22 abril 2009

SATISFAÇÃO NACIONAL E SUICÍDIOS

Que os(as) portugueses(as) andam bastante desencantados com a economia nacional é bem sabido. Também é sabido que há bastante descrença em relação às potencialidades do país e à eficácias das políticas a aplicar perante a crise. Por isso, não é de estranhar que os portugueses estejam pouco satisfeitos quanto às suas vidas. Numa sondagem mundial realizada pela Gallup, podemos ver que actualmente os portugueses são dos povos mais desencantados com as suas vidas (ver gráfico abaixo). Num índice de satisfação de vida, na OCDE os portugueses só ficam à frente dos húngaros e eslovacos. Os povos mais satisfeitos são os escandinavos, os holandeses, os irlandeses e o Canadá. Os nossos vizinhos espanhois estão bem mais satisfeitos do que nós (pelo menos até à crise se ter instalado...) e até os gregos e os italianos estão mais felizes do que os portugueses.


Ainda assim, o desespero não é total, pelo menos quando nos comparamos com outros países. Se olharmos para a taxa de suicídios, Portugal é dos países que regista menores taxas de suicídios na OCDE (ver tabela abaixo e gráfico). É verdade que a nossa taxa de suicídio é maior do que a da Espanha, da Grécia, do México e da Itália, mas é bem menor do que a grande generalidade dos países. É interessante observar que, de um modo geral, os povos latinos suicidam-se bem menos do que todos os outros, inclusivamente os países bem mais abastados do que nós. Será o sol? A nossa disposição perante a vida? A nossa tendência para viver bem a vida mesmo quando as coisas não correm bem? É igualmente interessante também observar que os húngaros não só andam desencantados com a vida, mas também se suicidam a uma taxa bem mais elevada do que todos os outros na OCDE...
Taxa de suicídio vs. PIB por habitante
Finalmente, vale também chamar a atenção para um último facto. As mulheres suicidam-se muitíssimo menos do que os homens. A taxa de suicídio nacional para os homens é de 14.6 por 100 mil habitantes, enquanto a das mulheres é somente de 3,8 (ver tabela abaixo). Por que será? Qual será o segredo?


Total

Homens

Mulheres

Greece

2.9

4.7

1.1

Mexico

3.8

7

1

Italy

5.6

9.3

2.4

United Kingdom

6.3

10

2.8

Spain

6.7

10.7

3.1

Netherlands

7.9

11.1

4.9

Iceland

8.7

13.2

4.2

Portugal

8.7

14.6

3.8

United States

10.2

17

3.9

Germany

10.3

16.3

4.8

Norway

10.5

15.8

5.3

Canada

10.6

16.7

4.6

Australia

11.1

17.6

4.7

Ireland

11.1

18.2

4

Denmark

11.3

16.8

6.3

Sweden

11.4

17

6

OECD average

11.88

19.0

5.4

Slovak Republic

11.90

22

3.1

New Zealand

12

20.2

4.2

Luxembourg

12.5

20.2

5.5

Czech Republic

13

22.6

4.4

Poland

13.6

24.2

3.9

Austria

14.5

24

6.4

France

15.1

23.4

7.8

Switzerland

16.3

23.9

9.6

Belgium

18.4

28

9.8

Finland

18.4

28.9

8.5

Korea

18.7

28.1

11.1

Japan

20.3

30.5

10.4

Hungary

22.6

39

8.9


7 comentários:

Cajó disse...

Caro Alvaro:
Depois das conversas e telejornais que tenho ouvido e a relatividade das noticias, creio para a "alegria nacional" é mais importante os resultados de futebol, arbitragens, politiquices e afins do que as consequências da economia e a crise

Augusto Küttner de Magalhães disse...

Álvaro, acho muito interessante esta análise, mas suponho que já tem algum tempo. Presumo que se fosse hoje feita, haveriam alterações, não da nossa parte, mas de outros que nos ultrapassariam! Mas acho que a onda de pessimismo está para ficar! Penso que nada deve ser escondido, mas este sensacionalismo barato que aparece em muitos telejornais, cria cada vez mais desanimo, mais desalento. Hoje falava com um amigo sobre a construção civil, e algo de inacreditável que uma empresa aqui no Porto está a fazer, Um letreiro prémio ou bonus, de desconto de momento de 50.000,00 Euros, e falávamos amanhã o desconto vai para 100.000,00 e qual a sensação de quem comprou anteriormente? Com isto não sei se já vamos a caminho de querer entrar em deflação? Mas por certo, em desanimo e desalento. Assim, todos temos que não ter medo do insuceso nacional, caso contrário, vai disparar o suicidio, os desacatos sociais. Deixei de dentender o que faz alguns médias andarem sempre e só em procura da desgraça, do pior, da desgraça, é que quando tudo desbocar eles também não ficam à tona! Por outro lado, as medidas para retomar não estão a resultar, mas não só cá, não só aqui.

Jorge Andrez Malveiro disse...

Caro Álvaro, não há muitos segredos sobre a diferença entre homens e mulheres neste aspecto.

Sem grande tempo para ser mais pormenorizado, digo-lhe desde já que as taxas de suicídio nas mulheres são menores do que nos homens por vários factores; entre esses factores destaco três:

1) Os níveis de agressividade/revolta é mais elevado no género masculino por causas endócrinas e padrões comportamentais violentos previamente adquiridos. Isto pode explicar em si mesmo o enorme e fatal sucesso do acting-out do gesto suicida masculino, que no fundo é uma resposta agressiva direccionada contra si durante o surto psicótico inerente ao estado mental implícito na perturbação de humor depressivo major.

