02 abril 2009

CRISE INTERNA (1)

A Visão de hoje apresenta um trabalho de Francisco Galope, no qual se debate a crise interna de Portugal. Aqui estão as minhas respostas às questões que me foram colocadas pela Visão:
Visão. Na sua opinião, quais os factores internos que estão a contribuir para a actual situação económica do país?
Não tenho dúvidas que a crise que o país vive há quase uma década é essencialmente interna e de falta de competitividade de muitas de nossas empresas. O que a crise económica mundial veio fazer foi agravar ainda mais o estado de crise que já existia no país. Nos últimos 8 anos, a economia portuguesa teve o seu pior desempenho em termos de crescimento económico dos últimos 80 anos. Os factores que contribuíram para este mau desempenho económico incluem o euro, a concorrência externa, e uma condução irrealista, e até mesmo irresponsável, da política económica. O euro foi responsável pela crise da última década, porque entrámos na moeda única com uma taxa de câmbio demasiado alta, o que tornou mais caras as nossas exportações, que, assim, ficaram menos competitivas. Por outro lado, a crescente globalização da economia mundial e o alargamento da UE ao Leste europeu aumentaram a concorrência das empresas nacionais nos mercados internacionais, o que fez com que muitas não aguentassem esse choque. Finalmente, quando a política económica devia servir de apoio às nossas empresas, os nossos governos inebriaram-se com a “vitória” da entrada no euro e aumentaram desmesuradamente as despesas públicas, e hipotecaram a pouca margem de manobra que nos restava na política económica. Em seguida, obcecámo-nos em demasia com o défice orçamental e, por isso, deixámos que os nossos problemas de competitividade se agravassem, sem que a política económica tentasse ajudar.
^
Visão. Portugal está a pagar alguma factura pela displicência de sucessivos governos a seguir ao 25 de Abril?
Sem dúvida. Acima de tudo, os nossos governos têm demonstrado uma gritante ausência de orientação estratégica para algumas das grandes questões nacionais, tais como a Educação, a Justiça e a condução da política económica. Continuamos a registar atrasos estruturais na Educação, a Justiça é demasiado ineficiente, e os governos continuam a pensar que gastar mais é a receita mágica para os nossos problemas.
Visão. Quais os erros de palmatória cometidos nas últimas décadas?
O nosso maior erro foi pensar que todos os nossos problemas se resolvem só porque o Estado decide gastar mais. Não se resolvem. Muito pelo contrário. O Estado é um actor económico fundamental, mas não pode tentar substituir-se ao sector privado na criação de emprego e na dinamização da economia. Por isso, é pena que a reforma do Estado tenha sido uma palavra vã até recentemente. Mesmo assim, há muito por fazer na reforma do Estado.
Os outros grandes erros cometidos foram nas áreas da Educação e da Justiça. Os nossos atrasos educativos têm décadas, mas não os conseguimos solucionar. Continuamos a ser o país da OCDE com o pior desempenho educativo (com a excepção da Turquia e do México), tanto ao nível do abandono escolar, como da qualidade educativa. Será que isso não quer dizer nada, após décadas em que injectámos centenas de milhões de euros no sector? Não será hora de repensar a nossa estratégia?
A Justiça é outro dos nossos grandes equívocos e um verdadeiro factor de descompetitividade económica. Temos a Justiça mais ineficiente e mais cara de toda a Europa, mas, mesmo assim, ainda só tivemos coragem para fazer reformas no papel e não as implementámos devidamente.
Finalmente, outro erro de palmatória foi claramente a nossa entrada no euro a uma taxa de câmbio demasiado elevada. Tal decisão é o principal factor pela crise da última década e, em retrospectiva, foi obviamente errada. Ainda por cima, desbaratámos a pouca margem de manobra que tínhamos na política económica quando aumentámos desmesuradamente das despesas públicas.

2 comentários:

Antonio disse...

Caro Àlvaro,

Estou francamente de acordo como o que diz. O problema é : Como dar a volta à questão. Sobretudo em ano de eleições o que é preciso é prometer e gastar para o povo contentar.

Entretando a competitividade das nossas empresas continua baixissima fruto da mentalidade empresasrial e sindical, a justiça não é sequer já uma miragem etc etc.

Porque é que o Àlvaro insiste mesmo que o nosso país tem solução é que eu não compreendo.

SAntonio

Augusto Küttner de Magalhães disse...

Caro António

Se não assumirmos o que o Álvaro tem vindo a defender, qual a alternativa? Deitamo-nos todos a afogar? Sei que o António tem razão em ir dizendo "quase não vale a pena...", mas enquanto não assumirmos o suícidio colectivo, temos que pensar em alternativas positivas.

Augusto Küttner de Magalhães