10 maio 2011

ENDIVIDAMENTO DAS EMPRESAS

Como já vimos aqui e como demonstro no meu novo livro, uma das principais características da economia nacional nos últimos anos tem sido o crescente nível de endividamento. Porém, e contrariamente ao que às vezes julgamos, é importante perceber que a espiral do endividamento não se restringiu ao Estado e às famílias. As empresas também se endividaram a ritmos elevados. Assim, e como podemos ver no gráfico abaixo, entre 1996 e 2009, as dívidas das empresas aumentaram de 90% do PIB para cerca 151% do PIB. Ou seja, o endividamento empresarial ocorreu a um ritmo inferior ao crescimento das dívidas das famílias e do Estado, embora, mesmo assim, tenha sido muito substancial.
A grande questão é saber quais são os motivos que levaram as nossas empresas a endividarem-se tanto. Ora, há quatro razões principais que explicam a subida do endividamento das empresas. Em primeiro lugar, as empresas efectuaram investimentos em várias áreas, que foram financiados e até fomentados pela descida das taxas de juros e as maiores facilidades de crédito possibilitadas pela nossa entrada no euro. Por outras palavras, a nossa adesão à moeda única aumentou a oferta de crédito ao dispor das empresas, as quais endividaram-se a ritmos sem precedentes na nossa história recente. Em segundo lugar, as empresas (e os bancos) endividaram-se para poderem participar na obsessão fontista dos nossos governantes. Assim, as empresas e os bancos endividaram-se para poderem entrar nos lucrativos contratos associados às parcerias público-privadas e concessões (SCUTs). As dívidas associadas a estes projectos ascendem a mais de 30% do PIB nacional. Neste sentido, a politica fontista do Estado foi um dos principais motivos que explica o rápido endividamento das empresas nacionais. Em terceiro lugar, e como já aqui vimos, as empresas públicas continuaram a endividar-se a ritmos pouco salutares, o que contribuiu para o aumento do nível de endividamento da economia. Actualmente, as empresas públicas têm-se endividado entre 3 mil e 3,5 mil milhões de euros todos os anos.
Finalmente, as empresas endividaram-se para poderem participar nos processos das privatizações, que permitiram um encaixe financeiro para o Estado na ordem dos 25 mil milhões de euros.
No total, e como podemos ver no gráfico abaixo, o endividamento empresarial aumentou cerca de 60 pontos percentuais do PIB nacional entre 1996 e 2009. O crescimento do endividamento em percentagem do PIB ocorreu principalmente entre 1996 e 2001, e acelerou decisivamente a partir de 2005. Não é por acaso que foi nestes períodos que a maioria das PPPs foi adjudicada. O final da década de 1990 foi igualmente caracterizado pelas privatizações das maiores empresas do Estado.

Dívidas das empresas em percentagem do PIB, 1996-2009
Fonte: Banco de Portugal

Quais são as empresas mais endividadas? Como mostro no meu novo livro, 8 das 10 empresas mais endividadas são empresas do Estado e/ou empresas que se endividaram para participar nas PPPs. O livro mostra ainda que entre 40% e 50% do endividamento total da economia se deve, directa ou indirectamente, ao nosso Estado e à obsessão fontista dos nossos governantes. Por outras palavras, o endividamento empresarial foi de certa forma fomentado pelo próprio Estado. 
Nos próximos tempos, o elevado endividamento empresarial terá duas importantes consequências para a economia nacional. Em primeiro lugar, as empresas terão necessariamente de diminuir o seu nível de endividamento, até porque a oferta de crédito está hoje bem mais reduzida. do que há alguns anos atrás. Em segundo lugar, muitas das empresas mais endividadas não poderão participar activamente  na nova vaga de privatizações planeada para os próximos anos. Por outras palavras, o sucesso das novas privatizações poderá ser condicionado pelo elevado endividamento empresarial. Por isso, mais activos poderão ter de ser vendidos ao estrangeiro e é até possível que as receitas das privatizações venham a ser menores do que o planeado. Esperemos que não, mas é provável que tal aconteça.
De uma coisa podemos estar certos: nos próximos anos, as dívidas das empresas terão de ser reduzidas para níveis mais razoáveis e mais sustentáveis. Não há alternativa e não  volta a dar. É inevitável. É tão simples quanto isso.

5 comentários:

InfinitoZero disse...

Até parece que as empresas necessitam de serem protegidas do estado, esse papão que tudo consome. Na realidade, se as empresas se endividaram para participarem nas PPPs, foi porque esse investimento tinha, e tem, lucros garantidos (a racionalidade do capitalismo). Esse é um dos motivos porque o investimento em Portugal tem sido deslocado preferencialmente para sectores "regulados" e sem real concorrência. Com excepção do sector hospitalar da CGD, todas as PPPs são altamente lesivas do interesse público em detrimento do interesse privado, como têm constatado o tribunal de contas e alguns economistas. Com excepção das empresas ainda tuteladas pelo estado, todas as outras endividaram-se de forma livre, com base na racionalidade económica do lucro fácil e garantido. A única responsabilidade do estado, foi a de ter fornecido uma excelente oportunidade de negócio aos privados, sem qualquer respeito pela bem público.

