total
Public-sector financing needs 40.2 29.5 29.2 98.9
+Bank recapitalization needs 25 5 5 35
=Total financing needs 65.2 34.5 34.2 133.9
-EU/IMF bailout money 42.9 19.7 5 67.5
-Use of Ireland’s own cash 12.5 2.5 2.5 17.5
=What’s left and needs to be raised 9.8 12.3 26.8 48.9
Tabela retirada daqui: (WSJ)


Seria bom que os nossos governantes estivessem bem atentos às lições a retirar dos bailouts da Grécia e da Irlanda, em caso de termos de recorrer também ao resgate do FEEF e do FMI. É que, se tal acontecer, é melhor que estejamos bem preparados, para que possamos ter uma posição negocial mais forte e mais esclarecida. Mas, claro, há sempre uma alternativa: podemos sempre culpar a Europa por não reforçar e flexibilizar os mecanismos de financiamento.

DATAS CRITICAS

Um calendário de algumas datas críticas para a Europa em 2011, incluindo as datas e os montantes de financiamento da dívida pública de Portugal e de Espanha (retirado daqui):

16 fevereiro 2011

619 MIL DESEMPREGADOS

Segundo os últimos dados do INE, já há 619 mil desempregados em Portugal, o que corresponde a uma taxa de desemprego de 11,1%. É a primeira vez desde que há registos que a taxa de desemprego se situa acima dos 11%. Em comparação, no último trimestre de 2009 o número de desempregados era de 563 mil. Ou seja, 56 mil novos desempregados só no ano passado, dos quais 40 mil são mulheres.
Outro dado preocupante é o número de desempregados de longa duração (i.e., desempregados há mais de um ano), que não pára de aumentar. Já são 327 mil. Só em 2010, o número de desempregados de longa duração aumentou nada mais nada menos do que 20,8%. Esta tendência é bastante alarmante, pois é sabido que o desemprego de longa duração é mais difícil de combater.   
Por região, as taxas de desemprego no último trimestre de 2011 variam muito (ver quadro). No Algarve já há quase 15% de desempregados, enquanto em Lisboa (12,3%) e na região Norte (12,7%) a taxa de desemprego já está acima dos 12%. Em relação a 2009, o desemprego subiu em todas as regiões, com a excepção dos Açores:


  Taxa de desemprego
Portugal 11.1
Norte 12.7
Centro 7.7
Lisboa 12.3
Alentejo 11.2
Algarve 14.8
Açores 7
Madeira 7.5

Finalmente, por grau de ensino, o desemprego aumentou em todos os grupos. Mais concretamente, a comparação do número de desempregados por nível de ensino entre o último trimestre de 2009 e o último trimestre de 2010 é a seguinte:


 4º trimestre 2009       4º trimestre 2010
Até ao Básico - 3º ciclo 412.4 418.5
Secundário e pós-secundário 95.9 124.9
Superior 55 75.6


Resumindo, o flagelo do desemprego está a aumentar a um ritmo muito preocupante. Infelizmente, este é um tema que, inexplicavelmente, continua fora da agenda política e é pouco retratado nos meios de comunicação social. Seria bom que os vários partidos começassem a dedicar mais atenção ao tema e apresentassem soluções concretas sobre como combater este enorme drama social e pessoal. 

15 fevereiro 2011

E SE OS FILHOS NÃO PAGAREM?

Todos nós sabemos que uma percentagem considerável dos nossos pensionistas vive em situações bastante precárias e difíceis. Porém, sabia também que, mesmo assim, Portugal é o quarto país da União Europeia que mais gasta no sistema de pensões? Pois é, é verdade. Só a Itália, a França, e a Áustria gastam mais nos seus sistemas de pensões (em percentagem do PIB) do que nós. Todos os outros países europeus da UE27 despendem bem menos do que nós com os seus pensionistas. Para além das razões que estão por detrás deste fenómeno, interessa perguntar: se o nosso sistema de pensões é assim tão caro, será que é sustentável? 
Talvez sim, ou talvez não. Esta pergunta faz sentido porque as nossas pensões são essencialmente baseadas no chamado sistema “pay as you go”, ou seja, são os trabalhadores no activo (ou seja, as gerações mais jovens) que financiam a maior parte das subvenções dos pensionistas. Só que, se é assim, será que não poderemos chegar a uma situação em que os mais jovens se recusem a pagar as reformas dos mais velhos? É certo que até agora, as gerações novas aceitaram financiar grande parte das pensões dos mais velhos. Todavia, tal só tem sido possível por duas razões. Primeiro, porque a economia nacional cresceu bastante nas últimas décadas e os rendimentos também aumentaram. Assim, as gerações mais novas não se importaram de utilizar parte dos aumentos de rendimentos para ajudar as gerações mais velhas. Em segundo lugar, as gerações mais novas têm aceitado suportar os mais idosos, porque, até agora, esperavam usufruir das mesmas regalias quando eles(as) também fossem mais velhos.
E aqui é que está o problema. Actualmente, a economia nacional pouco ou nada cresce (e assim os rendimentos pouco sobem), e, ainda por cima, começam a surgir algumas dúvidas se será possível financiar adequadamente as pensões das gerações mais novas quando estas tiverem idade para se reformar. Deste modo, não é inteiramente descabido pensar que, daqui a uns anos, os nossos filhos possam decidir não financiar as nossas reformas. Porquê? Porque não só o sistema de pensões actual não é inteiramente sustentável, mas também (e principalmente) porque o presente endividamento da economia nacional é muito elevado. E se nós vamos legar aos nossos filhos dívidas muito pesadas, como é que nos podemos admirar se eles um dia se virarem para nós e se recusarem financiar as nossas próprias pensões? E se eles(as) o fizerem, quem os(as) poderá condenar por isso? 
  
