06 abril 2011

DÍVIDAS "ESCONDIDAS"

Numa altura em que se fala muito das dificuldades que  o Estado está a sentir para se financiar, o crescimento explosivo da nossa dívida pública continua a não incluir importantes rubricas, tais como o endividamento de todas as empresas públicas e das parcerias público-privadas. Há, provavelmente, ainda inúmeras dívidas que poderão não estar devidamente contabilizadas e/ou orçamentadas, de modo que a dívida pública real poderá ser ainda mais elevada do que dívida pública oficial (que já é a maior dos últimos 160 anos). Porém, as dívidas do Estados e dos organismos públicos não ficam por aqui. Há ainda as dívidas que transitam para anos posteriores, bem como as dívidas aos fornecedores. E aqui, mais uma vez, as notícias não são muito animadoras, assim como o i refere na sua edição de hoje.
Nomeadamente, se atentarmos para os dados da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças, facilmente percebemos que o prazo médio de pagamentos aos fornecedores das empresas públicas tem vindo a aumentar muito nos últimos tempos.
Assim, e como podemos ver nas tabelas abaixo (a primeira é das unidades de saúde e a segunda é das restantes empresas públicas), os prazos médios de pagamento  a fornecedores cresceu muito entre 2009 e 2010. Nas unidades de saúde, 15 hospitais e centros de saúde têm prazos médios de pagamentos aos fornecedores acima dos 250 dias. Entre estes, destacam-se o Centro Hospitalar do Nordeste e o Hospital Litoral Alentejano, que têm prazos médios de pagamentos aos fornecedores de mais de 400 dias. Os centros hospitalares de Coimbra e de Setúbal, bem como o Hospital Infante D. Pedro, apresentam prazos médios de pagamentos de mais de 340 dias. 
É igualmente visível que os prazos de pagamentos aumentaram muito no último ano. Mais concretamente, os prazos dos pagamentos das unidades de saúde aumentaram cerca de 80 dias no último ano. Como é evidente, nada disto entra para as contabilidades dos défices de 2010, nem para as dívidas bancárias destas empresas públicas.

Prazo Médio de Pagamentos a Fornecedores (dias)

  2009 2010 Variação entre 2009 e 2010
Centro Hospital Nordeste 253 462 209
Hospital Litoral Alentejano 226 415 189
Centro Hospitalar de Setúbal 183 360 177
Centro Hospitalar de Coimbra 219 344 125
Hospital Infante D. Pedro 189 341 152
Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental 178 329 151
Centro Hospitalar Médio Tejo 178 308 130
Hospital Figueira da Foz 162 299 137
Hospital Garcia da Horta 133 295 162
Centro Hospitalar Lisboa Central 190 292 102
Centro Hospitalar da Póvoa do Varzim 233 287 54
Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio 182 268 86
Centro Hospitalar Hospital Norte 137 263 126
ULS Castelo Branco 191 262 71
Hospital Santarém 153 252 99
Centro Hospitalar Médio Ave 125 245 120
Centro Hospitalar do Barreiro Montijo 150 242 92
Hospital de Faro 160 236 76
Centro Hospitalar do Porto 104 204 100
ULS Guarda 117 204 87
ULS Baixo Alentejo 110 203 93
Hospital S. Maria Maior 175 203 28
Hospital de São João 93 202 109
Centro Hospitalar da Cova da Beira 119 201 82
Centro Hospitalar Alto Ave 76 196 120
Hospitais da Universidade Coimbra 115 193 78
Hospital Curry Cabral 113 182 69
ULS Matosinhos 127 174 47
ULS Norte Alentejano 119 156 37
Hospital Espírito Santo 123 156 33
Centro Hospitalar de V. Nova Gaia/Espinho 111 154 43
ULS Alto Minho 110 150 40
Hospital Fernando da Fonseca 77 146 69
IPO Porto 63 107 44
Hospital S. Teotónio 103 84 -19
IPO Lisboa 68 81 13
Centro Hospital Tâmega e Sousa 71 69 -2
Centro Hospital Trás-os-Montes 62 64 2
Hospital Magalhães Lemos 38 60 22
IPO Coimbra 54 54 0
Hospital de Santo André 32 36 4
Centro Hospital Nordeste Entre Douro e Vouga 63 33 -30
.
Fonte: DGTF

