17 outubro 2008

A ESQUERDA E A DIREITA DA ECONOMIA

O Sócrates tem o seguinte comentário e pergunta:
"Poder-se-ia argumentar que a população no geral beneficia com os períodos de prosperidade do mercado liberal, não coloco isso em causa..., no entanto não será mais seguro um mercado fortemente regulado para que quando as coisas correm mal, a população no geral não seja a sacrificada de sempre, pagando a crise com a perda do seu poder de compra, desemprego e ainda pelos seus impostos que vão "salvar" as grandes empresas (que pelos vistos "ganham" sempre). Não será mais seguro e lógico um crescimento sustentado que evite grandes alterações sociais (tanto de "enriquecimento" rápido, como de "empobrecimento")?"
Caro Sócrates,
Obrigado pela pergunta.
A grande maioria dos economistas acredita que os mercados são a melhor forma que temos para assegurar o crescimento económico e, assim, o aumento dos rendimentos das populações. Não interessa ser de esquerda ou de direita, pois quase todos pensam assim (as únicas excepções a esta regra são as esquerdas e as direitas radicais). A grande diferença entre os economistas de direita e de esquerda é exactamente ao nível da regulação do mercado. Os de direita preferem desregulamentar, enquanto os de esquerda consideram que a regulamentação é necessária.
Nas últimas décadas, assistimos a uma desregulação generalizada dos mercados (financeiros, de capitais, etc). A crise financeira actual é em parte devida aos excessos cometidos pela ausência de regulações eficazes nos mercados imobiliários e financeiros dos Estados Unidos.
Por isso, certamente que nos próximos tempos veremos o retorno do Estado e da regulamentação da economia. Quase todos concordam com esta proposição. O problema é que certamente que muitos irão ver a crise actual como uma tendência natural para o capitalismo gerar crises graves, o que não é verdade. As crises acontecem, é verdade, mas não são a característica principal das economias de mercado. A principal vantagem das economias de mercado é a capacidade de gerar crescimento económico duradouro e sustentado.
Claro que as crises acontecem. Esporadicamente, mas acontecem. Porém, o importante é assegurar que o impacto da crise seja o menor possível. E é aqui que entra o papel do Estado.
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Voltando à sua questão, mais e melhor regulamentação é certamente necessária. Porém, mais do que regulamentação, o importante é que o Estado proteja e auxilie aqueles que são afectados negativamente por fenómenos como a globalização ou pela recessão de uma economia, quer através de programas sociais, quer através da introdução de programas de formação profissional. A economia de mercado não é incompatível com a protecção social, como certamente veremos nos próximos tempos (que se adivinham recessivos).

3 comentários:

Sócrates disse...

Desde já agradeço a resposta, achando que último parágrafo, em especial, deveria ser algo a ter em conta por muitos políticos e chefes de Estado.

Devo dizer que a ultimamente tenho dado conta que se conclusão (uma das) se poderá retirar da história, em especial da moderna, é que quer o Socialismo, Social-Democracia ou Capitalismo apenas funcionam tão bem quanto as pessoas quiserem e conseguirem. Com isto quero dizer que por muito boa que seja uma ideologia ou teoria, se as pessoas não se respeitarem mutuamente e tiverem empatia para com os outros assim como um sentido de justiça e "responsabilidade social" apurado, quer seja uma sociedade socialista, social-democrata ou capitalista, estará destinada a ser volátil, com crises e desigualdades sociais injustas.

Mas isto seria assunto com pano para mangas onde certamente se poderia argumentar que um ou outro esquema poderá conviver melhor com essas desigualdades, etc.

Tiago Moreira Ramalho disse...

Ó Álvaro, mas neste caso, o que é que o estado poderia fazer? Os bancos ainda são propriedade privada e têm o direito de conceder crédito a quem bem entenderem... O estado vai passar a regular as actividades bancárias e as decisões internas?! Se calhar ganhar-se-ia muito mais se os estado estivesse atento, se supervisionasse e não regulasse: se o estado tivesse previsto isto e alarmado o pessoal para a possível crise, se calhar esta não tinha acontecido, do mesmo modo que se o estado tivesse dado conta que a produção estava a aumentar e o consumo não, em 29 não teria havido grande depressão. Nem sempre a intervenção é o caminho, apesar de eu considerar que a regulação, a supervisão e a intervenção em certas circunstâncias são importantes.

Alvaro Santos Pereira disse...

Caros Sócrates e Tiago

Penso que concordamos em quase tudo. Eu não discordo da intervenção. Bem pelo contrário. E também acho que não havia grande alterantiva à intervenção. O meu único receio é que se aproveite a situação actual para se ir mais além do que se devia

Obrigado e abraço

Alvaro