27 março 2009

BAIXAR SALÁRIOS

A jornalista Cesaltina Pinto da revista Visão escreveu esta semana um artigo sobre uma hipotética redução dos salários, onde vários economistas empresários e sindicalistas expressam as suas opiniões sobre este assunto. Aqui estão as minhas respostas às questões da Visão.
Visão_ Face aos tempos de crise que vivemos há vários economistas que defendem uma redução generalizada dos salários. Concorda com esta medida?
Penso que depende da empresa e do contexto específico que se insere. Algumas empresas poderão beneficiar com uma descida salarial, outras não, pois poderão optar por despedir trabalhadores. O que não faz sentido é centralizar uma descida salarial. Deve ser o mercado e as empresas que devem decidir o que será melhor para eles. Há empresas que beneficiarão com a crise, enquanto outras vão claramente perder. Por isso, ninguém melhor que as empresas para decidir o que fazer.
Dito isto, é verdade que a moderação salarial é absolutamente crucial para a melhoria da competitividade da economia portuguesa. Desde os meados da década de 90, Portugal tem vindo sempre a perder competitividade, pois os salários têm aumentado e a produtividade tem diminuído relativamente aos nossos parceiros europeus. Por isso, faz todo o sentido promover a moderação salarial, bem como implementar medidas que fomentem a produtividade.
Independentemente disto, acho que o Primeiro-Ministro e até o Presidente da República só tinham a ganhar em dar o exemplo. Isto é, se pedem sacrifícios aos portugueses, se consideram que a moderação salarial é necessária, por que é que não se voluntariam e reduzem os seus próprios salários durante dois ou três anos? Seria uma medida bem vista num ano eleitoral e mostraria aos portugueses que os nossos líderes são os primeiros a dar o exemplo em alturas de dificuldades.
Visão. Porquê?
A moderação salarial é necessária para fazer aumentar a competitividade da economia e para evitar um aumento desmesurado dos despedimentos. Para tal, seria bom que houvesse mais concertação social entre o governo, as entidades patronais e os sindicatos, e que nos deixássemos de quezílias bairristas e de interesses mesquinhos numa altura de grave crise.
Visão. Se não concorda, que alternativas sugere?
A moderação salarial tem de ser inserida numa estratégia global de melhoria da nossa competitividade. Temos de nos tornar mais atractivos a nível fiscal, ajudar as empresas em tempos de crise, e implementar medidas que auxiliem as empresas inovadoras. A nível salarial, precisamos de perceber de uma vez por todas que se optarmos por aumentar os salários numa altura de crise, o que estaremos a fomentar é o aumento do desemprego. A verdade é que o populismo é inimigo da competitividade e da criação do emprego.

2 comentários:

Gi disse...

Não vem muito a propósito mas ontem encontrei o Medo do Insucesso Nacional no supermercado Modelo aqui da terra, ao lado de uma biografia de Michelle Obama.
Viva o tio Belmiro :-)

Antonio disse...

Caro Álvaro,

Estou apenas no final do 2º capitulo do seu novo livro. É, pelo menos até agora, um livro muito claro e fácil de ler. Um livro feito por um professor para"não alunos" mas que lhes dá algumas boas noções de economia.

Para já, os meus parabens.

Mas, mas, e há sempre um mas, que não responde para já a uma questão sobre a qual eu me interrogo todos os dias. E para a qual gostaria de encontrar explicação.


Diz o Álvaro que apesar de tudo temos estado a crescer. Não o suficiente mas temos estado a crescer. Embora a divergir da Europa. Que tem estado a crescer mais do que nós.

Então como se explica este mal estar da Europa e que não vem de agora? (crise financeira gerada pelo subprime) Lembro-lhe por exemplo que em França e na Holanda o referendo europeu foi chumbado apesar do apoio expresso dos grandes partidos. E na Irlanda já foi chumbado 2 vezes. Isso é um grande sinal de fortissima insatisfação. E a insatisfação tem uma relação muito directa com o porta-moedas. Para não falar de dois meses em que Paris esteve a arder. Tudo isto é muito anterior à crise financeira.

Eu relaciono-me diáriamente com gente de diversos países europeus.
Quase todos se queixam de que o Euro lhes tirou poder de compra.
Excepção feita aos funcionários publicos europeus que são uns calorosos adeptos do euro. E todos me dizem que o euro fez disparar os preços nos seus países. Contudo as estatisticas não traduzem isso.

Cá dentro passa-se exactamente o mesmo. Quase todos os portugueses dizem que antes da entrada do Euro iam ao supermercado com uma nota de 5.000 escudos e que traziam um carrinho cheio. Hoje levam 50 €(o dobro) e não trazem quase nada. Eu não tenho obviamente a certeza que este sentimento corresponda à verdade. Mas que ele existe e é generalizado tenho a certeza.
Eu próprio comungo dessa sensação.

Perguntei a varios amigos quanto pensavam que custaria em 2000 um vulgar frasco de body lotion Nivea. A impressão geral é que não custava mais de 200 escudos. A uma inflação media de 3.5% ao ano, custaria então hoje 273 esc. Isto é, 1€ e 35 centmos. Mas ronda os 5 € na realaidade.

Caro Álvaro, há uns anos atrás quando um doente se queixava de qualquer coisa o médico mandava-o fazer análises. E caso os valores estivessem dentro dos parâmentros concluia que o doente não estava doente. Por muito que o paciente se queixasse que se sentia muito mal.

Há uns anos atrás o empresário pensava que sua opinião sobre o produto que colocava no mercado era muito relevante. Hoje já compreendeu que a sua opinião de quase nada vale. A que conta é a do consumidor.

O Álvaro diz nestes dois primeiros capitulos que de facto as coisas estão dificeis. Mas depois quando faz a análise dos numeros parece-me concluir que afinal as coisas não estão tão más como isso.

Não será chegada a altura dos economistas fazerem como a nova vaga de médicos ou empresários? Valorizarem mais as opiniões dos doentes e dos consumidores do que as suas próprias opiniões?

É que a nivel de empresários, investidores e consumidores as expectativas na Europa nunca estiveram tão baixas como hoje, desde a 2ª guerra.

Na minha opinião(que de pouco vale), mas que me parece ser generalizada esta crise está a causar muuitissimo mais mal estar do que as crises de 1973 e afins.

Será que os economistas não terão de olhar para outras análises e outros parâmentros para entenderem o que se eshtá a passar actualmente? A pior coisa que pode acontecer em qualquer profissão é o interlocutor dessa profissão achar que já sabe tudo ou quase tudo e que tem pouco a aprender. E olhe , meu caro Álvaro, a avaliar pelo que se andou a passar nestes ultimos meses os economistas ainda têm muito a aprender. Que o diga o sr. Alan Greenspan e afins.


Um grande abraço e mais uma vez a minha gratidão pela sua simpática atenção.

Antonio



Antonio