10 janeiro 2011

A GRANDE DESCONFIANÇA

Agora que estamos prestes a pedir ajuda financeira ao FMI e aos nossos parceiros europeus (através do FEEF), vale a pena perguntar: Por que é que os mercados e os "malvados dos especuladores" não acreditam em nós? Por que é que eles não acreditam na palavra do primeiro-ministro ou dos outros membros do governo? Porque após o descalabro associado à (inexistente) execução orçamental do primeiro semestre deste ano (e em 2009), simplesmente o governo não tem qualquer resquício de credibilidade perante os mercados ou perante os nossos parceiros europeus. Ou seja, o problema que enfrentamos não se restringe à crise da dívida europeia (um fenómeno que, como sabemos, atingiu vários países europeus), mas é também um grave problema de credibilidade das autoridades económicas portuguesas. E quando não há credibilidade, não há mercado ou "especulador" que acredite que o governo vá ser capaz de dar a volta aos profundos desequilíbrios das nossas contas públicas ou à grave estagnação económica da última década.
Se não acredita, vale a pena atentar para os dados no quadro abaixo, retirados do site da entidade do Estado responsável pela emissão e pela gestão da nossa dívida pública, o Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP). Segundo o IGCP, a dívida pública portuguesa aumentou cerca de 15 mil milhões de euros em 2009 e cerca de outros 15 mil milhões de euros em 2010 (até Novembro desse ano). Algo como 9% do PIB em ambos os anos. Como podemos ver, é, de facto, verdade que nos últimos meses a dívida pública directa do Estado estabilizou em valores a rondar os 147 mil mihões de euros. No entanto, tal não aconteceu nos primeiros meses de 2010. Só entre 1 de Janeiro e 31 de Julho de 2010 a dívida pública portuguesa aumentou 13,5 mil milhões de euros, isto é, mais de 8 pontos percentuais do PIB nacional. 
As verdadeiras causas da derrapagem orçamental no primeiro semestre de 2010 ainda estão por contar, mas convém recordar que a medíocre execução orçamental da primeira metade de 2010 aconteceu apesar da implementação de um pacote de austeridade em Maio do ano passado. Com austeridade ou sem austeridade, a verdade é que Portugal foi único país da Zona Euro onde a despesa pública aumentou no primeiro semestre de 2010, um facto que foi fatal para a credibilidade do nosso país e cuja pesada factura receberemos muito em breve.


Stock da dívida pública portuguesa, valores mensais, Janeiro 2009- Novembro 2010


 
EURO milhões
31-Jan-09 28-Fev-09 31-Mar-09 30-Abr-09 31-Mai-09 30-Jun-09
Dívida Total  117,837  119,576  121,777  124,655  125,303  130,102
31-Jul-09 31-Ago-09 30-Set-09 31-Out-09 30-Nov-09 31-Dez-09
Dívida Total  128,730  129,627  128,220  129,776  130,234  132,746
31-Jan-10 28-Fev-10 31-Mar-10 30-Abr-10 31-Mai-10 30-Jun-10
Dívida Total  133,744  135,131  135,929  139,947  140,287  142,614
31-Jul-10 31-Ago-10 30-Set-10 31-Out-10 30-Nov-10
Dívida Total  146,209  146,993  147,747  147,959  147,726
 
Fonte: IGCP
 
 
F
Foonte: 
 

O PESO DO ESTADO

A edição impressa do Diário de Notícias de hoje contém uma entrevista minha onde debato algumas das características do nosso Estado. Aqui está um excerto:
 