Notícias Sábado, 12 Fevereiro 2010

14 fevereiro 2011

ABRA UMA CONTA E SALVE O PAÍS

Ainda a propósito da necessidade de aumentar a poupança, aqui está um artigo que escrevi há alguns meses:
"Está preocupado(a) com uma possível insolvência de Portugal? Quer ajudar o seu país? Se sim, há uma pequena grande coisa que pode fazer. Se puder, pegue em 10, 20 ou mesmo 50 euros e vá abrir uma conta de poupança, um depósito a prazo ou faça uma outra aplicação financeira. Depois, nos próximos meses, faça exactamente o mesmo: pegue em 10, 20 ou 50 euros do seu ordenado e deposite-os no seu banco. Ao fazê-lo, estará a estimular a poupança interna, ajudando a limitar o financiamento externo da economia portuguesa, que é um dos nossos grandes desafios actuais.
Eu sei, eu sei. Hoje em dia, a rentabilidade dos depósitos é fraca, pois as taxas de juros estão historicamente baixas. Mas não se preocupe. As taxas não vão ficar baixas para sempre. Aliás, é até natural que nos próximos meses comecemos a ver os juros a subir. Quando tal acontecer, a rentabilidade das suas poupanças aumentará.
Aliás, a situação nacional chegou a tal ponto que nem é preciso esperar que o BCE suba as taxas de juros. Com efeito, os bancos estão hoje a oferecer juros cada vez mais vantajosos para os depositantes. Porquê? Porque os bancos nacionais têm tido uma dificuldade enorme em se financiarem no exterior. Por isso, os bancos têm procurado encontrar no mercado interno os fundos que não conseguem lá fora. E é assim que há actualmente uma enorme apetência pelo dinheiro de todos nós. Assim, tem mais um motivo para pegar nos tais 10, 20 ou 50 euros, e ir a um banco depositá-los. Ganha o país, ganham os bancos, e as suas poupanças permitir-lhe-ão um futuro com mais opções." 
Notícias Magazine, Setembro de 2010.

13 fevereiro 2011

LIVRO TERMINADO

Acabei de terminar a escrita do meu novo livro. Ainda não sei qual será o título definitivo (o provisório é "Como retomar o sucesso: O que fazer para vencer a crise nacional"), mas estou obviamente muito satisfeito por ter acabado. Foi uma longa, mas recompensadora viagem, em que acabei por aprender muitas coisas e abordar outras que nunca tinha investigado.
O livro acabou por ser muito diferente do que tinha sido inicialmente planeado. Era para ser um livro de finanças públicas escrito em co-autoria, mas acabou por ser não só um livro só meu, mas também, e principalmente, acabou por ficar um trabalho muito mais abrangente do que a mera questão das contas públicas (que permanece um dos temas, mas não o tema, deste trabalho).
Foi um livro bastante exigente, não só porque abarca temas muito diversos, mas também porque tenta apresentar medidas concretas para a crise nacional. 
A premissa principal é que Portugal vive hoje três grandes crises: a crise das finanças públicas, a crise da competitividade (e do crescimento anémico), e a crise do endividamento externo. Todas estas crises são analisadas de uma forma bastante detalhada em capítulos estanques, onde se tenta perceber os factores que conduziram ao seu aparecimento.
Foi nestes capítulos que estimei, calculei e abordei alguns dos temas que tenho vindo a falar aqui no Desmitos, desde a emigração à dívida pública e ao endividamento externo.
Porém, e dada a gravidade da situação actual, pensei que não podia ficar por um mero diagnóstico da situação. Afinal, toda a gente sabe (ou devia) quais foram os factores que contribuiram para a situação actual: uma difícil adaptação ao euro, a concorrência nos mercado internacionais de países como a China, a descida da produtividade nacional e a irresponsabilidade e as más políticas dos últimos anos. 
O que faltam são soluções. E é por isso que passo metade do livro a discutir possíveis soluções para os nossos principais problemas e para cada uma destas crises. Muitas destas soluções já têm sido abordadas no debate público, mas muitas outras não. 
Não sei se este é o meu melhor livro de Economia (não sou eu quem deve julgar), mas é seguramente uma análise muito abrangente da economia portuguesa. E quer as pessoas gostem das propostas do livro ou não, penso que o importante é debater soluções concretas para que possamos perceber o que é que uma nova política económica pode (e deve) oferecer em contraponto à irresponsabilidade e à incúria dos últimos anos.
A nível pessoal, o mais difícil está feito. Agora, são alguns dias intensos de revisões para depois enviar o manuscrito ao editor, o que decerto dará azo a mais e novas revisões. Se tudo correr como esperado, o livro será publicado em Abril pela Gradiva.

