14 julho 2009

OS PARTIDOS E A CRISE

Estamos a dois meses e meio das eleições e, sinceramente, ainda não vi uma discussão (ou um plano sequer) dos principais partidos portugueses sobre as medidas que precisamos de tomar para combater a crise estrutural que a economia portuguesa vem vivendo na última década. Suspender as grandes obras públicas certamente não chega e continuá-las ainda menos. Se se fala em apoiar as PMEs, como é que tal vai ser feito e com que impacto nas contas públicas? Como é que os partidos tencionam ajudar a economia a fazer a transição de um modelo baseado em salários baixos e baixa produtividade para outro com maior produtividade? Que sectores vamos privilegiar? Como vamos fazê-lo? Como vamos aumentar os apoios às exportações? Como é que vamos estimular uma maior diversificação dos destinos das exportações? Haverá lugar para cortes de impostos? Se sim, quais e como? Como é que o combate ao desemprego vai ser feito? Através do investimento público ou de um maior estímulo à criação de empresas?
Estas são algumas das questões (entre outras) que eu gostaria de ver respondidas pelos partidos políticos. Infelizmente, até agora, sabemos pouco ou nada sobre o que é que os partidos pensam sobre estes assuntos. Esperemos que a situação mude até às eleições.

07 julho 2009

O "REI" ESTÁ MORTO

As televisões americanas e as canadianas estão num estado de perfeita histeria com a morte de Michael Jackson. Não se fala de outra coisa. Faz-me lembrar quando a princesa Diana morreu e o Reino Unido ficou num estado de catatonia mórbida durante dias a fio. Hoje só se enaltece o auto-proclamado "rei da pop". Entretanto, ontem a televisão pública canadiana, a CBC, transmitiu um documentário da série Passionate Eye, onde a imagem de Jackson era bem menos abonatória Narrado e contado por antigos colaboradores do cantor, o documentário retrata Jackson como nada menos que um pedófilo e abusador de crianças. Nada que não se sabia, mas com bastante mais pormenores. Numa altura em que Jackson é glorificado por milhões de fãs em todo o mundo, convém não esquecer o lado menos glamorioso do homem. Penso que o documentário ainda não está disponível na net, mas, quando estiver, pode ser encontrado aqui. Muito interessante.

03 julho 2009

A DEMISSÃO DO MINISTRO

Após a lamentável cena no Parlamento, era quase inevitável que Manuel Pinho se demitisse. Se nos lembrarmos das outras gaffes do ex-ministro, talvez a demissão não tivesse acontecido se não estivessemos tão perto das eleições. Assim, não havia grande alternativa. O desgaste para o governo seria demasiado se Pinho não tivesse saído. Como estamos a menos de 3 meses das eleições, os riscos para o governo da permanência de Pinho seriam enormes. A oposição argumentou logo que o gesto de Pinho era mais um sinal do desnorte do governo. Talvez. Porém, o mais provável é que as culpas se centrem mesmo no ex-ministro. É que, quase desde o primeiro dia, ele não conseguia evitar as gaffes. Enfim.
Dito isto, interessa também realçar que o primeiro-ministro esteve muito bem neste episódio. É certo que José Sócrates já devia ter remodelado o ministro há muito tempo. Contudo, perante o gesto de Pinho no parlamento, Sócrates procedeu bem e com a dignidade que se impunha.
Qual é o principal legado de Manuel Pinho? A aposta nas energias renováveis. Não tenho dúvidas que este será um dos sectores mais importantes para a economia portuguesa nos próximos anos. Pinho teve a visão de ser o primeiro a apostar no sector de forma considerável. E por isso, e apesar das gaffes terríveis, Manuel Pinho deixa um importante legado que deve ser continuado.

27 junho 2009

DIVINA

Estava hoje à procura de novidades de jazz numa loja quando ouvi uma música que me chamou a atenção. Perguntei quem cantava e responderam-me Melody Gardot. Não conhecia. Eu sei, eu sei. A capa engana. Não parece jazz, mas é. E do melhor, pelo menos algumas das músicas. As primeiras músicas do album são engraçadas, mas não são certamente nada do outro mundo. Porém, a faixa 9, "My one and only thrill", que dá nome ao album, é simplesmente divinal. Os arranjos são extraordinários e a música é do mais bonito que ouvi nos últimos tempos. Simplesmente perfeito. Vale a pena descobrir, principalmente se começar na nona faixa.