DN _ Onde se deve cortar para reduzir a despesa pública? Há muito por onde cortar. Há muita ineficiência na despesa pública, há muito pouco respeito pelo dinheiro dos contribuintes, e cometem-se verdadeiros atentados inter-geracionais com as gerações futuras, a quem se espera que aceitem pagar o despesismo das actuais gerações. Neste sentido, penso que, a curto prazo, a principal redução da despesa pública terá de acontecer ao nível das aquisições de bens e serviços do Estado (os chamados consumos intermédios), bem como ao nível dos subsídios e das indemnizações compensatórias concedidas às empresas públicas. No entanto, parece-me muito claro que a grande redução da despesa pública terá de advir dos diversos organismos e entidades que constituem o Estado. Inicialmente, um próximo Governo poderia instituir cortes entre 10% a 20% nas despesas com Institutos, Direcções-Gerais e entidades afins. No entanto, numa segunda fase, o que há a fazer é reduzir, fundir e extinguir muitas destes Institutos e organismos do Estado, de forma a se poderem alcançar poupanças significativas na despesa do Estado. No mínimo entre 20% e 30% destes organismos do Estado deveriam desaparecer e/ou ser racionalizados. O que me parece inaceitável (e uma má política) é que se tenham de reduzir os salários dos funcionários públicos e que se tenha de aumentar os impostos das famílias e das empresas para evitar cortar nestes institutos e outras entidades do Estado, só para se protegerem interesses menos claros e para não mexer no nosso sacrossanto aparelho estatal. Um disparate, como é óbvio.

DÍVIDA PÚBLICA DESDE 1850

Obrigado ao blogue Portugal Contemporâneo por ajudar a  divulgar o meu gráfico da dívida pública portuguesa desde 1850:
 Dívida Pública em % do PIB, 1850-2010

Fonte: Mata e Valério, Banco de Portugal, AMECO, Santos Pereira "Como retomar o sucesso" (2011)

AINDA A EMIGRAÇÃO (3)

O jornal britânico The Guardian fala sobre a nova vaga da emigração portuguesa e refere alguns efeitos positivos que esta vaga migratória pode vir a ter no nosso país.

08 janeiro 2011

QUANTO TEMPO MAIS?

Depois disto e disto, a grande questão que se nos coloca é: quanto tempo mais iremos estar sem ter que recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e ao FMI? 
Uma questão que está associada a esta pergunta é: Valerá a pena adiar aquilo que parece inevitável? Provavelmente não. A instabilidade e os elevados juros que estamos a pagar para financiar a nossa dívida soberana não parecem justificar a espera daquilo que deverá ser inevitável.
Mas, se é assim, por que é que não se avança de uma vez com um pedido de recurso ao FEEF e ao FMI? Porque os custos políticos dessa decisão serão enormes. E, por isso, continuamos à espera até ao dia em que o inevitável não  consiga ser mais adiável.

07 janeiro 2011

REESTRUTURAÇÃO OU NÃO, EIS A QUESTÃO (2)

Depois de Barry Eichengreen e Kenneth Rogoff, mais um economista a defender a reestruturação da dívida europeia. Segundo Charles Wyplosz:
"The crisis has also brought home the fact that sovereign debt defaults cannot be ruled out, even in today’s Europe...
If and when a country needs to be supported by Eurozone taxpayers, it would make sense that creditors also be asked to chip in. In the future, therefore, any bail-out operation financed by the successor to the European Financial Stability Fund would involve an obligation to restructure the debt. This is a powerful argument, so powerful in fact that it is surprising that it is not being applied to current and forthcoming bail-outs. The rumour is that the IMF would have favoured debt restructuring but that the Eurozone countries vetoed such a move. Since this is but a rumour, we cannot know for sure why a solution that makes sense “later” is not being used “now”."

Estou igualmente cada vez mais convencido que a reestruturação da dívida dos países europeus altamente endividados vai chegar. Mais cedo ou mais tarde. A grande questão é quando e como (isto é, se essa reestruturação será efectuada uniteralmente ou se será feita em conjunto para os países em dificuldades).