Para quem estiver interessado(a), os capítulos do livro têm os seguintes temas:
1. A crise de um século
2. A Grande Recessão Portuguesa
3. A crise das Finanças Públicas
4. A crise da competitividade
5. Um país endividado
6. Como atingir o equilíbrio orçamental e baixar a Dívida Pública
7. Como fomentar a competitividade
8. Como combater o endividamento externo
9. Políticas para retomar o sucesso
10. Retomar o sucesso

11 fevereiro 2011

RAZÕES PARA A CENSURA

Nas próximas semanas vamos debater até à exaustão as razões da moção de censura do Bloco de Esquerda, bem como se o PSD e o CDS devem aprovar um texto que terá certamente uma forte componente ideológica para poderem derrubar o governo. É claro que o timing interessa até porque um dia após a votação da moção, no dia 11 de Março, a Europa irá debater os mecanismos de reforço do FEEF. A recente instabilidade nos mercados financeiros será igualmente utilizada pelo governo para se vitimizar e para acusar a oposição de falta de patriotismo. No entanto, e independentemente, do texto da moção, ou de saber se o "FMI" chega em Março ou em Maio (ou até de saber se a Europa vai fazer do papel do FMI), não seria mais racional pensarmos no estado a que o país chegou? Para quem não sabe, aqui vão uns gráficos que ilustram bem a situação actual:
 
1) A média do crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos
Fonte: Santos Pereira (2011)

2) A dívida pública é a maior dos últimos 160 anos

Dívida pública portuguesa em % do PIB, 1850-2010
Fonte: Santos Pereira (2011)

3) A dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892)

Dívida externa bruta em % do PIB, 1999-2010
Fonte: Santos Pereira (2011)
 
4) O desemprego é, no mínimo, o maior dos últimos 80 anos. Temos 610 mil desempregados, dos quais 300 mil são de longa duração

Taxa de desemprego em Portugal, 1932-2010
Fonte: Santos Pereira (2011)

5) Voltámos à divergência económica com a Europa, após décadas de convergência

PIB per capita português em % do PIB per capita da Europa Avançada 
Fonte: Santos Pereira e Lains (2010)

6) Vivemos actualmente a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos

Emigração portuguesa (milhares de pessoas), 1850-2008

Fonte: Santos Pereira (2010)

7) Temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos

Taxa de poupança bruta, 1960-2010
Fonte: AMECO, Santos Pereira (2011)

Isto já para não falar naquilo que se transformou a Justiça, nos problemas constantes e no facilitismo reinante no sector da Educação, no abuso inter-geracional que foi feito com as parcerias público-privadas, no endividamento recorde da economia nacional, no despesismo e no compadrio do Estado, entre muitos, muitos outros problemas. Por outras palavras, as verdadeiras razões de uma censura ao governo são muito claras. Muito claras mesmo. Só não vê quem não quer.

10 fevereiro 2011

A FRENTE DO EURO

Mais um artigo do Financial Times sobre a dívida portuguesa, caracterizando-nos agora como estando na frente da batalha do euro. Aqui está um excerto:
"Significantly, the European Central Bank has been the only major buyer of Portuguese debt in recent months. However, the latest ECB figures show that the bank has not bought any government bonds in the past two weeks, which explains the drift higher in Portuguese yields. Strategists say a summit of European leaders in March will determine whether Lisbon will have to follow Greece and Ireland in seeking emergency support. One fund manager said: “We are at a key moment in the eurozone crisis and Portugal is on the frontline. We will know soon whether Lisbon will have to accept a bail-out or not. That is the next test for the eurozone.”

UM PAÍS TECNOLÓGICO (3) _ TELEMÓVEIS

Mais um facto interessante da base de dados da OCDE: Portugal é um dos países com mais assinaturas de telemóveis por 100 habitantes. O mesmo é verdade para o número de telemóveis pré-pagos por 100 habitantes, onde estamos igualmente no top 5 da OCDE. Ora, aqui está o verdadeiro Plano Tecnológico sem ter sido planeado. Nós somos verdadeiramente apaixonados pelos nossos telemóveis. 
Aliás, não é à toa que muitas das nossas melhores empresas inovadoras nos últimos anos estão associadas exactamente a este sector.

Assinaturas de telemóveis por 100 habitantes
Fonte: OCDE

MEA CULPA DO FMI

O FMI faz mea culpa num relatório onde se procura perceber por que é que os mecanismo de aviso do Fundo não detectaram os sinais de alarme que conduziram à crise financeira de 2008. Há muitas razões para que tal tenha acontecido, mas a mais provável é que, antes de 2007, quase toda a gente pensava que uma crise financeira nos Estados Unidos e nos países desenvolvidos era praticamente impossível, e que os mercados corrigiriam naturalmente os desequilíbrios que aparecessem. Estavamos todos (ou quase todos) enganados. É exactamente isso que nos diz o relatório do FMI. Aqui está um excerto:
"[The report] finds that the IMF provided few clear warnings about the risks and vulnerabilities associated with the impending crisis before its outbreak. The banner message was one of continued optimism after more than a decade of benign economic conditions and low macroeconomic volatility. The IMF, in its bilateral surveillance of the United States and the United Kingdom, largely endorsed policies and financial practices that were seen as fostering rapid innovation and growth. The belief that financial markets were fundamentally sound and that large financial institutions could weather any likely problem lessened the sense of urgency to address risks or to worry about possible severe adverse outcomes. Surveillance also paid insufficient attention to risks of contagion or spillovers from a crisis in advanced economies. Advanced economies were not included in the Vulnerability Exercise launched after the Asian crisis, despite internal discussions and calls to this effect from Board members and others...
The IMF’s ability to correctly identify the mounting risks was hindered by a high degree of groupthink, intellectual capture, a general mindset that a major financial crisis in large advanced economies was unlikely, and inadequate analytical approaches."

O relatório completo pode ser lido aqui.