Ricardo Esteves disse...

Caro Álvaro Santos Pereira
Tem toda a razão! Acho mesmp que as soluções para a economia portuguesa são quase todas simples. Difícil é pô-las em prática. Por isso, por muito que custe a nós, economistas, o problema do país, e à medida que o tempo passa é cada vez mais evidente, é antes do mais um problema político.
Melhores cumprimentos
Ricardo Esteves

Anónimo disse...

Sou economista de formação e penso que o seu recente livro deveria ser introduzido como livro obrigatório de leitura nacional. Se todos os portugueses lessem pelo menos a I parte do livro teriam com certeza a noção de que vivem uma pura ilusão "socialista". Excelente livro, bastante esclarecedor e pragmático. Ou mudamos agora todos de paradigma, sustentado em alicerces de cidadania, ética e responsabilização (eliminando comportamentos menos éticos, tais como corrupção e compadrio) que tanto se têm tornado elementos impeditivos de racionalidade económica, ou então continuaremos neste clima de "paz social podre".

Um bem Haja.

GMVD

Carlos Costa disse...

Permitam - me, como cidadão atento(ou desatento)comentar o seu comentario: vivemos um periodo historico, em que se abriu uma janela de oportunidade ao nosso tecido empresarial(entrada no euro, circulação de capitais,pessoas e bens, credito mais barato, etc; era natural que se aproveitasse para crescer e num esforço tentassemos acompanhar a Europa pelo que isso implicou um risco; não creio que o Estado seja o unico culpado, pois todos estavam nesse jogo e pelo contrario a iniciativa privada portuguesa foi sem duvida o principal beneficiario dessa situação, alavancando -se no Estado e nas obras publicas. Este esforço para a convergência, bem ou mal, fez -se, a qualidade de vida dos portugueses melhorou substancialmente(apesar da miopia que agora grassa) e inevitavelmente temos uma factura a pagar! Vamos concerteza pagá -la, os nossos parceiros internacionais têm a certeza disso, e quando passar esse período duro vamos olhar para trás e os mesmos profetas que hoje semeiam com furor a desconfiança e o desânimo vão ser as vozes mais sonantes na explicação dos factos passados.Em resumo, ainda não encontrei os pegadas de quem nos conduzirá à confiança e alegria necessárias para ultrapassar este período difícil mas que concerteza nos deixará a navegar em aguas mais calmas num futuro bem próximo. è só conseguir que todos remem para o mesmo lado e que o ruído e a espuma se deixem levar pelo vento para bem longe. obrigado Carlos Costa

João do Lodeiro (JP) disse...

Na minha modesta opinião, pois em relação a mim os mecanismos de lavagem ao cérebro que são usados pelos "media" já não fazem efeito, para a minha grande felicidade, considero que, no presente mundo da globalização dos interesses, as únicas empresas que conseguirão sobreviver serão as multinacionais. De todo o tipo, em especial as ligadas às finanças. Não há ouro que nos valha. Penso que são elas que comandam a política por detrás das pseudo-democracias ocidentais. Por isso, há algum tempo que concluí, que vivemos numa oligarquia global que ninguém quer ver, ou não querem que se veja. Mas por vezes, puxam a manta ali e acolá e torna-se difícil esconder o gato que nos querem vender como lebre. Se pararem para pensar um pouco, talvez entendam o que pretendo dizer. E como todos sabem, a oligarquia é uma forma primitiva de governo que transporta em si, mais do que qualquer outra, a ganância humana. Por isso, a actual "Ordem Mundial" tem necessariamente os dias contados. Mais ou menos dias, mais ou menos anos. Mas cairá. Cairá submergida pelas suas insanáveis contradições, pois transporta em si os gérmens da sua própria destruição. Isto já era conhecido na Grécia Antiga. Esperemos é que os povos reconheçam isso e façam as mudanças usando a única arma que, hoje, lhes resta: o Voto. Uma Revolução pelo Voto é sempre possível. Ou melhor. Embora muito difícil. A democracia ainda funciona, mas a clarividência das pessoas parece já estar completamente turva, pela propaganda. Os partidos da esfera do poder estão corrompidos. Os modelos defendidos pelos tais a quem chamamos de "Mercados" impõe-nos a sua visão da economia de modelo único. Ou seja de capitalismo selvagem. Assim, as catástrofes sociais que se vislumbram no horizonte serão muito difíceis de evitar. Eu tenho esperança, mas está a esmorecer...