O ESTADO DO ESTADO

Numa iniciativa louvável, o Diário de Notícias começa hoje a dissecar o estado do nosso Estado, num grande trabalho de investigação coordenada por Maria de Lurdes Vale. Nos próximos 7 dias, o DN promete dar-nos a conhecer o "verdadeiro peso do Estado". No dia 14, o DN patrocina ainda um debate sobre o estado do Estado, onde eu irei também estar presente.
No trabalho de hoje o DN avança que o nosso Estado é constituído por cerca de 13740 organismos públicos, dos quais 1724 enviam a sua contabilidade para o Tribunal de Contas e somente 418 são fiscalizados pelo mesmo tribunal. Ainda segundo o jornal, todos os 12 dias nasce uma fundação.
A lista das fundações analisadas pelo DN está aqui, e a dos institutos públicos está aqui. Um trabalho a seguir com atenção.

AINDA O PISA 2009

O Pedro Martins começou a analisar os resultados do PISA 2009 de uma forma mais detalhada.

MÁ CAMPANHA

A campanha para as eleições presidenciais está muito má. O país em sérios riscos de ter de recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira e ao FMI, mas ninguém discute se estamos ou não preparados  para enfrentarmos essa  eventualidade. Enfim...

06 janeiro 2011

O RAP DA CRISE

Aqui está o rap da crise, ou o confronto entre as duas principais ideologias explicativas do que se está a passar na economia internacional. O rap está muitíssimo bem feito e as letras resumem surpreendentemente bem os pensamentos de Keynes e de Hayek sobre os mecanismos das crises financeiras como a actual. Tudo feito de uma forma bastante divertida.

05 janeiro 2011

A MARATONA DA DÍVIDA

A grande maratona da dívida soberana portuguesa em 2011 começa hoje, com a primeira emissão do ano de Bilhetes de Tesouro. A dívida será emitida a 6 meses e os juros deverão ser 5 vezes maiores do que tínhamos desfrutado há apenas um ano. Para além da subida vertiginosa dos juros (que terá um crescente impacto nas contas públicas nacionais), o facto mais interessante desta emissão é a continuação da aposta nas emissões de dívida a curto prazo, uma estratégia que é bastante comum aos países excessivamente endividados, mas que costuma acabar bastante mal. 
Não é de estranhar. Nos 2 últimos anos, mais de 60% das emissões de dívida nacional foram em maturidades de curto prazo. Este ano, a tendência prevista para privilegiar as emissões a curto prazo irá manter-se e, quiçá, acentuar-se. Veremos até quando conseguiremos manter esta insustentável e perigosa tendência.

04 janeiro 2011

IMAGENS DE 2011

Uma das imagens que mais nos irá marcar em 2011 (e que mais irá determinar o nosso futuro nos tempos mais próximos) é-nos dada pelo gráfico abaixo, onde estão apresentados os juros da dívida externa líquida portuguesa em percentagem das exportações entre 1996 e 2009. Como já tinha sido referido aqui, os juros da nossa dívida externa já correspondem a cerca de 8,5% das nossas exportações totais. Nos últimos anos, e embora tenha havido uma pequena melhoria em 2009, uma percentagem cada vez maior das nossas exportações é "utilizada" para pagar os juros da nossa elevada dívida externa. E, infelizmente, a tendência é de subida.

Gráfico _ Juros da dívida externa líquida em percentagem das exportações
Fonte: "Como Retomar o Sucesso", Santos Pereira (2011), Calculado das estatísticas do Banco de Portugal

2011

Tenho poucas dúvidas que 2011 será um ano marcante para Portugal. Não, não é só a vinda do FMI (e o recurso ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira) que está em causa. É mesmo porque acho que este será o ano em que finalmente iremos começar a dar a volta à triste situação actual e em que se irão travar, de uma vez por todas, as irresponsabilidades dos últimos anos. Não, não é optimismo excessivo ou exagerado, pois sinceramente acho que os próximos tempos serão difíceis, muito difíceis mesmo. O que eu acho é que nos próximos meses iremos assistir a uma inversão radical do curso seguido nos últimos anos. E essa inversão de curso vai ser feita, quer gostemos quer não. Não há alternativa. (Ou pelo menos, as alternativas têm consequências ainda mais gravosas para a economia nacional).