ATLÂNTIDA PERDIDA

O Google Ocean anda a causar furor, não só porque  tem potencialidades bastante interessantes, mas também porque há quem diga que a sua utlização pode ter permitido a descoberta da cidade mítica da Atlântida. As imagens são, sem dúvida, curiosas.

10 BLOGUES

O Diário Económico recomenda 10 blogues que podem ser úteis para investidores.

09 fevereiro 2011

UM PAÍS TECNOLÓGICO (2)

Prosseguindo a análise dos dados mais recente dos dados da OCDE sobre o sector tecnológico e das tecnologias de informação e comunicação, vale a pena olhar para a percentagem do emprego tecnológico no sector empresarial ("business sector" em inglês, e que inclui tudo que não seja Estado e particulares), que é responsável por mais de dois terços do valor acrescentado dos países da OCDE.
Neste sentido, se atentarmos para o gráfico abaixo, não é dificil verificar o enorme atraso que ainda temos nesta área. Portugal é o país da OCDE que tem a percentagem mais baixa de emprego tecnológico no sector empresarial. Assinale-se que estes dados não incluem a Islândia, o México, a Nova Zelândia, a Polónia e a Turquia e, por isso, talvez a nossa posição relativa não seja tão má. Talvez até estejamos à frente dos turcos e dos mexicanos. De qualquer maneira, e mais uma vez, é fácil de ver que da propaganda à realidade vai uma grande distância.

Percentagem de emprego tecnológico no emprego do sector empresarial

Fonte: OCDE (2010), Information Technology Outlook

Quem desejar consultar estes dados pode fazê-lo aqui.     

EXPORTAÇÕES E BALANÇA COMERCIAL

É obviamente uma óptima notícia que as exportações cresceram 15,7% em 2010, enquanto as importações "só" subiram 10,2%. Ainda assim, é preciso perceber o que é que está em causa. Como o nosso défice externo é elevado (as exportações são apenas 64,8% das importações), esta diferença de crescimento não foi suficiente para fazer melhorar o défice comercial português. Bem pelo contrário. O défice comercial agravou-se em 2,1% em 2010, e assim a nossa posição externa continuou a deteriorar-se.
Para que tal não aconteça, é preciso que as exportações continuem a crescer bem mais rapidamente do que as importações nos próximos anos. De acordo com os cálculos de Francesco Franco, se as exportações e as importações continuassem a expandir-se a este ritmo, somente em 2012 é que o valor absoluto do défice comercial parava de aumentar, e só em 2019 é que as exportações se tornariam mais elevadas do que as importações, ajudando finalmente a colmatar o défice da balança corrente. Por outras palavras, a este ritmo, precisamos de quase uma década para que o défice comercial se torne num excedente comercial. Ou seja, o caminho a percorrer para atingirmos o equilíbrio externo é longo, muito longo mesmo. E, ainda por isso, temos contra nós o peso da história, pois o último excedente comercial aconteceu há cerca de 70 anos, em plena Segunda Guerra Mundial. 
Por isso, e apesar de devermos saudar o bom comportamento das nossas exportações (em linha, aliás, do que aconteceu na Europa e recuperando parte da descida abrupta do comércio internacional em 2009), é bom que mantenhamos os pés bem assentes na terra e percebamos de uma vez por todas que vão ser precisos muitos anos como 2010 para que o défice externo seja finalmente debelado.

AINDA O PACTO DA "COMPETITIVIDADE"

O editorial de hoje do Financial Times faz um bom sumário do Pacto de "Competitividade" proposto pelo governo alemão:
"The pact for competitivenes is Germany’s price for displaying a readiness to be the eurozone’s financial guarantor. But it smacks too much of a German attempt to recast the eurozone in its image."

08 fevereiro 2011

DESEMPREGO RECORDE

Como aqui já mencionei várias vezes, se há algo que nos devia preocupar verdadeiramente é o rápido e sustentado crescimento do desemprego. E como não há nada como pôr as coisas em perspectiva, aqui vai mais um gráfico do meu novo livro. É visível que a taxa de desemprego actual é a mais alta desde, pelo menos, 1930. Ou seja, temos hoje a taxa de desemprego mais elevada dos últimos 80 anos. É igualmente visível que a subida do desemprego precede em vários anos a crise internacional. A verdade é que a taxa de desemprego tem vindo a subir desde o ano 2000. Isto apesar da nova vaga de emigração que tem caracterizado os últimos anos. Se não fosse a emigração, o desemprego seria certamente bem mais dramático.

Taxa de desemprego em Portugal, 1932-2010
Fonte: Santos Pereira (2011)

FMI OU NÃO, EIS A QUESTÃO

No dia em que o jornal Expresso fazia manchete que, afinal, já não vinha aí o FMI (logo veremos), saiu um artigo meu onde explico o que é que poderia acontecer se chegarmos exactamente a esta situação, isto é, se nos virmos forçados a recorrer ao FEEF e ao FMI. Aqui está o artigo:

