24 fevereiro 2011

FINALMENTE BOAS NOTÍCIAS

Como já aqui mencionei várias vezes, nos próximos anos se há crise que vai condicionar o bem-estar do país e o próprio andamento da economia nacional é a crise do endividamento externo. A nossa dívida externa é, de longe, o nosso problema mais grave e decerto que a sua evolução terá um papel preponderante para o país e para a condução da política económica e das finanças públicas nos próximos tempos.
Como todos sabemos, nos últimos anos andámos todos a fingir que este problema não existia (no final dos anos 1990 só um ou dois economistas, como Vítor Bento e Abel Mateus, fizeram menção ao problema), e os sucessivos governos ignoraram ostensivamente os nossos crescentes desequilíbrios externos. É natural. É muito mais apelativo falar de projectos "modernizadores" e preocuparmo-nos em inaugurar esta ou aquela auto-estradas ou aquele hospital (ainda por cima sem pagarmos um cêntimo ao utilizarmos as parcerias público-privadas como meios de financiamento) do que aborrecermos os eleitores com palestras sobre a dívida recorde que temos para com o exterior. Uma chatice, como é óbvio.
Porém, a verdade é que, nos últimos 15 anos, os desequilíbrios foram-se acumulando de forma gradual, mas  inexorável, até que chegámos a um ponto (em 2009), em que nossa posição externa líquida (que mais não é que a diferença entre os nossos activos no estrangeiro menos aquilo que devemos ao exterior, e assim é uma espécie de dívida externa líquida) ultrapassou uns incríveis 100% do PIB nacional. Vale a pena referir que o agravamento da nossa dívida externa líquida não parou de aumentar todos os anos entre 1995 e 2009, assim como podemos ver no gráfico abaixo. Ou seja, nos últimos 15 anos, temos andado a caminhar a passos largos para um abismo financeiro que já não conhecíamos desde, pelo menos, 1891.
E é exactamente por isso que os dados agora divulgados pelo Banco de Portugal sobre a nossa balança de pagamentos são tão importantes. Pela primeira vez nos últimos 15 anos, a nossa posição externa líquida melhorou, de 111,1% do PIB em 2009 para 108,5% do PIB em 2010. Sinceramente já muito tempo que não via um indicador da economia nacional que me deixasse tão contente. É pouco, eu sei. É muito pouco. É muito pouco e os nossos desequilíbrios externos ainda são elevadíssimos. Ainda por cima, esta melhoria aconteceu mais pelo crescimento do PIB do que pela descida da nossa dívida externa. E será suficiente para evitar consequências dramáticas relacionadas com a nossa insustentável dívida externa? É óbvio que não. Ainda há muito para andar.
No entanto, é um começo. Um começo muito importante. E, por isso, esperemos que esta inflexão da nossa dívida externa líquida esteja aqui para ficar. Este é que é o tipo de notícias que devíamos "celebrar" (desde que percebamos que este é apenas um pequeno começo) em vez de andarmos a fazer propaganda pouco correcta sobre a situação das nossas finanças públicas.
Como já defendi anteriormente, considero absolutamente fundamental que um próximo governo dedique uma atenção muito especial a este problema e que estabeleça metas muito precisas e plurianuais para o combate à dívida externa. É exactamente isso uma das medidas que defendo no meu novo livro. Aliás, é inevitável que o tenhamos de fazer, sob pena alguém de fora venha fazer o trabalho por nós.

Gráfico _ Dívida externa líquida em % do PIB, 1996-2010
Fonte: Banco de Portugal, Santos Pereira (2011)

3 comentários:

Voices disse...

Olá Álvaro.

"Ainda há muito para andar". Totalmente de acordo. Ainda há mesmo muito para andar e todo o que de bom acontecer terá que se materializar na melhoria objectiva das condições de vida das pessoas. Só quando isso começar a acontecer é que poderemos dizer que o caminho se iniciou. Portugal está a tentar livrar-se da falência. Esse facto é uma derrota clamorosa. Não será uma vitória evitar a falência; será uma vitória melhorar a vida dos portugueses.

Como ávido leitor do seu blog, deixo-lhe apenas uma nota. É "ostensivamente", não "ostencivamente". Apenas um pormenor. :)

Continue o excelente contributo! ;)

João disse...

Caro ASP,

O seu texto é muito interessante.

No entanto, infelizmente, as notícias não são assim tão boas. A posição externa líquida ficou melhor de facto, mas foi por maus motivos. Foi essencialmente devido a variações dos preços dos activos e passivos. [veja o quadro C.3.7 do BE do BdP]

Há três grandes variações a considerar:

1)A perda de valor das OT (que são passivos da economia portuguesa e, maioritariamente, activos de não residentes). O preço das OT diminuiu em mercado secundário (por menor procura e por pressão vendedora), o que se tem traduzido em yields mais altas. A variação foi de 9,7 mil milhões de euros ( 5,8 p.p. do PIB)

Por absurdo, a nossa posição externa líquida melhoraria em 40% do PIB se as OT passassem a valer zero (numa situação de default da dívida).

2) O aumento do preço do Ouro Monetário, que é um activo do Banco Central (2 p.p. do PIB).

3) A venda da participação na VIVO pela PT deu origem a mais valias, que são variações de preço da posição externa líquida, pois os activos estavam valorizados em carteira a um valor muito inferior ao valor a que acabaram por ser vendidas (cerca de 6 mil milhões, 3,6 p.p. do PIB)


Moral da história, sem estes efeitos a posição externa líquida aumentaria na medida do défice externo, que acabou por ser quase 9% do PIB.

Cumprimentos
JMC

Voices disse...

Acontece sempre, right? :) "tudo", não "todo".

Continuação de bom trabalho!