23 dezembro 2010

PRENDAS DE NATAL

Aqui estão algumas sugestões para prendas de Natal para quem quiser perceber um pouco melhor a situação em que nos encontramos:




21 dezembro 2010

SOLIDARIEDADE EUROPEIA

A solidariedade europeia dá mostras de estar cada vez mais generosa. Resta saber o que irá acontecer quando a crise europeia se agravar nos próximos tempos.

REESTRUTURAÇÃO OU NÃO, EIS A QUESTÃO

Um artigo extremamente interessante de Barry Eichengreen, que também defende que a crise da dívida soberana europeia só pode ser ultrapassada com uma reestruturação das dívidas dos países em dificuldades (sim, Portugal está obviamente incluído). Aqui estão os principais pontos da argumentação de Eichengreen:
"The crisis countries have, in fact, shown remarkable resolve in implementing painful cuts. But one economic variable has not adjusted with the others: public and private debt. The value of inherited government debts remains intact, and, aside from a handful of obligations to so-called junior creditors, bank debts also remain untouched.
This simple fact creates a fundamental contradiction for the internal devaluation strategy: the more that countries reduce wages and costs, the heavier their inherited debt loads become. And, as debt burdens become heavier, public spending must be cut further and taxes increased to service the government’s debt and that of its wards, like the banks. This, in turn, creates the need for more internal devaluation, further heightening the debt burden, and so on, in a vicious spiral downward into depression.
So, if internal devaluation is to work, the value of debts, where they already represent a heavy burden, must be reduced. Government debt must be restructured. Bank debts have to be converted into equity and, where banks are insolvent, written off. Mortgage debts, too, must be written down.
These are reasonable objections, but they should not be allowed to lead to unreasonable conclusions. The alternatives on offer are internal and external devaluation. European leaders must choose which one it will be. They are united in ruling out external devaluation. But internal devaluation requires debt restructuring. To deny this is both unreasonable and illogical."
Leia o resto do artigo aqui.

CENÁRIOS

Um artigo interessante da autoria de Charles Wyplosz, um dos economistas que, nos últimos anos, mais tem investigado a economia da União Europeia. Wyplosz defende que os governos europeus dos países em dificuldades deviam começar já a preparar-se para os cenários menos desejáveis, incluindo a insolvência de um ou mais países do euro e/ou situações de incumprimento. Não é que seja certo que esses cenários aconteçam (apesar de a probabilidade de acontecerem é hoje bem mais elevado do que há uns meses atrás). No entanto, vale mais estar preparado para todas as eventualidades do que acabar por ser surpreendido, o que, decerto, terá consequências ainda mais nefastas para as economias em questão. Ou seja, vale mais prevenir (e preparar) do que remediar.
Aqui estão algumas citações do artigo de Wyplosz:

"According to the IMF, the financing needs of Greece, Ireland, Portugal and Spain over the last quarter of 2010 and 2011 – most of which will come due in the early part of 2011 – add up to € 320 billion. Add Italy and you get € 712 bn. It is understandable that the ECB has called for an enlargement of the European Financial Stability Fund (EFSF) which can provide up to € 440 bn. but this request has just been turned down by the Heads of State. The IMF can add some money at some notice, but this is limited. In short, it is unlikely that we have the means to quiet down market concerns if they lead to a refusal of providing fresh money. We have only a few weeks before we find out how the markets react; recent downgrades by the rating agencies, however, belie the official optimism."
 ...
"Undoubtedly, policymakers will respond that they cannot discuss openly these issues for fear of pouring oil on a burning fire. This is probably true, but one can hope that they are actively working on these complicated issues and will be ready when and if needed."

CRISE EUROPEIA (2)

A crise da dívida soberana europeia continua a alargar-se e a afectar outros países.

20 dezembro 2010

FINANÇAS SÓLIDAS

Crescemente acossada pelo rebentamento da bolha no mercado imobiliário, a Espanha tenta mostrar que o seu sistema financeiro é sólido.

