05 junho 2008

A HIPOCRISIA DA UE

Ainda em viagem e, por isso, mais uma reciclagem de um artigo do DN:
Nos últimos tempos surgiram vários indícios que revelam um preocupante aumento do nacionalismo económico no seio da União Europeia. Numa altura em que os chamados “campeões nacionais” de alguns países estão em risco de serem adquiridos por empresas de outros Estados-membros, os governos dos “grandes” europeus têm ameaçado defender os supostos interesses nacionais das suas empresas. De uma certa forma, o nacionalismo económico sempre esteve presente nas decisões de carácter estratégico em cada país. A existência de mecanismos como as golden shares reflecte exactamente esta tendência proteccionista em muitos países europeus. A verdade é que, quer por motivos políticos quer por razões estritamente económicas, os governos nacionais têm tentado proteger os principais sectores das suas economias. Esta prática mais ou menos generalizada não daria azo a qualquer problema se não estivéssemos a falar de uma Europa que optou pela criação de um mercado único, no qual não podem existir preferências nacionais. Neste sentido, o ressurgimento do nacionalismo económico representa uma real ameaça ao mercado único e, consequentemente, à própria UE.
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Perante este crescente nacionalismo económico e devido à crise económica que assola o Velho Continente, existe o risco de que a UE ceda às pressões dos grandes e admita excepções implícitas ou explícitas ao mercado único. Se tal acontecesse, o equilíbrio de forças na UE poderia estar em risco. De facto, é completamente inaceitável que numa Europa de Estados supostamente iguais, as regras sejam tacitamente distintas dependendo do peso económico e político dos países em causa. No entanto, quer se goste quer não, em grande medida, actualmente na UE as regras para os pequenos são para se cumprir, enquanto para os grandes as regras são negociáveis. Foi assim com o Pacto de Estabilidade e agora, se a Comissão não assumir uma posição firme e determinada, poderá acontecer o mesmo com o sector energético.
É claro que não podemos ser ingénuos. Afinal, quando a Alemanha espirra o resto da Europa constipa-se. A economia portuguesa poderia até ter uma doença quase terminal e poucos seriam os parceiros europeus que sofreriam consequências. O mesmo se passa com Malta, Chipre, a Lituânia, entre outros. Mesmo assim, a sustentabilidade da UE poderá ficar em risco se as regras continuarem a ser sistematicamente diferentes para grandes e pequenos. Ora, num mundo crescentemente globalizado e competitivo, é importante que a Europa fique unida para poder fazer face aos imensos desafios do futuro. Para tal, é imperioso que as regras sejam cumpridas por todos e que não seja dado tratamento preferencial a ninguém. Caso contrário, o equilíbrio e o futuro da própria Europa unida poderão estar em causa.

1 comentário:

Luís Leitão disse...

Condiz perfeitamente com a ideia de globalização errónea que vivemos actualmente. A PAC é um bom exemplo disso mesmo: proteger o nacional para afastar os produtos estrangeiros mais baratos. Mas quando os de lá querem fazer o mesmo, chamam-lhes xenófobos! Primitivo ou não, a verdade é que quer seja na selva, na cidade ou nos mercados, a lei que perdura é só uma: A lei do mais forte, e quem tem dinheiro quer, pode e manda.