2) Os homens são mais eficazes na escolha do meio usado para o gesto suicida (tiro, enforcamento, comboio, automóvel, facada, etc., ao passo que as mulheres geralmente usam meios menos violentos (tais como comprimidos e intoxicações) que muitas vezes, (e felizmente para elas), podem ser mais frequentemente recuperáveis se forem detectadas a tempo;

3) Os homens tendem, por razões também culturais a elevar demasiado os seus níveis de exigência masculina (psicologicamente isto demonstra uma tendência clara na fragilidade do ego masculino comparativamente à resiliência feminina, mas isso é outra história...) e, consequentemente, a reprimir os seus sentimentos de frustração, o que a longo prazo resulta no crescente aumento de revolta e de agressividade; ao passo que as mulheres (por aquisição de competências psicossociais de natureza cultural) manifestam as suas emoções e sentimentos com mais facilidade aos outros, o que lhes pode permitir esbater mais eficazmente parte da sua angústia ou frustração, partilhando-os com outros elementos de suporte significativos e activando respostas de apoio e de ajuda social ou familiar mais eficazes do que no caso deles.

A minha avó, que tem 90 anos e não fez a faculdade mas tem a sageza da vida vivida, comentado sobre a morte de um vizinho que se suicidou lançando-se ao poço, disse-me ainda eu era adolescente: "... sabes Jorge, o orgulho (i.é, a emoção reprimida) pode matar".

É um tema complexo, o da doença mental dos seres humanos.
Neste caso do suicídio, fruto perverso de distorções perceptivas sobre si, o meio ambiente e os outros (em lato senso, perturbações psíquicas de origem psicossocial), estas implicam um grau intenso de frustração e de consequente e maladaptativa resposta agressiva, neste caso auto direccionada por meio de acting-out (ou gesto impulsivo), muitas vezes irreversível. No caso dos Homicidas, a direcção do acting-out como resposta agressiva é para o exterior de si.

É certo que existem hoje em dia respostas terapêuticas cada vez mais eficazes; todavia, o foco não deve ser colocado apenas nas consequências patológicas mas também na prevenção das causas.

O Stresse da sociedade contemporânea pode não explicar tudo, mas se aquele juntarmos o desapego emocional e afectivo, as lacunas de comunicação entre as pessoas e a disfuncionalidade familiar de certas sociedades, o crescente afastamento das necessidades humanas básicas (a comunicação, a simplificação do estilo de vida, etc.), enfim, teremos identificados uma quantidade de factores predisponentes de risco que, penso, têm vindo a acumular-se na civilização ocidental ou de modelo idêntico (recordo que no Japão, o harakiri era uma questão de honra, hoje o suicídio por causas mais vastas - tal como a económica - é o mais comum) talvez em parte devido ao modelo de desenvolvimento escolhido, mas neste aspecto você é que é o especialista.

Um abraço do Algarve,

Jorge Andrez Malveiro

Antonio disse...

Bom dia Álvaro,

Nós nunca nos podemos esquecer que somos um povo de brandos costumes.Daí a nossa taxa de suicidio ser moderada. Se não temos grande razão para sorrir, temos o sol a aquecer-nos a alma.Alem de que os nossos suicidios não vêm no jornal, pois não têm importância. Ao contrário do suicidio de anteontem do Director Finanaceiro de uma qualquer grande imobiliária falida dos USA que aparentemente se suicidou por motivos relacionados com a situação da empresa e que desde aí não tem largado os nossos telejornais.

Mas com esta crise essa possivel que as estatisticas comecem a piorar.

Ontem, por exemplo, um qualquer organismo internacional veio dizer que o n/desemprego ia bater nos 11%e a contração do PIB ia chegar aos 4,1%. O que significa que há por aí muita desgraça escondida e potencial e que se esta crise se prolongar como tudo indica as taxas de suicidio terão tendência para crescer fortemente.

E como as previsões vão piorando a um ritmos mais ou menos quinzenal, o assustador é pensar como estarão elas no final do ano?

Vamos apostar? Desemprego nos 16% e contracção do PIB nos 8,5%?

Um abraço e um sorriso


Antonio

Augusto Küttner de Magalhães disse...

Estes dois ultimos comentários são muito interessantes, quase com tudo estou de acordo. Quanto ao primeiro, acho que hoje a difrença de géneros, apesar de tudo se está a esbater, e a tendência deve ser de aproximação.
Quanto aos brandos costumes, já era? E com tudo o que a seguir é e muito bem - infelizmente - refeido......brandos costumes?????

Anónimo disse...

Qual quê?
A taxa de suicídios dos homens será sempre superior,é que eles matam-se por causa...das mulheres!

Anónimo disse...

Ora aí está um tema a analisar, o suicídio. Já foram tantos os portugueses famosos que o fizeram, por frustração ou angustia (Mário de Sá Carneiro), por doença prolongada (Florbela Espanca ou Camilo Castelo Branco), por questões de foro psíquico (Cândido dos Reis, Antero de Quental ou mais recentemente Cândida Branca Flor), etc.
Este tema já deu origem a um livro com o título "Suicídios Famosos em Portugal" de José Brandão.

António Carlos Pereira