03 março 2008

CUSTO DE VIDA


"O Governo ou o INE falam de uma inflação anual de 2.9%.Ora eu, desde janeiro de 2006 passei a guardar as facturas de uma grande superficie onde compro habitualmente quase tudo... [concluindo que os preços subiram bem mais do que 3 por cento]. Ora se os produtos que constituem nas despesas essenciais e diárias dos portugueses cresceram bem a cima dos 2.9% ( e isso é a sensação de todos os portugueses) e que eu posso garantir pois guardei todas as facturas dos produtos de supermercado durante mais de um ano, como é possivel chegar aos 2.9% de inflação do Governo? Quais os produtos ou serviços que têm tanto peso nos orçamentos familiares que tenho baixado tanto de preço de forma a chegar aos 2.9%."
^
A taxa de inflação portuguesa é obtida através de um cabaz de produtos que, em média, os(as) portugueses(as) consomem. Portugueses(as) de todo o país (continente e ilhas). O INE pondera o crescimento dos preços pelas diversas regiões e pelos vários produtos para chegar ao valor final. Dito isto, vejamos o que os números do INE nos dizem. A tabela acima indica as categorias de produtos (agregados) que entram no cabaz de preços nacionais. A primeira coluna dá-nos o crescimento dos preços por produto e a segunda informa-nos da importância desse produto no cabaz de bens e serviços consumidos em média pelos(as) portugueses(as).
^
Como podemos verificar, a nível nacional, os produtos alimentares constituem a maior componente de consumo dos portugueses, logo seguidos pelos transportes e pela habitação. Quais foram as maiores subidas de preços em 2007? As despesas com a saúde (7.4%), o álcool e o tabaco (5.3%), a educação (3.8%) e os gastos com a habitação (3.6%).
Porque é que a inflação não foi mais elevada do que 2.9% a nível nacional? Porque, até Dezembro, as despesas com a alimentação cresceram somente 2.3% (com variações regionais, certamente) e porque as categorias de produtos que mais subiram têm um peso menos elevado no total de despesas. Por outro lado, alguns produtos e serviços tiveram subidas de preços quase negligenciáveis e outros registaram inclusivamente descidas de preços (ex. as comunicações).
Resultado: quando se faz a média (ponderada pela importância relativa no cabaz) da subida de preços, a média nacional da inflação foi inferior a 3 por cento.
^
Note-se que isto não quer dizer que não existam subidas de preços mais elevadas nalgumas regiões (pode ser o caso na região onde o António reside), nem sequer que certas categorias de produtos (p. ex. certos alimentos como o pão) tenham subido mais do que a média não agregada . Por exemplo, os preços dos produtos hortícolas baixaram em 2007, enquanto que o preço dos cereais (e do pão) aumentou (no final do ano).
Dito isto, refira-se também que a situação irá provavelmente alterar-se devido à recente subida dos preços do petróleo e dos produtos alimentares. Aliás, as estatísticas de Janeiro já o demonstram.

2 comentários:

Antonio disse...

Caro Álvaro,

Uma das minhas dificuldades em entender a taxa de inflacção prende-se precisamente com a alimentação. É que eu escolhi uma grande variedade de produtos, produtos esses que são mais ou menos familiares a todos os portugueses. Fiz o meu cabaz atribuindo a cada um dos produtos o peso que ele tem no total dos produtos que consumo. E eu pratico uma alimentação bem equilibrada.Procurei ser criterioso. Pedi a uma funcionária minha para verificar tudo para que não houvesse possibilidade de grandes erros. Fi-lo de acordo com a sua explicação. E não consigo de modo algum chegar a valores tão baixos do aumento dos produtos alimentares.

Fico pois com a sensação de que existe manipulação dos cabazes. Não posso sequer imaginar isso pois tal poria em causa toda a credibilidade do sistema. E penso também que não seria viável fazê-lo pois existem demassiados observadores que não o permitiriam.E claro, não se pode por em causa a honorabilidade das pessoas envolvidas nesses estudos, nomeadamente economistas.

Mas fica a sensação. Julgo inclusivé que a grande maioria das pessoas tem essa sensação.

Deixe-me dar-lhe uma sugestão: sugira a um grupo de alunos seus para fazer um trabalho baseado nisto mesmo- Porque é que o cidadão comum tem uma noção de que a inflacção e bem maior do que aquela que é anunciada pelas entidades oficiais? Penso que seria muito interessante procurar compreender o fenómeno de uma forma sistemática e precisa.

Alvaro Santos Pereira disse...

Caro António,
O que diz faz sentido para mim. Amanhã vou publicar no blogue as estastísticas dos preços da alimentação, para ver se correspondem de algum modo aos seus cálculos.