26 junho 2009

UM OUTRO MANIFESTO

Como era esperado, depois dos insultos gratuitos e das acusações de manipulação política em relação ao apelo à reavaliação dos grandes investimentos públicos, chegam-nos agora notícias que há um novo grupo de economistas a preparar um manifesto alternativo em que se irão defender os mega-projectos públicos. Sinceramente não surpreende e até provável que o novo manifesto venha a ter 30 ou 40 economistas para contrapôr ao primeiro, que, como se sabe, subscrevi. Afinal, como é óbvio, até seria possível arranjar um grupo de economistas marxistas (é verdade... ainda existem...) que defendessem uma nova nacionalização das principais actividades produtivas e empresas do país.
No entanto, nenhum outro manifesto retira o mérito do apelo que considerámos necessário fazer. Um dos objectivos do chamado manifesto dos 28 economistas, que tanto tem sido debatido nos últimos dias, era exactamente este: pôr o país a falar sobre as melhores formas de combater a crise, e se as grandes obras públicas são realmente necessárias no actual contexto. Só por isso, já valeu a pena, pois finalmente ouvimos os diversos campos a discutir as várias opções de política económica que se colocam ao país.

24 junho 2009

ATAQUE À CRISE

Agora que nos aproximamos a passos largos das eleições legislativas, seria bom que os diversos partidos nos apresentassem propostas claras sobre como tencionam combater a crise e o crescente aumento do desemprego. Devem investir nos grandes investimentos públicos? Cortar impostos? Aumentar os apoios às empresas e às famílias? Apoiar as empresas inovadoras? Ou devem tentar outras alternativas?
Neste sentido, o meu desejo é que os partidos façam um verdadeiro debate sobre as suas visões estratégicas para o país e não passem o tempo preocupados com um confronto de estilos ou com trivialidades que não levam a nenhum lado. Tenho a esperança que possamos levar a cabo esse debate, nem que não seja devido à grave crise que nos assola. Veremos se esta não é uma esperança infundada.

20 junho 2009

O APELO DOS ECONOMISTAS

Vale pena tecer as seguintes considerações adicionais sobre o apelo à avaliação dos investimentos públicos, que também subscrevo:
Em primeiro lugar, o que nos levou a redigir e subscrever o documento não foi nenhuma motivação política nem uma outra qualquer razão obscura. Entre os 28 subscritores, há pessoas de várias tendências políticas, independentes e ex-ministros de diversos governos, que têm certamente posições muito distintas em relação à política económica nacional.
Em segundo lugar, penso que é importante realçar que o que fez unir 28 pessoas com opiniões tão diversas foi o desejo de alertar os portugueses sobre a necessidade de reflectir um pouco mais sobre os grandes projectos públicos (TGV, aeroporto, e auto-estradas), e de realizar estudos mais aprofundados sobre estes mesmos projectos. Entendemos que, na conjuntura actual, o interesse nacional não é devidamente salvaguardado com o investimento publico em mega projectos de rentabilidade duvidosa. No mínimo, entendemos que deve haver uma reflexão adicional e um debate mais alargado sobre estes projectos.
Em terceiro lugar, certamente que os 28 subscritores do apelo têm opiniões distintas sobre a melhor forma de atacar os problemas estruturais da economia portuguesa. No entanto, o que é notável é que foi possível obter consenso entre tantos economistas. Uma das anedotas mais conhecidas dos economistas é que se colocarmos 5 economistas numa sala a discutir um problema de política económica, sairão de lá 5 recomendações diferentes. Aplicando o mesmo raciocínio, penso que é significativo que 28 economistas esqueceram as suas diferenças para assinar um documento conjunto sobre um tema da maior importância para o país.
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Finalmente, uma opinião mais pessoal. É óbvio que a intenção dos subscritores não foi criar uma arma de arremesso político. Houve inclusivamente o cuidado de avançar somente depois das eleições europeias. No entanto, também me parece evidente que este será um dos temas da campanha eleitoral, o que acho bem, pois é preciso que haja um debate alargado sobre o assunto. Porém, e independentemente das nossas preferências políticas, o que seria importante é que os principais partidos políticos portugueses defendessem de uma vez por todas um estudo mais abrangente destes mega-projectos públicos. Seria igualmente desejável que houvesse uma reavaliação das prioridades nacionais numa altura em que temos uma crise interna que já dura há quase uma década, o país sobreendividado tanto interna como externamente, bem como a maior crise internacional das últimas décadas. Não serão estes motivos suficientes para sermos mais prudentes na aplicação de escassos recursos públicos e privados? Não haverão alternativas melhores à aplicação destes fundos? Penso que sim, assim como defendi no meu último livro.