"O que acontecerá se Portugal for forçado a recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e ao FMI? Quais serão as mudanças no nosso dia-a-dia? Para podermos responder a estas questões, vale a pena perguntar: será inevitável a vinda do FMI? Sim, é quase certo que tenhamos de recorrer ao FEEF e ao FMI ainda este ano. Porquê? Porque os nossos desequilíbrios financeiros e orçamentais são de tal modo graves e elevados, e o ataque especulativo aos países europeus endividados tem sido tão cerrado, que nos será muito difícil evitar o recurso ao FEEF e a subsequente vinda do FMI. A grande dúvida que ainda permanece não é “se” tal irá acontecer, mas sim “quando” é que isso irá ocorrer? 
Aliás, a única razão que poderá adiar a activação do FEEF e a entrada do FMI no nosso país é de natureza política: o governo sabe que será responsabilizado politicamente e pela própria História se o país tiver de se socorrer do FEEF e do FMI. Por isso, o governo fará todos os possíveis e os impossíveis para evitar cair nessa situação. Mesmo que, para isso, tenhamos de pagar juros insustentáveis ou que o financiamento do Estado Social fique numa situação muito difícil por causa do serviço da nossa dívida pública explosiva. Todavia, e apesar da previsível resistência por parte do governo, é muito natural que, mais cedo ou mais tarde, nos vejamos mesmo forçados a valermo-nos do FEEF e do FMI. Por isso, interessa questionar: o que é que acontecerá se o FMI cá vier? Será mesmo o fim do nosso mundo? O descalabro económico? Não, claro que não. Bem longe disso. Certamente que, com o FMI, teremos mais austeridade, o que tornará uma recessão em 2011 ainda mais certa. No entanto, isso não é propriamente uma novidade, visto que as projecções mais recentes do Banco de Portugal já prevêem uma recessão para o nosso país. Com ou sem FMI. Ou seja, não é pela austeridade ou pela falta dela que o FMI virá cá ou não. 
Mas, será verdade que o FMI nos obrigaria a fazer novas reduções salariais? Provavelmente não. É possível que as reformas acima dos 2500 ou 3000 euros fossem afectadas, mas não é crível que o FMI optasse por um novo corte salarial. Porquê? Porque não só não existiria vontade política para o fazer, mas também porque os riscos de uma convulsão social seriam bastante elevados. Por isso, os custos de um novo corte de salários seriam bastante mais altos do que os benefícios, diminuindo a eficácia de tal medida. 
Dito isto, parece-me evidente que há toda uma série de factores que estariam associadas a um recurso ao FEEF e ao FMI. Em primeiro lugar, decerto que o FMI insistiria numa nova reforma laboral e uma maior flexibilização do nosso mercado de trabalho. Porquê? Porque todas as organizações internacionais apontam a rigidez do nosso mercado de trabalho como uma das razões para a fraca competitividade da economia nacional. Deste modo, é mais do que natural que o FMI (e os nossos parceiros europeus) desse uma grande ênfase à reforma do mercado de trabalho para ajudar a melhorar a competitividade das nossas exportações. 
  
Em segundo lugar, a chegada do FMI certamente significaria uma actualização dos preços praticados pelas empresas públicas de transportes e uma redução de custos das restantes empresas do Estado. Para bem ou para mal, muitas das nossas empresas públicas são cronicamente deficitárias, muitas das quais pertencem ao sector dos transportes. Estão nestas circunstâncias empresas como a Carris, a Refer, e os Metros de Lisboa e do Porto. Estes défices crónicos têm contribuído para um crescente endividamento das empresas públicas, que tem rondado os 3 mil milhões de euros ao ano. Como é evidente, mais cedo ou mais tarde, este endividamento terá de ser pago. Como? Com os nossos impostos ou com os impostos dos nossos filhos (isto é, com a emissão de mais dívida pública). 
Estes défices crónicos das empresas públicas são em parte explicados pelos preços praticados por estas empresas, bem abaixo do que seria aconselhável para garantir a saúde financeira destas empresas. Por isso, e para garantir a sustentabilidade destas empresas e das contas públicas nacionais, é muito natural que o FMI sugerisse ao nosso governo uma actualização significativa dos preços praticados por estas empresas. 
  
Em terceiro lugar, é natural que o FMI recomendasse uma redução de algumas prestações sociais, de forma a garantir uma maior sustentabilidade das nossas contas públicas. Por último, certamente que o FMI iria exigir auditorias abrangentes às nossas contas públicas, bem como uma maior transparência das mesmas finanças do Estado.
Tudo somado, ficamos a saber que o FMI não é nenhum papão nem nos vai conduzir ao abismo. Muitas destas medidas teriam de ser implementadas, agora ou mais tarde. A diferença é que, de uma vez por todas, o FMI nos vai obrigar a fazer aquilo que continuamos a fingir que andamos a fazer. Ou seja, limitar os défices orçamentais e a dívida pública. Uma diferença que, decerto, fará toda a diferença e que, ironicamente, poderá contribuir para que o nosso país regresse finalmente à senda do crescimento económico."

Notícias Sábado, 5 de Fevereiro

CRISES GÉMEAS

O Pedro Lains fala aqui das "crises gémeas" de 1891-1892 e de 2009-2011. Dentro de uns meses teremos mais novidades sobre esta investigação.

