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20 maio 2011

É O ENDIVIDAMENTO E O DESEMPREGO, PÁ

Quando Bill Clinton concorreu pela primeira vez à presidência americana, decidiu colocar uma tarja no seu escritório a dizer "É a economia, estúpido!" para que nunca se esquecesse do tema que devia dominar a campanha eleitoral. A razão para o ter feito é simples: havia então a tentação de falar de tudo e de mais alguma coisa menos da escalada do desemprego e do sofrível desempenho da economia americana nesse ano. E foi assim que, Clinton se tornou num verdadeiro obstinado durante essa campanha eleitoral, mencionando constantemente a crise económica em todas as ocasiões e instantes. E foi assim que ganhou.
Ora, agora que vamos entrar formalmente em campanha, seria bom que os partidos da oposição emulassem o exemplo de Clinton e denunciassem sem cessar os verdadeiros problemas nacionais, que são estruturais, mas que foram altamente agravados devido à irresponsabilidade e à incompetência deste governo. Mais precisamente, os partidos da oposição não deviam deixar passar um minuto, um segundo sequer, da campanha eleitoral em que não falassem dos dois problemas mais graves que assolam o nosso país: o desemprego gritante e o elevadíssimo endividamento da nossa economia. É mais do que patente que este governo foi completamente incapaz de lidar com estes assuntos e não tem o mínimo de estratégia sobre como os resolver. E é exactamente por isso que o governo prefere fingir que estes problemas não existem ou que não merecem a pena ser discutidos na campanha eleitoral. 

Ora, seria bom que toda a oposição se unisse contra este lamentável estado de coisas e, em todas as ocasiões e instantes, não se cansasse de repetir os lamentáveis factos do nosso desemprego e do nosso endividamento. Assim, quando o governo tentar desviar as atenções dos(as) portugueses(as) com acusações e com desculpas sem sentido, os partidos da oposição deviam imitar Clinton e responder imediatamente: "É o endividamento, pá!", "É o desemprego, pá". Quando o governo tentar resgatar a campanha para temas menores, a oposição devia logo retorquir: "É o endividamento, pá!", "É o desemprego, pá". E quando o governo tentar descartar-se das suas responsabilidades alegando que a crise nacional se deve somente à crise internacional (quando todos os nossos problemas têm origens bem mais remotas), os partidos da oposição deviam logo acusar: "É o endividamento, pá!", "É o desemprego, pá". É que mais do que discussões de cabeças de listas, de quanto deve subir este ou aquele imposto, ou quanto é que devem descer as contribuições sociais, o que está em causa nas próximas eleições é responsabilizar os que nos levaram (quase) à bancarrota, bem como apresentar caminhos alternativos para o país.  
E é por isso que o desemprego e o endividamento deviam dominar por completo a campanha eleitoral. A razão é simples: o excessivo endividamento (público e privado) é o constrangimento e a maior ameaça da economia nacional nos próximos tempos, enquanto o desemprego rompante é uma autêntica tragédia nacional. Neste sentido, e para que nunca nos esqueçamos do que está em causa, vale a pena relembrar mais uma vez os principais factos do endividamento e do desemprego:

FACTOS DO ENDIVIDAMENTO:
_ A dívida pública não está longe dos 100% do PIB (a mais elevada dos últimos 160 anos)
_ A dívida externa já ultrapassa 2,3 vezes toda a produção nacional num ano (a maior desde 1892, quando entrámos em bancarrota)
_ A dívida externa portuguesa é quase 8 vezes maior do que as exportações anuais do nosso país
_ A dívida das famílias ronda os 135% do rendimento disponível
_ A dívida das empresas já ultrapassou os 150% do PIB
_ Entre 40% e 50% de todo o endividamento nacional deve-se, directa ou indirectamente, ao nosso Estado.

FACTOS DO DESEMPREGO:
_ 690 mil desempregados
_ 365 mil desempregados de longa duração
_ 200 mil de trabalhadores desencorajados de procurar emprego e que, por isso, não entram para as estatísticas do desemprego
_ A taxa de desemprego é de 12,4%. Essa taxa de desemprego era somente de 6,6% no início de 2005. 
_ A taxa de desemprego jovem ronda os 28%
_ A taxa de desemprego só não é superior a 15% há alguns anos, porque centenas de milhares de portugueses optaram por emigrar na última década.


Para a campanha, pouco mais interessa do que estes factos.

14 abril 2011

OS VERDADEIROS FACTOS DA CAMPANHA

Nos últimos dias, a "campanha" eleitoral tem sido constituida por um rol de "factos" que só servem para distrair os(as) portugueses(as) daquilo que realmente é essencial. E o que é essencial são os factos. E os factos são indesmentíveis. Não há argumentos que resistam aos arrasadores factos que este governos nos lega. E para quem não sabe, e como demonstro no meu novo livro, os factos que realmente interessam são os seguintes:
1) Na última década, Portugal teve o pior crescimento económico dos últimos 90 anos

2) Temos a pior dívida pública (em % do PIB) dos últimos 160 anos. A dívida pública este ano vai rondar os 100% do PIB

3) Esta dívida pública histórica não inclui as dívidas das empresas públicas (mais 25% do PIB nacional)

4) Esta dívida pública sem precedentes não inclui os 60 mil milhões de euros das PPPs (35% do PIB adicionais), que foram utilizadas pelos nosso governantes para fazer obra (auto-estradas, hospitais, etc.) enquanto se adiava o seu pagamento para os próximos governos e as gerações futuras. As escolas também foram construídas a crédito.