Fico à espera da vossa opinião sobre o assunto. Se desejarem ver o documento, bem como uns gráficos que preparámos sobre a situação económica actual, podem fazê-lo aqui.

15 junho 2009

PRIMEIRO PASSO

Benditas eleições europeias. Finalmente, parece que vamos ter um debate sobre o TGV e as grandes obras públicas. Hoje tanto o editorial do Publico como o DN se debruçam sobre a necessidade de construir o TGV. Ainda bem. Esperemos que se faça um debate sério e honesto sobre o assunto, pois, se o fizermos, os portugueses facilmente concluirão que a Alta Velocidade não se justifica no situação económica actual do país. Aliás, como já aqui falei várias vezes, o TGV é um autêntico disparate que não faz sentido no contexto em que nos inserimos.
No entanto, mesmo que, na melhor das hipóteses, o TGV seja suspenso indefinidamente, é importante que os partidos da oposição (e o próprio governo) apresentem propostas concretas (isto é, com números) sobre como é que pensam resgatar o país da crise estrutural em que nos encontramos. Ou seja, é ilusório pensar que os partidos da oposição podem tentar vencer as eleições legislativas somente numa plataforma anti-grandes obras públicas. Tem de haver propostas, políticas, e novas ideias que forneçam aos portugueses a esperança que algo pode e deve ser feito para combater a crise nacional. Se tal não for feito, a suspensão das grandes obras públicas como o TGV será apenas um pequeno passo na direcção certa. Um pequeno passo que, apesar de importante, não será suficiente para inverter a alarmante trajectória descendente dos últimos anos da economia portuguesa.

14 junho 2009

CRISE E BANCOS CENTRAIS

Perguntas de Luís Leitão, jornalista do jornal Expansão de Angola, sobre o papel dos bancos centrais na crise financeira internacional
A crise financeira que assola as economias há mais de um ano trouxe para a ribalta os bancos centrais, que se pautaram por políticas de forte intervencionismo pela via da injecção de moeda na economia, da redução das taxas de juro e até a nacionalização de bancos. Apesar de, certa maneira, todos os Bancos Centrais terem seguido estas políticas, quais são as diferenças que podemos encontrar no “meios operandis” do BCE, Fed, Banco do Japão e Banco de Inglaterra no combate à crise?
A Fed e o Banco da Inglaterra foram muito mais activos e tiveram uma intervenção mais contundente nos primeiros meses da crise, enquanto o BCE foi mais prudente. Em parte, esta diferença justifica-se com os próprios mandatos de cada um dos bancos. A FEd e o Banco de Inglaterra têm por mandato a estabilidade de preços, mas também o estímulo da economia, enquanto o BCE só tem por mandato a estabilidade de preços. Penso que essa foi uma das razões que levaram o BCE a demorar um pouco mais a baixar os juros do que os seus congéneres nos outros países mais desenvolvidos.
No entanto, vale a pena assinalar que desde meados de 2008 que os bancos centrais da OCDE cooperaram entre si para aumentar a quantidade de fundos na economia mundial. A crise do subprime levou a uma grande contracção da oferta de crédito e, por isso, os vários bancos centrais actuaram aumentando os fundos existentes.
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Se até há pouco tempo quase toda a gente falava na privatização dos bancos públicos, hoje são poucas as vozes que se levantam para defender esta ideia. Afinal, qual é o papel dos bancos de capitais públicos no meio desta crise? Funcionam um pouco como “a mão invisível” de governos e Bancos Centrais como forma de garantir a tão desejada “estabilidade” económica ou são mais que isso?
A crise financeira internacional veio demonstrar que manter um banco público pode ser útil, principalmente para países com um menor nível de desenvolvimento (e que, assim, estão sujeitos a maior volatilidade). O banco público pode ser utilizado em períodos de maior instabilidade como um garante de estabilidade financeira. Isto é, nestes casos, o banco público pode ser uma autêntica âncora estabilizadora do sistema financeiro. Um banco público pode igualmente servir de suporte ao próprio desenvolvimento económico, ao ser o financiador de projectos de importância estratégica e ao aparecimento de novas empresas. Mas, nem tudo são rosas. Se o banco público não mantiver uma certa independência na sua gestão, há sempre o risco de instrumentalizar em demasia a sua actividade. Por outro lado, é também importante realçar que a nacionalização de bancos privados nos países mais ricos é meramente temporária, até que estes bancos recuperam da crise dos últimos meses.