07 fevereiro 2011

O PACTO DA "COMPETITIVIDADE"

Ainda não se conhecem todos os contornos do "pacto de competitividade" que os governos alemães e franceses querem tentar impor aos países europeus em dificuldades para que estes vejam garantidas as suas necessidades de financiamento para os próximos anos. Ainda assim, vão-se conhecendo alguns pormenores que não nos podem deixar de ficar inquietos sobre o que está a ser planeado em contrapartida a uma eventual ajuda financeira. 
Como era de esperar, o nosso governo já reagiu, defendendo o pacto e uma maior harmonização de políticas económicas dos vários estados membros. É natural que assim seja, pois esta é porventura a última réstia de esperança que o governo tem para evitar a "chegada" do FMI e o recurso ao Fundo de Estabilização. Ora, sabendo que o Presidente da República afirmou na campanha eleitoral que um hipotético recurso ao FMI e ao FEEF seria um sinal de que o governo tinha falhado, o pacto alemão e francês (se for aprovado) é uma autêntica lufada de ar fresco nas esperanças do governo de permanecer no poder por mais uns tempos.
No meio de isto tudo, e como é óbvio, o que importa para o governo não é o interesse nacional, mas sim a sua mera sobrevivência a todo o custo. Por mais que isso prejudique o país ou por mais que tenhamos de hipotecar a soberania económica que nos resta. Tudo, como é evidente, em nome do projecto europeu e da estabilidade do euro. Enfim...
Sinceramente, acho que antes de tomarmos uma decisão final, é importante ponderar muito bem o que está em causa e quais são as condições que nos vão ser impostas. A verdade é que, assim como refere Wolfgang Münchau num importante artigo de opinião no Financial Times de hoje, não há nada do que foi agora proposto pelos governos alemães que resolva de forma definitiva a necessidade de haver uma recapitalização dos bancos europeus e uma eventual reestruturação da dívida da Grécia, da Irlanda, e, sim, de Portugal (digo eu). 
Como Münchau afirma, e bem: "The idea that Greece and Ireland can pay back their debt in full, and on time, is a triumph of hope over everything we know from the history of financial crises." Mais: os custos deste pacto da "competitividade" poderão ser totalmente irrazoáveis em termos do que poderemos de ter de dar em troca para podermos desfrutar desta generosa solidariedade europeia. Ainda nas palavras de Münchau "A rise in southern European competitiveness is not something you can agree on over dinner. It will require a massive loss of national sovereignty and deep incisions in national wage bargaining systems." 
Nem mais. Por isso, interessa perguntar: estaremos mesmo dispostos a fazê-lo só para garantir que o governo se mantenha em funções por mais uns meses? Temos mesmo a certeza de que vale a pena hipotecar a pouca soberania que nos resta para que possamos evitar a "chegada do FMI" e o recurso ao FEEF? Que solidariedade europeia é esta em que os governos dos países periféricos se vêem (por culpa própria, admito) obrigados a ceder soberania nas políticas fiscais e económicas para o eixo franco-alemão? E, ainda mais significativamente, quem é que nos garante que esta transferência de soberania não será em vão? Quem é que nos garante que, mesmo se cedermos às pretensões dos governo alemães e franceses, dentro de um ou de dois anos não nos veremos obrigados a reestruturar as nossas dívidas e a recapitalizar os nossos bancos? Ninguém, como é evidente.
O problema é que, nessa altura, a soberania económica que nos restava já poderá estar irremediavelmente perdida, mas poderemos, mesmo assim, vermo-nos forçados a fazer os ajustamentos que devíamos fazer agora. 
Mas, isso não interessa. Isso são problemas para outros resolverem. Nessa altura o inenarrável governo actual já não estará cá para ter de lidar com os problemas que criou. Entretanto, o que importa é que a perda da pouca soberania económica nacional que nos resta é um mal menor quando o que está em causa é a solidariedade europeia, a estabilidade  do euro, e, claro, a manutenção do nosso benemérito governo.

UM PAÍS TECNOLÓGICO

Por de trás de toda a retórica que rodeia as reformas "modernizadoras" dos últimos anos, há estatísticas que não mentem. Esta é uma delas: a percentagem de famílias portuguesas com acesso à internet ainda está bem abaixo da média europeia e ainda mais abaixo da média da OCDE.

Gráfico_ Percentagem de famílias com acesso à internet
Fonte: OCDE (2010)

06 fevereiro 2011

AHLUWALIA

Para quem gosta de World Music, aqui fica a sugestão do novo álbum da indo-canadiana Kiran Ahluwalia, que conta com a participação das bandas Tuareg do Mali, os conhecidos Tinariwen e os Terakaft. O álbum é uma interessante fusão dos ritmos indianos e dos sons do deserto do Saara. Vale a pena descobrir.

05 fevereiro 2011

UMA NOVA RECEITA MÁGICA

Para quem pensa que uma eventual união política da Europa ou que uma maior coordenação fiscal entre os Estados  membros da União resolverá todos os nossos problemas e fará com que o nosso futuro seja caracterizado pelo crescimento e pela convergência económica, vale a pena lembrar alguns exemplos de algumas regiões em importantes uniões políticas: Alabama e Louisiana nos Estados Unidos. Mezzogiorno italiano. Trás-os-Montes em Portugal. Terra Nova no Canada. Chiapas no México. Cornwall no Reino Unido. Não seria difícil encontrar dezenas de outros exemplos, se quisesse ser mais exaustivo.
Por outras palavras, lá por existirem redistribuições fiscais das regiões mais ricas para as mais pobres nas uniões políticas, não quer dizer que as regiões mais pobres  vão crescer e desenvolverem-se. Nada é assim tão automático ou tão simples.
Ou seja, é uma ilusão pensar que uma união política europeia é uma receita mágica para o desenvolvimento nacional. Não é. Nem hoje, nem nunca.