AMENDOINS PARA PAGAR CONSULTAS

As coisas no Zimbabwe estabilizaram um pouco nos últimos tempos. Após meses de uma hiperinflação recorde e de um crescente caos económico, o acordo de partilha do poder entre Mugabe e a oposição trouxe um pouco mais de estabilidade macroeconómica ao país. E para acabar com a hiperinflação, o Zimbabwe adoptou o dólar americano como moeda de referência, o que permitiu uma descida da inflação para níveis abaixo de 4% ao ano. 
O problema é que o Zimbabwe tem poucas reservas e a oferta de dólares americanos permanece bastante escassa. Por isso, e continuando um dos legados da hiperinflação, uma percentagem bastante elevada da população do Zimbabwe opta pela troca directa para efectuar as suas transacções. A troca directa permanece assim bastante generalizada no país, sendo inclusivamente utilizada para pagar consultas nos hospitais. Como podemos ler neste artigo do New York Times, os hospitais chegam a reservar partes das suas instalações para armazenar os produtos agrícolas (amendoins, feijões, etc) que os doentes utilizam para pagar as consultas médicas. Mais uma das heranças da liderança iluminada de Mugabe... 
Já agora, vale a pena acrescentar que o Zimbabwe é um dos poucos países do mundo cujos níveis de vida e indicadores de educação e de saúde são piores do que há 40 anos.

AS DÚVIDAS DO BCE

O Banco Central Europeu expressa as suas dúvidas sobre o plano de resgate irlandês e os impactos que este terá para a estabilidade financeira da Zona Euro.

18 dezembro 2010

A CAUSA DA QUEDA

A razão que poderá conduzir a Espanha ao mesmo destino da Grécia e da Irlanda, e levar a Europa (e ao euro) a uma crise ainda bem mais grave.

17 dezembro 2010

QUE FIM PARA A CRISE EUROPEIA?

Um artigo interessante no Wall Street Journal de hoje que debate o futuro do euro e as opções que a Europa terá pela frente nos próximos tempos. Como o WSJ salienta, há 3 grandes possibilidades para superar a crise da dívida soberana europeia: 
1) uma união fiscal, na qual existirá uma maior integração das políticas económicas, bem como mecanismos de redistribuição fiscal entre os países mais abastados e os países em dificuldades. O grande problema desta possibilidade é que não parece haver grande interesse ou vontade política por esta opção, nem nos países da periferia europeia (que perderiam ainda mais soberania económica), nem nos países que teriam de financiar os mecanismos de redistribuição entre os Estados europeus.

2) a reestruturação da dívida dos países em dificuldades, na qual poderá haver uma insolvência parcial de um ou mais países e/ou o reescalonamento e a renegociação das dívidas soberanas nacionais. Neste caso, os países em dificuldades tentariam não só aumentar os prazos de pagamento das suas dívidas, como também tentariam conseguir maiores facilidades de pagamento para as mesmas dívidas. Como? Quer através da redução das taxas de juros associadas às suas dívidas, quer inclusivamente renogociando os montantes do endividamento. Por isso, neste caso, os detentores das obrigações destes Estados seriam forçados a partilhar os custos da reestruturação da dívida.