É conhecida a crispação entre Greenspan e o presidente norte-americano George W. Bush durante o seu mandato, chegando este a utilizar o seu discurso sobre o estado da união em 1991 para mostrar o seu descontentamento do papel da Fed ao dizer que "Temos observado demasiado pessimismo". Qual é a importância dos Bancos Centrais estarem forem da alçada do governo, de serem verdadeiramente independentes? É da máxima importância que isso suceda para o bem da economia ou ambas as organizações (Governo e Banco Centrais) podem/devem estar directamente ligadas?
É muito importante. Vários estudos demonstram que a taxa de inflação média é mais baixa nos países com bancos centrais independentes e que a estabilidade macroeconómica é maior. Para além do mais, quando os bancos centrais não são independentes, há sempre a tentação de um governo pedir ao banco central para estimular a economia antes de uma eleição, por forma a ganhá-la. O banco central pode fazê-lo quer baixando as taxas de juros, quer aumentando a quantidade de dinheiro na economia. Se tudo correr como esperado, a economia cresce, a inflação sobe e o desemprego diminui antes da eleição. Depois de ganhar as eleições, o governo e o banco central são forçados a re-estabilizar a economia e a controlar a inflação, o que irá fazer com que o crescimento económico baixe e o desemprego suba. O processo termina com uma situação semelhante à inicial, mas com maior inflação. Isto é, a situação macroeconómica deteriora-se. Por outras palavras, quando os bancos centrais não são independentes do poder político há sempre a tentação de criar ciclos económicos políticos que somente aumentam a instabilidade económica.
Um exemplo ainda mais dramático da ausência de independência dos bancos centrais é-nos dado pelo Zimbabwe, que viveu recentemente uma das maiores hiperinflações da história mundial. Se o banco central zimbabueano fosse independente do poder político é muito provável que o país não teria sido sujeito à tragédia económica e social dos últimos meses.

12 junho 2009

IRRESPONSABILIDADE AO RUBRO

O meu artigo no DN de ontem sobre as eleições europeias.
"No rescaldo das eleições europeias, alguns ministros do governo já vieram a público afirmar que o calendário da aprovação das grandes obras públicas era para manter. Não interessa o pequeno pormenor que as eleições legislativas se irão realizar em Outubro e que há sempre a possibilidade de o país mudar de rumo (com ou sem o PS). Não interessa que o partido do governo perdeu as eleições de forma decisiva. Não interessa que os portugueses mostraram um enorme desinteresse em relação à política actual ou que vociferaram um inédito voto de protesto através de um número recorde de votos brancos e nulos. Não interessa sequer que, até hoje, nenhum governo explicou aos portugueses as verdadeiras consequências financeiras e económicas de projectos como o TGV.
Afinal, se as grandes construtoras anseiam pelas grandes obras públicas, o que importam a opinião dos portugueses ou o interesse nacional? No entanto, a verdade é que, ao teimar nessa estratégia autista, contra tudo e contra todos, o governo faz um péssimo serviço ao país. Independentemente da cor política de cada um, as regras mínimas da prudência e da responsabilidade democrática seriam para o governo esperar pelo veredicto das eleições de Outubro antes de embarcar na adjudicação das grandes empreitadas. Para perceber porquê, basta lembrar que projectos como o TGV irão dar azo aos maiores custos financeiros e económicos desde a Guerra Colonial.
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Numa altura em que o endividamento da economia portuguesa atingiu níveis históricos e em que o mundo se debate com a maior recessão das últimas décadas, insistir na irresponsabilidade das grandes obra públicas como o TGV sem as submeter ao plebiscito dos portugueses é de uma irresponsabilidade atroz, com laivos de uma prepotência política indefensável. No mínimo, é uma atitude extremamente questionável.
Por isso, interessa perguntar: porquê tanta pressa? Por que não esperar quatro meses? Por que não perguntar aos portugueses a nossa opinião sobre o assunto, antes de decidir assinar contratos que terão enormes consequências financeiras para as próximas gerações? Ora, sabendo que os fundos europeus não vão ser redireccionados nuns meros quatro meses, sabendo que projectos como o TGV não se iniciarão a tempo para combater a crise actual, sabendo inclusivamente que o impacto de tais projectos no emprego é residual, por que é que o Governo quer aprovar as grandes obras públicas a todo custo antes de Outubro? Sinceramente, é difícil perceber o porquê de tamanha teimosia, a não ser que apelemos a certas teorias conspirativas de interesses obscuros que todos gostamos de negar.
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Esperemos assim que o cartão amarelo das eleições europeias sirvam para o governo reflectir e suspender temporariamente a adjudicação das grandes empreitadas. Pessoalmente, até acho que este governo teve o mérito de iniciar algumas reformas importantes para o futuro do país. Porém, ao insistir numa estratégia cega, demagógica e irresponsável nos projectos das grandes obras públicas, o governo ameaça hipotecar irremediavelmente o seu próprio legado político. E quem pagará a factura serão os portugueses, durante muitas e muitas décadas. E, claro, tal acontecerá mesmo que o governo actual não vença as eleições de Outubro.

