04 abril 2009

CRISE INTERNA (2)

Mais perguntas da Visão sobre a crise interna:

Visão. O que devia ter sido feito e agora podia funcionar como amortecedor atenuando os efeitos da actual crise?

Em primeiro lugar, devíamos ter negociado uma taxa de câmbio mais favorável quando entrámos no euro, para que muitas das nossas exportações se tivessem tornado mais competitivas. Em segundo lugar, devíamos ter exigido melhores contrapartidas quando os países da Europa de Leste aderiram à UE. Vários estudos tinham sugerido que Portugal seria o país que mais sofreria com a adesão desses países. Por que é que não actuámos mais decisivamente para sermos melhor compensados? Não estou a falar de mais fundos comunitários, mas sim mais margem de manobra para a política económica.

Em terceiro lugar, aumentar a despesa pública a ritmos terceiro-mundistas numa altura que estávamos prestes a entrar no euro foi um enorme disparate, pois diminuiu margem de manobra à política económica.

Finalmente, andarmos obcecados com o défice orçamental numa altura em que a economia nacional estagnou foi totalmente contraproducente, pois atou as mãos à política económica, fazendo deteriorar ainda mais a situação económica.

Visão. Portugal estava preparado para o Euro? Além dos famosos critérios de Maastricht deveria ter havido outros?

Os critérios de Maastricht foram mais políticos do que económicos. Foi o governo da Alemanha que os impôs para tentar evitar que países como a Itália, a Grécia e Portugal entrassem no Euro. Claramente que muitas das nossas empresas não estavam preparadas para o euro ou para uma moeda forte. Ainda por cima, como não negociámos devidamente a entrada na moeda única, como os nossos salários continuaram a crescer e como a produtividade desacelerou, sofremos uma enorme perda de competitividade.

Neste sentido, não é que deviam ter havido mais critérios de Maastricht. O que devia ter havido era ou uma entrada mais tardia para o Euro, ou, em alternativa, devíamos ter entrado com uma taxa de câmbio mais favorável.

Visão. O que é que nesta crise é estrutural e o que é conjuntural?

A crise de competitividade relacionada com o Euro é conjuntural. Ou seja, mais cedo ou mais tarde, todas as nossas empresas vão habituar-se a viver com uma moeda forte e vão conseguir competir através de ganhos de produtividade e de uma maior inovação (e não mais através das desvalorizações da moeda). Isto é, uma moeda forte como o Euro forçará as nossas empresas a serem mais competitivas e produtivas, pois não há alternativa. Aliás, há indícios que tal já estava a acontecer antes da crise internacional nos ter batido à porta, pois, entre 2005 e 2007, os sectores de tecnologia média e média-alta foram os que mais cresceram no total das exportações.

A crise internacional também é conjuntural, apesar dos impactos negativos serem bastante significativos.

Os factores estruturais prendem-se mais com a globalização e com a crescente concorrência do Leste europeu e de países asiáticos como a China e a Índia. Mais uma vez, somente quando conseguirmos melhorar a produtividade dos nossos factores produtivos e aumentar a nossa capacidade inovativa, é que nos iremos tornar mais competitivos na economia internacional.

1 comentário:

Antonio disse...

Caro Álvaro,

Vocês, os economistas!!!! Dados revelados hoje dão conta bde quebras das exportações entre 25 e 30% e das importações entre 15 e 25%. Também hoje foi revelada a quebra da industria superior a 20%.

Como é possivel então que a quebra da actividade económica nacional não seja sequer de 5%. O que é que está a crescer tão fortemente para conseguir quase comparar estas quebras brutais?

Há coisas em que a gota não dá com a perdigota.

Mas os numeros deviam estar ao abrigo de tanta prestigiditação!

Um abraço

Antonio