15 fevereiro 2011

E SE OS FILHOS NÃO PAGAREM?

Todos nós sabemos que uma percentagem considerável dos nossos pensionistas vive em situações bastante precárias e difíceis. Porém, sabia também que, mesmo assim, Portugal é o quarto país da União Europeia que mais gasta no sistema de pensões? Pois é, é verdade. Só a Itália, a França, e a Áustria gastam mais nos seus sistemas de pensões (em percentagem do PIB) do que nós. Todos os outros países europeus da UE27 despendem bem menos do que nós com os seus pensionistas. Para além das razões que estão por detrás deste fenómeno, interessa perguntar: se o nosso sistema de pensões é assim tão caro, será que é sustentável? 
Talvez sim, ou talvez não. Esta pergunta faz sentido porque as nossas pensões são essencialmente baseadas no chamado sistema “pay as you go”, ou seja, são os trabalhadores no activo (ou seja, as gerações mais jovens) que financiam a maior parte das subvenções dos pensionistas. Só que, se é assim, será que não poderemos chegar a uma situação em que os mais jovens se recusem a pagar as reformas dos mais velhos? É certo que até agora, as gerações novas aceitaram financiar grande parte das pensões dos mais velhos. Todavia, tal só tem sido possível por duas razões. Primeiro, porque a economia nacional cresceu bastante nas últimas décadas e os rendimentos também aumentaram. Assim, as gerações mais novas não se importaram de utilizar parte dos aumentos de rendimentos para ajudar as gerações mais velhas. Em segundo lugar, as gerações mais novas têm aceitado suportar os mais idosos, porque, até agora, esperavam usufruir das mesmas regalias quando eles(as) também fossem mais velhos.
E aqui é que está o problema. Actualmente, a economia nacional pouco ou nada cresce (e assim os rendimentos pouco sobem), e, ainda por cima, começam a surgir algumas dúvidas se será possível financiar adequadamente as pensões das gerações mais novas quando estas tiverem idade para se reformar. Deste modo, não é inteiramente descabido pensar que, daqui a uns anos, os nossos filhos possam decidir não financiar as nossas reformas. Porquê? Porque não só o sistema de pensões actual não é inteiramente sustentável, mas também (e principalmente) porque o presente endividamento da economia nacional é muito elevado. E se nós vamos legar aos nossos filhos dívidas muito pesadas, como é que nos podemos admirar se eles um dia se virarem para nós e se recusarem financiar as nossas próprias pensões? E se eles(as) o fizerem, quem os(as) poderá condenar por isso? 
  
Notícias Sábado, 12 Fevereiro 2010

4 comentários:

Gi disse...

Álvaro, não se iluda, aqui ninguém recusa pagar nada, o desgoverno manda e o pessoal obedece, resmungando ou não.

De resto, como acha que se pode recusar isso? Com uma declaração tipo Recuso que os meus impostos sirvam para pagar as pensões dos mais velhos?

É que se assim for eu faço já uma a dizer Recuso que os meus impostos sirvam para pagar as novas autoestradas, o TGV, o aeroporto de Alcochete, e as reformas dos deputados.

Miguel Loureiro disse...

Dr. Álvaro
Esta coisa de saber quem paga as pensões, não me parece assim tão linear, ou seja, parece, mas não é... A argumentação é relativamente velha, mas é real:
1 - Quem descontou para as suas pensões, foi cada um de nós (eu descontei);
2 - O que o Estados (os sucessivos Governos) fizeram e fazem com esse dinheiro, não sabemos (eu sei, por exemplo, que as primeiras Barragens mandadas fazer pelo Salazar, foram pagas com esse dinheiro);
3 - Se não há uma rubrica onde esse dinheiro descanse, ou renda, é outra coisa;
4 - Se assim não fosse, como é que os PPR garantiriam(?) as "reformas"?;
5 - Se o que descontamos não chega para o tempo de vida de Reformado, é outra história;
6 - Com a Reforma aos 67 anos e a esperança de vida aos 74 para os homens e 81 para as mulheres, o Estado ainda vai ganhar dinheiro, sem precisar dos descontos dos jovens.
Ou tem outra leitura da realidade, que não seja a que os governos chamam de "sustentabilidade" e que se traduz no. Gastamos nos Orçamentos e agora não temos dinheiro e vamos buscar o dos jovens.

Manuel Henrique Figueira disse...

Senhor Prof. A. S. Pereira:
Quando diz que somos o 4.º país a gastar mais em percentagem do PIB, o que significa isso?
Qual PIB?
Se crescermos 0,7% num ano e 7% no outro seguinte, as percentagens relativas de gastos em cada ano variam de 1:10 não é?
Por isso pergunto, como é feito esse ranking de países? Há ponderação?
Outro lado da questão: como sabe, na Suiça há um mínimo de rendimento considerado essencial (e garantido pelo Estado) para se viver decentemente. Nas pensões, igualmente. Mas MELHOR, a pensão máxima garantida pelo Estado é de 1700 francos, independentemente do vencimento no activo; e cada um só tem uma pensão.
Entre nós, país «rico» e bem organizado, que explora todos os seus recursos e potencialidades, temos pensões milionárias garantidas pelo Estado e temos pessoas com várias pensões.
Inicia-se e progride-se numa carreira, suspende-se por uns anitos (p. ex. para trabalhar no Banco de Portugal), regressa-se à carreira inicial e vão duas. Entretanto, com mais um biscate qualquer, normalmente de natureza política, garante-se uma terceira, ou quarta, depende da habilidade do artista.
Paralelamente a estes habilidosos vegetam vastas camadas da população com apenas 300 euros de pensão ou menos.
Depois vêm os homens da macro economia e decretam que o país não aguenta.
Pudera, com tanto oportunismo e desfaçatez, era difícil aguentar.

Anónimo disse...

Os comentários pareceram-nos mais lúcidos (e justos) do que o texto.
Gostaríamos de ver (ler) nova reflexão do autor do Blogue.


Henrique