INTERREGNO

Após um longo interregno da blogosfera por estar envolvido nalguns projectos que me têm consumido uma boa parte do meu tempo, finalmente regresso ao Desmitos. Nos próximos dias irei tentar responder aos vossos comentários e sugestões.

15 maio 2009

A CORRUPÇÃO E A CRISE

O meu artigo de hoje no PUBLICO.
Como a crise interna já se arrasta há quase uma década, tem-se propagado a ideia de que muitos dos nossos males provêm do elevado nível de corrupção que grassa em Portugal, um sentimento agravado com os badalados casos que recentemente têm vindo a público. Por isso, vale a pena perguntar: será mesmo assim? Afinal, quão grave é a corrupção em Portugal?

Para respondermos a estas perguntas, o melhor é socorrermo-nos aos estudos comparativos da corrupção no mundo. O mais conhecido é o da Transparency International, cujo índice de percepção de corrupção é dos mais utilizados pelos investigadores destas matérias. E o que é que este índice nos informa? Que, em 2008, Portugal se encontrava em 32º lugar entre 180 países em termos de percepção de corrupção. Na Europa, Portugal estava na 19ª posição (em 31 países), tendo uma classificação pior do que a Espanha, mas melhor do que a Grécia, a Itália e a República Checa. Isto é, em relação à percepção de corrupção, e contrariamente àquilo que às vezes se pensa, Portugal não é dos melhores, mas certamente não é dos piores. Portugal está ligeiramente pior do que a média europeia. Esta ideia é confirmada se atentarmos às práticas de corrupção. Inquéritos realizados por esta organização revelam que somente 2% dos entrevistados portugueses já pagaram um suborno para obter determinados serviços.

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Mas as notícias menos más acabam aqui. Este índice internacional mostra claramente que a de percepção de corrupção tem piorado nos últimos anos. Assim, em termos europeus, Portugal desceu 5 posições entre 1998 e 2008. Pior: dois terços dos portugueses esperam que os problemas de corrupção vão aumentar nos próximos anos e, ainda mais grave, dois terços de nós consideram que o governo tem sido ineficaz no combate à corrupção. Ou seja, a percepção da corrupção tem aumentado com o arrastar da crise económica e a desconfiança em relação aos nossos governantes tem crescido consideravelmente.

Esta ideia é confirmada se observarmos o impacto da corrupção nas várias instituições nacionais. Os portugueses consideram que os partidos políticos são muito corruptos e que o Parlamento, as autoridades fiscais, e o sistema judicial são corruptos. A Polícia e os serviços médicos são igualmente olhados com desconfiança. Moral da história: apesar de Portugal não ser um país onde a corrupção impera, é preocupante observar que a percepção de corrupção tem aumentado substancialmente e que o nosso sistema político é visto com extrema suspeição pelos portugueses. Decerto que esta desconfiança em relação aos partidos políticos não terá diminuído com a aprovação da nova lei do financiamento dos partidos.

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Claramente, esta tendência tem que ser invertida. Por isso, o próximo governo tem responsabilidades acrescidas nesta matéria, principalmente se pretender ter aspirações reformistas. Neste sentido, a primeira medida do próximo governo devia ser a introdução de um pacote credível de medidas anti-corrupção. Uma tal medida seria importante para restaurar a confiança dos portugueses nos seus governantes e instituições, bem como para travar a recente subida da percepção da corrupção. E como todos sabemos, a restauração da confiança é o primeiro passo para alcançar uma retoma económica há tanto esperada e desejada. Por isso, esperemos que os próximos governo e Parlamento tenham coragem de fazer aquilo que os portugueses crescentemente exigem: a introdução de leis anti-corrupção credíveis, que moralizem a vida pública e que ajudem a combater o generalizado clima de descrença que se vive no nosso país.