04 fevereiro 2011

LEGADOS DESTE GOVERNO _ TAXA DE POUPANÇA

Um dos legados mais dramáticos, mas infelizmente pouco falados, dos últimos anos tem sido uma diminuição muito acentuada da taxa de poupança nacional. Actualmente, a taxa de poupança bruta é a mais baixa dos últimos 50 anos. Isto porque não temos dados anteriores a 1960. Se tivessemos, certamente que não seria difícil verificar que a taxa de poupança actual é a mais baixa desde os conturbados anos 1920. Esta descida da poupança nacional é ainda mais significativa se nos lembrarmos que, durante quase todo o século 20, Portugal era dos países europeus que registava taxas de poupança bastante altas. Ou seja, já fomos um povo bastante aforrador, mas agora já não o somos. E este facto está no centro de muitas das nossas dificuldades actuais.
A descida da poupança nacional tem várias explicações, mas certamente que algumas das principais razões para que tal tenha acontecido incluem: 
1) a acentuada descida taxa de juros associada à nossa adesão à moeda única, bem como as maiores facilidades de crédito que a Zona Euro nos proporcionou. (Relembre-se que os juros baixos penalizam a poupança e estimulam o consumo)
2) os vários incentivos ao consumo e a retirada dos incentivos à poupança que caracterizaram os últimos 10-15 anos
3) o comportamento pouco regrado e o excessivo despesismo do nosso Estado, que penalizaram grandemente a "poupança" pública e que, assim, fizeram baixar a poupança nacional.
4) a descida pronunciada das remessas dos emigrantes, que foi durante bastante tempo uma importante fonte de financiamento da economia nacional
 
O resultado de tudo isto foi que, entre o final dos anos 1970 e 2010, a poupança bruta baixou de 30% do PIB para 8,4% do PIB. Uma descida de mais de 20 pontos percentuais. 
A baixíssima taxa de poupança nacional é visível no gráfico abaixo, que apresenta a poupança bruta em percentagem do PIB para os países da UE-27. Como podemos ver, Portugal tem a segunda mais baixa taxa de poupança de toda a União Europeia. Pior que nós só a Grécia. Em claro contraste, países como a Espanha e a República Checa têm taxas de poupança que são o dobro das nossas.

Poupança bruta em % do PIB na UE-27, 2010
 Fonte: AMECO

Qual é o problema? O problema é que, sem poupança, o investimento não pode prosperar e aumentar de forma sustentada. E é exactamente isto que tem acontecido. Na última década, o investimento privado tem andado pelas ruas da amargura, penalizando o próprio crescimento económico e, assim, limitando as possibilidades de a economia ter uma retoma sustentada.
Mais: a baixa taxa de poupança tem sido altamente responsável pelo crescimento do endividamento externo nacional. Como não poupamos o que devemos, temos de pedir ao exterior os fundos que precisamos para satisfazer as nossas necessidades. O problema é que, como em tudo, não é possível manter um crescimento elevado da dívida externa por muito tempo sem que existam consequências muito danosas para a economia nacional. E é nesse ponto que nos encontramos actualmente.
Quem tem culpa por tudo isto? Todos nós. Todos nós (famílias e empresas) consumimos acima das nossas possibilidades. Os governos dos últimos 15 anos foram igualmente responsáveis não só porque gastaram bem mais do que era aconselhável, mas também, e principalmente, porque não actuaram face aos crescentes e graves desequilíbrios da economia nacional, incluindo o crescimento do endividamento da economia nacional e a dramática descida da poupança nacional.
Moral da história: é imperioso alterar este estado de coisas o quanto antes. Há poucas dúvidas que uma das coisas a fazer nos próximos anos é exactamente fazer crescer novamente a poupança nacional. Só assim podemos combater o nosso elevadíssimo endividamento externo e diminuir a exposição da economia nacional ao financiamento do exterior. O crescimento da poupança é igualmente fundamental para a recuperação do investimento nacional. 
Por todos estes motivos, a poupança tem de se tornar num autêntico imperativo nacional, uma paixão, se quiserem. O desígnio da poupança pode não tão atractivo como, por exemplo, a Educação, mas é, no mínimo, tão importante como essa mesma Educação. Seria bom que, nos próximos meses, os diversos partidos portugueses apresentassem ideias e estratégias para que possamos todos poupar mais. O país certamente agradecerá. 

03 fevereiro 2011

MORTOS OU A PAGAR DÍVIDAS

“No longo prazo estamos todos mortos” é uma das frases mais famosas da Economia. A frase foi proferida em 1936 por John Maynard Keynes, porventura o economista mais influente do século passado, e foi essencialmente uma crítica ao pensamento económico dominante na época.
A ideologia então prevalecente defendia que as crises são consequências do desenvolvimento económico e que no longo prazo tudo está de volta ao normal. Em contraste, Keynes achava que os governos não deviam esperar para actuar em situações de grave recessão ou de elevado desemprego. Por isso, nessas situações, os governos deviam aumentar as despesas públicas para estimular a procura de bens e serviços, o que, por sua vez, fomentaria a produção e o emprego.
E foi assim que, em 2008 e 2009, sob a inspiração de Keynes, os governos gastaram o que tinham e o que não tinham para evitar uma recessão. Só que, nalguns países europeus (como o nosso), tudo foi feito esquecendo um pequeno pormenor: é que as ideias de Keynes foram defendidas para um cenário onde as dívidas públicas eram bastante modestas. Uma situação muito diferente da encontrada em 2008. Foi assim que o endividamento originado pelo combate à crise internacional se juntou às elevadas dívidas já existentes e deu origem à crise da dívida europeia que nos sobressalta actualmente.
Quem pagará tudo isto? Os nossos filhos, obviamente. É que no longo prazo poderemos estar todos mortos, mas os nossos filhos cá estarão a lidar e a pagar as nossas imensas dívidas. Um legado, no mínimo, pouco simpático.

