05 abril 2011

NAS BOCAS DO MUNDO (2)

O Financial Times continua a dar grande destaque à situação portuguesa. Numa série de artigos, o FT dedica grande atenção à questão da competitividade das exportações portuguesas, com especial incidência para a evolução dos custos unitários do trabalho, bem como para as necessárias reformas laborais. O FT refere ainda que já todos(as) pensam que um resgate do FEEF e do FMI é mais do que inevitável, com a "notável" excepção do nosso primeiro-ministro. Por que será? Será pelos custos políticos que já aqui referi várias vezes?
Porém, como o resgate é mesmo inevitável, quanto mais tempo passar pior será, pois não só se deteriorará a crise de financiamento e de liquidez, como também é provável que se agravem as condições que nos venham a ser impostas pelos nossos parceiros europeus e pelo FMI. Por outras palavras, proletar e adiar o recurso ao FEEF/FMI é sinónimo de maiores dificuldades de financiamento e de condições menos favoráveis para a economia portuguesa. No mínimo, o governo devia mesmo avançar para alcançar um empréstimo intercalar, que pudesse ser reforçado e negociado pelo novo governo após as eleições. A verdade é que a obstinação do governo em lutar contra a malfadada "ajuda externa" (como se o BCE já não estivesse a "ajudar" há muito tempo) é uma autêntica política de terra queimada, onde o primeiro-ministro e o ministro das Finanças ameaçam arrastar tudo e todos à sua volta até à derrota final. Nem que para isso tenham de arrastar ainda mais o país para o abismo de um incumprimento.

5 comentários:

prof ramiro marques disse...

"protelar".
É evidente que uma pedido de ajuda intercalar é essencial. Mas como estamos a ser governados por um louco, não sei se será pedido.

Carlos Pires disse...

Gostava de perceber mais de economia, tendo em conta a importância prática e política da coisa. Mas percebo pouco e, pelo menos actualmente, não tenho tempo para aprender mais.
Ao ler textos como este: http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=386210 (de Manuel Caldeira Cabral), percebo que algo não bate certo mas não tenho argumentos para refutar.
É ou não é verdade que ele está, no mínimo, a esquecer alguns factores relevantes?

Pedro Oliveira disse...

A verdade das contas públicas é pior que aquela que traçamos. O próprio Governo não sabe exactamente qual ponto da situação. Portugal é um autêntico BPN.

Só acredito numa auditoria externa se for industriada por exigência do FMI, e de preferência norte-americana, nunca de dentro da UE.

Em todo o caso o mais importante é a equação que relaciona a Despesa com o Produto, que está em défice há muito tempo, e sempre a crescer. Estamos nos 10%-11% reais actualmente. Temos de inverter a situação, e o quanto antes.

Mas atenção: não se deve falar em défice, para o futuro, mas em superavit. Um cenário de superavit é possível a longo prazo. Custará a muita gente, mas é possível. Aprendam com as lições do Estado Novo. O problema é que a Economia não tem tecido produtivo capaz de alterar o nosso problema financeiro que é estrutural. E o envelhecimento populacional também não ajuda (refiro-me mais ao aumento da esperança de vida na faixa etária acima dos 80 anos do que à redução da natalidade).

Em minha opinião, o Euro vai cair a médio prazo e vamos ter de voltar à moeda nacional e ao proteccionismo. Portugal é um País pobre. Tirando os malefícios apanágios das ditaduras, o Estado Novo foi o regime mais perfeito que tivemos, em que a equação da Despesa vs Receita foi quase sempre respeitada*. Salazar tinha razão em quase tudo. Não há almoços grátis!

*Tivemos também períodos de Défice, um dos quais após a II Guerra quando recebemos ajuda financeira ao abrigo do Plano Marshall, no II exercício de ajuda financeira, no valor de 50 milhões de dólares.

AG disse...

Neste momento para o cenário ficar completo, só falta um "run on the bank".

Pedro Oliveira disse...

Mesmo que venha a ajuda externa a juros baixos, como iremos arranjar dinheiro para pagar as dívidas + juros? Com deficit é que não deve ser. Durante a II República tivemos 11 anos com superavit, considerando a despesa pública efectiva. Ter déficit, por mais pequeno que seja, na situação obnóxia actual só vai piorar as coisas. Como se resolve isto? Não será a vender os resquícios das reservas de ouro do BP certamente...

Como se resolve isto, considerando que Portugal não tem tecido produtivo? E está cada vez mais dependente do exterior?