14 maio 2009

INTERESSE NACIONAL E O BLOCO CENTRAL

Aqui está um artigo que escrevi para o DN sobre um dos temas dos últimos dias, a constrituição de um Bloco Central. Apesar de pensar que os partidos se devem abster de falar sobre este assunto antes das eleições, acho que vale a pena pensarmos se um governo do Bloco Central faz ou nnão sentido num cenário em que nenhum partido alcança a maioria absoluta nas legislativas. É esse cenário que este artigo aborda:

"Nos últimos dias, intensificou-se o debate sobre as virtudes e as desvantagens de um governo do Bloco Central após as próximas eleições legislativas. Em circunstâncias normais, não faria sentido falar num novo Bloco Central. Contudo, nós não estamos em circunstâncias normais. Bem pelo contrário. Por isso, vale a pena relembrar o que está em causa.

Na última década, a economia nacional registou o pior desempenho dos últimos 80 anos, com o crescimento económico potencial a atingir valores já não vistos desde o início do século 20. Por que é que tal aconteceu? Estaremos numa trajectória de declínio irreversível, como alguns defendem? Não, pelo menos, não necessariamente. Convém não esquecer que, nas últimas décadas, a economia portuguesa foi das que mais cresceu na Europa, um evidente sinal de sucesso. Porém, também é claro que a economia portuguesa atravessa a mais grave crise de competitividade da sua história recente. Como é que chegámos a esta situação? Porque entrámos para o euro a uma taxa de câmbio demasiada elevada, o que encareceu as nossas exportações e diminuiu competitividade de muitos dos nossos sectores tradicionais. Ainda por cima, nos últimos 10 anos, os preços nacionais cresceram a um ritmo superior à média europeia, o que tornou os nossos produtos ainda menos apetecíveis. E a crescente liberalização do comércio internacional, a concorrência da China e a abertura da UE ao Leste Europeu agravaram ainda mais os nossos problemas de competitividade. Resultado: a economia estagnou e o bem-estar alcançado nas últimas décadas foi posto em causa.
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E é aqui que chegamos à questão do Bloco Central. Num cenário em que nenhum partido consiga alcançar a maioria absoluta nas legislativas, terá o país capacidade para combater eficazmente a crise e implementar uma nova política de competitividade? A resposta é claramente negativa. Perante os enormes desafios que se colocam à economia nacional e perante a grave crise internacional, Portugal não se pode dar ao luxo de ficar refém de partidos cujas políticas iriam agravar ainda mais o nosso problema de competitividade, nem refém do imobilismo que inevitavelmente seria associado a um governo minoritário. Por isso, nesse cenário, um governo do Bloco Central é um verdadeiro imperativo.

Será possível que o PS e o PSD consigam chegar a um acordo? Sim, pois nas grandes questões nacionais há mais consensos do que divergências irresolúveis entre os dois principais partidos portugueses. Nesse sentido, um governo do Bloco Central poderia ser um catalisador para prosseguir uma agenda reformista.

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Mas nem tudo seriam rosas. Provavelmente, um dos principais pontos de contenda num governo do Bloco Central seria a prioridade a dar aos grandes investimentos públicos. No entanto, talvez mesmo nessa questão seja possível chegar a um acordo, visto que, com o agravamento da crise económica, será cada vez mais difícil justificar desbaratar escassos recursos financeiros para embarcar em projectos financeiros irrealistas e potencialmente comprometedores para a saúde financeira do país.

Em suma, embora um governo PS-PSD possa ser difícil de alcançar ou de concretizar (pois há muitos interesses nos dois partidos para que um tal cenário não se materialize), a verdade é que um novo Bloco Central poderia ser o paliativo necessário para que algo mude em Portugal e para que os portugueses voltem a acreditar nos nossos políticos.

Há momentos em que a política partidária deve ser temporariamente posta de lado em prol do interesse nacional. Este é exactamente um desses momentos. E é por isso que faz todo o sentido falar num governo do Bloco Central."

13 maio 2009

GRANDE DEPRESSÃO OU GRANDE RECESSÃO?