5) Temos a pior taxa de desemprego dos últimos 90 anos (desde que há registos). Em 2005, a taxa de desemprego era de 6,6%. Em 2011, a taxa de desemprego chegou aos 11,1% e continua a aumentar. 

6) Temos 620 mil desempregados, dos quais mais de 300 mil estão desempregados há mais de 12 meses

7) Temos a maior dívida externa dos últimos 120 anos. 
8) A nossa dívida externa bruta é quase 8 vezes maior do que as nossas exportações

9) Estamos no top 10 dos países mais endividados do mundo em praticamente todos os indicadores possíveis

10) A nossa dívida externa bruta em 1995 era inferior a 40% do PIB. Hoje é de 230% do PIB

11) A nossa dívida externa líquida em 1995 era de 10% do PIB. Hoje é de quase 110% do PIB

12) As dívidas das famílias são cerca de 100% do PIB e 135% do rendimento disponível

13) As dívidas das empresas são equivalente a 150% do PIB

14) Cerca de 50% de todo endividamento nacional deve-se, directa ou indirectamente, ao nosso Estado

15) Temos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos

16) Temos a segunda maior fuga de cérebros de toda a OCDE

17) Temos a pior taxa de poupança dos últimos 50 anos

18) Nos últimos 10 anos, tivemos défices da balança corrente que rondaram entre os 8% e os 10% do PIB

19) Há 1,6 milhões de casos pendentes nos tribunais civis. Em 1995, havia 630 mil. Portugal é ainda um dos países que mais gasta com os tribunais por habitante na Europa

20) Temos a terceira pior taxa de abandono escolar de toda a OCDE (só melhor do que o México e a Turquia)

21) Temos um Estado desproporcionado para o nosso país, um Estado cujo peso já ultrapassa os 50% do PIB 

22) As entidades e organismos públicos contam-se aos milhares. Há 349 Institutos Públicos, 87 Direcções Regionais, 68 Direcções-Gerais, 25 Estruturas de Missões, 100 Estruturas Atípicas, 10 Entidades Administrativas Independentes, 2 Forças de Segurança, 8 entidades e sub-entidades das Forças Armadas, 3 Entidades Empresariais regionais, 6 Gabinetes, 1 Gabinete do Primeiro Ministro, 16 Gabinetes de Ministros, 38 Gabinetes de Secretários de Estado, 15 Gabinetes dos Secretários Regionais, 2 Gabinetes do Presidente Regional, 2 Gabinetes da Vice-Presidência dos Governos Regionais, 18 Governos Civis, 2 Áreas Metropolitanas, 9 Inspecções Regionais, 16 Inspecções-Gerais, 31 Órgãos Consultivos, 350 Órgãos Independentes (tribunais e afins), 17 Secretarias-Gerais, 17 Serviços de Apoio, 2 Gabinetes dos Representantes da República nas regiões autónomas, e ainda 308 Câmaras Municipais, 4260 Juntas de Freguesias. Há ainda as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, e as Comunidades Inter-Municipais.

22) Nos últimos anos, nada foi feito para cortar neste Estado omnipresente e despesista, embora já se cortaram salários, já se subiram impostos, já se reduziram pensões e já se impuseram vários pacotes de austeridade aos portugueses. O Estado tem ficado imune à austeridade


Isto não é política. São factos. Factos que andámos a negar durante anos até chegarmos a esta lamentável situação. Ora, se tomarmos em linha de conta estes factos, interessa perguntar: como é que foi possível chegar a esta situação? O que é que aconteceu entre 1995 e 2011 para termos passado termos de "bom aluno" da UE a um exemplo que toda a gente quer evitar? O que é que ocorreu entre 1995 e 2011 para termos transformado tanto o nosso país? Quem conduziu o país quase à insolvência? Quem nada fez para contrariar o excessivo endividamento do país? Quem contribuiu de sobremaneira para o mesmo endividamento com obras públicas de rentabilidade muito duvidosa? Quem fomentou o endividamento com um despesismo atroz? Quem tentou (e tenta) encobrir a triste realidade económica do país com manobras de propaganda e com manipulações de factos? As respostas a questas questões são fáceis de dar, ou, pelo menos, deviam ser. Só não vê quem não quer mesmo ver.
A verdade é que estes factos são obviamente arrasadores e indesmentíveis. Factos irrefutáveis. Factos que, por isso, deviam ser repetidos até à exaustão até que todos nós nos consciencializássemos da gravidade da situação actual. Estes é que deviam ser os verdadeiros factos da campanha eleitoral. As distracções dos últimos dias só servem para desviar as atenções daquilo que é realmente importante.