3) o fim do euro, ou a saída unilateral de alguns países da moeda única europeia. Uma saída unilateral do euro seria, no mínimo, conturbada. O problema é que, como já aqui salientei, há enormes custos políticos associados a esta possibilidade, bem como custos económicos muitíssimo altos para os países com elevados níveis de endividamento externo. Porquê? Porque uma desvalorização de 30% ou 40% da nova moeda faria aumentar ainda mais a já explosiva dívida externa dos países em dificuldades, o que poderia levar estes países a uma situação de insolvência. É ainda possível que uma eventual saída do euro pudesse dar azo a uma fuga de capitais do país que declarasse um abandono unilateral, e uma consequência corrida aos bancos desse país, o que, por sua vez, poderia conduzir a uma grave crise bancária. Ou seja, sair do euro acabaria por ser um remédio que poderia matar o doente, o que, como é evidente, não é aconselhável ou desejável.
O fim do euro não parece ainda ser um cenário provável. No entanto, a verdade é que este cenário já esteve bem mais longínquo. E como para o ano há cerca de 1,5 triliões de euros de dívida soberana que tem de ser emitida pelos vários países europeus, há um risco real de alguma coisa não correr bem. 2011 será assim um ano decisivo para o euro e para muitos dos países na união monetária.
Qual é a hipótese mais provável? É difícil de dizer com certeza absoluta. No entanto, se eu gostasse de apostas, não teria grandes dúvidas em afirmar que o mais provável é que, mais cedo ou mais tarde, se venha a fazer a reestruturação das dívidas dos países mais endividados. Uma reestruturação das dívidas dos países em dificuldades poderá não acontecer em 2011 ou 2012, mas não seria de todo estranho se chegássemos a esse cenário em 2013 ou nos anos seguintes. Tudo vai depender do que os líderes europeus decidirem nos próximos meses, do crescimento económico dos países em dificuldades e da saúde dos seus sistemas financeiros. Por outro lado, uma união fiscal ou o fim do euro parecem-me possibilidades bem menos desejáveis e bem mais difíceis de alcançar. Não me parece que a solução para a crise europeia será feita por aqui. Mas, pode ser que esteja enganado.
Independentemente do que irá acontecer, de uma coisa poderemos estar certos: ainda estamos bem longe de uma resolução para a crise da dívida europeia. Bem, bem longe.

16 dezembro 2010

50 MEDIDAS

Ainda não tive oportunidade para analisar com pormenor as 50 medidas apresentadas ontem pelo governo para estimular a economia, para apaziguar os ânimos dos nossos parceiros europeus e para tentar acalmar os mercados financeiros. Ainda assim, parece-me óbvio que as medidas agora apresentadas não são mais do uma vã tentativa para mostrar aos nossos parceiros europeus que o governo tem espírito reformista e para tentar despistar as atenções dos mercados sobre nós. Espero sinceramente estar enganado, mas também me parece evidente que essa tentativa do governo será, mais cedo ou mais tarde, infrutífera. Porquê? Porque após o que aconteceu ao longo deste ano, o governo português já não tem a mínima credibilidade nem interna nem externamente. Por isso, poucos irão acreditar que estas reformas é que serão "a sério". Segundo, não são medidas mais ou menos avulsas que irão evitar aquele que será o(s) grande(s) teste(s) do próximo ano, que acontecerá quando o Estado português terá de emitir mais de 25 mil milhões de euros em dívida pública. Só então é que iremos perceber quão "credíveis" são as medidas agora anunciadas aos olhos dos mercados. 
Nota: Já agora, vale a pena ler este post de Pedro Pita Barros sobre as 50 medidas anunciadas.

RETRATOS DO DESPESISMO (4)

De acordo com os dados mais recentes da OCDE, os pagamentos dos juros relacionados com a dívida pública nacional não param de crescer, uma tendência que já aqui mencionei várias vezes. Como podemos ver no gráfico abaixo, em 2011 os juros que o Estado terá que pagar pela sua dívida atingirá os 3,7% do PIB. Em 2012, o peso dos juros já será de 3,9% do PIB. Vale a pena lembrar que, em 1999, quando entrámos no pelotão do euro o peso dos juros da dívida do Estado era somente de 2,9% do PIB, e em 2005, este valor era de apenas 2,4% do PIB. Ou seja, em 2011 os juros que o Estado irá pagar pela sua dívida serão 1,5 pontos percentuais do PIB a mais do que pagava em 2005. Qualquer coisa como 2400-2500 milhões de euros. Um TGV Poceirão-Madrid por ano. Só em juros da dívida do Estado.
Isto se as coisas correrem como tinham sido anteriormente planeadas. Com notícias como esta, o mais certo é que o peso dos juros da dívida pública cheguem aos 4% do PIB já em 2011. 
O descontrolo das despesas públicas e o excessivo despesismo do Estado têm um preço, e esse preço chama-se impostos (bem) mais altos e dívidas públicas muito mais onerosas.