Gráfico 1 _ PIB mundial na década de 1930 e actualmente
Dois ilustres historiadores económicos, Barry Eichengreen e Kevin O'Rourke, compararam o que aconteceu à economia mundial durante a Grande Depressão e durante os primeiros meses da recessão actual. Os investigadores chegaram à conclusão que a descida do PIB mundial desde Abril de 2008 tem sido tão acentuada como durante a Grande Depressão (ver gráfico acima). Pior, na crise actual os mercados financeiros mundial e o comércio internacional já desceram ainda mais do que na década de 1930. Quer isto dizer que estamos mesmo numa nova Grande Depressão? À primeira vista, parece que sim. No entanto, como já aqui falámos e como estes investigadores demonstram aqui, a grande diferença entre a Grande Depressão e a crise actual tem ocorrido ao nível da resposta da política económica. Esssencialmente, desde Abril de 2008, as taxas de juros já desceram muito mais depressa do que durante a Grande Depressão, oferta monetária tem aumentado muito mais depressa do que então (gráfico abaixo) e os governos têm aumentado os défices orçamentais a um ritmo muito superior. Por outras palavras, tanto a política monetária como a política fiscal têm sido muito mais agressivas (e expansivas) actualmente do que na Grande Depressão. Isto é, os governos e os bancos centrais aprenderam as lições do período da Grande Depressão e têm actuado mais rapidamente. Resta saber se vai resultar. É verdade que já há indícios que algumas economias na OCDE têm dados sinais que poderão estar a começar a recuperar, mas ainda é cedo para termos certezas.

Gráfico 2 _ Oferta monetária mundial na década de 1930 e actualmente
PS. Gráficos retirados daqui

30 abril 2009

GRIPE SUÍNA

O DN fez-me umas perguntas sobre o impacto económico da gripe suína. Aqui estão as minhas respostas:

DN_ O Banco Mundial estimava que uma epidemia de gripe da aves teria um impacto de 3 mil milhões de dólares na economia global. É possível prever os impactos desta nova gripe?

Certamente que, brevemente, quando tivermos uma noção mais concreta do impacto e da extensão do problema, irão surgir estimativas do impacto da gripe suína. O que sabemos é que o impacto final irá depender da extensão e difusão desta nova gripe. Tudo vai depender se vai haver realmente uma pandemia, quantos países serão afectados, etc.

DN- O fecho das fronteiras é a principal ameaça? Que efeitos pode ter?

Sim, o encerramento das fronteiras é uma das ameaças mais sérias. Se tal acontecesse, os efeitos económicos seriam bastante consideráveis, pois esta gripe surge num momento em que a economia mundial já está bastante debilitada. O encerramento das fronteiras irá lesar principalmente os países mais dependentes do comércio externo.

DN- Os mercados, depois de um impacto negativo nos primeiros dias, parecem agora estar a reagir bem... é de esperar que continuem a reagir bem?

Tudo vai depender da evolução da doença. Se a febre suína se tornar mesmo numa pandemia, o comércio internacional será muito atingido, o que seguramente irá afectar negativamente os resultados das empresas. Num tal cenário, certamente que os mercados irão reagir de forma negativa.

DN- Há empresas que podem sair a ganhar?

Há sempre empresas que podem sair a ganhar. Obviamente, muitas empresas do sector da saúde irão beneficiar, não só os produtores de medicamentos como o Tamiflu, mas também as empresas que vendem máscaras, produtos desinfectantes e sanitários, etc. Mas há muitos outros potenciais vencedores. Imaginemos um cenário em que se dá mesmo uma pandemia mundial e que o comércio internacional é seriamente afectado. Haverá produtores nacionais que poderão sair beneficiados se os seus concorrentes externos forem atingidos. Obviamente, se os preços dos produtores nacionais forem mais elevados do que os preços dos seus concorrentes internacionais, quem pagará a diferença serão os consumidores.

DN- Quais as que podem perder mais?

As empresas que podem perder mais são exportadores e importadoras, bem como aquelas que dependem de matérias-primas e bens intermédias para as suas produções. Ou seja, as empresas que podem perder mais são aquelas que mais dependem do comércio internacional para as suas actividades.

DN- É importante para as empresas estabelecerem planos de contingência?

Sim, claro que sim. Aliás, é muito provável que muitas empresas já o estejam a fazer, principalmente se dependerem de mercados externos para as suas produções