Nota: Meu artigo no Notícias Sábado, Janeiro 2011

O RELÓGIO DA DÍVIDA PORTUGUESA

Mais um artigo do Financial Times sobre a crise portuguesa, agora com o sugestivo título "Clock is ticking on debt-laden Portugal".

02 fevereiro 2011

ATRASO EDUCATIVO

Os dados mais recentes da OCDE sobre a educação revelam que, apesar de alguns progressos, o nosso atraso em relação à educação universitária permanece bastante real. Como podemos ver no gráfico abaixo, Portugal tem a terceira mais baixa percentagem de indivíduos com formação universitária em relação à população total de toda a OCDE, somente à frente da Turquia e da Itália. Ou seja, ainda há muito para andar no que respeito à educação da nossa população. Mesmo assim, nem tudo são más notícias. Como podemos ver no gráfico, nas camadas dos trabalhadores mais jovens (com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos), é possível ver alguma evolução. Para essa faixa etária, a nossa percentagem da população com formação universitária já ultrapassou os 20%, à frente de países como a Turquia, a Itália, aq República Checa, a Eslováquia, o México e a Áustria. Porém, antes de entrarmos em euforias ou optimismos injustificados, vale a pena também reparar que ainda estamos muitíssimo longe de países como a Espanha ou da Irlanda, que têm mais de 40% das suas populações com educação universitária.

Fonte: OCDE

A REVOLUÇÃO EM CURSO (1)

Há uns dias no debate do Diário de Notícias afirmei que estava convicto de que estávamos à beira de uma revolução em Portugal, uma revolução que não se fará nas ruas e que não será sangrenta. Uma revolução silenciosa que irá alterar radicalmente a forma como encaramos o Estado e como o próprio Estado actua.
Há inúmeras razões que irão tornar esta revolução inevitável, mas o principal motivo para que tal aconteça é simples de explicar: não temos alternativa. Se não levarmos a cabo uma verdadeira reforma do Estado arriscamo-nos a pôr em risco o próprio Estado Social e a causar uma deterioração ainda maior da nossa situação económica. Isto já para nem falar na possibilidade de cairmos numa situação de incumprimento das nossas obrigações financeiras. Por isso, tenho confiança que a revolução vai ser feita e até acho que acabará por ser bem feita. Não por este governo, como é evidente, mas pelo próximo.
Ainda assim, não deixa de ser interessante verificar que alguns sectores deste governo já se deram conta que têm muito a ganhar se, entretanto, também introduzirem iniciativas que possam reduzir alguma da despesa estrutural do Estado. Assim, ficámos ontem a saber que o Ministro dos Assuntos Parlamentares defendeu uma redução do número de deputados (depois do seu partido ter recusado esta mesma ideia em 2008), enquanto o Secretário de Estado da Administração Local advogou uma diminuição do número de autarquias. Estão de parabéns. São boas iniciativas, sim senhor. Agora, é arregaçar as mangas, negociar e planear devidamente como e quando é que as coisas poderão ser feitas.

O ANO DO COELHO


Hoje é o dia do Ano Novo chinês, um dia em que centenas de milhões de chineses espalhados um pouco por todo o mundo celebram a passagem para o novo ano. Estima-se que mais de 40 milhões de chineses se deslocam nesta época do ano às suas terras de origem para passarem o ano com as suas famílias, naquela que é porventura a maior migração anual de pessoas em todo o mundo.
Já agora, para quem estiver interessado(a), o calendário chinês diz-nos que este é o ano do Coelho.

01 fevereiro 2011

REESTRUTURAÇÃO OU NÃO, EIS A QUESTÃO (5)

Há cada vez menos dúvidas que a Grécia deve acabar por reestruturar a sua dívida, provavelmente mais cedo do que mais tarde. Agora surgem informações de que se começa a delinear um plano europeu em que os empréstimos concedidos à Grécia em 2010 poderiam ser alargados por um período de 30 anos e a dívida grega seria reestruturada. Mais concretamente, a Grécia usaria o fundo europeu para comprar obrigações gregas ao BCE e aos detentores privados da dívida helénica a 75% do valor nominal, e, em seguida, as maturidades das obrigações gregas seria alargadas para 15 e 20 anos.
Veremos se este plano vai mesmo para a frente. De uma coisa podemos certos, se a Grécia (e a Europa) avançar, certamente que a Irlanda não ficará para atrás.
E, como é evidente, nesse cenário, não seria surpreendente se houvesse uma pressão enorme para que nós o fizessemos também. Resta saber se o governo português estaria disposto a fazê-lo. É que, como aqui já referi várias vezes, os custos políticos seriam certamente insuportáveis, de modo que não seria de todo surpreendente se o governo fizesse os possíveis e os impossíveis para evitar chegar a essa situação.

BANQUEIROS CONTRA BAILOUT

O Financial Times dá hoje grande destaque ao facto de os banqueiros portugueses estarem contra um eventual recurso ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira e ao FMI. Porquê? Porque, de acordo com os banqueiros nacionais, se chegássemos a essa situação, poderia haver uma fuga de capitais e um decréscimo dos depósitos bancários. Preocupações que se compreendem, sem dúvida.
Resta saber se financiarmo-nos a taxas de juros elevadas é uma melhor opção.

A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR ALI (2)

Enquanto a liberdade se passeia pelas ruas de Cairo e das outras cidades egípcias, a economia do país está a ficar praticamente paralisada. As consequências poderão ser dramáticas.