07 maio 2011

MÁS POLÍTICAS E CRISE ECONÓMICA

A primeira parte da minha entrevista desta semana ao Jornal de Negócios:

O euro não agravou os problemas?

Sim, foi um choque. Mas as empresas já se adaptaram a esse choque, já aprenderam a trabalhar com a nova moeda. Repare que as exportações portuguesas cresceram acima do PIB durante muitos anos e agora [2010] voltaram a registar um crescimento muito expressivo.

Na sua "narrativa", o problema nasceu sobretudo de más políticas e decisões económicas?

Não tenho dúvidas. Chegámos aqui porque tivemos um modelo económico errado, assente no sector menos exposto à concorrência internacional - o chamado sector não transaccionável - e porque preferimos sempre atirar dinheiro para cima dos problemas.

O tal "Fontismo" de que fala no livro [em alusão a Fontes Pereira de Melo, que no século XIX apostou na modernização das infra-estruturas]...

Exacto. Eu não sou contra obras públicas, mas nós passámos de oito para 80. Tínhamos pouco na década de 70 e desatámos a construir a partir daí. É revelador que cerca de 40% de todo o endividamento da economia seja culpa indirecta do Estado.

Como assim?

Esta é a dívida externa de empresas públicas - que não são consideradas "Estado -e a dívida de empresas que, apesar de serem privadas, fizeram obras a título de investimento público, nomeadamente em regime de parcerias público privadas.

Há quem diga que foi a crise.

Estes desequilíbrios acumularam-se durante anos e anos e era claro que teriam de rebentar um dia. A crise financeira internacional só acelerou o processo. Os nossos governantes não souberam responder aos problemas e permitiram este endividamento louco.

O endividamento não foi consentido? Os alertas não são de agora.

Claro, chegámos até aqui também porque deixámos. Os políticos enganaram-nos e a opinião pública deixou-se enganar, com a complacência dos "media" e da oposição. Aliás, eu acho que se a oposição tivesse sido mais atenta e tivesse cumprido o seu papel, muito poderia ter sido evitado. Mas, quando entrámos no euro, criou-se a ideia de que os problemas da Balança de Pagamentos deixavam de existir...

Uma opinião partilhada por muitos economistas. O próprio Vítor Constâncio a defendeu.

Sim, mas está completamente errada. O que é que acontece nas outras uniões monetárias? Nos EUA, se um Estado for irresponsável, vai à bancarrota. Até pode haver um "bailout", mas não sem um forte condicionalismo.

E agora? É necessário vender os anéis, como a Caixa Geral de Depósitos?

Eu não defendo isso...

Mas defende que pode ser inevitável.

Pode, e eu até não sou contra. A maior parte dos países não tem um banco público e, em Portugal, ele até está altamente partidarizado, o que é negativo. Apenas tenho receio de que se vendesse um activo importante a preço de saldo. O momento não é o melhor.

4 comentários:

José Sousa e Silva disse...

Excelente !

cards disse...

Caro Álvaro santos Pereira,
Tenho uma pergunta para lhe fazer, se fosse governante, de todas as obras públicas que estão previstas quais eram as que metia na gaveta?

PS: Óptima primeira parte desta entrevista.

Diogo Rocha Coelho disse...

Olá caro Álvaro, sigo com prazer, há já algum tempo, as suas intervenções, desde que adquiri o seu livro sobre os mitos da economia portuguesa. Gostaria de saber a sua opinião sobre um pormenor das PPP. O problema está nas PPP como modelo, ou para o fim que lhes foi dado? Pergunto isto porque caso fosse utilizado este modelo de financiamento como incentivo a uma indústria/cluster específica, como aposta de desenvolvimento, não seria um bom modelo? Obrigado

cards disse...

caro Álvaro Santos Pereira,

Se o Senhor fosse governante quais as obras públicas que iam direitinhas para a gaveta e quais as que daria luz verde para a sua realização?