23 março 2009

CONSELHOS E TGV

DN. Que conselhos daria neste momento a José Sócrates para lidar com a crise em Portugal? Mais investimento, menos impostos...
Em primeiro lugar, deixarmo-nos de loucuras. Não podemos pensar em comprar um Jaguar (ainda por cima importado) quando só estamos em condições para manter o nosso carro ou então comprar um de baixa cilindrada. Se achamos mesmo que o investimento público é a solução para a crise (o que não é certamente linear...), então devemos concentrarmo-nos em muitos mas pequenos projectos, incluindo a melhoria das nossas escolas, dos hospitais, e até das estações de comboios.
Em segundo lugar, devemos utilizar a pouca margem de manobra que temos para apostar na competitividade da economia portuguesa. Entre a Alta Velocidade e a Alta Competitividade temos que claramente apostar na última, pois só uma maior produtividade e competitividade poderá criar emprego de forma sustentada. Actualmente, na União Europeia a 27, temos uma carga fiscal média. Porém, a nossa carga fiscal é mais elevada do que no Leste europeu e em muitos dos países do Sul da Europa. Ou seja, temos impostos mais elevados do que os nossos principais concorrentes. E se é assim, como é que ambicionamos ser competitivos? Como é que podemos atrair mais investidores, e como é que podemos tentar estimular as nossas exportações se penalizamos quem cá investe e sobrecarregamos os nossos exportadores?
Em terceiro lugar, em vez de pensarmos em gastar mais e mais, devíamos fazer tudo para melhorar os sistemas de incentivos económicos, principalmente ao nível da criação de empresas e do empreendedorismo. Finalmente, a crise não pode ser desculpa para não prosseguir com as reformas dos últimos anos, principalmente no que diz respeito à reforma do Estado. É fundamental que a modernização do Estado continue e que o processo de emagrecimento da Administração Pública persista. Em suma, o combate à crise deve utilizar uma combinação de mais investimento, de impostos mais baixos e melhores incentivos à inovação e ao empreendedorismo.
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DN. Mas não construir o TGV. Porquê?
Por dois motivos. Primeiro, por causa dos custos que tal projecto acarreta. Só a linha Lisboa-Porto vai custar 4,6 mil milhões de euros, o que é correspondente ao volume de negócios anual de todo o grupo Sonae, um dos maiores do país. Vamos gastar uma Sonae para ganharmos 20 a 30 minutos de viagem. Por isso, interessa perguntar: valerá a pena? Não poderíamos utilizar os fundos em projectos menos dispendiosos? Não poderíamos usar esse dinheiro na requalificação dos nossos recursos humanos? Na melhoria das nossas escolas e hospitais? Numa menor carga fiscal para as famílias e para as empresas? Num combate à pobreza e à exclusão social?
Segundo, porque todos os estudos custo-benefício sobre a viabilidade do TGV só registam impactos positivos líquidos quando assumimos impactos externos extremamente dúbios e dificilmente quantificáveis, tais como a diminuição do ruído. Porém, em nenhum país que introduziu o TGV registou estes impactos externos. Por que razão haveremos de pensar que nós seremos a excepção? Terceiro, e independentemente da idoneidade dos responsáveis por estes estudos (que não está em causa), a verdade é que estes estudos encomendados pela RAVE utilizam valores e estimativas de procura e de custos fornecidos pela própria RAVE. Ou seja, estimam-se benefícios para o projecto tendo em conta valores fornecidos pela entidade que tem todo o interesse que o projecto vá avante. Todavia, nem assim, os benefícios directos do projecto são mais elevados do que os custos!
Por todos estes motivos, o mais certo é que o TGV se tornará no maior fiasco económico e financeiro dos últimos 50 anos. A verdade é que dentro de 10 ou 20 anos, vamos olhar para trás e vamos perceber que a construção do TGV foi só mais uma quimera, mais uma receita mágica que não resultou e que nos irá sair extraordinariamente cara. Vamos aumentar o endividamento externo, vamos ser forçados a aumentar ainda mais os impostos e vamos continuar a não investir na competitividade da economia. Só nessa altura é que nos aperceberemos do erro tremendo que cometemos. E só então é que perceberemos que a construção do TGV foi o maior erro das últimas gerações. O que eu espero é que nessa altura sejam apuradas responsabilidades políticas e inclusive judiciais para aqueles que nos meteram na maior loucura financeira desde o tempo de D. Manuel I quando um dos nossos antepassados andou pelas ruas de Roma montado num elefante a distribuir moedas de ouro pelos espantados habitantes daquela cidade.
A alternativa é parar já com esta loucura e deixar a compra do Jaguar para o futuro, se assim o desejarmos.

3 comentários:

Antonio disse...

Caro Álvaro,

Dois pequenos reparos. A reforma da administração publica é apenas uma miragem. As minhas fontes de informação são so meus amigos que trabalham na função publica. Bem colocados. Cala-te boca.

O TGV não vai ser construido. O endividamento externo não o vai deixar. Toda a restante situação económica tabmbém o não vai permitir. Para além do facto que o estado vai ter uma enorme quebra de recitas. IVA, IRC,IRS e IA.

Deus escreve direito por linhas tortas. E o TGV necessita de linhas bem direitas que neste momento não existem. O TGV já descarrilou.

Oremos ao senhor

Antonio

Gi disse...

Parece simples bom senso, mas os nossos políticos têm dificuldade em perceber.

Como diz o Antonio, Oremos :-)

Nuno Fonseca disse...

Palavras sábias, mas já começa a ser evidente que o caminho não é o aumento desmensurado da despesa pública em um país como o nosso!está a ficar óbvio de mais!tudo isto por 30min de poupança de tempo!