Pagamentos dos juros da dívida pública portuguesa em % do PIB, 1999-2012
Fonte: OCDE

PARTILHAR OS CUSTOS

A Irlanda já começa a dar os primeiros passos para obrigar os detentores de obrigações dos bancos em crise a partilharem os custos dos resgates dos bancos. Certamente o primeiro de muitos passos nesse sentido que iremos assistir nos próximos tempos na Europa.

15 dezembro 2010

SEMPRE A CRESCER

A dívida externa bruta portuguesa continua a crescer. Segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal, em 30 de Junho de 2010, a dívida externa bruta nacional já tinha ultrapassado os 405 mil milhões de euros, cerca de 240% do PIB português. A dívida externa líquida ronda os 110% do PIB.
Como um gráfico diz mais do mil palavras, aqui está a evolução da dívida externa bruta portuguesa nos últimos 10 anos (os dados são trimestrais). Mais uma vez é visível que, contrariamente à retórica do governo, os problemas da economia nacional não surgiram com o dealbar da crise internacional. Os problemas começaram bem antes. O que houve foi uma total ausência de reconhecimento destes problemas por parte dos nossos governantes.  No mínimo, faltou vontade política para os resolver ou para os tentar combater. O resultado desta indesculpável negligência  e desta inaceitável inércia está bem à vista. Uma negligência e uma inércia que ainda iremos pagar muito caro. 

Dívida Externa Bruta Portuguesa _ 1999-Junho 2010
Fonte: Banco de Portugal

DESVALORIZAR OU NÃO?

Um artigo interessante a comparar a situação económica na Islândia (que sofreu uma enorme crise com o dealbar da crise financeira internacional, mas cuja moeda desvalorizou muito em 2008 e 2009) e a Letónia (igualmente muito afectada pela crise, mas que teimosamente manteve uma taxa de câmbio fixa com o euro). Segundo o autor, a desvalorização permitiu à Islândia mitigar alguns dos impactos negativos da grave recessão que se abateu sobre o país, enquanto o ajustamento na Letónia foi bem mais díficil.

MAIS AUSTERIDADE NA GRÉCIA

Mais um pacote de austeridade na Grécia. Mais cortes nas despesas e mais reduções salariais. As autoridades gregas estão a tentar fazer todos os possíveis para conseguirem cumprir os tectos fixados com o FMI e com os parceiros europeus. Porquê? Porque, se não o fizerem, a entrega de parte do empréstimo europeu para ajudar a Grécia poderá estar em risco. O empréstimo de 6,5 mil milhões de euros previsto para Dezembro já foi adiado para Janeiro e já há quem diga que uma situação de incumprimento será inevitável se os gregos não receberem 14 mil milhões de euros do empréstimo europeu e do FMI até Março. O que falta saber é se o incumprimento e/ou uma insolvência parcial da Grécia não serão mesmo inevitáveis independentemente ou não do pacote de ajuda europeia. A verdade é que a situação grega é de tal modo complicada que é difícil imaginar um cenário onde os gregos não terão de efectuar uma reestruturação e renegociação das suas dívidas. E quem diz os gregos diz outros países europeus em situações igualmente complicadas.

14 dezembro 2010

RELATÓRIO DE INVERNO

Aqui está o relatório mais recente da OCDE sobre a Zona Euro. Como era de esperar, as previsões não nos são muito favoráveis.

MALDITA DÍVIDA

Um dos países da OCDE menos afectado pela crise financeira internacional debate-se agora com problemas de... endividamento. No Canadá, os últimos números das dívidas das famílias e dos particulares foram agora publicados e as autoridades canadianas já declararam estar muito preocupadas com a evolução da dívida privada. Porquê? Porque o rácio dívida-rendimento já ultrapassou os 148%, um valor ainda mais elevado do que nos Estados Unidos, cuja dívida privada é considerada bastante elevada. Por isso, no Canadá já se diz que o Banco do Canadá irá brevemente aumentar os juros para tentar conter possíveis bolhas especulativas no mercado imobiliário e que têm contribuído para o crescimento da dívida privada canadiana. Veremos se as autoridades do país ainda vão a tempo de evitar algo mais dramático.