Em relação às restantes empresas públicas, o panorama não assim tão preocupante, mas não é propriamente muito animador. Por um lado, é certo o prazo médio de pagamentos das restantes empresas públicas só aumentou, em média, cerca de 3,5 dias entre 2009 e 2010. No entanto, várias empresas registaram um aumento significativo dos pagamentos das suas dívidas. Assim, o prazo de pagamentos do Metro do Porto subiu 76 dias, da Empresa do Alqueva 55 dias, do Metro de Lisboa 50 dias, e da RAVE 39 dias. Mais positivamente, o prazo dos pagamentos de muitas empresas públicas melhorou no último ano.
Moral da história: o crescimento abrupto do prazo de pagamentos de muitas empresas públicas é bastante preocupante e adiciona-se (e é causada pela) à já muito elevada dívida das empresas públicas. Esta é uma espécie de dívida "escondida", que poderá indiciar problemas financeiros ainda mais graves para o sector empresarial do Estado, incluindo as diversas empresas transportadoras.  
Ainda mais alarmante é a extraordinária subida dos prazos de pagamentos das dívidas das unidades de saúde. Dívidas que, infelizmente, terão de ser liquidadas e, mais cedo ou mais tarde, contabilizadas. 

 Prazo Médio de Pagamentos a Fornecedores (dias)


  2009 2010 Variação entre 2009 e 2010
Metro do Porto 90 166 76
EDIA-Empresa Desenv.Infraest Alqueva 74 129 55
Metro-Metropolitano de Lisboa 65 115 50
Rave _ Alta Velocidade 70 109 39
Metro do Mondego 93 100 7
APL-Admin. Porto Lisboa 75 78 3
TRANSTEJO 47 72 25
Teatro Nacional São João 60 62 2
ENATUR-Empresa nacional de turismo 54 61 7
Parque Escolar 58 61 3
REFER 50 61 11
CP 70 60 -10
Águas de Portugal 107 60 -47
NAV 48 60 12
OPART 37 58 21
ANA 58 57 -1
STCP 77 55 -22
SIMAB-Soc.Inst.Mercados Abastecedores 72 53 -19
EMA 20 50 30
Parque expo 98 49 49 0
Carris 44 48 4
SIEV,SA 9 48 39
Teatro Nacional St Maria 43 45 2
Parpública 22 45 23
Docapesca-Portos 70 44 -26
RTP 71 42 -29
Empordef 25 40 15
CTT 45 39 -6
APL-Admin. Porto Setúbal 51 38 -13
APL-Admin. Porto Sinesl 39 37 -2
NAER-Novo 45 36 -9
ANAM-Aeroportos 31 34 3
APA 52 32 -20
ANCP 33 31 -2
AICEP-Agência 37 31 -6
EP 28 26 -2
GeRAP 36 20 -16
APDL-Admin. Porto Leixões 56 19 -37
Lusa 12 19 7
EDM 24 17 -7
EDAB 13 2 -11
EGREP 0 0 0
Fonte: DGFT

4 comentários:

David Oliveira disse...

Quem me deve que pague; a quem eu devo que espere.
São formas criativas de o Estado impulsionar a economia.

democracia participativa disse...

O senhor tem feito um trabalho notavél. Face parte de um partido politíco porque o PAíS precisa de si. O seu contributo só assim poderá ter mais utilidade.

MPV disse...

Já agora gostava que também indicasse a tabela relativa a ANTES deste Primeiro Ministro tomar posse em 2004.... Vai ver que o prazo médio de pagamentos do Estado não se media em dias mas sim em ANOS. E o que tem ou não que se contabilizar como défice ou dívida não é o que o senhor ou eu ou o senso comum diz que se devem contabilizar. O que se contabiliza, aqui ou no resto da Europa são o que as regras da comunidade europeia dizem que se deve contabilizar e o que fica de fora é o que eles dizem que deve ou pode ficar de fora. Haver regras claras é a única forma de, quer se trate da contabilidade de Estados quer se trate da contabilidade de empresas privadas as coisas serem comparáveis e se poder dizer que o a despesa, o défice ou qualquer número de um País é x em comparação com o de outro país que é y. Os números, como o meu Professor de Macro-economia sempre dizia dizem o que queremos que eles digam....

terebi disse...

Se os números antes de 2004 eram muito piores, era interessante para o post, valia a pena colocar aqui um link com a informação.

"O que se contabiliza, aqui ou no resto da Europa são o que as regras da comunidade europeia dizem que se deve contabilizar e o que fica de fora é o que eles dizem que deve ou pode ficar de fora."

Isto é como dizer, não interessa saber que dívida real é que temos, o que interessa é esconder tudo o que pudermos e apenas mostrar aquilo que nos pedem. Bem, isso é o que temos feito.