UNITED WE FALL

Foram agora publicados os dados mais recentes do Bank for International Settlements sobre a exposição dos vários países às dívidas da Grécia, de Portugal, da Irlanda e da Espanha. Os dados confirmam mais uma vez que há vários países altamente expostos às dívidas destes países. Aqui está um resumo da situação feita pelo blog Zero Hedge (como poderão ver, os gráficos do post são muito sugestivos):

"The country with biggest exposure to the PIGS is not surprisingly Germany with $513 billion, followed by France at $410 billion, Great Britain at $370 billion, and... the US at $353 billion. As for the next two dominoes to drop, Portugal and Spain, the countries whose banks are most at risk are Spain, France and Germany for Portugal and Germany, France and the US for Spain. Which explains why the Fed is now collaborating fully with the ECB from preventing the Portugues rout from hitting Spain, and makes us wonder just how many Spanish bonds the Fed may have been buying in recent weeks."

13 dezembro 2010

PALAVRAS SENSATAS (2)

Palavras sábias de António Barreto sobre a situação actual.

REFORMAS LABORAIS E PRECARIEDADE

É mais do que evidente que uma das reformas que será levada a cabo nos próximos tempos é a reforma das leis laborais. E não, não estou a falar de somente de tornar os despedimentos mais baratos. Estou mesmo a pensar (oh heresia!) numa maior flexibilização dos despedimentos individuais. A verdade é que, para o bem ou para o mal, uma flexibilização das leis laborais é simplesmente inevitável, quer seja com este governo (se assim for forçado pelos nossos parceiros europeus), quer seja com o próximo governo (o mais provável). Porquê? Porque Portugal é o país da OCDE com o maior índice de rigidez laboral ao nível dos despedimentos individuais, um factor que impede uma mais rápida criação de emprego e prejudica a competitividade das nossas exportações.
Ainda assim, e perante a inevitabilidade desta reforma, seria bom que houvesse mais elevação no debate sobre estas matérias. É que, nesta área, a retórica política e ideológica sobrepõe-se ao bom senso que estas questões deviam acarretar. E o bom senso (e inúmeros trabalhos empíricos) demonstra inequivocamente que as nossas leis laborais não só fomentam o desemprego, como também são a principal fonte da precariedade do trabalho no nosso país. Para percebermos porquê, vale a pena olhar para o gráfico abaixo, onde se vê que Portugal é um dos países da OCDE com maior incidência de trabalho precário (eixo horizontal), um facto que está intimamente ligado às nossas leis referentes aos despedimentos individuais (eixo vertical).
É igualmente visível que, contrariamente à percepção errada que existe entre nós, muitos dos países onde as leis laborais são menos rígidas (isto é, onde é mais fácil despedir trabalhadores individuais) são exactamente países que têm Estados Sociais fortes (p. ex, a Dinamarca ou o Canadá). Ou seja, flexibilizar as leis laborais não equivale a destruir o Estado Social. Bem pelo contrário. Ao promoverem uma mais rápida criação de emprego e ao fomentarem a competitividade das exportações, leis laborais menos rígidas contribuem para uma maior criação de riqueza, que poderá ser então utilizada para proteger o Estado Social. Afirmar o contrário é demagogia ideológica.


Precariedade, precariedade, precariedade deviam ser as palavras de ordem dos partidos de oposição ao defenderem a reforma das leis laborais. A reforma laboral é imperiosa porque, entre outras coisas, é preciso combater a precariedade e criar mais emprego. E a verdade nua e crua é que os “direitos adquiridos” são a principal fonte de precariedade do mercado de trabalho português. Os economistas do trabalho já sabem disso há muito tempo. Seria bom se os políticos nacionais e os portugueses também o soubessem.
 Fonte: Santos Pereira (2011) "Como Retomar o Sucesso"
(clique no gráfico para ampliar)